Notas iniciais
Espero que gostem :D

Meu Querido,

Eu sinto a sua falta.

E gostaria, muito mesmo, que apenas esta frase fosse o suficiente. O suficiente não apenas para você, mas para mim também. Que ela fosse o suficiente para mim, como incentivo para engavetar tudo o que nós já passamos juntos e, com a mesma facilidade que o Sol abre caminho e afugenta o céu negro, seguir em frente. Queria que ela fosse o suficiente para mim, e que, com isso, eu pudesse apenas voltar a desfrutar das tardes alegres com as outras mulheres ou apreciar qualquer outra coisa que não fosse a imensidão do mar.

É, desse mar sujo, como você já deve saber. Não que eu esteja me referindo de porções dessa sujeira comum, que nos enoja com sacos de papel que se enroscam sob nossas pernas, mas daquela inerente a qualquer um capaz de separar duas pessoas que, um dia, prometeram o futuro uma para a outra. E isso, tenho certeza, o mar faz aos montes.

Ainda me lembro de você, e todos aqueles outros rapazes – alguns deles nem barba tinham! –, amontoados no píer, com olhos avermelhados e braços agitados, acenando para mães, irmãs e pretendentes até o último segundo possível. As fardas pareciam grandes demais em cada um de vocês, sem exceção, mas nenhuma daquelas pessoas importantes das quais ouvimos, juntos, falar no rádio, parecia se importar com isso. Para eles, aquele era apenas o preço para salvar a humanidade.

Hoje, me pergunto se eles alcançaram seus objetivos. Até se era mesmo isso que eles queriam. Seus nomes vão estar gravados nos livros de História daqui a gerações e mais gerações, mas e o seu, Meu Querido? Mas, afinal, quem é que ergueu os arcos de César?

Me lembro das noites infindáveis com as outras mulheres. Dos olhares vazios, dos ossos proeminentes, dos soluços. Eu sentia tanta sua falta, tanta que você nem poderia imaginar. Sentia falta das danças quase flutuadas nos salões de baile, dos sussurros sensuais a beira do ouvido, da alegria compartilhada quando nossos corpos se uniam como se fossem um só. Agora, quando estou aqui, sentada sobre a rocha áspera, sinto saudades até mesmo das caminhadas descalças e quase ingênuas a beira-mar.

Você sempre gostou muito do mar, me lembro disso também. Gostava de passar horas e mais horas em um barco com seus irmãos mais novos, eu lembro. Dizia que isso libertava o “espírito explorador” que existia em você. Imagino como deve ter sido difícil encarar a água sem fim quando estava naquele navio cheio de rapazes que jamais tiveram a intenção de se autoproclamarem soldados. Não é algo que gosto de imaginar, mas também não é algo que consiga evitar.

As coisas não estavam boas por aqui também. Lembro de sentir falta da manteiga, do açúcar e da manteiga... Até mesmo dos meus perfumes, por mais frívolo que isso possa soar agora. Eu não hesitaria um segundo sequer em quebra-los, todos aqueles vidros, se houvesse a possibilidade, ainda que ínfima, de sentir o seu cheiro mais uma vez, mesmo que apenas por um instante.

Imagino que é por isso que fico sentada aqui, esse tempo todo. Talvez ainda nutra esperanças de que, um dia, o mar te traga de volta para mim. Com aquele sorrisinho elegante e o cabelo exageradamente penteado, tenho esperança, mesmo que, a cada segundo que se passe, as chances só diminuam ainda mais.

Você gostava de Homero e todos aqueles outros escritores gregos. Lembro do encantamento que estampava seu olhar quando passava os olhos pelos livros amarelados da biblioteca, com aquela expressão de quem queria, um dia, viver uma grande aventura como aquelas. Enfrentar a fúria da natureza, lutar contra deuses, se tornar um herói... Ás vezes, tento criar em minha cabeça uma imagem sua não encolhido e tremendo entre as trincheiras, mas alegre por ter a oportunidade de defender o seu lar. Não é algo que consiga imaginar. Eu sinto muito por isso, mas esse não é o tipo de coisa que você faria. Não te culpo por isso.

Culpo o mar. Há momentos em que grito, choro e esperneio para ele, como se ele pudesse mesmo me ouvir. Mais que isso, como se pudesse me ajudar. A essa altura, duvido muito. Dizem que eu deveria ficar feliz por tudo ter acabado e por você ter encontrado a paz, seja lá onde você esteja agora, mas não me conformo com isso.

Teria sido mais fácil se houvesse um corpo, imagino. Se eu pudesse simplesmente me sentar ao seu lado e me despedir. Mas eu nem mesmo sei onde você está nesse momento. Os oficiais, aqueles que vestiam seus uniformes com toda pompa do mundo, disseram que não poupariam esforços para te encontrar, mas não sei se eles falavam a verdade. Não sei nem se eles têm o mesmo empenho que eu – imagino que não.

Isso é tão injusto, não é?

É horrível saber que não há nada que eu realmente possa fazer agora. Que tudo o que posso fazer agora é me agarrar a essas memórias, que elas são tudo o que eu tenho. Tudo o que nós temos de você. Não mais as suas piadinhas infames, não mais os seus comentários espirituosos, não mais os seus raros, tão raros, momentos enfezados. Pior, que não teremos – que eu não terei! – mais a sua companhia.

Eu não sou forte o suficiente para superar isso, Querido. Não sou.

Então, eu apenas passo os dias aqui.

Sentada, sozinha e agoniante, sobre uma rocha áspera e desconfortável.

Como uma sereia de Ulisses, eu fico aqui, clamando para que o mar traga de volta aquele que mais amei em minha vida.

Notas finais
E então, o que acharam? :D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!