Carta à Julieta
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Música para acompanhar a leitura do texto: Juliana Basko — How Long Will I love You
“Querida Julieta,
Você já desejou nunca ter se apaixonado por Romeu?
Sempre em que penso sobre o amor, e tenho feito muito isso ultimamente, vem-me à cabeça a história de vocês dois. E confesso que, até hoje, eu não conseguia te entender. Como você foi capaz de entregar seu coração, sua vida e, até mesmo, sua morte a alguém que mal conhecia? Como você pôde se deixar levar pela ideia do amor à primeira vista? Por que ficou à mercê de um sentimento tão imaturo, incerto e sem raízes, Julieta? Por que deixou que isso acontecesse logo com você? Wherefore are thou, Juliet?
Se fossemos amigas àquela época, eu certamente lhe diria que você estava se equivocando. Onde já se viu se apaixonar tão rapidamente por um total desconhecido?! Você deveria ter se controlado e mantido os pés no chão! Sua imprudência e ingenuidade te levaram ao fundo do poço. E eu tive pena de você.
Porém, Julieta, a grande questão é: quem sou eu para te condenar? O que eu sei sobre o amor afinal? O que você sabia?
Superando minha falta de empatia, senti na pele o que imagino que você tenha sentido e pude ver que se apaixonar é um verdadeiro tornar-se vítima de si mesmo.
Eu também me apaixonei por um desconhecido, Julieta. E muito mais rápido que minha cabeça cheia de razão acreditava ser saudável. Tal qual você, eu sabia que me permitir ter sentimentos por ele seria minha ruína e mesmo assim não pude evitar amá-lo.
Não foi amor à primeira vista. Acho que isso não existia na sua época e continua não existindo na minha. Então, você deve estar se perguntando como explicar o sentimento forte que somos capazes de nutrir quase instantaneamente por alguém que pouco conhecemos. Eu acho que, primeiramente, Julieta, nós nos apaixonamos pela ideia de conhecer o outro.
Assim como qualquer ser humano, eu não posso afirmar o que é o amor, nem quando ele começa, nem quando acaba, muito menos por que surge. Eu só posso senti-lo. Explicá-lo não cabe a mim. Da mesma forma, porém, assim como qualquer ser humano, eu continuo tentando entendê-lo e tirar dele algum sentido. E então acabo tendo a minha própria concepção de amor. Quanto a mim, imagino que para amar alguém é preciso conhecer. É preciso saber dos defeitos e das qualidades, dos sonhos e dos traumas, dos medos e dos anseios. Eu acredito, Julieta, que o amor seja gradual, contínua e vagarosamente construído. E pelo pouco tempo que convivi com meu Romeu, eu o amei a cada nova descoberta.
Eu amei o som da voz dele ao chegar aos meus ouvidos. Amei ver que nossa primeira conversa o deixou tão nervoso quanto eu estava. Amei também ver que o nervosismo dele se dissipou junto com o meu à medida que nossa primeira conversa não acabava. Amei o sorriso torto que ele exibia quando eu contava algo engraçado. Amei saber aos poucos do que ele gostava e para o que não ligava. Amei que ele tenha começado a me falar sobre a família dele. Amei que tenha aceitado minha ajuda para resolver problemas. Amei seu gosto musical, tão diferente do meu, e amei ainda mais como isso me fez querer conhecer o mundo dele. E fazer parte desse mundo. Amei a forma como ele andava despreocupadamente. Era como se soubesse que o mundo pararia e esperaria até que ele chegasse aonde quer que estivesse indo. Eu amei quando o olhar dele começou a se misturar com o meu. Amei saber que as mãos dele procuravam pelas minhas. Amei quando ele me abraçou e fez carinho no meu cabelo, como se soubesse a paz que esse pequeno gesto me traria. Amei a sensação de proteção e cuidado que veio desse abraço. Amei me deparar com ele à noite nos meus sonhos. Amei o frio na barriga que surgia sempre que ia encontrá-lo. E eu amei quando ele me beijou. Pareceu tão certo, tão natural, como se nossos lábios já se conhecessem de vidas passadas e estivessem finalmente se reencontrando. Eu o amei, Julieta. No pouco que o conheci, eu o amei plenamente. E gostaria de tê-lo amado muito mais. Eu sabia que podia amá-lo muito mais se me fosse permitido. Acredito que você tenha se sentido assim.
Mas bem sabes: “Estas alegrias violentas têm fins violentos, falecendo num triunfo, como fogo e pólvora que num beijo se consomem”.
Infelizmente, Julieta, minha história com meu Romeu também foi muito breve. E quando acabou, pensei em você. Pensei no desespero que você sentiu ao encarar a possibilidade de uma vida sem seu amor. Pensei em como doeu para você perceber que havia dentro de si ainda tanta vontade de amá-lo e ver a possibilidade de crescimento desse sentimento ser subitamente interrompida. Eu te vi sem chão. E senti sua agonia, Julieta. Uma parte de mim também morreu quando me vi no seu lugar. E então quis saber se você, alguma vez, desejou não ter se apaixonado por Romeu apenas para que nunca tivesse de encarar o sofrimento de ter que viver sem ele.
Eu posso te dizer que eu, no meu caso, desejei isso uma vez. E me senti um tanto covarde logo depois por tal pensamento. Afinal de contas, mesmo não tendo durado, meu amor também foi clássico. Meu Romeu, embora não saiba, fez de mim uma pessoa melhor. Ele me deu a experiência de sentir, pela primeira vez, o amor puro, sincero e despretensioso. Ele me fez ter consciência de que eu preciso me permitir viver algumas aventuras e que alguns arranhões fazem parte do pacote. Certas cicatrizes estão ali para me lembrar de que me atrevi a tentar algo. Ele me mostrou a necessidade do amor próprio, da paciência e da fé. E por tudo isso sou eternamente grata a ele.
Eu não sei se existe destino ou se tudo não passa de uma obra do acaso. Não sei se toda Julieta vai encontrar seu Romeu nem se suas histórias terão um final feliz. Não sei se o universo tem planos para cada um de nós ou se nossas jornadas são apenas alguma brincadeira divina. Mas acredito que chega uma hora em que nós precisamos assumir o controle das nossas vidas, ser gratos pelos amores épicos e breves que vivemos e seguir em frente. Não é fácil. Contudo é uma forma de honrarmos nossas histórias e afirmarmos ao universo que fomos dignos de vivê-las.
Eu, assim como você, ainda não superei meu Romeu. Cada vez que o vejo passar por mim, meu coração clama por amá-lo um pouco mais e meu desejo é abraça-lo e cuidar dele como um dia ele, sem saber, fez por mim. Gostaria que, algum dia, nossa história tivesse continuidade, porém não depende mais de mim, Julieta, e por isso estou reaprendendo a viver com a ausência dele. E eu sei que vou sobreviver. Essa é uma das maiores dádivas da vida: a possibilidade de não se render e lutar pela sobrevivência. Queria ter lhe falado isso quando você mais precisou.
Hoje a compreendo melhor e sei que você não tinha as respostas para as perguntas que te fiz no começo. Talvez ninguém tenha. Você era humana, Julieta, e se entregou ao que sentia da maneira como sabia. Todos nós fazemos o mesmo e não temos controle sobre o que nos acontece. Apenas podemos lidar com nossas decisões, tentando ter consciência do que podemos e não podemos viver sem.
Dizem que a vida é feita de escolhas. Eu acrescentaria que a vida é feita também do conjunto de todas as consequências provenientes do caminho que escolhemos tomar e de todas as possibilidades que perdemos ao deixarmos uma estrada para trás. Porém, tenho acreditado, Julieta, que o grande segredo seja manter sempre a caminhada. Uma hora a gente chega aonde sempre deveria ter estado.
Com carinho,
Uma Garota. ”
Fale com o autor