Carta Para Gabriel
1 Capítulo Único - Carta para Gabriel
Notas iniciais
Essa One shot se passa antes da transformação da Esme.
Em forma de carta, mostra detalhes do que ela passou até tomar a decisão de se atirar do penhasco.
“Meu Pequeno Gabriel...
Tudo o que fiz foi para nos proteger e dar-lhe a chance de ter uma infância feliz. Mesmo que eu tenha ficado surpresa ao descobrir a gravidez, te amei incondicionalmente desde o primeiro instante. Te carreguei, alimentei, cantei, e conversei com você por nove meses, aguardando ansiosa o momento em que você estaria em meus braços.
Me desdobrei para dar conta do trabalho como professora, mantendo meu disfarce como uma das viúvas da guerra, e para cuidar de minha gravidez, montar o enxoval, que apesar de simples, não deixa de ser lindo, e também escolher um nome gracioso para você, meu bebê.
Seu nome foi escolhido em homenagem a alguém que nunca pude esquecer. Um médico que cuidou de mim e que tinha a face de um anjo. Nunca descobri seu nome, sei apenas que seu sobrenome é Cullen. Assim, escolhi para você o nome de um anjo: Gabriel, que significa “Deus é meu protetor”.
O dia de seu nascimento foi o mais maravilhoso de toda a minha vida. A dor das contrações e as horas em trabalho de parto não são nada, se comparadas à emoção que senti ao ouvi-lo chorar pela primeira vez, ao aninhá-lo em meus braços e sentir seu cheirinho. A emoção ao ver suas mãos e pés tão perfeitos, seu rostinho inchado e delicado, a boca pequenininha fazendo um biquinho ao procurar por meu seio, e senti-lo mamar, sugando com vontade. A emoção de acariciar seus cabelos castanhos tão macios, e desenhar com a ponta de meu dedo o contorno de suas orelhas pequeninas. Sentir um amor tão grande me invadir e transbordar em forma de lágrimas por meus olhos. Deixar de ser apenas uma mulher e me tornar mãe. A sua mãe.
Os dias seguintes não foram fáceis. Além de estar me recuperando do parto, senti que algo estava errado. Você estava doente. Tinha muita febre, estava choroso, com muita tosse, não se alimentava direito... Senti a angústia crescer em meu peito dia após dia em que vi seu estado piorar, e por saber que eu não tinha como aliviar seu sofrimento. Nossa falta de condições era um empecilho, não havia como levá-lo ao hospital, e os visinhos mais próximos estavam a pouco mais de 1 km daqui.
No dia em que você completou duas semanas de vida, a Sra. Tillman, uma senhora muito bondosa, apareceu para uma visita. Ao ver o seu estado e o meu desespero, correu de volta para casa buscar por socorro. Ela disse que chamaria o marido e viriam nos buscar com uma carroça. Me aconselhou a agasalhá-lo bem para que não pegasse sereno, e também que eu usasse um lenço sobre a cabeça, para evitar complicações neste período de resguardo.
Enquanto aguardava pelo retorno da Sra. Tillman, permaneci com você em meus braços, enquanto entoava uma cantiga de ninar. Senti sua respiração ficando mais lenta a cada minuto, e a angústia em meu peito crescendo. Ao final de trinta minutos, você já não respirava e meu mundo desmoronava sob meus pés. Senti as lágrimas banharem meu rosto, molharem minhas roupas e umedecerem seus delicados cabelos. Ajoelhei-me e roguei a Deus por um milagre, que ele trouxesse você de volta para mim. Nada aconteceu.
Ao final de mais trinta minutos, a Sra. Tillman retornou. Tarde demais. Vendo meu desespero, ela me amparou e se ofereceu para cuidar das questões fúnebres. Agradeci o auxílio, e ainda aninhando seu corpinho sem vida, me dirigi ao nosso quarto e deitei-me na cama. Permaneci assim por muitas horas, entregue ao sofrimento, à dor, às lágrimas...
Já amanhecia quando ela retornou e disse que estava tudo arranjado para o enterro. Obriguei-me a levantar da cama. Deitei você em seu bercinho e tentei me arrumar para o enterro. Encontrei um vestido preto no fundo do armário e também um sapato e um véu da mesma cor. Vesti tudo o mais rápido que pude, prendi meus cabelos em um coque e segui para um das tarefas mais difíceis: vestir você pela última vez.
Preparei um banho morno e lavei seu corpinho já frio. Com uma toalha macia, o sequei delicadamente. Coloquei as fraldas e vesti em você um macacão azul bebê, o meu favorito. Estava tão lindo, o rostinho sereno, tal qual um pequeno anjo. Meu anjo Gabriel.
O Sr. e a Sra. Tillman me aguardavam do lado de fora da casa. Acho que estavam tentando respeitar minha dor.
Embarquei na carroça com você em meus braços, e seguimos para o cemitério. Ao chegarmos, avistei alguns de meus alunos acompanhados de seus pais. Vieram prestar solidariedade. O padre também nos aguardava. A Sra. Tillman tentou me convencer a deitá-lo no pequeno caixão branco para que o padre pudesse começar a missa, mas me neguei a largá-lo. Não deixaria ninguém tirá-lo de mim ainda. Vi os olhares de pena nos rostos das pessoas, mas não me importei. Tudo o que eu queria era tê-lo em meus braços pelo máximo de tempo possível.
Quando a missa chegava ao fim, não tive outra opção. Beijei suas bochechinhas macias e sua testa, e então deitei você no pequeno caixão. Foi a visão mais cruel que tive na vida. As lágrimas voltaram a escorrer por meu rosto, e me senti só. Vazia. Morta.
Ao fim de tudo, depositei sobre seu túmulo de terra ainda úmida uma única rosa amarela, e pendurei na cruz onde lia-se “Gabriel Evenson” o terço que ganhei de minha avó.
O Sr. e a Sra. Tillman me trouxeram de volta para nossa casa. Ela até se ofereceu para passar a noite aqui comigo, mas recusei. Tudo o que eu quero é ficar com suas lembranças, meu amorzinho.
A noite chegou e o cansaço tomou meu corpo. Mesmo lutando contra o sono, acabei por adormecer, abraçada às suas roupinhas, sentindo seu cheirinho. O sono foi repleto de imagens suas, e acordei várias vezes durante a noite à soluçar. Foram horas longas e dolorosas.
O raiar de um novo dia me trouxe uma última chama de esperança. Ainda vestida com a roupa do dia anterior, busquei em minha gaveta de materiais uma folha de papel e um lápis. Com isso em mãos, coloquei-me uma última vez à caminho do cemitério. Foram longas horas de caminhada para chegar até aqui.
Sentada ao lado de seu túmulo, tento conter as lágrimas para lhe escrever esta carta de despedida. Sei que provavelmente não me encontrarei com você no Céu, meu amorzinho. Mas espero poder, ao menos, aplacar essa dor que rasga meu peito.
Meu bebê, meu Gabriel, peço que me perdoe pelo que estou prestes a fazer. Daqui partirei rumo aos penhascos. Espero encontrar lá no fundo um pouco de paz. Só quero que saibas que te amo, e amarei para sempre, com todas as minhas forças.
Adeus meu anjinho!
Com todo amor de sua mãe,
Esme Anne Evenson.”
Notas finais
Peço encarecidamente, fazendo até a carinha com olhinhos pidões do Gato de Botas, que comentem caso tenham gostado (ou não) da história, ok?
Bjokas...
PS: Antes que eu me esqueça, Evenson era o sobrenome de casada da Esme, ok?
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