Carta Branca
1 Carta Branca
Notas iniciais
— Amanda? Amanda? — minha amiga me deu uma cotovelada de leve. — você desligou por um minuto. Achou o cara do boné bonitinho?
— O quê? Hã… é… mais ou menos. — eu dei uma risadinha, tentando disfarçar.
É engraçado como às vezes eu me pego pensando nele. Ouvindo uma música ou até vendo alguém passar na faculdade, alguém que por mais que não tenha nada a ver com ele fisicamente, me lembra imensamente dele. Como o cara do boné. Porque ele amava bonés. Mesmo eu dizendo várias vezes que preferia o cabelo cacheado dele.
É engraçado porque eu sei que ele já não tem o mesmo efeito que tinha sobre mim. Eu já não penso nele o dia todo. Não sorrio quando penso nele. Meu coração não aperta e eu não sinto mais saudades. Não sinto vontade de vê-lo e nem vontade de abraçá-lo.
E mesmo assim, ainda me pego pensando nele de tempos em tempos.
Talvez seja porque ele foi importante na minha vida. Ou talvez eu nunca vá superá-lo completamente. Será? Mesmo depois de todos esses anos, mesmo sentindo que já superei, será que uma mínima parte de mim vai sempre insistir nele? Será?
Ouvi dizer que a maioria das pessoas tem uma pessoa na vida delas que entra e sai, vai e volta. Nunca para. É um ciclo vicioso. É como se a pessoa tivesse uma carta branca na vida da outra. Será que ele tem essa carta branca na minha vida? Será que eu deixo ele ter essa carta? Até que ponto deixei as coisas alcançarem um nível que não tem mais volta? Um nível em que a carta branca é intransferível, irrecuperável. Eu alcancei esse nível? Nós alcançamos esse nível?
Teve dias que eu responderia que sim, que ele foi o único que conseguiu fazer meu lado racional vacilar. O único por quem eu ficava acordada até de madrugada, mesmo tendo que acordar cedo no dia seguinte. O único que me fazia rir até mesmo por uma mera mensagem de texto. Aquele que me fazia perder o sono. Porque dói demais desistir do seu primeiro amor, do seu único amor, não dói? Desistir da única pessoa com quem você podia ser você mesma, sem medo nenhum de ser julgada, no meio de tanta gente nesse mundo que só sabe julgar? Porque dói demais simplesmente desistir de alguém que te faz tão bem, certo?
Mas talvez não fizesse tão bem assim. Porque ele podia ser a razão da minha risada no final do dia, mas podia ser a razão da minha angústia durante aquele feriado que eu mal podia esperar. Podia muito bem ser a razão da minha tristeza durante aquele fim de semana que eu esperava tanto, depois de uma semana exaustiva.
Quantas vezes eu pedi desculpas por um erro que não era meu? Quantas vezes ele implorou por mais uma chance, mesmo sem merecer? Quanto mais ele me magoava, mais eu o magoava.
Porque era eu e ele. Rafael e Amanda. Amanda e Rafael. Todos já sabiam que nossos nomes juntos não tinham um final feliz. Porque tudo acabava em brigas catastróficas. Tudo era dramático. Complicado. Intenso. Ardente. Era mais que amor. Era paixão. No fim, era quase exaustivo. No fim, tudo o que os dois mais precisavam era de algo simples. Algo fácil. E ele nunca foi fácil. Deus, eu nunca fui fácil. Nós nunca fomos fáceis. Nós nunca nos contentamos com o simples, o normal.
Lembro da primeira vez que ele me magoou. Me magoou de verdade. Quebrou meu coração. Dizem que a primeira desilusão amorosa a gente nunca esquece. Eu achava besteira. Quer dizer… você vai carregar aquela mágoa para o resto da vida?
Sim, você vai. Não importa o quanto os outros achem que é drama. Não importa o quanto o tempo passe e você ache que é drama. Porque na época doeu. Doeu muito e você vai sempre lembrar daquela dor. E de como pareceu que nunca ia passar.
“Quando você voltar da praia, vou pedir você em namoro, Amanda.”
E eu passei o feriado da páscoa todo com as minhas amigas na praia imaginando como seria meu primeiro beijo com o garoto dos meus sonhos. Era o primeiro beijo dele e o meu primeiro beijo. Era romântico. Lindo. Simples. Fácil. Fofo. Não era?
E quando eu voltei do feriado, para a escola, na segunda-feira de manhã, o que me aguardava não eram flores e meu primeiro beijo. Porque nessa época eu era a romântica sonhadora. Ninguém tinha quebrado meu coração ainda. Por que eu não seria a princesa que sonhava com o príncipe do cavalo branco? O que me aguardava era o melhor amigo dele da época me dizendo que os planos tinham mudado.
“É que ele e a Camila acabaram saindo no feriado, sabe? Mas ele ainda gosta de você. Mas está confuso. Tipo… você entende, né? Você é toda fofa e meiga, sabe? A Camila é mais experiente.”
A Camila já tinha beijado. Eu entendia. Entendia muito bem. Entendia tão bem. Tão bem que eu apoiei o mais novo casal da escola, duas semanas depois. Camila e Rafael. Rafael e Camila. O casal que só andava de mãos dadas e não se beijava. Porque com o Rafael, a Camila queria ir devagar. E como a melhor amiga dele, eu era obrigada a ouvir. Obrigada a dar conselhos.
“Ela já beijou uns dois caras e fala que quer ir devagar comigo. Por que será, Amanda? Você é mulher. Você entende a mente feminina. Me ajuda a entender.”
Eu ajudei você a entender, não ajudei, Rafael? Dei conselhos e fui toda a ouvidos, como a boa melhor amiga. Correção — como a boa idiota e trouxa melhor amiga deveria ser. Mas a romântica sonhadora já não estava mais lá. O sonho do primeiro beijo com o príncipe encantado já tinha ido embora. Ele fez questão de levar isso embora com ele.
E um tempo depois, eu decidi que ia seguir em frente. A fila anda. A catraca gira. E quem dera que minha catraca realmente tivesse girado. Dei meu primeiro beijo com alguém que eu mal conhecia. Alguém que eu nem lembro direito do rosto. Não que eu me arrependa, mas talvez eu pudesse ter esperado um pouco mais. Mas a angústia de esquecer aquele que tinha me prometido o primeiro beijo especial dos meus sonhos era muito maior.
Mas não demorou até que eu conhecesse um garoto incrível. João era o nome dele. Ele, sim, era o príncipe dos meus sonhos. Se eu ainda fosse a idiota romântica sonhadora. Mas eu não era mais essa menininha, e não queria mais um príncipe encantado. E por isso que quando a notícia de que “Rafael terminou com a Camila por causa da Amanda. Ele gosta da Amanda”, João virou pó. E como uma praga, como uma doença, um ciclo vicioso impossível de ser quebrado, eu dispensei o príncipe encantado exatamente como tinham me dispensado — sem gentileza alguma. Quebrei o coração dele sem dó. Fiz do João alguém como eu, de alguém romântico para alguém simplesmente traiçoeiro. E João levou um pé na bunda com menos de dois meses de namoro sem sentimento algum da minha parte. E talvez eu merecesse cada merda que fosse sofrer só por causa do carma. O carma te pega. O carma chega pra todos. E o que eu fiz com o João não foi certo. E o carma chegou pra mim. Várias vezes. Nas mais diversas formas. Com o mesmo cara.
E eu e Rafael finalmente demos o beijo dos nossos sonhos. Rafael deu o primeiro beijo dele e eu dei o meu quarto beijo. Mas foi como se fosse meu primeiro. Aquela sensação. Deus, não vou esquecer nunca. As pernas bambas, o coração na boca, a felicidade indescritível. Aquele sentimento de “espera, isso realmente aconteceu? Eu não estou sonhando?”. E eu quase voltei a ser aquela romântica sonhadora de antes. Quase.
Nas férias de inverno eu tinha ficado na cidade e ele tinha viajado. E todo dia até de madrugada a gente conversava. O assunto rendia. Risadas. Mais risadas. Aquelas palavras tímidas de adolescentes jovens — “eu gosto de você”. Como se fosse abrir o coração dizer aquilo. E aquilo me fazia sorrir. A trouxa de antes. A trouxa melhor amiga de antes.
Porque um dia eu saí com os meus amigos e eles mencionaram, casualmente, a mentira que estava sendo meu conto de fadas.
“Sabia que a Isa ficou com o Murilo? Demorou pra ele chegar nela, sim… mas foi tudo combinado. Porque o Murilo disse que só ia beijar a Isa se o Rafael beijasse a Amanda. Você salvou a Isa, Amanda. Sabia, né?”
Não, eu não sabia. Eu não queria saber. Não queria saber que eu tinha sido uma mera aposta. E foi a partir daí que o meu já danificado lado de menininha romântica e sonhadora morreu. Morreu completamente.
Rafael, você conseguiu destruir esse meu lado “meigo” que você tanto dizia que achava lindo em mim. Pode ser drama, mas eu era nova. Nova demais. Catorze anos. Ele tinha quinze. Quando se tem catorze anos, tudo parece o fim do mundo. Tudo faz você perder a capacidade de acreditar no lado romântico das coisas.
E nós brigamos tão feio. Você se recusava a dizer que era verdade, mesmo todos dizendo que era a verdade. Mesmo sendo óbvia a verdade. E aquela briga… nós deveríamos ter visto, Rafael. Deveríamos. Porque éramos tão novos e já brigávamos daquele jeito tão desesperador. Impactante. Destruidor. Deveríamos ter imaginado que dali pra frente, não teria como consertar. Não deveríamos insistir no erro. Porque eventualmente, seríamos a carta branca um do outro. E essa seria nossa perdição.
E o tempo passou. O tempo passou e nós não nos afastamos. Eu perdoei você. Dei a terceira chance. Mas nós éramos impulsivos. E você ainda tinha seu lado sonhador e romântico. Eu já estava mais realista e endurecida. Nós éramos fervorosos e orgulhosos. Teimosos. Mais uma briga desgastante e mais um término. E você foi rápido na superação de novo, não foi? Você beijou minha amiga depois de o quê? Uma semana? Duas? Mas você se arrependeu. E implorou meu perdão. E chorou. Disse que nunca mais me magoaria. Mas eu já estava cansada. Cansada demais. E então, foi minha vez de destruir seu lado sonhador e romântico. Eu beijei seu melhor amigo na viagem que nós dois fizemos juntos pra Europa, um mês depois.
“Gabe, tem o Rafa. O Rafa não vai ficar meio bravo?”, eu perguntei, sentindo as mãos dele já ao redor da minha cintura.
Eu queria. Queria beijá-lo e queria que Rafael sentisse o gosto do próprio veneno. Queria machucá-lo do jeito que ele tinha me machucado.
“Ele não precisa saber.”, o melhor amigo respondeu. O melhor amigo. Que melhor amigo. “Eu só quero você agora”
Ele soube, claro que soube. Não me orgulho de ter feito dois melhores amigos brigarem tão feio. Nem de ter feito Gabe levar um soco. Mas parte de mim ficou satisfeita por saber que ele tinha ficado tão magoado quanto eu. Eu finalmente tinha tido meu troco. E pra quê? O que eu tinha ganhado com aquilo? Na época, com quinze, dezesseis anos de idade, eu achava que estava por cima. Hoje eu vejo que só tinha ganhado rancor. Tinha colocado mais mágoa num relacionamento cheio de mágoas já existentes. Mais erros. Mais drama. Mais complicações.
E o tempo passou, e ele me perdoou. É certo usar essa palavra? Ele me perdoou. Tinha o que perdoar? Talvez, por um lado, por ser o melhor amigo. Mas eu não traí. Não menti. Eu posso ter sido maldosa e cruel, mas… será que perdão é a palavra certa?
E insistimos de novo no erro. E ele cresceu. Eu cresci. Ele se tornou um homem possessivo e ciumento. Talvez por não confiar muito em mim. Eu me tornei uma mulher independente que prezava minha liberdade acima de tudo. Porque todas as pausas que dávamos no relacionamento — que eram muitas, por causa das constantes brigas — eu já me colocava no piloto automático. Escondia a dor beijando outros caras. Alguns, amigos dele. Era errado. Talvez fosse. Talvez os amigos também estivessem errados. Talvez eu estivesse errada. Talvez ele estivesse errado. Ou o talvez o errado fosse insistir no erro.
“Quantos finais nós ainda vamos ter?”
Eu perguntava e ele não respondia. Ele perguntava e eu não respondia. Porque doía pensar no final. Eu não queria deixá-lo ir e ele não queria me deixar ir. Simples assim. E nessas perguntas não respondidas, cada vez mais feridas íamos causando um no outro, sem chance de cura. Eram mais e mais cicatrizes, que ficavam cada vez mais aparentes.
Aprendi a mascarar meus sentimentos. Aprendi a não me apegar a ninguém. Aprendi a ser manipuladora. Aprendi a beber até perder a noção de tudo e beijar as pessoas erradas e as certas. Aprendi a fingir que estava tudo bem. Aprendi a distrair meu coração partido. Aprendi a beijar todos os caras que não me importavam, apenas para esquecer o único que me importava. Aprendi a fazer todos se apaixonarem e no fim deixá-los pra lá, como se fossem só mais um número na minha lista. Porque eram. Eram números na minha longa lista. Os que importavam eu podia contar nos dedos. Mas minha lista era extensa. Era incontável. O único daquela lista que tinha me feito sentir alguma merda? Você, Rafael, seu filho da puta.
E teve um momento no meio disso tudo que eu achei que tinha o superado. E que melhor jeito de provar para mim mesma que tinha o superado do que perdendo a virgindade com outro cara? Com alguém sem ser ele? Eu, honestamente, nunca teria o perdoado se fosse a situação inversa. E talvez por isso eu aguentei tanto tempo depois disso. Talvez por isso não tenha falado tudo o que queria para ele depois disso. O Rafael demorou um tempo, mas me perdoou, e eu fui a primeira dele.
Mas Rafael nunca esqueceu. Nossas brigas viraram sobre ele. O meu primeiro. Meu amigo. Bruno. Ele dizia esse nome com tanto rancor, tanto ódio. Eu não sabia que o Rafael fosse capaz de tanto ódio. Ódio por mim. Ódio pelo Bruno.
E simplesmente não dava mais. E ele acabou indo procurar conforto nos braços de outras pessoas, outras meninas. Porque eu não podia mais oferecer aquilo a ele. E eu não lutei. Não fui atrás. Deixei ele ir. E foi a melhor coisa que pude fazer. Porque finalmente, eu não insisti no erro. Finalmente, achei que tinha tirado dele a carta branca.
Mas nos reencontramos. E o tempo tinha passado. E ele parecia melhor. Mais leve. Parecia de novo aquele garoto por quem eu tinha me apaixonado, anos atrás. O garoto piadista que adorava usar boné. O garoto que levava a vida de um jeito leve. O garoto que me fazia ser sonhadora e romântica. Mas eu era uma mulher de vinte anos e ele era um homem de vinte e um anos. Já não éramos os mesmo e nunca mais seríamos.
Mas a carta branca existe. É real. E ele tem uma para a minha vida e eu tenho uma para a dele. E resolvemos usá-las de novo. Pra quê? Rafael, pra quê? Tudo estava voltando. Os sorrisos, as piadas internas e aquele sentimento de felicidade cada vez que eu via uma mensagem sua. E eu tinha medo. Medo, não. Pavor de que uma velha chama fosse novamente acesa e causasse uma explosão. A explosão que era comumente causada por nós dois. Rafael e Amanda eram sinônimos de explosão e isso era fato. E eu tinha simplesmente pavor de me magoar de novo. Superar ele tinha sido uma das coisas mais difíceis que eu já tinha feito e eu não conseguiria fazer de novo.
“Não posso transar com você de novo. Não aqui. Não hoje. Porque acho que a gente ficar de novo é um retrocesso.”
Aquele dia foi a primeira vez que eu falei na cara dele que não sentia mais nada por ele, que não queria mais ficar com ele. E foi essa hora que eu vi o quão orgulhoso e egocêntrico ele era. Vi coisas nele que eu tinha escolhido não ver, porque na minha cabeça infantil, o primeiro cara que eu tinha amado de verdade não podia ter defeitos. Ele não era aquela pessoa difícil que todo mundo me falava. Não, eu conhecia ele melhor do que todos, ele era especial. E era isso que eu pensava e tudo o que importava. Talvez ainda houvesse o resquício da romântica sonhadora, que só ele conseguia despertar.
Mas ele tinha se prendido na palavrinha que tinha incomodado o ego inflado dele. Retrocesso. Como eu ousava chamá-lo de tal nome? Eu era podre. Eu era absurda. Eu era incapaz de sentir. Não tinha coração.
Ele ter ficado bravo daquele jeito por eu ter falado que não gostava mais dele, usado aquela mísera palavrinha, me provou que eu estava completamente errada. Ele ligava mais para o próprio ego do que qualquer outra coisa. Dizia-se apaixonado por mim e falava — falou — coisas horríveis, que esperava que eu fosse infeliz na vida.
“Nunca teria a ousadia de fazer metade do que você fez comigo nesses últimos seis anos. Espero que façam tudo isso e mais um pouco, pra você sentir na pele o que é. Espero que você seja muito infeliz. Espero que a gente nunca mais se veja, Amanda. Você não tem porra de carta branca nenhuma na minha vida. Porque se um dia ela existiu, eu queimei, rasguei e triturei.”
Demorei para perceber o quanto fazíamos mal um para o outro, o quanto a presença dele era tóxica para mim e o quanto nosso relacionamento foi coberto de mágoas um para o outro. O quanto nós nos destruímos. O quanto tínhamos nos mudado. O quanto nos magoamos e só percebemos quando era tarde demais.
Mas eu sempre estive disposta a esquecer, Rafael. Sempre estive disposta a te tratar com respeito. Mas todo mundo me dizia que eu vivia num conto de fadas se achava que você algum dia ia agir civilizadamente. Porque você tinha problemas. Eu era difícil, mas você era simplesmente possessivo demais. Dramático demais. Orgulhoso demais.
Mas agora, depois de seis anos, eu finalmente enxerguei ele pela pessoa que ele realmente é. E foi um baque ter finalmente percebido que o primeiro e único cara que eu amei é uma pessoa amarga. Uma pessoa rancorosa e cheia de ódio. E talvez tenha sido parte culpa minha por isso. Mas ele também me transformou. Me deixou mais dura e mais fria e mais fechada. Incapaz de amar qualquer outro homem que não seja ele. Mas eu nunca te odiei por isso, Rafael, porque nunca vi sentido em odiar alguém que eu já amei tanto. E nunca te falaria as coisas horríveis que você me disse naquele dia.
E foi ruim perceber que eu senti quase que um alívio quando tudo isso aconteceu. Alívio de ter finalmente me dado conta que tudo aquilo que me falavam durante todo aquele tempo era verdade e que eu podia ficar longe dele pra sempre. Que eu podia, assim como ele tinha dito, queimar, triturar e rasgar a carta branca. A carta branca que insistia em dar as caras. Mesmo depois de seis anos. Seis longos anos.
— Não me parece muito o seu tipo, o de boné. Você nem curte bonés. — minha amiga respondeu, ainda risonha. — vamos pra aula. Depois você vai atrás do seu boné.
Meu tipo. Eu nem tinha mais um tipo. Porque eu nunca mais tinha me apaixonado e tinha medo de me apaixonar, a verdade seja dita. O que eu precisava era de alguém simples, calmo, fácil. Sem possibilidade de carta branca. Porque carta branca era meu pesadelo. Meu fim. Minha perdição.
— Amanda?
Me virei rapidamente, assustada por reconhecer aquela voz.
— Rafael?
Ele parecia surpreso.
— O que você está fazendo aqui?
— Hã… eu estudo aqui. Você sabe.
— É, mas… você estuda à noite.
— Faço uma matéria de manhã.
Ele assentiu, devagar, engolindo em seco.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei.
— Vim encontrar um amigo.
— Ah.
Ele parecia incomodado, mas eu não sabia se era exatamente por ter me encontrado ou por outro motivo.
— Você está sabendo dessa festa aí que vai rolar no centro? Da sua faculdade? — ele perguntou.
— De hoje? Sei. — franzi a testa. — por quê?
— Esse meu amigo que eu vou encontrar está me enchendo o saco pra ir. Você acha que vai ser legal?
— Espero que sim. Eu vou.
— Ah.
— É.
Ele deu uma risadinha nervosa, coçando a parte de trás da cabeça.
— A gente se vê lá, talvez? — ele perguntou, hesitante.
— Talvez. — respondi, dando um meio sorriso.
Ele sorriu e se afastou.
Será? Mesmo depois de todos esses anos, mesmo sentindo que já superei, será que uma mínima parte de mim vai sempre insistir nele? Será?
Será que a carta branca vai sempre insistir em entrar no meio de tudo?
Até quando a maldita carta branca vai ser a nossa destruição mútua?
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