Carta Para Minha Ex-Melhor Amiga
1 Somente Umas Cartas
Notas iniciais
“Ooi Ana, acho que você já sabe quem está escrevendo a carta não é? Provavelmente a sua mãe comentou que se esbarrou comigo na rua bem em frente do mercadinho aonde íamos depois da aula almoçar, você se lembra? Bom, eu espero que se lembre tão bem quanto eu.
Eu me lembro uma vez que você começou a rir tanto ao lembrar do cara que eu fiquei na festa da Michelly – Você o apelidou de “O Tatu” já que em todas as aulas de química que você olhava pra ele, ele estava “limpando o salão” – que chegou a sair o refrigerante que estava tomando pelo seu nariz, essa história marcou não é?
Eu não quero que o que eu escrevi a seguir te deixe irritada ou com peso na consciência mas sinceramente falando (Ou melhor, escrevendo) eu imagino como deve ser irritante pra você todos os dias ver o meu rosto de zonza na escola (Sim, me contaram o que você começou a falar de mim assim que a nossas amizade acabou), mas por incrível que pareça eu não consigo sentir raiva de você ou até mesmo te odiar por isso, eu nunca me canso de ouvir a sua risada de longe, eu começo a rir junto, eu sinto como se a gente estivesse rindo juntas de novo, ok, ok eu sei que pareço uma criança
E olha que fato "engraçado": Assim que a gente parou de se falar um monte de gente chegou pra mim falando mal de você como se eu te odiasse e nunca tivesse passado incríveis 7 anos ao seu lado, obviamente eu te defendia, eu até fiquei meio excluída na sala enquanto você já estava se enturmando, foi bom saber que você conseguiu arranjar uma nova amiga, mas está difícil arranjar uma substituta não é? Eu sei como é, por mais que eu conheça várias garotas engraçadas, eu nunca confio nelas igual eu confiava em você, e eu sei que você me entende porque já vi isso acontecendo com você, mas relaxa que em algum momento isso acaba e então poderemos enterrar nossos medos.
Ah, e acabei de lembrar do assunto pelo qual comecei a te escrever a carta, a primeira coisa que a sua mãe comentou é que eu não ando passando por lá ultimamente, e estava com saudades das nossas risadas juntas, avise para ela que eu também estou com saudades da comida maravilhosa que só ela sabia fazer – Não, não foi por isso que eu comecei a escrever a carta – e ela também comentou que você continua namorando o Ygor e anda muito chateada com ele, amiga (Acredito que nunca vou perder o costume de te chamar assim) você já deve estar cansada de me ver repetir isso mas se você não está feliz com ele é porque ele não é o cara certo, se fosse você provavelmente estaria vendo um filme com ele não lendo essa carta toda deprimida ai, não precisa se preocupar se terminar o namoro, se vai ficar sozinha etc, ele é que vai sair perdendo, não você, daqui aparece outro só pra você.
Algumas coisas são estranhas né? Por exemplo, o fato de que quando erámos mais novas acreditávamos que iriamos nos casar com gêmeos, moraríamos juntas, você seria madrinha do meu filho e eu madrinha do seu, iriamos ser vizinhas, íamos ter vários cachorros, e caso você tivesse uma menina e eu um menino (Ou ao contrário) eles iriam se casar, apesar de que se fosse dois (duas) meninos (as) não teria nenhum problema porque também iriam se casar.
Se em algum momento você já se perguntou como estou agora vou te responder, eu estou bem, eu conheci um cara, foi logo após que a gente parou de se falar, lembra que você sempre me disse que as coisas acontecem por algum motivo? E foi exatamente isso que me disse antes da nossa amizade acabar? Bom então, fez sentido depois de um tempo pois ele me ajudou muito naquele momento que eu estava triste (Eu estava pior que as suas crises de TPM), ficamos bem próximos e quando vi já estávamos comemorando um ano de namoro, pois é, já paramos de ser amigas a mais de um ano, eu já posso dizer que estou pronta pra um apocalipse (Se é que isso já não é um).
Só pra terminar a carta, eu vou te dizer das coisas da nossa amizade que eu mais sinto falta: Nossos sinais para nos comunicarmos durante as aulas já que os professores nos separavam por conta de muitas conversas; quando a gente sentava em dupla pra fazer o trabalho e acabávamos falando sobre séries, garotos, etc; quando você ficava tocando o seu cotovelo para que eu olhasse ao redor e visse qual garoto bonito estava passando e entender o que você queria dizer; quando a prova era muito difícil e você vinha até a minha casa e me ajudava a estudar; quando você me chamava de Júúh com uma cara de cachorro abandonado só pra mim te ajudar nos trabalhos; e uma coisa bem importante e essencial pra nossa amizade: Sinto falta de você, e claro, a lista vai seguindo mas isso não é pra ser uma carta do tamanho dos livros que a Professora Busanfa mandava – Ou melhor, obrigava – a gente a ler mas so buscávamos o resumo do livro na internet e tirávamos 8,0.
Eu não sei por qual razão eu estou escrevendo essa carta, (Garanto que ela não é a primeira e provavelmente não será a última, se você, Ana, está lendo essa carta espero que você saiba que eu pensei muitas vezes em nunca te entregar, e se você não esta lendo.. Bom, é o provável mesmo) acho que no fundo eu só precisava desabafar pra você, te aconselhar, imaginar a sua reação a cada palavra que eu estou escrevendo e pra te perguntar se.. Você quer voltar a ser a minha amiga? A melhor amiga do mundo? Eu cansei de procurar por outra sendo que eu tenho uma bem aqui.
P.S: Eu te amo.
P.S²: Você sabe que a única maneira de começar um relacionamento bom é terminando com o lixo podre que você chama de namorado e permitir outro cara entrar no seu coração (Mas claro, com a nossa regrinha dos 10 mandamentos).
P.S³: Volta a ser a minha amiga, por favoor?
* * * * * *
— Júliaaaa – Grita a minha mãe da sala de jantar logo após que eu termino de escrever a carta pra Ana.
— O que? – Grito de volta.
— A janta está pronta – A minha mãe grita mais alto ainda, provavelmente não esta em um bom humor. Pego a carta e dou uma lida rápida.
Você é uma imbecil, por que você escreveu isso? E aquilo? Meu Deus Júlia, por que você é assim? Aceita que já acabou a amizade.
Meu subconsciente grita comigo de novo, amasso a carta e jogo ela dentro de uma gaveta com várias outras cartas desse mesmo estilo, eu venho acumulando desde que a nossa amizade acabou, acho que vou ter que começar a aceitar essa realidade, que ela nunca vai conhecer o meu namorado e falar o que acha dele, nunca vai conhecer minha “amiga” e falar mal dela, nunca mais vou ouvir ela rindo por algo que eu disse sem zombar de mim. Por algum motivo ela ficou diferente comigo quando acabou a amizade, me humilhando essas coisas, parecia que ela estava tentando mostrar que esta super bem quando eu sei que ela esta mal.
Encarei todas aquelas cartas por um tempo refletindo e fechei a gaveta, em algum momento eu vou conseguir me desfazer de todas elas. Desci das escadas com um abaixa astral terrível, estava chovendo lá fora, o céu totalmente cinza com várias nuvens negras, pareciam poeiras de fábricas e também parecia que era o reflexo de como eu estava me sentindo naquele momento. Assim que pisei no chão da sala vi o meu irmão no chão brincando com os seus brinquedos e senti o cheiro da comida da mamãe, nem aquilo estava me animando naquele momento.
— Vem logo Júlia – Gritou a minha mãe de novo.
— Já estou aqui – Gritei alto o suficiente pra ela ouvir, olhei pra janela, levemente embaçada, conseguia ver direitinho a chuva forte bater na árvore (Que temos ao lado da casa) e o galho dela abaixar e depois levantar novamente nesse ciclo que parecia ser infinito.
— Vem aqui João – Chamou o meu pai, so ele consegue fazer ele sair dos brinquedos. Ouvi a campainha tocar.
— O Caleb vai vir jantar aqui hoje? – Perguntou o meu pai me olhando com ciúmes nos olhos, amo esse olhar de pai super-protetor.
— Não que eu saiba – Disse indo em direção da porta e abrindo com cuidado olhando quem era pelo canto da porta, se fosse o Caleb iria subir rápido e me trocar já que estou de pijama a tarde toda, se fosse sei lá quem provavelmente também iria me trocar mas não na mesma velocidade se fosse o Caleb.
Abri a porta com cuidado e vi uma garota com a pele clara, olhos tristes da cor azul cheios de lágrimas me encaravam, os cabelos negros com a franja comprida presa atras da cabeça, unhas vermelhas, uma touca cinza, jaqueta de couro preta, calça jeans, um tênis de esportes e uma blusa branca com uma caveira preta, ela estava toda ensopada, a Ana estava ensopada, estava na minha frente, será que ela estava caminhando por aqui quando começou a cair a chuva e ela só veio ficar aqui um pouco? Será que eu estou alucinando? Milhões de pensamentos passaram pela minha cabeça mas no final eu só consegui sentir ela me abraçando e eu ficando igualmente ensopada.
— Me perdoa? – Ouvi ela perguntar choramingando.
— Pelo o que? – Disse sentindo as lágrimas subindo, um ano sem esse abraço, que falta fazia, abracei ela forte igual ela estava me abraçando.
— Por ter sido uma idiota – Choramos juntas enquanto os meus pais e o meu irmãozinho ficavam nos encarando, eles não sabiam que paramos de nos falar por um ano, eu que fiquei enrolado o tempo todo, idiota? Eu sei.
Chorei, despenquei, ela também, ficamos pedindo desculpas e falando tudo o que sofremos, meus pais e meu irmão não entendia nada, mas a gente estava se entendendo.
A minha mãe pediu para todos irem para a cozinha enquanto eu estava sozinha com a Ana, acho que ela entendeu o que estávamos dizendo, mulheres entendem mulheres. Mas logo depois ela chegou com duas toalhas e colocou nas nossas cabeças.
— Se sequem ou vão ficar resfriadas — Ela disse e piscou sorrindo, logo em seguida saindo. Subimos as escadas correndo em direção do meu quarto, tinha muito com o que falar com ela
* * * * * *
— Eu li todas as cartas que você escreveu – Disse a Ana me devolvendo um saco de plástico com todas as cartas que já escrevi.
— Também li as suas – Disse devolvendo pra ela.
— E pode ficar com as cartas – Dissemos no mesmo momento e começamos a rir.
Ela cutucou o ombro direito e depois fingiu que não era nada, olhei ao redor e tinha um garoto com o cabelo preto parecido com os da Ana com os olhos verdes, moreno, alto, forte, um Deus em pessoa, e o melhor: vindo em nossa direção.
— Eu estou comprometida — Disse levantando a mão e mostrando um anel que o Caleb me deu, depois disso sai de fininho pra ela poder falar com ele, olhei os dois de longe segurando um riso, ela estava vermelha e logicamente com raiva de mim, mas sei que também estava agradecida.

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