Cartas De Minha Sombra
3 Marcas do Abandono
Notas iniciais

Espero que você esteja se dando conta que isto não é uma brincadeira. Como passou esse mês para você? Espero que tenha sido péssimo! O meu foi um pouco solitário, mas só de saber que posso te deixar aflito com minhas cartas, minha alma negra se enche de ódio recompensado e eu fico muito bem. Acho que eu não te contei tudo na última carta, então vou continuar contando. Mas antes, que tal eu tratar um pouco da atualidade?
Acho que vou começar a escrever com mais frequência. Você parece estar querendo que alguém dê o mínimo de atenção possível a você, já que o seu pai te abandonou, sua mãe mal fala com você, porque ela já pensa que você está perdendo sua sanidade mental. E, bom, eu não vou nem mencionar aquela vadia que, depois de mim (no passado), foi a única que teve um pouco de paciência (bem pouca, mas teve) para te aturar, e foi a única que aturou suas loucuras, depois que eu mudei.
Você estava com saudades de mim? Acho que vou passar a te deixar lembranças quinzenalmente, isto é, você encontrará cartas com mais frequência, para que você não sinta tanto a falta que faz a minha presença (mesmo que em cartas). Mas, então: Como foi o seu mês? O meu foi bom até. Eu vi que a sua mãe te levou a uma clínica psiquiátrica nesta semana que acabara de se encerrar. Achei muito interessante! Ela já está percebendo que há algo fora dos eixos em você.
Você, definitivamente, não está bem! Eu sei disso. Eu percebo isso. Eu ouço isso. Eu vejo isso. Eu sou quem melhor te conhece. E isto é óbvio, assim como a escuridão do céu e do subsolo. Assim como a escuridão de minha alma que, em um passado muito distante, já fora clara como dia. Para mim é fácil demais perceber que você não está bem. Que você está preocupado. Que está assustado, amedrontado. A mim, nenhuma de suas ações surpreende. Sua natureza é previsível. Você é tão óbvio. Cantar antes de dormir tem te acalmado? Acho que não. Você não consegue dormir. Tenta cantar e tocar, mas nada que faz sai bom. Anda pela casa, com medo da própria sombra. Volta ao quarto. Apaga a luz e deita para tentar se acalmar e dormir. Três minutos depois, você acende a luz novamente. Depois de muito tempo, você cochila. Mas acorda, assustado por um pesadelo. E eu não duvido que esse pesadelo me envolvia. Você tem medo.
Sabe, eu sonhava com você mas, no final, você sempre ia embora, me abandonava. E eu ficava ali, largada, abandonada, triste, aos prantos, com um buraco enorme no peito. E então você me deixou na vida real. Uma dor imensa me consumiu. Eu me desesperei. Eu comecei a fazer coisas horríveis, pois estava depressiva.
Você deve estar se perguntando o que eu fazia. Eu te respondo! Com todo o prazer em te fazer sentir mal. Eu me cortava. Sem dó, nem piedade. Sem sentimento algum por qualquer pessoa, ou até por mim mesma. Decepcionada. Triste. Deprimida. Ferida. Completamente atordoada por meus próprios sentimentos, pensamentos e planos. Eu simplesmente me fechei para tudo e todos. Não queria saber de nada. Eu "enchia a cara" todos os dias. Eu passava mal. Não tinha ninguém. Minhas companheiras eram a solidão e a ressaca, que eram profundas.
Me despi de minha timidez. Me despi de minha vergonha. Me despi das coisas da vida. Vadias falando de mim, como se eu fosse uma psicopata qualquer. Como se eu fosse uma maluca qualquer sem amor algum à vida. Bom, maluca eu sou. Também não tenho amor à vida. Mas não sou uma qualquer. Não sou uma idiota aleatória que anda por aí. Sou psicologicamente problemática. Mas falta pouco para eu te levar à loucura. Eu sei disso.
Você tem cantado antes de dormir. Anda completamente desfocado, sempre procurando algo ou alguém. Anda assustado e disso eu sei. Quem é a maluca agora? Quem é psicopata? Eu! Eu sou tudo isso! E digo isso, pois já fiquei tão maluca a ponto de passar meu sangue nas paredes de meu quarto. Mas n tenho problema algum!
Uma péssima noite para você. E tenha aterrorizantes pesadelos sangrentos comigo! Até breve.
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