Carta De Um Jovem Suicida
1 Carta de Um Jovem Suicida
Notas iniciais
Essa historia e meio que baseada em um sonho que eu tive porque eu tava com essas ideias de suicidio, e esse foi um sonho que me deu medo, mas foi uma resposta que era melhor esperar...
Recomendo vocês lerem enquanto escutam isso http://www.youtube.com/watch?v=Kw2Ic_2XdVQ [Good Enough - Evanescence] e essa no final http://www.youtube.com/watch?v=Vtp-p7qFI2I [Be Still - The fray]
– José
Na minha terceira tentativa, ele atendeu...
– Alô, Roni? – falei com uma voz rouca e muito falha, tinha certeza que estava chorando.
As lagrimas escorriam pela minha face como correntes de lava fervente, deixando um caminho molhado quente nas minhas bochechas rosadas. Elas eram gotas de veneno que corroíam minha pele tanto quanto minha alma.
– Ah, oi – deu um longo bocejo e voltou a falar com uma voz rouca e irritada, tinha acabado de acorda-lo – Ainda é 3 horas da manha, o que você quer?
– Eu... Eu... – a angustia e o medo não permitiam que minha garganta abrisse para falar nada, ainda podia respirar, mas ainda não estava bom.
– Eu o que porra? Fala logo.
– Eu... Eu te amo.
–-- x ---
- Roni
– Eu também te amo.
Foi essa a resposta que eu dei.
Não tive certeza do que era ou do que se tratava, e se quer quem era, apenas uma leve ideia, mas algo me dizia que era isso que eu deveria falar e logo depois de ouvir um barulho estridente eu não tive certeza mais de nada, apenas deixei o telefone de volta no criado mudo ao lado da minha cama e voltei a dormir.
Infelizmente acordei com um pesadelo terrível, algo inimaginável, meu melhor amigo tinha se matado. Não era o tipo de sonho que eu queria para uma manha de sábado, mas logo ignorei e segui para o banheiro, tomei banho e escovei os dentes, depois me dirigi até a cozinha, e comi leite com cereal, não estava com muita fome.
Voltei para o meu quarto e resolvi usar o computador. Meus pais não estavam em casa, odiava quando isso acontecia, me sentia vazio, como se apenas existisse eu no mundo, e pra piorar estava com um mau pressentimento, mas suponho que o sonho me deixara assim, era melhor esquecer isso.
Olhei para o relógio do computador, 09h59min, eu não sei por que, mas costumo odiar essa hora, acho que ela me dar azar. Entrei no facebook, e fiquei vendo as atualizações da timeline, vi varias pessoas com uma foto preta e com o nome LUTO em branco. Fiquei perguntando a mim mesmo quem havia morrido. Adiantei algumas postagens, até achar a de uma menina, chamada Edyllane e dizia:
“Pois é José, sabe quando você disse que nós ficaríamos juntos para sempre? Eu sinto muito por isso não poder mais acontecer e ainda não consigo acreditar que você se foi, não posso crer que você não esta aqui e agora. Aposto que se você soubesse a dor que eu e os outros estaríamos sentindo você não teria feito isso, apenas não consigo entender... Nunca pensei que por trás de seus sorrisos podiam existir tristezas, mas foi olhando nos seus olhos que eu pude perceber que tinha algo errado, e que por minha angustia eu tive medo de perguntar, talvez eu já soubesse o que era e talvez por isso eu me afastei. Eu ainda tinha tanto para falar contigo, tantas aventuras para percorrer, tantos beijos e abraços perdidos que agora eu apenas posso dizer que sinto saudade disso tudo, nem pude ao menos dar meu ultimo adeus a você, Ao inesquecível melhor amigo José Elias”
Tive que reler o texto mais duas vezes para poder entender e a ficha cair. Alguém realmente tinha morrido, mais que alguém, o meu melhor amigo... Fiquei passando de postagem em postagem no perfil dele, todas tristes e todas eram dos amigos que o abandonaram por medo... Estava me sentindo um tolo... Um covarde, eu não entendia o que eu deixei de fazer para ele, eu não admiti isso, mas eu o amava mais como amigo, mais como um irmão, mas não tinha certeza se ele era gay... Sempre tive medo de contar isso a ele, talvez isso poderia ter feito ele mudar de ideia e não se matar, mas eu não percebi isso, sou um inútil, agora a culpa me corrompia, um líquido acido havia se transformado nas minhas veias, era como se a angustia que eu sentia estivesse consumindo todos os meus órgãos, eu lia e relia, olhava todas as nossas fotos juntas e apenas sentia mais dor, e ela não cessava. Perguntei a mim mesmo se isso era a verdade e obtive a pior das respostas, o silencio.
Comecei a pensar em tudo que nos passamos juntos, como quando ele quebrou o dedo ao chutar uma parede em falso, quando a gente brincava no quarto de se esconder, quando a gente tocava violão e cantávamos juntos, quando ele me desenhava... Tudo não passava mais de lembranças... Meras lembranças jogadas ao vento e espalhadas pela minha memoria, lembranças semeadas e cultivadas pelo meu coração que serão cultivadas pela fertilização da existência. Mas o que mais me fazia me lembrar dele foi quando exatamente a uma semana nos caímos de cara um para o outro, foi o momento mais magico que já tivemos:
“Estava uma noite fria, bem iluminada pela lua. Estávamos em uma mesa de piquenique ao calor de uma fogueira e era seu aniversario de 15 anos. Ele não estava muito feliz e eu estava fazendo de tudo para que ele ficasse feliz, porem ele nunca gostou da ideia de estar deixando de ser criança, nunca estaria pronto pra viver por dependente de si mesmo, portanto não fez uma festa e eu fiquei na casa dele.
– Qué isso José, se anima – eu sentei ao seu lado numa mesa com um bolinho pequeno que eu mesmo compreie passei o braço no seu ombro – Não é todo dia que se faz 15 anos sabia?
– Claro que não... É que... sabe? Você é meu único amigo – ele me olhou profundamente com seus grandes olhos castanhos e depois olhou pro meu braço – agora para de esfregar o seu suvaco em mim. Afinal esta muito frio, como aguenta ficar assim?
Eu ri, estava sem camisa e ele não gostava dos meus “pelos”.
– E eu tenho muito orgulho disso, e... Você tem que ficar, feliz, porque se você não ficar feliz, eu também não fico. – fiz um biquinho, e a coisa mais ridícula que eu já fiz.
– Isso é o suficiente? – ele abriu um sorriso forçado e sem graça, mas apenas ele pra fazer careta e ainda ficar bonito. Eu fiquei admirando ele, seu rosto, sua boca e seus olhos, se eu não gostasse tanto dele eu ficaria com inveja. Seus olhos eram sinceramente a coisa mais bonita que já vi, eram esperançosos, presentes, calorosos e reconfortantes.
– Que é? – ele disse um pouco hipnotizado, mas logo desviou o olhar – Para de me olhar assim. Sabe? To com sono, vamos dormir.
Ele se levantou e segurou minha mão muito forte, me puxou até perto da porta da casa e lá ele soltou. Chegamos ao seu quarto e ele trancou a porta como sempre.
– Vou tomar banho – ele disse a mim e demorou uns 5 minutos no banheiro – Droga! Não tem toalha, pega pra mim.
– Mas eu não sei onde tem!
– Esqueça.
Ele abriu a porta do banheiro e usou uma toalha de rosto na sua “parte da frente”, deixando a bunda a mostra, não é hora de descrever isso, mas ela era muito bonita. Eu fiquei olhando seu corpo, bastante hipnotizado, mas ao mesmo tempo eu tinha vergonha de estar fazendo isso. Ele ficou de frente ao espelho e ficou me encarando com as bochechas rosadas e então vestiu uma cueca e um calção e apagou as luzes.
Passou exatamente meia hora, e eu falei alto para ele.
– Você é meu sabia?
Ele acendeu a luz do abajur ao lado de sua cama e me olhou com uma das sobrancelhas erguidas.
– Como é que é? – riu.
– Você é meu – eu me levantei e fiquei de frente a cama dele – Só meu.
– Eu não sou nem da minha mãe vou ser seu, vai pensando – e ele se virou para o outro lado. Eu deitei ao seu lado, basicamente de conchinha e passei o meu braço no seu corpo – O que você esta fazendo?
– O que eu já deveria ter feito há muito tempo. – cheirei seu pescoço.
Ele se virou rapidamente e ficou cara a cara comigo, estava boquiaberto e confuso. Ele me empurrou da cama, porem o levei comigo. Nós caímos e por sorte eu não bati a cabeça no chão, ele ficou por cima, de peito colado com o meu e com as pernas abertas sobre as minhas que estavam estiradas, eu segurava seu braço e ele me encarava, simplesmente não conseguia agüentar àqueles olhos castanhos e frenéticos. Ele encostou o seu nariz no meu, e não resistiu, ele me beijou, na verdade foi apenas um selinho, mas foi tão bom quanto. Ele continuou me olhando exaltado e aproximou o rosto novamente, dessa vez eu o beijei, encostei nossos lábios, e um fogo dentro do peito começou a incendiar, adentrei minha língua em sua boca e entrei em um frenesi, estávamos tão interligados, tão conectados que fazíamos tudo em perfeita harmonia, uma só mente, uma só pessoa. Não demorou muito até ficarmos sem folego, ele ficou ofegante e rolou até meu lado e ficou olhando sorridente pra mim enquanto respirava. Eu me aproximei mais dele, e dei um beijo na sua bochecha e cochichei no seu ouvido.
– Eu te amo sabe?
– Você não poderia me dar presente de aniversario melhor. – ele sorriu, deixando a mostra os dentes mais perfeitos que existiam e pareceu ficar feliz por um minuto, mas logo sua expressão mudou, parecia que ia chorar – Sabe que isso é errado né?
Sem se quer olhar pra mim se levantou até sua cama e desligou o abajur. Fiquei sem resposta, mas sabia que uma hora ou outra ele ia me responder”
Mas não, ele não me respondeu. Toda essa sensação que eu senti, estava ficando pra trás e fraquejava sempre ao lembrar que ele havia morrido. Era impossível esquecer o gosto de sua boca, tinha gosto de enxaguante bucal de morango, pode parecer idiota, mas era a melhor coisa que eu podia lembrar, eu ainda podia sentir seus doces lábios em mim, seus doces lábios vermelhos e úmidos. Era maravilhoso poder recordar isso, nunca ia sentir tamanho prazer na minha vida igual. Eu sabia que ele não era só mais um cara com quem eu fiquei, ele era O cara da minha vida.
Olhei pra parede do meu quarto, onde estava o nosso desenho emoldurado. Ele mesmo tinha desenhado isso olhando para o nosso reflexo no espelho, eu me lembro perfeitamente disso. Eu peguei o quadro e deitei na cama, fiquei apenas olhando para o desenho. Ele estava sorrindo sem mostrar os dentes, e é claro com os olhos bem abertos, fofo, já eu estava desengonçado e com um sorriso ridículo e os olhos muito fechados, felizmente ele havia me dito que tinha desenhado eu assim de proposito. Ele sabia fazer isso muito bem, tinha muito talento, e agora todo esse talento foi perdido no tempo, representado apenas em poucas folhas de papeis que logo perderão o brilho.
Fiquei chorando, encolhido entre a parede e a cama, agarrando o quadro. Chorei até as lagrimas acabarem e então dormi.
Não dormi bem, quando acordei, minha mãe estava me abraçando. Eu olhei pra ela com os olhos arregalados e quase começando a chorar.
– Mãe, me diz que isso não é verdade, por favor me diz que isso não esta acontecendo – não segurei o choro e deitei a cabeça no colo dela, ela apenas passou a mão nas minhas costas e beijou a minha nuca me confortando.
– Vamos, se levante e se arrume que o velório começa já – disse ela tentando ser o mais cuidadosa com as palavras o possível. Ela beijou minha cabeça mais uma vez e saiu para o seu quarto.
Tomei um banho de agua quente, e vesti uma camisa de botão preta, uma calça e um sapato, não estava com uma cara muito boa, meus olhos estavam inchados e eu estava pálido. Já eram seis horas da tarde, e eu ainda não tinha digerido a noticia e talvez nunca isso fosse possível.
Peguei meu celular no criado mudo da cama, estava quase descarregando. Surpreendi-me, umas 15 mensagens, e duas ligações perdidas... E todas eram do mesmo remetente, José.
Primeiro olheis as mensagens, se eu já estava chorando antes, agora estava muito pior.
“Ei eu to mau, mais do que antes”.
“C ta ai? Eu to com medo”.
“Por favor, fala comigo, eu to com medo de ficar sozinho”.
“Eu não to aguentando mais”
“Acho que é isso... Desisto”
“De todas as pessoas que eu já encontrei no mundo, você foi a mais especial”.
“Acho que se não fosse por você, isso já teria acontecido há muito tempo...”.
“Sério, eu te amo, desculpa eu não ter te respondido isso há uma semana, mas eu estava com medo, porem agora eu estou com medo de viver e a vida é mais forte do que eu te amo”.
“Sério, atende”.
“Preciso falar com você”.
“=[[[[”.
“Queria ter aproveitado mais com você naquele dia, mas agora já é tarde”.
“Você foi a melhor coisa que já foi minha, e eu sou seu”.
“É hora de ir...”
Essas palavras não me confortaram, eu senti como se pudesse ter feito alguma coisa, mas não, eu não acordei e conversei com ele quando ele precisou de mim, eu nunca me senti tão fraco, tão lastimável e tão incapaz como agora. Uma faca afiada acabara de perfurar o meu peito e ele sangrava lagrimas. Se eu já estava triste agora tinha piorado.
Fui de carro até a casa de José com meus pais, a viagem inteira foi gélida. Ao chegar na casa dele vi seus pais chorarem no sofá e lá estava ele no meio da sala, em um caixão rodeado por flores. Mal pude reconhecê-lo, ele não era o José que eu conhecia, o José alegre com os olhos castanhos clamando por atenção, o que sempre tinha um sorriso no rosto, o que vivia na terra do nunca e queria ser o Peter Pan e nunca crescer ou ter problemas. Ver ele trancado ali dentro me doía à alma, onde estava a liberdade que ele tanto buscava trancafiado em taboas de madeira? Ele estava irreconhecível, eu já o imaginei de todas as formas possíveis... Mas morto? Não... Nunca... Não podia ser o José que estava ali, ele não podia estar morto! Ele não podia, ele ainda era o meu José, apenas Meu.
Eu fui ao seu quarto, e não pude deixar de lembrar-se do que havia acontecido da ultima vez que estava ali, éramos um amor frágil, porem completo... Eu devia ter percebido que ele não estava bem, mas eu não pude... Eu não fui bom o suficiente. Seu quarto estava perfeitamente igual. Ainda estava o mesmo aroma do seu perfume e suas roupas estavam desarrumadas como sempre em seu guarda-roupa, estava totalmente intocável e perfeito do jeito dele. Seus desenhos pairavam sobre a parede e tudo que eu continuava sentindo era um vazio, um vazio cortante na minha alma, a calamidade da minha vida. Fui até sua cama e a única coisa que consegui fazer foi chorar, lagrimas partindo do precipício para o alem. De propósito eu caí da cama, não senti dor alguma, apenas relembrei... O que havia acontecido da ultima vez... A sensação amargava e fumegava em mim, lembranças confusas iam e vinham na minha mente, e eu apenas não sabia como suportar isso, porem quanto mais eu cedia, mas uma voz dentro de mim dizia “Agüente firme”, e eu conhecia essa voz, eu... Eu não posso estar ficando louco logo agora.
Passei a mão por debaixo da cama e senti um papel molhado. Eu o trouxe para perto de mim, ele estava manchado de sangue, o sangue de José, de repente eu senti como se pudesse tocá-lo novamente, foi um prazer imenso e neste papel havia algumas palavras escritas em uma caligrafia perfeita que só José poderia fazer, não demorei a começar a lê-la.
“Carta de Suicídio”
“Estou perturbado. Escrevo neste papel, nesta carda, palavras com tanto medo, que não seria capas de proferi-las para ninguém. Sou fraco por escrever no papel, mas as pessoas também são fracas e inúteis para me ajudarem ou sequer perceberem o que passa em minha volta. São duas horas da madrugada e não consigo dormir, já se passaram 3 horas e as lagrimas continuam descendo pelo meu rosto, tudo parece ficar de mal a pior, não entendo o que esta acontecendo comigo, não entendo nada do que esta se passando na minha vida, apenas sinto dor, tudo esta doendo em mim enão estou aguentando mais. Tudo parece tão vazio, nunca estive mais sem fé e a vida não esta mais parecendo certa pra mim, nada esta parecendo certo... Essa dor nunca foi tão forte, nunca foi tão insuportável ou tão doloroso como hoje. Sinto o sangue circular nas minhas veias e queimar, meu coração se contraindo e cada respiração amarga, sinto cada pulsar latejar no meu corpo. Estou num poço de veneno que fervilha a minha alma,como em um buraco profundo e eu continuo caindo, não tenho forças para me segurar... Muitos de vocês já devem saber que eu sou gay, outros desconfiavam e outros nem suspeitavam disso, mas acima de tudo sinto muito decepcionar vocês desse jeito, não tenho como viver condenado pela sociedade, não tenho forças para aceitar isso em mim mesmo. Não, eu não tenho forças...Não sou forte... Me sinto como se fosse o filho bastardo da família, a ovelha negra que não achou seu lugar, acho que já devia estar morto, sou um erro. Estou mais assustado que nunca, quando ando nas ruas vejo as pessoas me mutilarem com os olhos, zombarem de mim como se eu fosse alguma aberração, vivo de maneira insegura e clamando por um socorro, mas não encontro ninguém que possa me ajudar, todos fugiram de mim, perdi a conta de amigos que se afastaram por medo do que os outros podiam fazer só por estar ao meu lado, afinal todos me desejam a morte. Tudo esta desabando, e não encontro nenhum ombro pra chorar, nada em que eu possa me apoiar, esta tudo tão inseguro, eu só tinha Roni para me apoiar, mas ele já não estava sendo mais suficiente.Não deixassem meu sorriso enganar vocês, eu nunca estive mais infeliz, agora só tenho duvidas na minha vida, o que é isso que eu tenho? Porque eu nasci assim? Porque? Não acho que isso é um suicídio, as pessoas que me mataram, prefiro morrer a viver com essa doença dentro de mim. Adeus”
Eu abracei a folha como se fosse a coisa mais especial que tinha pra mim nesse mundo. Eu sabia que ele era gay, mas ele não ter me contado foi como se eu fosse um copo sujo e feio guardado na dispensa e que ninguém mais queria usa-lo.
– Eu preciso de você... Só por mais uma noite... Me dói tanto saber que eu te perdi de verdade... JOSÉÉÉÉÉ!!!! –gritei o mais forte que pude – porque você fingiu, porque você pensou que podia esconder sua tristeza do seu melhor amigo? Porque? Você não vê o quanto esta sendo duro resistir a essa dor incurável que estou sentindo dentro de mim? Por favor, José, porque?
No enterro
Mais triste que nunca, eu me vesti com a melhor roupa o possível e também com o pior astral o possível. Fui com meus pais até onde ele estava.
Estavam todos muito tristes e ao redor de uma tenda se reuniram muitos parentes e amigos. Ele estava no caixão, agora totalmente coberto, apenas sua face era visível por um vidro. Ia começar aos discursos e começou por um homem de terno foi até a porta do caixão, eu o reconhecia, era um vigia que trabalhava na casa dele durante sua infância e disse numa voz alta e clara:
– Palavras de Nelson Rodrigues modificado, Cada um de nos é um suicida frustrado. E se não estouramos os miolos, ou não pendemos de uma forca, ou não tomamos formicida, é que nos salva, sempre, em cima da hora, a nossa incoercível pusilanimidade vital. Mas se cancelamos o nosso suicídio, admiramos e, mais do que isso, invejamos o alheio. O sujeito que se mata dá-nos a impressão de que se apropriou indebitamente de um ato, de um impulso, de um desespero, que deviam ser nossos. José desde menino fazia proezas, era levado, mas, ao mesmo tempo era a pessoa com o melhor coração que eu já tinha feito. Não estou aqui pra chorar por ele, mas sim para deixar o legado que ele deixou.
Muitos falaram, mas agora enfim era minha vez de falar... E nunca estive tão nervoso.
– Muitos aqui se perguntam se ele era gay, e sim, ele era. E vivia com medo disso a todo instante. Muitos não o respeitavam, muitos que acham que devemos todos seguir os padrões de uma sociedade mascarada e homogênea que vive para agradar e enganar, muitos que se limitam a tudo e fazem com que outras pessoas se limitem também, e José não foi exceção, ele se limitou tanto que não suportou a pressão. Talvez ela tenha sido covarde ou talvez ele tenha sido corajoso ao extremo... Apenas se coloquem no seu lugar e no dele, muitos se escondem por medo, um medo presente em casa, nas ruas e nas escolas, um medo que dói e destrói. A todo momento sinto sua falta, sinto ele afagando meus cabelos ou tentando falar algo confortável e agora tudo que me resta são lembranças. O vento não sopra mais como antes, a água não tem o mesmo sabor e até os raios de sol perderam o seu brilho, tudo nunca esteve tão vazio e sem alma. A solidão me consome e a esperança parece esta se tornando algo impossível. O que eu sentia por você era incrivelmente diferente de tudo. Tudo me faz lembrar de você, de agora em diante vou viver pela metade, pois a outra metade você levou consigo. Em memória de José Elias – joguei uma flor na sua cova.
Todos olharam pra mim, não tinham nada a falar, apenas se sentiam mal. Uma musica orquestral começou a tocar e lentamente o caixão foi descendo, era tão difícil sentir ele se afastando de mim, cada vez mais ele descia, cada vez mais eu me sentia fraco, meu lugar era com ele. Começaram a jogar areia e eu senti mais dor ainda, estava despencando, ia explodir a qualquer momento. A única pessoa que realmente me deixaria feliz, era ele, e agora ele se fora. Era a ultima vez que eu vi o rosto dele, a ultima vez que eu pude ver o belo rosto dele, ele se fora... Ele se fora pra sempre e eu não pude fazer nada.
Peguei meu celular no bolso, e olhei que ainda havia uma mensagem não lida e dizia:
“O meu ultimo adeus”.
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