Querida, amada, subestimada e futura Afrodite,

Aqui lhe falo sobre algo que diz respeito à nós duas (ou deveria dizer à mim mesma?). Essa é uma carta de amor que devia ter escrito há muito tempo, uma carta para ler a cada vez que alguém viesse até nosso refúgio e roubasse um pouco de nossa perseverança para continuarmos vivas.

Ora querida eu do futuro, não é preciso ter vergonha de atos passados e que provavelmente fazem com que você queira assassinar a essa que lhe escreve nesse exato momento. Mas convenhamos? Nós sabemos que nunca fomos boas em tomar decisões que não envolvesse o amor, tanto aquele que damos quanto aquele que recebemos. Nunca foi nossa praia resolver problemas que não envolvessem amor, fosse o próprio ou coletivo. Basta admitir e prometo que as coisas ficarão melhores.

Em quantas ruínas você se meteu antes de perceber a caverna de pedras preciosas que você mesma é?

Não deve ser novidade nenhuma o quão incrível, poderosa e controladora (sim, controladora) você é, mas o que você anda fazendo com tudo isso? O que anda fazendo de si mesma que não tem tempo para procurar o amor? Não, querida eu, não estou dizendo de amor com outra pessoa. Onde está o tempo para o amor próprio que você dizia tanto que iria procurar, e que tenho certeza que enrolou até o dia de hoje para finalmente criar vergonha na cara e ser mais respeitosa consigo mesma?

Vamos Afrodite. Não é correndo atrás de Ares ou Hefesto ou Atena que você vai conseguir encontrar aquilo que falta dentro do teu peito. Em quantas pessoas terá que se segurar até entender que o único apoio que vai estar o tempo todo do seu lado é você mesma? Quantas vezes terá que quebrar a cara com pessoas que dizem estar ao seu lado, mas que esperam pouco tempo para enfiar uma faca dentro de seus olhos, rasgando suas pupilas e lhe impedindo de enxergar o ser incrível que você é?

Quantas vezes, Afrodite? Quantas até que você finalmente aprenda que seu lugar é ao seu próprio lado?

Sei que talvez eu esteja sendo um pouco dura, mas é a realidade. Você se subestima demais e quando entender que tudo vai de acordo com o seu querer, tenho a plena certeza e consciência de que nada vai lhe impedir de ser e conseguir o que quer.

Você é imparável, insubstituível e incrível. Acho que, não importa quantas cartas escreva e quantas vezes diga isso em frente ao espelho, você nunca se dará conta da imensidão que se esconde em seus olhos multicoloridos e que demonstram tanto amor e apreciação pelo lado bom da vida, aquele lado que se esconde na parte ruim do amor.

Ah, o amor... tantas facetas e tantas coisas para se dizer sobre o amor. Nem mesmo você, a especialista nele, conseguiria escrever sobre algo tão bonito, tão complexo, tão completo, tão infinito, tão impressionante quanto o amor. Nem mesmo eu, sua versão mais atualizada e mais aceitável até agora, consigo escrever sobre isso, já que todo o conceito de amor é impossível de ser descrito em apenas algumas linhas e algumas folhas de papel. Levaria anos e anos para escrever sobre o amor.

Ah, o amor... onde deveria parar com isso mesmo?

Acho que é sobre isso, não? Onde o amor vai nos levar e onde vamos parar? Quais são nossos limites quando o assunto é amar algo ou alguém? Vamos longe, até a hora em que nos perdemos tanto em amores que nos levam a uma rua sem saída que não temos ideia de como voltar para nós mesmos. O amor faz com que nos percamos, dando voltas e mais voltas até que uma parede nos parece levemente familiar...

É a parede que nos fez perder a princípio. A diferença é que tudo ao redor mudou, fazendo com que nos questionemos o que aconteceu enquanto estávamos andando pelas estradas feitas de falso amor. O que perdemos enquanto estávamos fora? Quem veio e quem se foi? Quem mudou os móveis de lugar?

Pior ainda: quem nos expulsou e colocou nossas malas para fora?

Nunca saberemos, Afrodite. Porque estávamos ocupadas demais nos preocupando com quem nos amava e quem nos ama até agora, quem está ao nosso lado por amor e quem está ao nosso lado por interesses gerais. E de verdade? Está na hora disso acabar.

Não estamos, e nem estaremos por muito tempo, prontas para receber visitas. É hora de nos priorizarmos e fecharmos as portas para outras pessoas, contar à todos que a hospedaria se encontra fechada por tempo indeterminado até que estejamos limpas o suficiente para receber visitas, sejam elas temporárias ou por tempo indeterminado.

Precisamos de nós mesmas, Afrodite. É difícil dizer isso, mas é hora de encontrarmos o subconsciente que foi perdido há tempos por amores que nos mataram por dentro e que nos fizeram sair de casa para que dessem uma festa a qual não fomos convidadas. Precisamos dar a nossa própria festa, para chorarmos deitadas no chão, pularmos nos sofás e nas camas e bebermos até que tudo esteja como um mero borrão.

E precisamos disso para nós mesmas, não para agradar qualquer um que entre e ache que tem o direito de derrubar nossa casa para reconstruir algo no lugar. O reino que um dia construímos e que hoje se encontra destruído precisa ser reerguido pedra por pedra, sentimento por sentimento, até que estejamos revitalizadas.

E o que isso quer dizer?

Quer dizer que é hora de deixar o passado. Soltar o pulso daqueles que soltaram nossas mãos e seguir em frente assim como todas fizeram, fazem e farão. Não faz mais sentido correr atrás de algo que não vale a pena como fez por uma década inteira.

Você precisa se libertar das amarras que te puxam para o fundo do poço e fazer uma corda com elas. O único caminho possível (e o impossível) é para cima. Está na hora, Afrodite.

Solte a mão de Ares, Atena, Hefesto. Deixe que eles se vão e perceba o quão forte você é sozinha, independente do que digam ou pensem. É a hora de você se priorizar e se por acima de todos. Esse processo é doloroso, eu sei, mas o que custa tentar pelo menos uma vez na vida ter seu próprio bem estar como prioridade, e não o dos outros?

Todos dizem que você é o incômodo, a pedra no caminho. Sabemos que isso não é verdade, mas...

Está na hora de ser.

Atenciosamente,

Afrodite.

Notas finais
Olá leitor (a)!

Esta é uma carta de amor. Ele está escondido nos mínimos detalhes, por onde quer que você leia. Qualquer um pode ser Afrodite, basta estar procurando pelo amor próprio.

Até a próxima!
Afrodite
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!