Carta para você
127 Família
Notas iniciais
Eram meados de julho, o verão estava no ápice, assim como o calor, e me vi concordando com DiNozzo no que ele falara mais cedo, as pessoas tendem a ficar mais nervosas quando a temperatura aumenta.
Estávamos pegando um caso pior do que o outro a cada dia, mal fechávamos um, o despacho chamava e nós estávamos de volta a campo. E, para piorar, tínhamos um Diretor Interino que parecia não gostar nem um pouco da equipe e nos colocou de plantão em todos os finais de semana.
— Preciso dormir. – DiNozzo reclamou quando chegamos a uma cena às três da manhã.
— Todos precisamos, Tony. – McGee concordou escondendo um bocejo. – Desculpe, Chefe! – Dei um tapa na cabeça dele. – Sim, claro, regra #06.
Ziva era a única que não reclamava da hora em que tinha se levantado, mas estava estranhando o número de chamados.
— Vamos ficar trabalhando nos finais de semana até quando? – Ela perguntou quando entramos na casa da vítima.
— Tem algum compromisso, Ziva?
— Não, Tim. Só pensando quando vamos poder levar a Sophie no Zoológico... prometemos que faríamos isso, até porque ela mal está saindo de casa.
— Talvez só quando a Jenny voltar para a Direção. – DiNozzo murmurou e subiu a escada para o andar superior.
E toda essa conversa me fez pensar, creio que alguém estava descontando na equipe algo que aconteceu não muito tempo atrás.
Como era de se esperar, tendo todos acordado muito cedo, depois de uma semana de casos complicados que tomaram dias para serem solucionados, não conseguimos muitas coisas durante o sábado, e, tendo em vista que o Diretor Interino tinha voado para Califórnia para ver a família, decidi por liberar a equipe.
— Mas Chefe, não temos nada! – Tony, por incrível que possa parecer, foi o primeiro a se posicionar contra a folga.
— E não teremos enquanto trabalharmos assim. Vão para casa, descasem, voltem amanhã, às dez.
— Dez? – Agora foi McGee.
— Quer que eu mude de ideia, McGee?
Eles não responderam, desligaram os computadores, pegaram as mochilas e rumaram para o elevador antes que eu falasse qualquer outra coisa.
Liberei a equipe para poder voltar para casa também e não esperava encontrar...
— Ah! Oi pai! – Kelly me saudou assim que abriu a porta.
— Já está de volta, filha? – Dei um beijo na testa dela.
— Sim, agora com boas notícias, vou ficar estacionada no Bethesda por, pelo menos, um ano. Depois devo voltar ao Daniel Webster novamente. – Me explicou, mas vi que não se afastou da porta.
— Vai a algum lugar?
— Na verdade, vamos. – Ela disse sem graça. – E o senhor está convidadíssimo!
— Posso saber onde?
— Lá em casa. Henry está saindo de uma reunião de campanha, últimos meses, o senhor sabe. E eu tenho que mostrar algo para a Moranguinho. Além de que sair um pouco de casa, vai fazer bem para a Jen.
Nesse momento, ouvi Sophie falando com Jen para tomar cuidado nas escadas, a Ruiva tinha virado uma excelente enfermeira nas últimas semanas, e não saia do lado da mãe por nada.
— Oi papai! – Sophie me cumprimentou. Vi que ela carregava a bolsa da mãe e dava a mão para Jenny.
— Deixa que eu faço isso, Ruiva.
— Tudo bem.
Jen só suspirou, precisar de ajuda para fazer quase tudo não a estava deixando muito contente.
— Mais quatro semanas, e eu vou poder andar normalmente. – Ela murmurou infeliz.
— Sem saltos, sim. – Kelly falou.
Jen revirou os olhos.
— Saltos só no final do ano, isso se o seu check up vier lindo do que jeito que espero. Ao contrário, salto só no aniversário de nove anos da Moranguinho. – Kelly terminou no instante em que Jen colocava os pés no mesmo andar que ela, e a Ruiva #01 da casa encarou a filha mais velha de tal forma, que Kelly se escondeu atrás de Sophie.
— Será que podemos ir? – Sophie perguntou depois de calçar as sapatilhas.
— Ô e como! – Kelly abriu a porta e foi a primeira a sair, tentando ficar o mais longe possível de Jen.
— Você tem certeza de que quer ir, Jethro? Você saiu de casa não era três da manhã. – Jen me olhou preocupada.
— Vamos logo, quero ver a cara da Ruiva quando ver ela ver o que os dois prepararam para ela. – Desconversei.
— Leroy Jethro Gibbs, não troque de assunto! – Ela me fez olhá-la. — Em que você tanto pensa?
Desviei os olhos, para ver minhas duas filhas próximas ao carro de Kells.
— Posso levar a Moranguinho, se vocês quiserem ir conversando...
Jen só confirmou com a cabeça e vimos Sophie subir alegre no banco de trás do Mercedes da irmã.
— Nada de correr! – Ela falou.
As duas fizeram uma careta, e tenho certeza de que bastaria virarem a esquina para que Kelly afundasse o pé no acelerador.
— Então... O que está te tirando a paz?
— Não é tirando a minha a paz. – Guiei Jen, como sempre fiz, até o carro. Ela parou na porta, se virou na minha direção e me lia.
— Deixe-me reformular a frase. – Começou. – Você está desconfiado de algo. Esse algo envolve a sua equipe. Se te conheço bem, Jethro, isso tem a ver com o excesso de dias de plantão.
Sempre soube que ela me lia muito bem, mas hoje ela tinha se superado.
— Sim. – Abri a porta para que ela entrasse, mas teimosa como é, não se moveu.
— Quer que eu faça algo a respeito?
— Você está de licença médica.
— Sim, mas não morta. Cynthia passa três vezes por semana aqui em casa para me atualizar sobre o que está acontecendo. Eu ainda sou a Diretora do NCIS e se tem algo que eu possa fazer, me diga.
— Você não vai fazer nada, Jen.
Ela me encarou e eu sabia que antes que Vance desembarcasse no aeroporto, ele já teria escutado muito.
— Podemos ir para a casa da Kelly? – Ela perguntou por fim, entrando no carro. Não perdi a expressão de dor que ela tentou esconder.
— Só se você for sincera comigo.
— Lá vem você. – Ela olhava para fora. Peguei o rosto dela em minhas mãos só para ter certeza de que ela não mentiria.
— Você pode tentar esconder de Sophie, pode até enganar Kelly, a mim você não engana. A dor que você sente, está pior do que estava quando saímos da Califórnia?
— Depende do dia. – Eu vi que o olho direito dela não tremeu e soube que ela não mentiria. – Hoje está particularmente ruim.
— Tomou o remédio?
— Não. Já tomei medicamentos para o resto da minha vida, Jethro. E já senti dores piores também. Uma hora isso tem que sarar.
— Pelo menos o anti-inflamatório.
— Esse sim, até porque Kelly está controlando. Mas para dor, não. Não quero ficar sonolenta durante o dia. – Ela se explicou. – Até porque não quero que Sophie fique sozinha enquanto eu fico dormindo. Ela tem sido tão boazinha, não está fazendo barulho, está arrumando tudo, até mesmo a cozinha! Hoje ela recusou uma festa do pijama na casa da Lilly, só para ficar comigo. Quando falei que era para ela ligar e dizer que ia, sabe o que me respondeu?
— Não faço ideia, Jen.
— Que não iria me deixar sozinha, pois você estava trabalhando demais e ela tinha medo de me acontecer alguma coisa e não ter ninguém para me ajudar. Foi quando percebi que tenho que fazer um esforço para ficar ao lado dela, nem que seja para ver algum desenho. Não quero que ela seja obrigada a crescer de uma hora para outra por conta do que me aconteceu. – Falou encarando as mãos. – Sophie mudou muito nas últimas semanas, Jethro, dá para perceber o tanto que ela cresceu, as responsabilidades que tomou para si e, até mesmo, como abriu mão de algumas coisas que ela fazia questão, como o beijo de boa noite. Minha filha tem me colocado na cama ao invés de ser eu quem a coloca!
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Eu tinha percebido isso, principalmente em uma noite, quando cheguei em casa e vi a Ruiva na cozinha. Achei estranho que ela estivesse acordada tão tarde, quando perguntei, ela me respondeu séria:
— Mamãe está com dor. Eu escutei ela tentando se levantar. Como ela não pode ficar subindo e descendo escadas, eu vim esquentar um copo de leite para ela poder tomar o remédio. Ela me disse que se tomar com leite, o estômago dela dói menos. – Falou e se virou para o micro-ondas que tinha desligado e tirou de lá uma caneca de leite fumegante.
— Não quer que eu leve?
— Não precisa, papai. Não vou deixar derramar.
— Mas pode se queimar.
— Não é a primeira vez que faço isso. Mamãe é teimosa e não toma o remédio depois da janta, diz que não quer dormir cedo, que quer te esperar acordada, mas sempre acaba sentindo mais dores do que ela fala e tem que tomar o remédio de madrugada. Fiz isso um montão de vezes.
— Não era para você estar dormindo a essa hora?
Foi quando eu vi a preocupação nos olhos coloridos de minha caçula.
— Eu não consigo dormir antes que o senhor chegue. Fico nervosa que algo possa te acontecer, papai, ou com alguém da equipe. E, também, não quero deixar a mamãe sem ninguém para tomar conta dela. Assim, eu só pego no sono depois que o senhor chega.
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Não falei para Jen isso, nem naquela noite, nem no dia seguinte. Eu sabia como seria a reação dela. A mesma reação que ela tinha agora.
— A Ruiva só gosta de tomar conta de todos, sabe que ela pode ser bem superproterora.
Jen me encarou.
— Você acha que eu não sei que ela não vai dormir até que você chegue? Jethro, Sophie é minha filha, e eu conheço aquela garotinha melhor do que te conheço, melhor do que me conheço. E é por isso que estou preocupada! Tudo o que aconteceu acabou traumatizando-a de uma maneira que eu jamais esperei. Ela agora tem medo de que qualquer um se machuque.
— Ela sabe que o nosso trabalho é perigoso, Jen. E todo esse cuidado com você... bem... você sabe sobre o sonho que ela teve... além do mais, eu aposto meu salário nisso, entre nós dois, Sophie sempre vai se preocupar mais com você, não importa o que você esteja fazendo, Jen. Ela é assim.
— Mesmo assim é errado! As crianças da idade dela estão viajando, brincando na rua ou na casa dos avós e Sophie está presa em casa por minha causa! Eu mal posso levá-la ao parque, porque não consigo andar por muito tempo!
— Não é sua culpa, Jen. E ela também não te culpa por nada disso. E essa situação não é eterna. Mais algumas semanas e você vai melhorar consideravelmente.
— E então Sophie já estará de volta à escola! Que tipo de mãe eu sou, Jethro? Como eu posso me encaixar na categoria “mãe” quando a minha própria filha de OITO ANOS tem que tomar conta de mim? O que eu estou fazendo com a infância da minha filha? – Ela começou a chorar.
— Jen, eu já te falei, Sophie não te culpa por nada, não está reclamando de ficar em casa, muito pelo contrário, está feliz porque você está em casa. E quanto a infância dela, não se preocupe, ela é uma criança feliz, e tudo isso nada mais é do que uma fase ruim, e todos passam por isso.
Jenny fez um som de desdém.
— Me diga um único ano da vida dela em que Sophie teve uma vida normal, Jethro? Me diga! Ela tem oito anos e desde pequena convive com o medo de perder alguém por conta do que eu faço, do que nós fazemos. Eu sabia que quando escolhi tê-la, eu deveria ter saído do NCIS...
Eu não queria, mas me vi obrigado a dar um choque de realidade em Jenny.
— Kelly passou por muita coisa também, me viu deixá-la por muitas vezes e quando mais precisou de mim, eu não estava aqui, Jen. E, por mais que tenha sido difícil, por mais que ela tenha sofrido, ela jamais me questionou o motivo de tudo o que aconteceu. E você sabe muito bem quem ela é hoje, você a conhece bem para saber que, sim, ela ainda se preocupa com todos nós, mas ela aceitou o nosso trabalho. E vai ser o mesmo com a Ruiva. Aliás, eu vou além, e ouso dizer que ela entende tudo isso muito melhor do que Kelly. Mas, se você está se sentindo tão culpada assim, pergunte para Sophie. Pergunte à nossa filha o que ela acha se você se aposentar...
Jen ficou calada. E permaneceu assim pelo resto do tempo que gastamos para chegar até a casa de Kelly. De vez em quando eu olhava na direção dela e via que ela mordia o lábio inferior, seu sinal de que estava nervosa.
Quando parei o carro na frente da casa de Kelly, Sophie estava na porta, abraçada com um filhote de cachorro, pulando perto do Engomadinho, e assim que nos viu, correu até nós.
— Olha o que o Henry acabou de dar para a Kells!!! – Disse animada.
Jen abriu a porta com cuidado e ficou olhando para o filhotinho no colo de Sophie.
— É um filhote de Border Collie! O nome dele é Nemo!
— Era essa a surpresa? – Eu perguntei para Kelly que tinha aparecido ao lado de Sophie para clamar o filhotinho.
— Não. Essa aqui é a minha surpresa! – Disse quando Sophie a entregou o filhote. – A dela, está lá dentro. Vamos?
Ela liderou o caminho, abraçando o filhote de tempos em tempos, Sophie foi ao lado de Jen.
— O que foi, mamãe? – Ela perguntou passando na nossa frente e parando no alto dos três degraus que dava acesso à porta, ficando, assim, quase da altura da mãe.
E, para a minha surpresa, Jen fez a pergunta que eu falei para ela fazer.
— Filha, o que você acha se eu me aposentar do NCIS para passar mais tempo do seu lado?
Sophie arregalou os olhos, deu dois passos para trás e soltou:
— NÃO! A senhora não vai fazer isso! Não pode! Por que se aposentar?
— Para ficar mais tempo com você...
— Mas mamãe! A senhora já fica! A senhora tá sempre comigo à noite! Ou tá me ensinando o dever, ou tá revisando as matérias comigo, ou tá dançando... nós passamos muito tempo juntas! O tempo que temos, pois enquanto a senhora está trabalhando, eu estou estudando... se a senhora parar de trabalhar, vai ficar sozinha o dia inteiro, pois não vai ter ninguém lá em casa, só o Jet... mas o Jet não conversa.
Eu vi que Jenny não tinha pensando nisso, para falar bem a verdade, nem eu. E a Ruiva não estava errada.
— Então...
— Mamãe, a senhora só vai se aposentar, se a senhora não quiser voltar, por minha causa, não. Sempre fomos assim e sempre vivemos bem. Podemos continuar assim, todas as famílias são assim! É para isso que existem fins de semana, férias, feriados... para ficarmos juntos! – Sophie falou e abraçou a mãe com cuidado.
Por cima dos ombros de Sophie, Jen me olhou e tudo o que eu disse foi:
— Satisfeita?
Porém, antes que ela me respondesse, Sophie falou a frase que fez Jen ter a certeza de que ela estava fazendo a coisa certa.
— E quer saber, mamãe... eu tenho muito orgulho de falar que a senhora é a Diretora do NCIS, a primeira e ainda única mulher liderando uma Agência armada e a pessoa mais nova a ocupar o cargo.
Com um pouco de dificuldade, Jen se ajoelhou na frente da nossa filha e a abraçou apertado, tão apertado que Sophie teve que alertá-la.
— Pelo menos esse, filha. Tem muito tempo que a mamãe não te abraça assim.
Sophie na hora retribuiu o abraço. Só se separando da mãe quando Kelly nos chamou para entrar.
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Eu vi que Jen não parecia estar tão bem assim. Não sei o que era, talvez dor, ou talvez ela ainda estivesse remoendo o que aconteceu, sei disso porque a ouvi conversando com Hetty... foi logo que ela acordou. A conversa parecia séria, assim não entrei no quarto, porém, pude ouvir Jen dizer claramente que tudo o que tinha acontecido era culpa dela e que ela temia pelas reações de Sophie...
E observando como ela agiu hoje, como a minha irmã vinha agindo ao lado da mãe, não me foi difícil ligar dois com dois. Jenny tinha um plano e precisava colocá-lo para fora. Porém, ela não falaria isso comigo ou com a Moranguinho, ela precisava conversar com alguém que a entendesse de verdade.
Meu pai.
Foi por isso que fiz questão de trazer Sophie comigo no carro. Deixar os dois sozinhos por um tempo, pois sabia que a minha irmã não estava deixando isso acontecer. E, também, para que ela pudesse deixar a tarefa de cuidar da mamãe um pouco de lado.
— Kells... mamãe falou para você não correr! – Ela me avisou do banco de trás.
— Por acaso Jen está aqui? – Retruquei.
— Não....
— Você vai contar para ela?
— Não...
— Então, Sophie, o que a Jenny e o papai não sabem, não nos fere! – Acelerei mais um pouco, pude sentir o carro vibrar abaixo de mim pedindo mais uma marcha e vi Sophie abrir um sorriso. – E esse é o nosso segredinho, hein?
— Tudo bem, Tio Scar! – Ela me responde gargalhando.
Por conta da (alta) velocidade, chegamos rápido na minha casa e, assim que parei o carro na garagem, Sophie foi logo desafivelando o cinto e descendo do carro.
— Henry vai demorar?
— Agora você está com pressa?
Minha irmãzinha começou a pular sem sair do lugar.
— Não adianta ficar ansiosa, só vou te mostrar a surpresa quando todos estiverem aqui, enquanto isso, vamos colocar o jantar no forno e terminar os outros pratos.
— Eu vou ter que trabalhar?
Encarei a minha irmã antes de abrir a porta da cozinha.
— Eu não tenho uma Noemi. Sim, preciso da sua ajuda. Você sabe o que tem que fazer...
— Lavar as mãos! – E ela saiu correndo na minha frente até o lavabo.
Já estávamos a quase vinte minutos na cozinha e nada do meu pai e de Jen aparecerem, comecei a pensar que talvez, só talvez, eu tenha corrido demais... quando bateram campainha.
— O papai não bate campainha... – Sophie murmurou.
— Não... – Respondi e enxuguei a mão no pano de prato. – Você fique aqui! – Falei para Sophie, mas foi como falar com o vento... pois ela logo me seguiu.
— Nem pensar! Eu vou com você! Eu sou treinada por uma ninja do Mossad e posso te defender. – Disse séria.
Eu só não ri porque não queria deixar a minha irmã sem graça.
— Pelo menos fique atrás de mim, tudo bem?
Ela assentiu e eu abri a porta para... não ver ninguém.
— Mas essa criatura não tem.... – Comecei a xingar até que Sophie chamou a minha atenção.
— Kells!! – Gritou. – Olhe! – E ela apontou para um cesto que estava no chão. E dentro desse cesto tinha....
— Isso é um filhotinho? – Perguntei me agachando para ver o cachorrinho preto e branco que estava com um enorme laço azul amarrado em seu pescoço.
Sophie, estranhamente, não falou nada, e tive que olhá-la. Ela só estendeu a mão, apontando para outro ponto.
Era Henry e ele estava tirando uma foto minha com o cachorrinho no colo.
— Henry!!! Você enlouqueceu? Achei que tínhamos combinado que só teríamos um cachorro daqui uns três ou quatro anos....
— Achei que era uma boa ideia, afinal, você vai ficar por aqui por um ano ou mais... vai dar tempo de educar essa bolinha de pelo! – Ele disse e me deu um beijo e eu, como sempre acontece, perdi o controle do meu corpo e o abracei apertado e o beijei com uma paixão um tanto inapropriada para o horário e para a telespectadora que estava perto. Foi ele quem teve que nos separar e gentilmente deu um passinho para trás e envolveu a minha cintura. – A comemoração fica para mais tarde. Temos companhia e eu não quero que seu pai apareça e me aponte uma arma. – Comentou me dando um beijo na bochecha. Graças a Deus Sophie estava ajoelhada no chão, brincando com o filhote.
— Não, Nemo, não é para me morder, é para sentar! – Ela ordenava.
— Nemo? Você deu um nome para o meu cachorro? – Reclamei.
— Eu não! – Ela respondeu sem me olhar, ainda encarando o cachorro. – Está escrito aqui! – Ela o pegou no colo e me mostrou a coleira azul, onde no pingente, era possível ler o nome dele. – E ainda tem o seu nome e seu telefone. – Acabou de me informar.
— Você pensou em tudo, hein? – Falei para Henry.
Sophie, que estava pulando ao lado de Henry, ainda tentava domar o filhote, reclamando que o Jet fica quieto assim que ela o manda parar, quando vimos o carro de papai parar na entrada de carros e ela logo saiu correndo carregando o meu cachorro com ela.
Eu ia reclamar, mas Henry me segurou.
— Deixa, se ela apresentar o filhote, seu pai não vai ser tão avesso a ele. É só ela não....
E ele nem terminou, pudemos ouvir:
— Olha o que o Henry acabou de dar para a Kells!!! – Ela estendeu o filhotinho na direção da mãe — É um filhote de Border Collie! O nome dele é Nemo! – Explicou toda alegre para Jenny que acariciou as orelhinhas dele.
— Você estava dizendo o que, Henry? – Perguntei para meu marido assim que o olhar do meu pai se desviou de nós e se voltou para o filhote.
— Vai lá ajeitar as coisas! – Henry disse.
Desci a escada da entrada e pude escutar a pergunta que meu pai fazia.
— Era essa a surpresa?
— Não. Essa aqui é a minha surpresa! – Disse quando Sophie me entregou Nemo. – A dela, está lá dentro. Vamos? – Chamei.
Liderei o caminho, brincando com Nemo, estava extasiada demais em saber que agora eu tinha um cachorro só meu, depois de quase 25 anos...
Quando entrei, notei que nenhum dos três tinham me acompanhado, parei e olhei para porta, Sophie estava de pé no alto da escada e parecia encarar Jen. Meu pai só observava a conversa das duas.
Não escutei o contexto, mas peguei uma palavra: “aposentar”.
E a conversa de Jen com Hetty fez sentido na minha cabeça. Ela queria se aposentar para poder se dedicar à filha. Achei tão... estranho. Parecia que ela estava jogando a toalha, desistindo de ser a mulher que podia, ao mesmo tempo, ser a Diretora do NCIS e mãe. Uma mulher, que eu sabia, muitos invejavam por conseguir balancear a vida.
Não pude ouvir a resposta de Sophie, mas seja qual for agradou não só a Jenny, mas ao meu pai e quando as duas se abraçaram, cheguei perto e os chamei novamente.
Os três entraram e acabei por entregar Nemo para Jen que se sentou no sofá. Sophie me acompanhou para a cozinha, depois que nós duas lavamos a mão.
— Coloque a mesa, que o jantar já está quase pronto. – Informei.
— E o do Nemo? Eu sempre coloco a comida do Jet perto da mesa na hora que estamos comendo...
— Ah... Henry.... me diga que você se lembrou de dar o presente de forma completa e que trouxe ração para essa bolinha. – Decidi ignorar a minha irmã e conversar com o dono do problema.
Sophie só começou a rir.
— Olha na última porta do armário. – Veio da resposta da sala.
— É, Kells. Henry pensou em tudo. – Minha irmã comentou ao abrir a porta e pegar, não só a ração, como também as vasilhas devidamente personalizadas, que ela ficou olhando.
— Nada de comparar com as do Jet! – Alertei. – Seu cachorro é imenso!
— Ei, não ofende o Jet! Ele não está aqui para se defender. E não comece a falar mal do meu cachorro só porque agora você tem um. Não se esqueça, Jet ainda pode te morder... e o Nemo não vai vencer dele em uma briga!
— Será que as duas podem parar de brigar por conta do cachorro? – Papai perguntou da porta.
Sophie que já tinha arrumado a mesa, acabou de servir a ração de Nemo.
— Coloco onde? – Me perguntou.
Eu não ia gostar de ter um cachorro comendo nos pés das visitas, ainda mais da minha sogra, tenho certeza de que ela falaria horrores.
— Pode deixar aqui na cozinha mesmo.
— Ele vai jantar sozinho? Tadinho! – Ela tentou me fazer mudar de ideia.
— Vai... aqui na cozinha. – Fui firme e Sophie colocou a comida e a água no cantinho perto da porta.
— Aqui está bom?
— Sim.
Jen apareceu com Nemo no colo e me entregou.
— Seu filho peludo. – Brincou e eu vi a cara que meu pai fez.
— Pelo menos esse aqui não corre pela casa atrás de ninguém. – Falei e beijei o meu cachorrinho.
— Ainda. – Foi a resposta dupla que recebi.
Minha irmã mais nova só me olhava injuriada, como se eu estivesse ofendendo o enorme pastor alemão que ela tem.
— Tudo bem, vamos parar de falar de cachorro! – Cedi aos olhares. – O jantar está pronto. – Coloquei a bolinha no chão e o ensinei onde ele deveria comer. Claro que não deu certo e tudo o que ele fez foi pular na minha perna.
— Pelo menos o Jet não faz isso! – Sophie retrucou vitoriosa e saiu carregando um pirex até a mesa.
— Você não teve que educar aquele monstro!! Ele já veio educado para você! – Falei e tentei novamente por Nemo para comer.
— Vocês duas vão realmente disputar quem tem o melhor cachorro? – Henry me perguntou enquanto observava o meu esforço para fazer o filhote comer.
Estava com a resposta na ponta da língua, quando Sophie, sempre ela, apenas disse:
— Não há o que disputar, Henry. Nemo é fofo. – E eu fiquei toda feliz de que ela tinha visto o óbvio. – Mas é um cachorro comum... só isso. Jet, por outro lado, é um Fuzileiro, e é claro que ele ganha qualquer competição.
Fiquei boquiaberta com o que ela tinha falado. Henry por sua vez começou a rir.
— Você sabe que ela está certa, não é?
— Não comece a armar aquela pestinha! – Sibilei, mas Sophie estava com aquele ar convencido que ela tinha herdado de... de ambos os pais, já que eles sempre estão certos quanto a tudo.
Resolvi deixar pra lá, não valia a pena brigar sobre qual cachorro era o melhor. Era o meu e ponto final.
À mesa, nossa conversa foi outra, falamos de política, Jenny quis saber como estavam as prévias, falamos do NCIS e do restante do verão. Sem planos para ninguém, já que Jen estava se recuperando, mas nada impedia que pudéssemos decidir algo de última hora...
Foi um jantar diferente, até porque, pela primeira vez, papai não implicou nenhuma vez com Henry, um milagre que todos notaram e eu decidi acreditar que já era hora de meu pai aceitar Henry na família!
Outro fato muito importante foi Sophie, ela, em nenhum momento, ficou implorando ou perguntando se já era hora da surpresa. E isso eu estranhei muito.
Acabamos o jantar e a sobremesa e Sophie e papai resolveram lavar as vasilhas e arrumar a cozinha. Eu que não reclamei, ou talvez tenha reclamado, mas não com eles, com Nemo que resolveu achar um banheiro dentro de casa e tanto papai quanto a minha irmã falaram que não iriam limpar a poça.
Jen, perto de mim só soltou:
— Bebês dão trabalho, Kelly.
Revirei meus olhos e saí atrás do meu cachorro. Meia hora depois estava eu pesquisando na internet como se fazia para adestrar um filhote.
— Achou alguma coisa? – Papai ainda não estava acreditando que eu estava procurando isso na internet.
— Várias coisas.
— Alguma que te ajude? – Jen quis saber, os dois estavam se divertindo com a minha cara.
— Mais ou menos. – Foi Henry quem respondeu. – Isso aqui parece ajudar.
Minha irmã tinha desaparecido na cozinha, creio que estava comendo algum doce escondido, mesmo contra as ordens da mãe, quando ouvimos ela bradar.
— QUE COISA FEIA, NEMO!! NÃO PODE FAZER XIXI AÍ! JÁ PARA FORA!
Corremos até a cozinha e o meu cachorro estava paralisado no meio do cômodo e minha irmã tinha a porta aberta e apontava para o quintal
— Anda, Nemo! Xixi é lá fora! – Tornou a falar.
Meu cachorro ganiu de medo ao passar perto da minha irmã, mas seguiu o caminho que ela apontou.
— Isso é adestrar um cachorro. – Papai falou. – E não ficar procurando as coisas na internet.
Com pouco Nemo entrou, passou perto de Sophie com o rabinho no meio das pernas, mas como ele tinha feito uma coisa certa, ela se agachou, afagou as orelhas dele e deu um petisco.
— Bom garoto! Faça isso de novo que ganha outro.
— Como você sabe como adestrar um cachorro? – Perguntei chocada.
— Abbs me ensinou. Ela está adestrando o Mortimer, um filhotinho de Golden Retriever, e me falou que é assim que eles aprendem. Fez coisa errada, você zanga com eles. Fez uma coisa certa, você afaga e dá um petisco.
— Deveríamos ter perguntando para a entendida em cachorro primeiro. – Henry falou e foi pegar o Nemo.
— Não sou entendida.
— Você faz isso com o seu cachorro?
— Não, Henry. Jet pede para sair quando precisa. E não sai durante a noite. Como eu disse, ele não é um cachorro comum.
E mais uma vez eu tinha sido atropelada pelo conhecimento da minha irmã mais nova.... ô sina.
— Quer saber, depois dessa e de você ter me salvado de limpar a segunda poça da noite, acho que está na hora de te mostrar a sua surpresa.
— Eita! Já tinha até me esquecido!
— E pelo visto a memória anda tão ruim que se esqueceu do que eu te avisei, não é mesmo, mocinha? – Jenny disse levantando a taça de sorvete que minha irmã não teve tempo de lavar e por no lugar para esconder as evidências do que andava fazendo.
Sophie só deu aquele sorriso de quem tinha realmente aprontado contudo, não falou nada.
— Podemos ir ou não? – Perguntei.
— Não é aqui? – Papai perguntou.
— No segundo andar.
Jen fez uma careta.
— Se importa se eu ficar por aqui? Não estou 100% para subir todos esses degraus.
— Sem problemas, você vai escutar de qualquer forma! – Eu ri e sai empurrando Sophie da cozinha.
Sophie olhou para a mãe de uma forma preocupada.
— Eu estou bem, Miniatura. Vá lá ver o que Kelly e Henry prepararam para você!
Ainda desconfiada, minha irmã foi comigo e Henry para o segundo andar.
— O que vocês fizeram aqui? – Ela questionou. – Para mim parece que tudo está igual. – Murmurava ao passar pelos cômodos, até que paramos em um que estava com a porta fechada.
— Abra. – Instrui.
Ela me olhou desconfiada. Olhou em volta, creio que tentando se lembrar que cômodo era aquele, até que levantou as mãos e abriu a porta.
Eu vi os olhos dela se arregalando, eu vi todas as pequenas reações que ela teve.
— VOCÊS NÃO FIZERAM ISSO?!!! – Ela correu para dentro do cômodo. – Tá incrível!! – Falou ao parar perto do sofá. – O Tim vai amar esse videogame! E eu já tô até vendo o Tony tentando ganhar da Tia Ziva nesse airhockey. Essa sala de jogos ficou incrível!!!! – Rodopiou no centro da sala.
— E você, Soph, gostou mais do que?
Minha irmã deu mais um rodada pela sala, vendo o que tínhamos comprado.
— DE TUDO!!! Tem até mesa para jogar pôquer! – Sophie correu até o alto da escada e gritou: — PAPAI, O SENHOR TEM QUE VER ISSO!!!
Escutamos a reação do meu pai, mas minha irmã não ficou nem um pouco satisfeita com ela e correu escada abaixo.
— Papai!!! O senhor tem que ver o que eles fizeram!! Sabe aquele salão grandão que estava vago? Então... vem ver!!!
Fez um pequeno silêncio, que foi acompanhado pelas risadas de Jen.
— Papai!!! Assim não dá!! Eu não consigo te puxar do sofá!! Coopera comigo!!
— Sophie, não. – Foi a resposta de meu pai.
— Mas o senhor vai gostar!!!! Eu prometo! – Ela falava toda convicta.
Parei no alto da escada e fiquei esperando, Henry apostou comigo que, pelo menos hoje, Sophie não conseguiria arrastar o meu pai para fazer as vontades dela.
— Espera... ela tem uma arma secreta que sempre funciona. – Falei e nós dois nos sentamos no último degrau para ver o desenrolar dessa história.
— Mas papai! – Vi minha irmã pular na frente dele e tentar erguê-lo do sofá, meu pai, logicamente, não fazia nada para ajudá-la. E ela tentou uma, duas, três e nada. Então o soltou, deu dois passos para trás e apenas falou: — Por favorzinho!!!!
— E aí está! – Exclamei.
— Não tá com cara de que vai funcionar não... – Henry falou e eu olhei para a expressão do meu pai.
Jen gargalhou alto e puxou a filha para o colo, Sophie tinha um bico enorme e encarava o meu pai com os braços cruzados.
— Acho que a sua arma secreta não funciona mais, Miniatura. – Falou para a filha.
Sophie só bufou em resposta e se encolheu no colo da mãe, ignorando meu pai completamente. Eu não me aguentei e desci as escadas rindo.
— Você acha, Jen? Pois eu tenho certeza! Já era a magia de caçula dela! Agora ela é uma reles mortal como todas nós.
Minha irmã me ignorou e olhando ora para a mãe, ora para a janela, fingia muito bem que não tinha ninguém na sala.
— Tudo bem... não teve graça... – Cedi ao silêncio do cômodo. – Qual é, Moranguinho! Você disse que gostou da sala.
— E eu gostei! – Ela finalmente se virou para mim. – Na verdade eu adorei!! Dá para se divertir pra caramba ali.
— É mesmo, e o que tem lá? – Jenny realmente ficou curiosa.
Sophie se virou e ia começar a falar em voz alta, até que se lembrou de que papai não quis ir lá ver e, assim, saiu do colo da mãe, se ajoelhou no sofá e começou a sussurrar o que tinha na sala.
Papai ficou meio indignado com a cena.
— Tá vendo, Marine! A vingança vem a cavalo! – Comentei ao me sentar ao lado dele. E papai só me olhou de lado, como dizendo: “Não comece, Kelly!”
Eu comecei a rir, era divertido ver a cara que ele fazia quando Jen e Sophie se viraram contra ele, mas, ao invés disso, fiz outro movimento, me levantei, dei a volta no sofá e fiquei atrás das duas:
— Posso me juntar à fofoca, também?
Elas me acolheram na conversa, que de conversa não tinha nada, era só uma forma de irritar o meu pai mesmo, e tudo o que gente fazia era rir da cara que ele estava fazendo, pois a cada hora era uma que levantava a cabeça e o encarava com um sorriso.
Jen, conhecendo-o melhor, simplesmente falou:
— Correndo o risco de virar o DiNozzo, vamos apostar. Quanto tempo até que ele levante murmurando qualquer coisa que não vamos entender e diga que está na hora de ir para casa?
Sophie começou a dar risadinhas ao olhar para papai.
— Eu primeiro! – Encarei o meu pai e depois abaixei a cabeça e disse: — Dez minutos.
Jen foi a próxima. Fez o mesmo movimento que eu e ainda deu um tchauzinho para ele.
— Cinco minutos. – Apostou.
Só restava Sophie, que levantou a cabeça, não sorriu nem nada, só olhou e depois se voltou para nós e disse:
— Sete minutos.
— Valendo! – Eu falei e marquei o horário no relógio. Pulei por sobre o encosto e nós três ficamos sentadinhas esperando.
Meu pai não é bobo e nos conhece muito bem, assim ele olhou para cada uma de nós, eu, que nunca consegui encará-lo quando estava aprontando, desviei o olhar para Nemo que tinha entrado trotando na sala e, ao invés de se sentar, se jogou de lado no chão como se tivesse morrido e começou a abanar a cauda. Minha reação arrancou risada de Henry. Jen, já acostumada com as encaradas e olhares, nem ligou, só cruzou a perna, começou a trançar o cabelo de Sophie e a balançar o pé à medida que o tempo passava. A reação da minha irmã foi a melhor, ela se sentou como uma indiazinha na frente da mãe e quando o papai tentou chamar a atenção dela, achando que ela era o elo mais fraco da trinca, ela fingiu não ouvir.
— Já chega! Podem parar de falar de mim.
Eu tive que segurar a risada, as duas ruivas nem se mexeram. Olhei no relógio. Três minutos.
Papai se levantou andou até a cozinha e voltou.
Quatro minutos. Eu não acredito que a Jen ia levar mais essa!
E sessenta segundo depois, marcando exatamente 5 minutos desde a nossa aposta. Ele soltou:
— Anda, Sophie, Jen. Vamos. Já está passando da hora da Ruiva dormir. – Ele passou por nós e foi para a porta, Nemo ia atrás dele, tentando comer a barra da calça dele.
— Quanto tempo? – Jen quis saber, deixando Sophie deslizar do sofá para ajudá-la a se levantar.
— Cinco minutos. Exatos. – Confirmei.
Jen deu uma gargalha.
— Tão previsível.
Papai deu meia volta e parou na nossa frente.
— Previsível em que, Jen?
E a ruiva número 01 e aquela que não temia Leroy Jethro Gibbs e seus olhos azuis gelo, soltou:
— No tempo que você ia levar para perder a paciência, Jethro. Fácil apostar em coisas assim!
— Eu virei objeto das apostas de vocês? – Ele encarou a mim e a Jen, já que Sophie se agachou para resgatar Nemo, que insistia em mordiscar a barra da caça de papai.
— Às vezes uma brincadeira não faz mal! – Jen soltou com um sorriso divertido.
— E ainda tá achando graça? – Papai estava começando a querer entrar na brincadeira.
— Jethro, sempre foi engraçado brincar com a sua cara. Faço isso há muito tempo!
Papai deu um passo atrás, olhou para nós duas e procurou por Sophie que tinha desaparecido da sala.
— Então vamos lá, já que é tão divertido assim, brincar com a minha cara... – Ele começou e eu não gostei do que vi no rosto dele.
— Jethro, não se atreva a pronunciar essas palavras! – Jen ameaçou.
— Nada de café surpresa para você, Jen. Kelly, pode esquecer os chocolates que eu sempre te dou. E quanto a você, Ruiva, — apontou para Sophie que tinha levantado a cabeça, já que ela estava atrás do sofá, tentando tirar o Nemo de lá. – Não tem mais chocolate quente antes de dormir. – Terminou e se virou.
Nós três bradamos ao mesmo tempo.
— Pai!
— Jethro!
— Papai!
— Isso não é justo!!!
Ele deu uma gargalhada e se virando para nós, conferiu o relógio e soltou:
— Nem dez segundos.... previsíveis.
É... e o tiro saiu pela culatra.... que beleza!! Três contra um e ele ainda ganhou.
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Foi um verão bem diferente... não porque eu praticamente fiquei em casa o tempo todo, não foi isso. Essa parte foi boa porque eu fiquei com a minha mãe e depois do que eu sonhei, só de saber que ela estava do meu lado já me deixava feliz.
Foi estranho porque nós fizemos uma coisa que nunca tínhamos feito.
Procuramos uma casa.
Sim, depois que a nossa foi explodida (tudo o que entendi é que foi o papai que armou a explosão, mas eu não posso contar isso para ninguém!) e tanto papai quanto mamãe perceberam que a casa de Alexandria era pequena demais para tanta coisa e gente e cachorro, os dois decidiram comprar uma casa.
Só que comprar uma casa não é uma tarefa fácil. Ainda mais com as exigências (palavra nova que aprendi com o tio Ducky quando conversei com ele na semana passada!) que os meus pais estavam fazendo. Mamãe queria uma casa onde ela teria um escritório bem grande, uma cozinha e sala de jantar ainda maiores, porque tinha que acomodar a família inteira e, ela disse, que tinha que ter no mínimo quatro quartos, mas cinco era melhor. Já papai fazia questão de duas coisas: um porão bem grande, onde ele pudesse continuar a construir os barcos e qualquer outra coisa que ele quisesse (mamãe chamou de caverna, e que papai nem sonhe com isso!), e um quintal.
Eu gostei da parte do quintal, afinal, Jet teria onde correr e eu poderia montar a minha cama elástica! Ninguém me perguntou, mas se eu pudesse escolher um único cômodo, eu ia querer que tivesse um salão bem grande, onde poderia ser metade estúdio de balé e metade academia de artes marciais, só para ter uma desculpa de chamar todo mundo para a nossa casa em uma sexta-feira à noite...
E, por isso, estou eu aqui, sentada na mesa da cozinha, olhando para os meus pais, enquanto os dois se encaram. Papai não concorda com a exigência de quatro quartos de jeito nenhum e mamãe acha que um quintal muito grande é desnecessário.
— Para que quatro quartos, Jen?! – Ele perguntou pela milésima vez, e mamãe reagiu da mesma maneira, revirando os olhos.
— Jethro, por favor, entenda, um quarto será o nosso.
Com isso papai concordou.
— Outro dessa coisinha aqui. – Ela apontou para mim e papai levantou a sobrancelha e soltou
— Achei que tínhamos combinado que ela dormiria no quintal, junto com o cachorro.
Eu arregalei meus olhos e Jet deu uma ganida, isso aí já era injusto!
— Não era para você ter falado na frente dela, Jethro! Agora ela vai ter que ter um quarto. Mas voltando ao assunto, o terceiro quarto, de Kelly e Henry.
— Kells tem uma casa aqui perto, não precisa de um quarto.
— Precisa sim. E se acontecer alguma coisa? E eles precisarem de passar a noite em algum lugar? E não foi nem uma ou duas vezes que tanto Kelly quanto Henry dormiram na outra casa. Sim, precisamos de um quarto para eles!
Papai se deu por convencido e depois de pensar...
— Eu vou me arrepender de perguntar, mas e o outro quarto?
— Para Jack ou a equipe. Tem sempre um dormindo por aqui, seja Tiva ou McAbby.
— Quem?! – A cara de papai foi hilária e eu não consegui não rir, o que resultou naquele olhar feroz na minha direção.
— Tony e Ziva e McGee e Abby, Jethro. Por favor, você já deveria estar acostumado com esses apelidos!
Eu só concordei com a mamãe.
— Quatro quartos? – Papai ainda lutava para aceitar a realidade.
— Sim.
— Você tem certeza de que não quer ir morar na Casa Branca de uma vez, Jen?
— A família é grande, Jethro! – Ela se levantou. – E quando todos estiverem conosco, quero que fiquem confortáveis. Além do mais eu não fiz nenhuma ressalva quanto aos seus pedidos.
— Eu tenho mais um.
Às vezes eu acho que meus pais são iguais aos meus amigos da escola, sempre tem mais uma coisinha que eles vivem esquecendo.
— Que é? – Mamãe não parecia nada feliz.
— A garagem.
— Achei que isso era de comum acordo, tem que caber três carros.
— Quatro.
— Quatro?! Mas por quê?
— Tem sempre alguém que está passando a noite, Jen.
E quando mamãe escutou a frase que ela tinha dito a menos de dez minutos ser repetida por papai... meu Deus! Ela ficou vermelhinha de raiva.
— Papai... – Eu juro que tentei alertá-lo, mas ele não me ouviu.
— Você realmente está usando as minhas palavras contra mim, Jethro? – Só pelo jeito que mamãe falou, eu sabia. Eu tinha certeza, alguém ia dormir no quarto da Kelly hoje.
— Só sendo coerente, Jen. Achei que você me entenderia.
Eles não brigaram, não na minha frente, pelo menos, mas mamãe pegou as coisas do papai e colocou no quarto de Kelly. Era só questão de horas até que eles começassem a conversar de novo.
Já na manhã seguinte, mamãe estava com a cara escondida pelo jornal, achei que eram as palavras-cruzadas, não era, era a parte dos classificados, assim, enquanto papai lia a sessão de esportes, peguei as palavras-cruzadas para mim.
— Nem pensar, mocinha! Pode me devolver isso! – Mamãe falou sem nem abaixar o jornal.
— Como a senhora sabia?
— Sophie não banque a esperta!
Devolvi as palavras-cruzadas e peguei o encarte para crianças, lá até tem palavras-cruzadas, mas são fáceis demais!
Ficamos em silêncio, papai murmurava qualquer coisa sobre como estava o futebol (dá pra acreditar que até o futebol universitário ele assiste?!), enquanto mamãe ia com uma caneta, marcando possíveis novas casas para nós.
— Achei! – Ela falou animada. – Encontrei uma que atende a todos os nossos requisitos! E tem um bônus!
Papai abaixou o jornal e olhou para ela, eu fiquei só observando.
— Onde é?
— Você não vai acreditar! – Ela estava feliz da vida, a casa deveria ser mesmo muito boa.
— Onde, Jen?
— Aqui em Alexandria. Mais precisamente... – Ela conferiu o mapa no telefone celular dela. – Há cinco quarteirões ao sul daqui!
— É tem tudo o que nós queríamos.
— Não se pode julgar um livro pela capa, Jethro, mas se ela for tudo o que está descrito no anúncio, sim, ela é perfeita. Só fala que precisa de uma pequena reforma... vou ligar para o corretor e marcar uma visita.
— Mas qual é o bônus? – Eu quis saber, já que papai não perguntou.
Acontece que mamãe não me falou qual é, apenas disse:
— Se tudo for tão bom quanto acho que é, creio que você vai adorar! – Ela se levantou, passou atrás de mim, me deu um beijo no alto da cabeça e foi para a cozinha.
— O senhor sabe qual é esse bônus? – Eu tentei tirar alguma coisa do meu pai, mas ele só olhou por sobre os meus ombros e me deu um sorriso.
É, definitivamente eu não saberia o que era.
Papai foi para o NCIS, ou como ele vinha falando, foi lá perturbar o Diretor-Interino Vance, que desde que mamãe ligou para ele e soltou todo um dicionário de palavras difíceis enquanto o mandava parar de pegar no pé da MCRT, tem ficado mais quieto, ou talvez seja porque mamãe ameaçou colocar Hetty como a Vice-Diretora do NCIS e mandar Vance de volta a agente de campo infiltrado no fim do mundo, vai saber, né? Só sei que desde esse telefonema, a equipe não ficou de plantão em todos os finais de semana, só uma vez por mês, o que normalmente já acontecia.
— Então, Miniatura, qual dos cem jogos que Abby deixou aqui na semana passada, você vai querer jogar hoje?
Peguei War e nós duas fomos nos sentar no sol da manhã, já que Kells disse que era bom para mamãe, e ficamos por lá até na hora de começar a fazer o almoço, Noemi estava de férias e tinha viajado para ver seus parentes na Colômbia.
— Dessa vez você não vai ganhar de mim! – Mamãe me falou quando paramos. — E nada de mexer nos meus exércitos! Eu sei exatamente como tudo está aí! – Me avisou.
— Eu não vou mexer, mamãe! Vou te ajudar com o almoço!
Nós fizemos o almoço, arrumamos a cozinha e logo mamãe estava ligando para o corretor e agendando uma visita na casa que ela tinha visto nos classificados.
— Eu vou poder ir? – Perguntei depois que ela se sentou para continuarmos a jogar War.
— É claro! Até porque preciso da minha cuidadora, já que vamos a pé!
— A Kelly liberou as caminhadas?
— São cinco quarteirões, Sophie. E não vai me fazer mal!
Só para variar, eu perdi de novo... não foi de lavada como das últimas vezes, mas eu perdi. E depois de guardar o jogo, fomos, como disse a mamãe, nos arrumar para parecermos pessoas civilizadas e não duas mulheres vindas da idade da pedra e saímos, devagar e sempre, até a casa que poderia ser o nosso novo lar.
No meio do caminho, encontramos um caminhão de sorvete e compramos um para cada uma, e fomos conversando e brincando até que chegamos no endereço. Papai já estava lá, escorado no carro do NCIS, parecia que Tony estava dentro do carro.
— Vocês estão atrasadas e acho que sei o motivo. – Ele falou e olhou direto para a minha cara. – Sorvete de chocolate e morango, hein?
Eu sempre deixo pistas dos meus crimes!! Meu Deus!!
Bati no vidro do carro e tudo o que Tony fez foi abrir um olho e levantar a mão.
— Não liguem, diz ele que está gripado, mas é só ressaca mesmo. Ziva e McGee estão do mesmo jeito.
Mamãe deu uma risada e nós entramos.
Já por fora a casa era imensa, a garagem, para quatro carros ou até cinco dependendo do tamanho, era um complexo separado, que se ligava com casa pela lavanderia e os dois gostaram do fato de que ninguém iria se molhar para entrar.
A cozinha e a sala de jantar eram do tamanho que mamãe queria, a sala de TV ou de estar, a corretora falou um nome todo esquisito que fez o papai fazer uma careta, era tão grande quanto. Ainda no primeiro andar tinha o que mamãe chamou de seu escritório, a escada que dava para o porão, que era muito maior do que o da casa onde estávamos, acho que papai poderia construir DOIS barcos ao mesmo tempo que sobrava espaço. Nos fundos da casa tinha o quintal, já com uma área toda arrumadinha para fazer um playground... na minha opinião dava para subir na árvore que tinha ali e brincar bastante... quem sabe eu não convencia o papai a fazer um balanço para mim, né? Isso se ficássemos com a casa, é claro.
No segundo andar mais do mesmo, os quartos, um era enorme e tinha um closet quase do mesmo tamanho, e o comentário do papai foi o melhor.
— Tem certeza, Jen, que todos os seus sapatos e roupas vão caber aí?
Mamãe deu uma cotovelada nele seguimos para os outros cômodos. Eram grandes, espaçosos, em um até tinha um pequeno closet também, mas nenhum dava com as janelas para a árvore, apesar de o quarto dos fundos ter uma sacada, mamãe chamou de sacada Romeu e Julieta e papai revirou os olhos.
Andamos pela casa toda e eu não vi o tal do bônus... o deck da parte de trás dava para colocar uma mesa e fazer um churrasco, o quintal era grande o suficiente para Jet brincar, tudo o que eles queriam tinham ali, mas para mim, parecia igual a nossa casa em Georgetown, só que com cores mais alegres.
— E agora, o cômodo que era a alegria da proprietária anterior. – A corretora fez uma vênia ao abrir as portas duplas e nos mostrar um salão do tamanho do mundo. – Ela usava como estúdio de pintura, porque estas janelas – abriu as cortinas e nos mostrou as janelas que iam do chão ao teto. – Têm uma bela vista do quintal e do pôr do sol. Mas vocês podem fazer o que quiserem desse cômodo, até dividi-lo em dois, se acharem conveniente.
Eu acho que esse era o bônus que mamãe falou...
— Sim, é uma bela casa, e até nos atende. – Mamãe começou e eu me assustei quando ela disse “Até”. Ia protestar, afinal, eu conhecia aquela cara, ela tinha amado a casa e papai também, porém meu pai me tirou do lugar e me levou para o porão!
— Vamos ficar aqui enquanto a sua mãe negocia lá em cima. – Ele falou, já fazendo planos para o lugar.
— O senhor não vai tentar negociar também?
— Ruiva, sua mãe lida com políticos todos os dias, é ela quem os dobra para conseguir um orçamento para o NCIS, sempre foi uma excelente negociadora de reféns... ela vai conseguir convencer a corretora a diminuir o preço antes que a mulher perceba que o diminuiu.
— Aham... – Concordei mesmo não tendo entendido nada.
— Contudo, — Ele continuou. – se fecharmos o negócio, não nos vejo mudando para cá antes do ano novo de jeito nenhum. Tem muita coisa para arrumar, principalmente nos quartos.
— Acho que mamãe não está com pressa. – Falei.
— Ah... ela está. Sua mãe não consegue viver sem um closet onde todas as roupas dela estejam dependuradas. Já reparou como ela vem demorando para ficar pronta?
— Porque ela está se recuperando da cirurgia, papai.
— Metade do tempo é gasto na escolha das roupas, filha. Acredite em mim.
— Sério, Jethro?! Falando de mim pelas costas. – Ouvimos a voz dela no alto da escada.
— E?
Ela abriu aquele sorriso de lado que todos sabiam que significava que ela tinha ganhado mais uma.
— Quanto de desconto?
O sorriso ficou maior ainda.
— Sabe, Jethro, saber te ler é bem útil às vezes. Como hoje. Sua cara de quem gostou da casa, me ajudou a decidir a fechar o negócio, mas a sua cara de que tinham algumas melhorias a fazer foi muito mais importante.
— E posso saber o motivo?
— Consegui abaixar o preço só citando os cômodos que vão precisar de reforma.
Eu olhei para os meus pais. Como minha mãe sabia que papai estava pensando só de olhar na cara dele?? Eu devo ter ficado com cara de dúvida porque os dois me perguntaram se eu não iria subir para escolher o meu futuro quarto.
E foi o que eu fiz, apesar de que os dois já tinham certeza de qual seria.
Se você pensou no com a sacada de Romeu e Julieta, errou, o meu quarto era o que tinha um closet, afinal, eu não queria encher o meu quarto com cômoda e guarda-roupa. Eu queria ter muitas estantes para os meus livros, minhas miniaturas e meus porta-retratos! Até porque, esse era o único quarto que tinha uma janela grande o bastante para poder fazer um assento de janela beeeeemmm confortável.
— Já que a Ruiva não quis esse quarto com a sacada, acho que podemos removê-la e fazer uma janela no lugar. – Papai falou, já pensando na reforma.
— É uma boa ideia. E podemos conversar sobre isso no jantar. Acho que você tem voltar para o NCIS e acordar a sua equipe antes que o Diretor Interino mande todos embora. – Mamãe falou e foi descendo a escada devagar. – Isso se o Tony estiver vivo dentro do carro.
A casa ainda não era nossa, pois o contrato de venda ainda não tinha sido assinado e nem tinha sido registrado, mas já era quase nossa.
E quer saber, pode demorar para ficar pronta, mas eu gostei! De verdade, e como mamãe falou, cabe todo mundo ali, e se a gente espremer, dá para todo mundo dormir aqui também!
Agora era só contar para todos e eu aposto que ajuda é o que não faltaria e pitacos também!
No jantar, Kelly e Henry apareceram e trouxeram Nemo junto, era a primeira vez que ele e Jet se encontravam e o resultado não foi muito bom não....
Ninguém saiu ferido, mas Jet meio que perdeu a paciência, pois, como Nemo ainda é pequeno, começou a brincar com o rabo dele, e brincou tanto que acabou mordendo. Jet balançou o rabo com força para tirar o filhote dali, mas Nemo é teimoso, se agarrou com mais força e o resultado final foi o meu pastor alemão andando pela casa nada feliz tendo um filhote de border collie dependurado em seu rabo. Quando papai chegou e viu aquela cena estranha, apenas disse:
— Mas esse cachorro já é chato igual ao Engomadinho!
Kelly protestou, é claro. Mas será que ela não podia controlar o Nemo? Jet não merece passar por isso!!
O restante do verão passou com mamãe e eu olhando tudo o que iríamos colocar na casa nova, com a exceção do piso de madeira que papai fez questão de escolher e fazer! Às vezes íamos ao centro olhar as lojas, outras olhávamos pela internet mesmo... e quando tínhamos a certeza de que era aquilo de que gostávamos, comprávamos.
No final de agosto, tudo já estava mais ou menos certo, até mesmo os quartos já tinham sido escolhidos.
— Eu acho que essa casa vai ficar ainda melhor do que a outra, o que você acha, Miniatura? – Mamãe me perguntou quando virou o esboço de como cada cômodo iria ficar na minha direção.
Virei página por página, por mais incrível que possa parecer, meu cômodo favorito era a cozinha, que era imensa!!
— Eu não acho. – Falei e olhei para a minha mãe que que assustou. – Eu tenho certeza! E até o papai gostou de tudo isso! Vai ficar sensacional!!
— E será um sensacional para o ano que vem... porque é impossível de tudo isso ficar pronto nesse ano.
— Quem liga?
— Acho que o seu pai liga.... – Ela brincou. – Ele não aguenta mais tropeçar nos meus sapatos dentro daquele cômodo que ele chama de closet. – Começou a rir.
Esse era o meu último dia de férias e o início da última semana de licença da mamãe, dentro de oito dias ela estaria de volta ao cargo de Diretora!
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Setembro chegou e com ele Sophie voltou às aulas. Foi uma sensação diferente deixar minha pequena na escola e voltar para uma casa vazia, ou melhor, quase vazia, pois assim que abri a porta, Jet me recebeu abanando a cauda e me farejando toda.
— Ela está na escola, Jet. – Falei para o cachorro depois de acariciar a orelhas dele. – Só volta de tarde. – Me levantei devagar e fui arrumar o que ainda tinha para ser arrumado, se é que Noemi tinha deixado algo.
Por todo o dia, onde eu colocava o pé, Jet colocava o focinho, Sophie pode até gostar disso, mas não eu. Então, assim que me sentei no sofá, já quase na hora da minha filha chegar em casa, encarei o cachorro
— Não me diga que Jethro te mandou ser meu segurança? – Falei.
Lógico que animais não falam, e se Jet abrisse a boca, eu sairia correndo desesperada, mas o cachorro só deu uma ganida, rodou em volta de si mesmo e apontou para a boneca de pano que estava no sofá.
— Foi a Sophie quem te mandou me vigiar.
E ele deu uma latida alta.
Que ótimo!
Sem nada para fazer, a não ser esperar, procurei por um livro na estante de Jethro, por um momento me lembrei que perdi todos os meus livros no incêndio, teria que reconstruir minha pequena biblioteca particular, e tentei achar, entre todos aqueles livros que falavam de barcos, guerra ou da Marinha e da Corporação, algum que me chamasse atenção. Na falta de qualquer romance para me distrair, peguei um sobre a história da Segunda Guerra e comecei a lê-lo.
Não me distraiu completamente, mas foi o suficiente para o tempo passar e Sophie chegar em casa.
Ouvi o carro parando na rua e pude escutar minha filha se despedir do pai e abrir e fechar a porta do carro, antes que ela entrasse, já estava na porta esperando-a, mas ela estava debruçada na janela do carona, conversando algo com Jethro.
— Já disse que depois mexemos com isso, filha, agora entra!
— Tudo bem... até o jantar papai! Te amo! – Ela se despediu e correu para a porta para me abraçar. Me agachei para ficar na sua altura e ainda recebi um beijo.
— Vamos, entre! Tenho certeza de que já tem dever.
— A senhora não faz ideia! – Ela murmurou passando por mim para tirar os sapatos e brincar um pouco com Jet.
Me levantei, acenei para Jethro e ele só arrancou o carro depois que fechei a porta. Não sabia quem estava pior nesses dias, ele ou Sophie.
Ajudei minha Miniatura com as tarefas e ainda deu tempo de começar um trabalho que ela teria que entregar em um mês, antes de ser um bom horário para começar o jantar.
— Tudo bem, agora que a mocinha já até brincou no quintal, pode subir e ir tomar banho, daqui a pouco seu pai está em casa e o jantar está na mesa. – Falei e assim que ouvi os passos de Sophie no segundo andar, parei para pensar que estas palavras que tinha acabado de pronunciar eram exatamente as mesmas que minha mãe vivia falando para mim. Definitivamente essa vida de dona de casa estava começando a se enraizar em mim, o que não era nada bom.
Uma hora e meia depois, Jethro chegou em casa e pudemos jantar, para a alegria da ruivinha que reclamou que estava com fome durante toda a espera.
E, nesse ritmo doméstico minha semana final de licença saúde passou. E eu nem acreditei quando, no domingo à noite, na hora em que toda a equipe foi embora, eu pude responder que os veria no próximo dia no Estaleiro.
— Você gostou de dizer isso. – Jethro acusou quando me sentei no sofá.
— Não vou negar, gostei sim! Eu já não estava aguentando mais ficar em casa sem nada para fazer, sem uma rotina.
— Mas você cogitou até uma aposentadoria precoce, Jen!
— Ainda estava sob efeitos de remédios para dor, Jethro. Desconsidere aquela insanidade.
— Mas, e o tempo que você queria ter para ficar mais com a Sophie? – Ele não deixaria de me cutucar.
— Essa semana serviu de lição. Foi exatamente como ela disse. Chegava um determinado horário, eu não tinha o que fazer, e ela nem estava aqui! Aposentadoria ainda não é algo para mim.
Ele só meneou a cabeça e deu um meio sorriso.
— E quais são seus horários de amanhã? E não diga que não sabe, porque Cynthia já passou aqui e te atualizou com tudo o que você precisa saber.
Eu ri, realmente Cynthia, como sempre, tinha sido um anjo e me mantido informada sobre tudo o que acontecia no Estaleiro durante a minha ausência, e, na quinta e sexta, passou a tarde comigo, me informando da minha agenda específica e de tudo o que eu precisava me inteirar para voltar ao meu cargo.
— Meu dia começa no hospital, Jethro. Tenho um check up completo no Bethesda, com uma junta médica que vai avaliar se eu realmente estou pronta ou não para voltar ao trabalho. Só Deus sabe o tempo que eles vão levar para me avaliar e dar o resultado. Depois dessa avaliação, tenho uma reunião com SECNAV, que também não será curta, e, para finalizar, a tão falada reunião no Capitólio para decidir o orçamento das Agências. Portanto, eu nem sei se irei ao NCIS amanhã. – Falei.
— Tudo isso?!
— O que você queria? Pausas para a soneca da tarde? É claro que não. E, a depender do que a Junta Médica vai dizer, talvez eu nem volte.
— Mas você está pronta, Jen? – E era evidente a preocupação nos olhos dele.
— Pode ter certeza de que estou, Jethro. Eu sei que lá é o meu lugar, apesar de toda aquela burocracia.
Ele pareceu feliz com a minha resposta e só me puxou de lado, me aninhei ali e ficamos vendo televisão. Sophie estava no quintal, brincando com Jet.
— Mais quinze minutos, Ruiva! Amanhã levantamos cedo! – Jethro alertou, e ela já sabia que esse era o aviso final, que ela poderia arrumar o que estivesse fora do lugar e entrar.
Não precisou de cinco e Sophie apareceu pulando, o cabelo todo embaraçado de ficar correndo atrás do cachorro e o rosto vermelho pela corrida e pelo calor que ainda fazia.
— Posso assistir um pouco de televisão? – Perguntou.
Jethro bateu com a mão no sofá ao lado dele, e nossa filha só pulou ali e deitou a cabeça no colo do pai, colocando as pernas no braço do sofá, Jet rodou no chão e se deitou debaixo da mesa de centro, e assim passamos o restante da nossa noite.
Na segunda cedo, algo como aquele nervosismo de primeiro dia me invadiu, o que era completamente anormal, pois aquele não era o meu primeiro dia no NCIS ou no cargo, contudo, pensando na minha agenda do dia, só tinha um único compromisso que me assustava.
A avaliação médica.
Pois era o único sob o qual eu não tinha nenhum controle do resultado. A reunião com SECNAV e até a votação do orçamento eram atividades que eu já estava acostumada, sabia até manipulá-las muito bem se fosse necessário, mas não poderia mudar um diagnóstico médico.
Assim, depois de me certificar que eu tinha uma aparência saudável, que eu parecia uma mulher que podia comandar uma agência federal armada, desci para encontrar minha família me esperando para tomar café.
— Bom dia, mamãe! – Sophie me saudou, colocando a caneca na minha frente e me dando um beijo na bochecha. – Animada para voltar?
Jethro desviou a sua atenção do jornal para o meu rosto.
— Tanto quanto você estava quando suas férias terminaram. – Respondi a ela que só fez uma careta e se voltou para o suco e as panquecas. Vi que Jethro analisava a minha resposta e tive que conter a vontade de rolar os olhos, ele sabia que estava bem.
— Como vamos fazer com a Ruiva hoje? – Ele perguntou.
— Kelly me disse que vai pegá-la. Agora... – Conferi o relógio. – Melvin já está lá fora e dá tempo de deixá-la na escola, já que é caminho para o hospital e, assim, você não precisa dar a volta e ter que encarar todo aquele trânsito.
— Amanhã eu a levo então. – Ele confirmou, dobrou o jornal, se levantou e se despediu de nós. – Nos vemos mais tarde, Ruiva. – Deu um beijo no alto da cabeça da filha.
— Bom trabalho, papai! – Ela respondeu, já terminando o café dela e se levantando para levar as vasilhas para a pia e lavá-las.
— E quanto a você, se precisar, me ligue. Qualquer coisa coloco o DiNozzo como líder.
— Não vou precisar, Jethro. Mas obrigada. – Roubei um beijo dele. – Acho que mereço. – Brinquei. Ele olhou para a cozinha, Sophie ainda lavava as vasilhas, então se virou para mim e me deu um beijo de verdade. – Mas gostei mais desse! – Disse assim que recuperei o fôlego.
— Te vejo no NCIS, Jen. – Disse mais alto, mas o olhar dele não me engava, nem o sorriso.
— Bastardo. – Murmurei bem baixo para que Sophie não me escutasse, já que ela estava atravessando a sala para ir ao quarto escovar os dentes e pegar a mochila.
Saímos não muito tempo depois, e foi bom poder carregar a minha filha comigo por um pedaço do caminho. Seu falatório sem fim acabou por me distrair e arrancou algumas risadas de Melvin.
Antes de descer do carro, Sophie me olhou nos olhos, me abraçou e acabou por dizer:
— Vai dar tudo certo hoje, mamãe! Eu tenho certeza de que vai! – Me deu um beijo na bochecha. – E, digo mais, de noite vamos estar todos lá em casa para comemorar a sua volta! – Desceu do carro e antes de fechar a porta. – Tenha um ótimo dia no trabalho! – Depois deu dois pulinhos e, já na janela de Melvin, o agradeceu pela carona. Minha filha era uma figura e tanto!
E a ausência dela me trouxe toda a ansiedade de volta. Recostei minha cabeça no encosto e tentei pensar em diversas coisas diferentes para me distrair, não deu certo e a cada metro que eu me aproximava do hospital mais nervosa eu ficava.
— Senhora, chegamos. – Melvin anunciou.
Abri meus olhos e pela primeira vez eu quase pedi para voltar para casa, e, contrariando a minha vontade, me fiz de forte, agradeci ao meu motorista e desci do carro.
Na recepção, dei meu nome e logo me levaram para o último andar, me indicaram uma fileira de cadeiras, onde me sentei para esperar. Tentando não demonstrar meu nervosismo, abri minha bolsa para pegar a minha agenda e fingir que estava olhando o que tinha que fazer durante o dia, foi quando um papelzinho caiu.
Peguei o post it, já sabendo quem o tinha me deixado e li.
Para minha surpresa, não era de Sophie.
Era de Jethro.
Tudo vai dar certo, Jen. Você só tem que respirar.
Não tinha assinatura, não tinha mais nada, só essa frase. O que já foi o bastante para me fazer sorrir e acalmar um pouco os batimentos do meu coração.
Abri minha pasta para colá-lo ao lado de todos os outros post its que Sophie já tinha me deixado ao longo dos anos quando me surpreendi com outro.
Dessa vez da minha filha.
Mamãe,
Seja bem-vinda de volta ao trabalho. Tudo vai dar certo!
Tenha uma ótima semana!
Xoxo
Sophie
Fiquei olhando para os dois bilhetinhos, pai e filha tinham me dito exatamente a mesma coisa, e eu duvidava que eles tinham combinado isso. Porque se tivessem, eu teria percebido a troca de olhares muda dos dois.
— Bem que Mike disse. Vocês dois são muito mais parecidos do que aparentam. – Murmurei ao colar os dois bilhetes, lado a lado, no fundo da minha pasta.
Fechei tudo e quando dei por mim, estava sendo chamada para seguir uma enfermeira, era hora da verdade.
Foram duas horas dos mais variados exames. Eu fui, literalmente, virada do avesso pelos três médicos que me avaliavam. Como era uma exigência do governo, os resultados tinham que me ser entregues antes da minha reunião com SECNAV, e, assim que fiz o último teste, me pediram para aguardar.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Paciência, Jenny. É só ter paciência! – Eu falava essa frase baixinho, como se fosse meu mantra particular. Mas não teve jeito, eu estava nervosa e agora não tinha bilhetinho, mensagem, aparição que me fizesse acalmar, então, comecei a balançar meu pé, na velocidade em que meu coração batia.
Levou meia hora, e tornaram a me chamar, para o meu próprio bem, eu nem tentei decifrar as carrancas dos médicos, apenas ergui os ombros, levantei a cabeça e os encarei da mesma forma que faço com todo e qualquer agente, político com quem tenho que tratar. Inverti a técnica e me pus no comando.
Vi os três se encarando e, por fim, a médica líder, me estendeu meus resultados.
— Você está apta a voltar ao trabalho, Diretora Shepard. E, se me permite, sua recuperação surpreendeu a todos. Não esperávamos que estivesse tão bem.
Peguei o envelope, ainda mantendo a mesma expressão, e agradeci, não sei muito bem pelo que, mas agradeci.
— Está liberada, tenha uma ótima semana.
— Para vocês também.
Quando fechei a porta atrás de mim, foi como se o peso do mundo fosse retirado dos meus ombros, e eu poderia gritar, se aqui não fosse um hospital e se eu não fosse a diretora de uma agência federal.
Acontece que eu precisava extravasar e achei o lugar ideal. O elevador. Pouco me importei que lá tinha câmeras, tudo o que fiz quando as portas se fecharam foi imitar a minha filha. Dei um pulo e gritei. A todos são permitidos uma ou outra reação exagerada de vez em quando, afinal.
Meu comportamento era tal que eu nem precisei contar para Melvin que ele ainda me aturaria por um tempo, pois assim que abri a porta traseira do carro, ele só abriu um sorriso:
— Seja bem-vinda de volta, Senhora. Para o Pentágono?
— Sim, Melvin. Mas antes, pare na primeira cafeteria que encontrar, acho que preciso de um refil.
Mais leve e muito mais disposta, fui para a minha reunião com SECNAV. A primeira fala dele, foi o pedido pelos resultados. Entreguei como se entregasse um relatório de gastos qualquer.
Quando ele leu que eu estava definitivamente de volta, veio um estranho sermão sobre segurança – a história oficial foi que eu fora sequestrada enquanto tinha saído para comprar uma lembrança para a minha filha.
Ouvi tudo sem fazer a menor objeção, como ele falava de uma situação hipotética, nem me dignei a prestar a devida atenção e, não havia motivos para que ele ficasse tão obcecado assim com a minha segurança ou com quais agentes eram os escolhidos como meu detalhamento, Jethro já tinha tomado para si essa responsabilidade meses atrás.
Após esse início, passamos realmente a falar sobre trabalho e ele me perguntou qual era o meu plano sobre o Orçamento.
— Não que o orçamento passado foi pouco, mas como você ficou quatro meses ausente de seu escritório, creio que não deva ter pensado nisso, sei que Leon Vance não mexeu nesse assunto. – Secretário Davenport começou.
— Com todo o respeito, senhor, eu não deixaria um assunto desses para última hora. Todo o planejamento financeiro do NCIS para o próximo ano foi concluído em maio, antes do incidente. E, isso pode até ser novidade para o senhor, mas não fiquei completamente afastada do NCIS pelos últimos meses, sempre fui atualizada pela minha secretária sobre os assuntos mais importantes e ainda pude atualizar o plano financeiro antes da reunião no Capitólio hoje.
— Você está me dizendo, Diretora, que tem o orçamento e o planejamento do NCIS prontos para a reunião de logo mais?
— Sim, tenho tudo pronto. Não vou chegar ao Capitólio de mãos vazias e rezar para que aprovem algo bom para o NCIS. Irei defender um aumento de verbas e já sei exatamente para onde elas devem ir e como deverão ser distribuídas de maneira que tanto os escritórios dentro do país quanto os internacionais possam trabalhar ainda melhor e mais equipados no próximo ano. E pode ter certeza, tenho meus argumentos que são completamente convincentes para sair de lá com um orçamento tão bom quanto o do FBI.
Eu não precisava desse final, mas quis me gabar, eu conhecia a agência que liderava muito bem, sabia dos pontos fortes e dos fracos, e sabia muito bem como destacar nossos feitos.
— Bem, se é assim, não vejo motivos para te segurar nesta reunião, Diretora Shepard. Tenha um ótimo retorno e que o orçamento que você está pleiteando seja aprovado. – Ele se levantou e eu imitei o seu gesto.
— Obrigada, senhor. Tenha uma ótima semana! – Peguei minha bolsa e casaco, apertei a sua mão e saí pelos corredores do Pentágono como se eu fosse a grande manda chuva de lá.
Com uma reunião tão curta, tive um espaço na agenda que não estava esperando, era o horário ideal para fazer um rápido almoço e seguir para o último compromisso do dia.
Quando desci do carro para subir a escadaria do Capitólio, tive a estranha sensação de que sairia dali com a minha terceira vitória do dia, algo raro, mas extremamente prazeroso.
Os primeiros cinquenta minutos foi de debates desnecessários, onde um senador republicano teve a brilhante ideia de que as agências federais deveriam se condensar em uma única para diminuir os gastos. Tive que segurar a risada que subiu pela minha garganta, mas vi que o Diretor do FBI não fez isso e logo ele me olhou e murmurou:
— O homem só pega em uma arma para caçar patos, nem sabe o que a palavra investigação significa, e vem com essa ideia infame. Como que conseguiram votar em um cara desses?
— Todo santo dia sai um bobo de casa. – Foi a minha resposta.
E, logo depois desse vexame em rede nacional, os orçamentos foram discutidos. A situação não estava boa, pois até a poderosa CIA estava sendo questionada sobre os valores exorbitantes de gastos do último ano.
Cada Diretor teve o seu momento de “defesa” de seus motivos para o valor que haviam mandado meses atrás, e, claro, todos eles queriam um aumento, afinal, precisávamos de novos agentes, novos equipamentos, novos treinamentos, era impossível defender o país e o povo estando em desvantagem técnica, tecnológica e de pessoal.
Quando o Diretor do CGIS terminou o seu discurso, abriam o púlpito para os votos, levando-se em consideração tudo o que havia sido dito. O lobby havia sido feito, as razões expostas, não estava mais nas minhas mãos, então tive que esperar.
Aproveitei e peguei o esboço do orçamento e comecei a racionar os custos de cada um dos setores, para a possibilidade de vir outro corte de fundos. Se isso acontecesse, eu teria que ser bem criativa no próximo ano.
Noventa minutos de muita falação e algumas surpresas – como o Deputado que sequer sabia da existência da CGIS e do NCIS. – os veredictos foram dados. E, a minha sensação de mais cedo estava certa novamente.
Abby teria o seu novo espectrômetro de massa e eu poderia, enfim, ter mais agentes nos escritórios externos.
Polidamente agradeci aos congressistas que votaram a favor do NCIS e caminhei pelo corredor ao lado do Diretor do FBI, que ainda tentava entender como foi que o NCIS saiu dessa reunião com um orçamento igual ao do Prédio Hoover.
— Simples, Diretor Cruz. Nos últimos doze meses, o NCIS resolveu nada mais do que oito casos que estavam parados no FBI por, pelo menos, dez anos. Acho que, com isso, provamos que somos tão os mais competentes que vocês. Agora, se me der licença, tenho que voltar para o Estaleiro. – Meneei a cabeça e desci a escada.
Eu não era a Rainha do Mundo, mas estava me sentindo quase como se fosse.
— Para a sua casa ou para o NCIS, senhora? – Melvin me perguntou assim que entrei no carro.
Conferi o relógio. Ainda eram 16:30. E eu precisava voltar para o prédio do NCIS só para saber se Leon havia deixado a minha sala inteira.
— Para o NCIS.
— Não seria melhor ir devagar no primeiro dia?
— Nada. Vamos para lá. Ainda tem trabalho a ser feito.
Essa era uma verdade, mas a verdade maior era outra, como Kelly iria pegar Sophie na escola, eu sabia que ainda não tinha ninguém em casa e eu não estava no humor para ficar sozinha. Passei praticamente uma semana sendo uma ermitã, não queria aquela sensação de vazio nem tão cedo.
Já dentro do Estaleiro, pedi que Melvin parasse dentro da garagem de provas. Eu ainda não podia abusar e já tinha feito isso até demais hoje, ao subir e descer as escadarias do Capitólio.
Quando o portão se abriu, estranhei não ver Abby por ali, saltitando com suas botas e maria-chiquinhas perto da sala de evidências.
— Melvin, muito obrigada! Está liberado por hoje! – Falei antes de descer.
— Não preciso pegar a Pequena?
— Não. Kelly foi buscá-la e nem quero saber o que vão aprontar! Tenha uma excelente noite! Nos vemos amanhã, às.... – Conferi a minha agenda. — Duas da tarde!
— Presumo que o agente Gibbs irá ser seu motorista essa noite e amanhã pela manhã. – Ele disse.
— Não acha que é mais do que obrigação dele? – Foi a minha resposta. — Sim, Melvin, será ele.
— Então, Senhora, até amanhã!
— Adeus!
Desci do carro, caminhei até o elevador, escaneei minha retina e esperei que ele chegasse ao andar. Quando as portas se abriram, estava vazio. Entrei, apertei o quatro e me permiti escorar na lateral para dar uma respirada. Talvez Melvin tivesse razão, eu deveria ir mais devagar nesse início... ou talvez não. Era bom estar de volta, ainda mais com as três vitórias de hoje.
Como que por milagre, o elevador subiu direto até o quarto andar. E essa era a primeira vez que eu fazia essa viagem sem nenhuma companhia.
— Será que o prédio está vazio? – Perguntei para mim mesma antes que as portas se abrissem no corredor que levava ao MTAC e, também ao meu escritório.
Não sei se foi superstição ou se foi automático, só sei que desci do elevador com o pé direito e assim que saí, tive o vislumbre da Sala do Esquadrão. Todos os times estavam lá. E, na área que era destinada à MCRT, pude ver Abby, Ducky e Palmer parados conversando do Tim, Tony e Ziva, mesmo que Jethro estivesse em sua mesa. Deveria ser um dia bem calmo para que ele aturasse essa falação tão serenamente.
Caminhei pelo corredor e antes que eu chegasse no alto da escada, onde toda a equipe poderia me ver, o elevador do andar fez seu ding e logo outros agentes saíram conversando, carregando pastas e, atrás de todos eles, eu reconheci muito bem as três pessoas que os seguiram.
Kelly, Henry e Sophie, que vinha carregando um enorme buquê de flores.
— JIBBLET!!! – Abby gritou ao vê-la.
— Oi Abbs, oi tudo mundo! – Minha filha disse.
Meio que sem querer, acabei por me apoiar no corrimão e ver a cena que acontecia no andar de baixo. Vi todos cumprimentarem os recém chegados, Kelly e Henry se apoiarem na mesa de Ziva, que estava de pé, perto de Tony na mesa de McGee e Sophie se dirigir a Jethro, entregar a ele o cartão e perguntar:
— Esse aqui tá bom?
Então aquele buquê era um presente para mim?!
— Por que você não entrega logo para sua mãe, para sabermos? – Foi a resposta de Jethro.
Foi-me impossível não abrir um sorriso, como é que eu pude pensar que ele não tinha me visto parada ali?
— Mas a Diretora ainda não chegou! – Jimmy falou.
— É Gibbs! A Jenny não passou por aqui! – Abby indicou o corredor perto das janelas. – Não é isso que estamos esperando? Que ela chegue?
Jethro só se levantou da mesa e olhou para cima. Bem para onde eu estava parada.
Todos fizeram o mesmo.
Eu só pude menear a cabeça na direção da equipe e me preparar o mais rápido possível para os abraços que estava para receber, pois Sophie e Abby subiram a escada como se estivessem em uma corrida.
— JENNY!! VOCÊ ESTÁ DE VOLTA!!! – Abby gritou ao me abraçar.
— Oi Abbs!
— Eu senti tanto a sua falta!
— Você me viu ontem, Abby.
— Eu senti a sua falta aqui!!
— Tudo bem, Abbs, eu também senti a sua falta. – Cedi e sorri ao ver o enorme sorriso.
— É tão bom ter a família toda reunida!! – Ela falava ao se afastar e dar espaço para os demais que vieram e me abraçaram também. Vi Sophie passar por mim e ficar parada, com o buquê na mão.
— Desistiu de cumprimentar a mãe, Moranguinho? – Kelly perguntou quando me abraçou, e eu não perdi dois fatos, ela me chamou de “mãe” e o seu olhar reprovador para os meus sapatos.
— Não, não desisti, mas posso esperar. Até porque não quero que o buquê se estrague.
— Justo! – Ziva disse depois que me abraçou. – Ainda mais um buquê tão bonito quanto esse!
Quando Ducky, desfez o abraço e me deu as boas-vindas ao prédio, só faltavam Jethro e Sophie para fazerem o mesmo, eu sabia que ele não faria isso aqui, e não me surpreendi quando ele parou do meu lado e colocando a sua mão nas minhas costas, me guiou até o meu escritório.
— Espere. Acho que tem um presente me esperando! – Falei quando passei perto de Sophie.
Minha filha só me estendeu o enorme buquê e quando me abraçou perguntou:
— Achou as duas surpresas na sua bolsa hoje, mamãe?
— Então vocês combinaram? – Olhei de minha Miniatura para Jethro e os dois só sorriram cúmplices. – Desde quando vocês dois fazem as coisas escondidos de mim?
Sophie deu uma risada e saiu pulando até a minha sala, quando passou por Cynthia, disse:
— Cynthia, está na hora!
— Está na hora de que? – Perguntei para a todos que me cercavam. Com a exceção de Jethro, todos aceleraram o passo e foram rindo. Ele, por sua vez, diminuiu a passada e assim que entramos no escritório de Cynthia, sussurrou no meu ouvido:
— Você pensou que Abbs, Ziver, Cynthia, Kells e a Ruiva iriam deixar a sua volta passar em branco?
— Para ser sincera, eu não pensei em nada.
— Ótimo. – Foi o que ele falou antes de abrir a porta do meu escritório e eu me deparei com o lugar todo enfeitado com balões, alguns pretos com caveirinhas e uma enorme faixa.
— SEJA BEM-VINDA!!! – Todos gritaram quando passei pela porta.
— Como você deixou que as cinco fizessem isso? – Murmurei.
— Se sozinhas já são difíceis de controlar, unidas se tornam uma forma incontrolável da natureza, Jen.
— Eu só posso dizer muito obrigada! — E foi a minha vez de passar por cada um e dar um abraço neles. – E a senhorita, nunca mais esconda nada de mim! – Dei um peteleco no nariz de Sophie que só deu aquela risada de quem estava realmente feliz.
Passamos o restante da tarde ali, conversando, celebrando a nossa família, quem olhasse de fora poderia até pensar que era o aniversário de algum dos presentes, mas não era.
Era só a minha família.
A família por quem eu achei que poderia morrer – e eu até posso. – mas que por um milagre do destino, me permitiram ficar na terra e viver o restantes dos meus dias ao lado deles.
A certa altura, a noite já tinha caído, eu estava escorada em Jethro que não tinha saído de perto de mim nem por um minuto, e tive a estranha necessidade de falar:
— Muito obrigada.
Eu senti a sua pergunta muda, ele me questionava “posso saber por que?”.
— Por essa família.
— Ainda não é sua oficialmente. – Ele murmurou enquanto nós dois observávamos Kelly e DiNozzo discutindo algo sem importância, os dois parecendo dois irmãos que brigam por qualquer coisa, tudo para ser aquele que mandava nos demais.
— Como assim? – Desviei meus olhos das crianças grandes que eram esses dois e fixei-os em Jethro.
— Você ainda não disse sim.
— Você nunca perguntou oficialmente. – Retruquei, crente que ele jamais faria a pergunta diretamente.
— Você quer se casar comigo, Jennifer Shepard?
Eu congelei onde estava, depois de quase um minuto tentando controlar o meu batimento cardíaco, consegui, finalmente, encará-lo.
— Como disse?
Eu não tinha percebido o silêncio na sala. Não percebi que todos os olhares estavam em nós. Meu foco era totalmente em Jethro, nos seus olhos azuis e no meio sorriso que ele ostentava.
— Você quer se casar comigo, Jennifer Shepard? – Ele tornou a me perguntar, dessa vez mais alto e olhando diretamente nos meus olhos.
A resposta saiu sem que eu raciocinasse, mas acho que eu nem precisava pensar muito para responder a essa pergunta.
— Sim! – E, sem notar, eu estava chorando. Chorando de alegria.
Pode até parecer um conto de fadas, mas tudo o que eu ouvi foram os sons das palmas e dos assobios que tomaram o meu escritório enquanto Jethro me beijava.
Sim... depois de dez anos, de longos dez anos, finalmente o que começou em Positano, teria um final feliz.
Um final que nenhum de nós dois pensou que teríamos quando embarcamos para aquela missão na Europa.
Mas ninguém manda no destino.
E eu, que nunca me imaginei sendo digna de um final feliz, estava tendo o meu. Porque não importa o que o futuro me reservasse, eu sabia desde já, tinha ao meu lado a melhor companhia, a melhor ajuda. A da minha família. E não precisava de mais nada!
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