Notas iniciais
Eu que escrevi, então não copie, grata.

Carta à Catarina

Enderecei um olhar enternecido para o vazio ao meu lado. Deparei-me com gotas de orvalho exsudando sob um gramado esmorecido e amarelado, e isso lembrava tanto suas lágrimas, só que agora elas vêm do céu, enegrecido e repleto de estrelas – demasiadas rutilantes para a escuridão de meus devaneios –. Encarei minhas reminiscências que revelavam com exímio seus traços, delicados e maviosos, e ao fundo, deleitava-me com sua voz ressoando em minha mente, calma, um tanto presunçosa, porém cálida como labaredas do fogo em uma lareira dum inverno atroz. Ah, Catarina, como seu sorriso acolhedor me trás pontadas excruciantes de agonia. Você viria correndo para meus braços se soubessem do quão esmaecidas tem sido minhas alvoradas? Você aqueceria o nosso cappuccino álgido de nossos sábados distantes, e acaloraria meu coração ermo se eu te suplicasse? Sua face longínqua tem se costurado em minha visão como uma utopia inalcançável. Estou começando a sentir-me fadigada ao olhar meus lençóis amarrotados e saber que quem os embaraçou fui eu, solitária em meu âmago.

Catarina, diga-me o que fazer com essa mesa feita que é rodeada por uma cadeira vazia, ou o que colocar no banco do passageiro do carro, que deserto relembra-me a sua ausência. Imploro-te Catarina, onde entoco seus espectros que tem perseguido-me noites inteiras? As fotografias monocromáticas têm uma essência enlevada, embevecendo-me com essas saudades todas, fazendo-me sucumbir a seus fantasmas, lendo sua expressão jocosa ao meu lado, assomando sua risada de um modo tão infantil e simultaneamente maduro que só você sabia dar.

Tenho aguardado a tempestade cessar para eu poder olhar para o céu e ver o reflexo de seus olhos na imensidão azulada, mas desde sua partida – renegada fielmente por mim – tenho extraviado meus caminhos. Catarina, nem olho mais o céu. Percebi hoje que parou de chover á tempos, mas tenho preocupado-me demais em encontrar-te nas esquinas que transcorro, ou ao menos achar-te recôndita nas íris de um outro alguém. Queria poder queimar essa tibieza de meu cotidiano, mas Catarina, a solução é você regressar.

Essas manhãs intermitentes. Ah, são terrivelmente marcadas á ferro com esse profuso oco que entregou-me ao ir. Por obséquio, obstrua as feridas que pingam um sangue vivo e quente – demais para uma alma gélida –. Vejo-me prostrada, com o portão de casa aberto, mas sem nada entrar além de mais pessoas inválidas, que embarcam e saem com uma rapidez fria. E nada de você. Catarina, não entendes como profliga-me só com sua falta? Volte até mim. Mas não isso que és agora. Essa não é você.

Queria que sua presença – quase como uma abantesma – largasse-me desde o primeiro parágrafo, mas a cada sílaba eu temo de terminar esta carta e perder as chances de você voltar. Não quero despedidas, porque sei que nem eu mesma acreditaria em meu próprio adeus mendaz. O alarido de múrmuros que persistem em te manter por perto – sua utopia, mais claramente do que necessário – tem nutrido essa auspicia desatinada. Tenho cortado meu coração em pedaços, ele mesmo jorra faíscas de aromas teus, de sonhos afáveis e esperanças intocáveis. Venha, assoalha-me e retire essa apatia enfadonha de meu rosto, antes que eu coloque um ponto final nesse parágrafo e você seja apagada de uma vez por mim. Não permite que eu desintegre suas linhas que ainda restam dentro de minha alma. Espere, disse isso por um segundo insano de impulso. Não vá embora, não novamente, perdure em meus pensamentos ilusórios, ao menos. Catarina, por que sua imagem está se destorcendo e dissipando-se? Catarina, espere por mim...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.