Eram 15:10 quando a porta da sala foi aberta com a calma de sempre. Ele havia comprado leite e bolacha. Deixou a sacola na mesa da cozinha e foi tomar um banho. Depois de aproximadamente 15 minutos ele saiu da suíte bagunçada com roupas confortáveis. Sentou-se no sofá reformado e ligou a TV num programa qualquer.

Às 18:05, seu caçula e único filho homem chegou da escola. Enquanto o pequeno tomava banho, o pai fez café. Comeram bolachas, café e leite em silêncio. O bolo de ontem permaneceu intacto. Cada um foi para seu cômodo preferido. O pai continuava com um programa de televisão qualquer e o filho ligou sua televisão antiga e barulhenta no canal educativo. Estava na hora do programa sobre animais selvagens.

Eles já haviam jantado quando a esposa e filha do meio chegaram às 20:30. O pai perguntou onde estava a mais velha. A mãe reclamava que ela sumira, deixando todo o trabalho da empresa em suas mãos. A filha do meio deixou seu material no quarto desarrumado e rumou para o banheiro, o que fica no corredor. A porta estava emperrada. Na verdade ela estava trancada por dentro. Tentou abri-la à força, mas a melhor sugestão era arrombar a fechadura. Gritou o pai e ele buscou uma chave de fenda adequada ao parafuso. Trabalho feito, a porta foi abeta revelando uma poça de sangue no piso azulejado. A garota gritou. O pai logo entrou no banheiro para saber de onde vinha tanto sangue. A mãe saiu do quarto para ver porque a filha gritara. O menino não ouviu nada, apenas assistia ao programa.

A cena não era das mais agradáveis. No chão, o corpo da filha mais velha estava estirado numa posição meio sentada, meio deitada. O sangue saia abundantemente do pescoço. Havia uma lâmina na pia e um envelope manchada de vermelho. Mas no desespero de ter a morte no chão do banheiro de casa, esses detalhes passaram despercebidos.

No dia seguinte, a filha do meio pegou o envelope e abriu. Continha quatro cartas com o nome dos moradores escritos nela. A garota, abalada, entregou as cartas para cada um.

Para: Mãe.

Queria me desculpar com os meus atrasos e minhas faltas. Hoje, como pode perceber, eu não consegui acordar, de novo. A senhora sabe que eu não sou a pessoa responsável que você diz aos outros. Não sou nem inteligente, muito menos esperta, como você sempre diz. Se eu fosse um terço do que você acreditava que eu era, eu não teria esse fim.

Não se preocupe. Agora estou melhor que antes. E digo isso com absoluta certeza. Não foi um método indolor, mas eu não sofri. Foi melhor que as manhãs de tortura diária. Melhor que as tardes naquele inferno.

Você queria que eu me abrisse mais. Só que eu não consigo me abrir com estranhos.

Queria dizer que você estava enganada quando achava que minha tristeza era causa de algo fútil e fugaz. Não sou forte como você então não consegui enfrentar meus problemas. Mas agora eles desapareceram e está tudo bem.

Fico te devendo um empregado. Desculpe.

Não estava lá por dinheiro. Eu estava apenas tentando te ajudar, o que eu não consegui fazer muito bem. Tentei aprender o máximo, mas acho que suas lições não se aplicavam a mim. Gostei de ser sua filha. Gostei da confiança para certas coisas que você teve em mim. Imagino que não seja fácil para você perder um filho, mas eu repito, agora eu estou bem. Acho que não vou poder te visitar porque você acredita que eu vá para o inferno. E quem vai para lá não visita os parentes certo? Só que para mim, o inferno já passou.

Seja sincera com o pai. Apóie o irmão no que for e não deixe a Carry perder o foco da vida dela.

Adeus.

Para: Pai.

Desculpe eu te deixar num momento tão ruim. Não quero que com minha morte as coisas piorem entre você e a mãe. Mas eu acho que o melhor que você tem que fazer é parar de impor coisas a ela. Sei que a ama, mas ela gosta de ter certa liberdade então respeite isso. Você não é culpado dela querer ter a vida dela. Entenda que ela ficou anos presa numa gaiola e agora pode voar.

Nunca vou esquecer o dia em que improvisamos Comfortable Numb e Another Break in the Wall. Na verdade, quem improvisou fui eu, você sabe essas músicas de cor.

Obrigada pelo apoio e por abrir meus olhos, mesmo eles estando abertos. Obrigada pelas piadas na hora da janta numa época que eu ainda não era triste. Isso foi uma boa memória e me ajudou a ter um assunto inútil para me aproximar das pessoas erradas.

Agradeço pelas broncas curtas, mesmo que elas não servissem para mim. Aquele dia do freezer, realmente não fui eu quem desligou, mas não vá xingar a Carry, porque também não foi ela.

Sabe aquela vez que você disse que a alegria tinha fugido de nossa casa? Já era tarde demais.

Não deixe sua religião mudar a tua cabeça.

Adeus.

Para: Carry.

Pode pegar o que quiser para você. O que não quiser, doe para alguém. Você terá que arrumar alguém para me substituir. Avisa a galera da internet. Tem uns cadernos que eu gostaria que você mandasse para a Nanda, se ela quiser.

Não se importe de ficar sozinha. Seja menos cruel com quem é diferente de você. Agora eu não estarei te defendendo, então tome cuidado.

Dei outra mancada. Veja pelo lado bom, eu não vou fazer isso novamente.

Toda vez que você zoar alguém, pense que essa pessoa pode estar sofrendo, que pode acabar como a sua irmã. Pare de agredir as pessoas, porque você está me agredindo. E isso não tem graça.

Não brigue com o David por motivo nenhum.

Lembre-se que se você engravidar, tua vida acaba.

Adeus.

Para: David

Sonhe. Leia muitos livros. Brinque muito com seus amigos. Aprenda bastante. Não tenha preocupações. Você pode ser o que quiser.

Adeus.