Carta Para Uma Suicida
1 Carta Para Uma Suicida
Querida,
Sei que quase não conversávamos quando ainda estava viva, e quando nos falávamos, falávamos sobre assuntos banais.
E agora, que já não está mais conosco, quero muito falar com você. Qual o meu problema?
Isso é ridículo. Desculpe, mas o que você fez foi ridículo. Idiota. Ingênuo. Tudo.
Eu amava você, éramos amigos desde os sete anos, fizemos aulas juntos, cantávamos juntos, éramos tudo juntos. Éramos perfeitos juntos, por mais que nunca estivéssemos realmente juntos.
Eu sempre me pergunto o porquê dos problemas começarem na adolescência, qual é! Você não era gorda, era baixinha, e isso lhe dava um toque fofo, isso soou gay, e sim, eu lembro quando você falava isso logo após de dizer ou ouvir uma frase “esquisita”. Além, que eu sabia muito bem daquela “garota” ter continuado na escola, ela adorava te atormentar, eu percebia. E você deixava, por que você deixava? Eu nunca entendi porque você deixava. Por que você deixava?
Lembro-me também dos seus desenhos, era tão incríveis, eu os elogiava, e você corava, você quase nunca corava! Eu, particularmente, me sentia orgulhoso, involuntariamente, mas se me sentia.
Depois de três anos eu estou aqui me lamentando, isso é muito idiota, eu com dezenove anos, pensando que você estaria fazendo aniversário quatro dias depois de mim, ou seja, hoje, sou o único em volta de seu tumulo, ah Deus, você nem imagina que horas são. Isso mesmo, não passa nem das sete horas da manhã, praticamente, estou morrendo de frio.
Lembro como seu rosto se iluminava quando a professora de história chegava, nunca entendi seu amor por história, você sempre foi a única que gostava daquela aula. E a única que decorava tudo que a professora passava. Mas nunca respondia oralmente as questões. E isso, aos poucos, te levou a tirar notas ruins, a falta de participação na aula, o esquecimento de trabalhos, esquecimento de livros e cadernos, minha mãe sempre me perguntava quando te enxergava “O que aquela garota tem? Ela é depressiva?”, eu nunca respondia, como respondê-la se não tinha a resposta?
Ah, e quando você pintou seu cabelo de azul, tinha catorze anos, lembro que ia lá em casa praticar comigo teclado e flauta, minha mãe quase teve um ataque do coração quando fostes embora por causa do tom de azul que escolhera, sempre que me recordo disso, eu rio, mas hoje, não têm mais a graça de antigamente.
Estou na faculdade de música, claro, você costumava rir e tentar adivinhar o que faculdade eu faria, sempre dava música ou pedagogia, e você? Que faculdade iria escolher? Duvido muito que seja pedagogia, jurei a mim mesmo nunca ter aulas com você. Acho que seria advocacia, música ou arquitetura, tens talento para tudo.
Estou sentado em cima de seu tumulo, isso é esquisito, devo admitir, há várias flores, cartas e fotos espalhadas em cima dele, lembro que sua amiga de infância voltou pro colégio que estudavam aos doze anos, ela chorou uma semana inteira. Por sua culpa. Ela alegava não saber sobre sua morte. Todos acreditaram, claro. Acho que sua mãe não lembrou dela, por estarem afastadas por muito tempo.
Quer ouvir algo? Eu posso tocar uma música para você, mas terei de parar de escrever. Bem, irei tocar, não quero mais ficar aqui.
Abraços,
Eu.
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