Carta à Eros
1 Nosso amor morreu.
O que conto não é novo, muito menos incomum, mas vale ser contado. É mais um caso de amor, mas como todo caso de amor, é O caso de amor. Fui eu mesmo o protagonista desse episódio, logo e bem vivido episódio… Em uma realidade tão sofrida como a nossa — sim, me incluo e te incluo — onde os livros mais sobrenaturais fazem sucesso, meninas querem viver para sempre apaixonadas por um vampiro ou lobisomem. Esse não. É um conto de amor real… pelo menos para a minha realidade, a história de duas pessoas que morreram de amor um pelo outro… bem, não literalmente, mas acima de tudo, um amor que morreu no final. Sim, os amores podem morrer.
Tudo começou em uma linda tarde de sábado, durante as férias de verão, quando nos olhamos pela primeira vez… foi amor a primeira vista. É piegas? Sejamos piegas meu bem! Quando eu lhe vi naquele vestido florido, rodando na areia da praia, tocando seus pés na onda gelada e dando gritos ensurdecedores de alegria, não há ninguém que possa resistir a isso, minha querida. Sua boca pintada de rosa assim como seus cabelos que se entrelaçavam com o vento e seu rodopiar. E como você girava! Foi num desses seus giros que você parou bruscamente e olhou para mim pela primeira vez… Meu mundo mudou, minha pequena! Olha para mim, falando de você como se ainda fosse minha. Quanto equivoco, meu Deus! Desde a primeira vez em que te vi, eu soube, no fundo de minha alma, que você nascera com o vento, e como ele você passaria por mim deixando as marcas de uma erosão na pedra. Sim, pois é isso que eu sou, nada mais que uma rocha imóvel esperando para sofrer a erosão do tempo transformando-me na mais bela escultura da natureza.
Depois daquele dia eu nunca mais fui o mesmo. Descobri onde você morava, e quanta surpresa eu tive ao saber que invadira eu seu domicilio. Perdão minha senhora, não foi minha intenção entrar em seu território. Lembra o que me respondestes? Eu lembro, cada palavra. “E quem pode ser dono de uma coisa tão bela se não somente Deus? Tô aqui só de passagem” Eu não sabia, menina, o quão literal eram suas palavras. Você era cigana, ou coisa do tipo. Quis ler minha mão, deixo não princesa, tenho medo. Mal sabia que não era a você ou a sua magia que eu temia, muito pelo contrário, a ti só fiz admirar desde o primeiro instante.
Você me mudou de dentro para fora. Me ofereceu meu primeiro baseado. Como eu tossia… e como você ria! Não ria de mim, não sou nenhum palhaço. Fui para minha casa, passei dois dias inteiros sem te ver, não aguentei de saudades, voltei. E lá estava você, dançando com o vento, parou seu giro para correr em minha direção. Ainda não sei o porque de tanta surpresa, você sabia que eu havia desaprendido a viver sem você.
Pintou-me também por fora. Tatuou-me com rena dos pés a cabeça… e como desenhavas bem. E meus cabelos? Grandes e embaraçados, longos dreads e tantas puseras, quando olhei-me no espelho mal me reconheci. Lembrando disso acho graça, eu mergulhei inteiramente em você, confiei sem pestanejar. Valeu cada gota de água respirada. Você disse que tinha que se mudar, chamei-a para minha casa, você recusou gentilmente, entendi que já tinhas um teto. Sumi mais alguns dias, aluguei o meu apartamento, arrumei algumas coisas, sai só com o dinheiro da carteira. Viajamos.
Conhecemos o mundo e outros planetas, provamos de tudo, de todas as maneiras. E transamos. Nos beijamos de 78 formas diferentes, decoramos o kama sutra e inventamos novas posições. Fomos a shows, fizemos amigos, provamos novas passagens, novas viagens, passamos pelo cigarro, pelo cachimbo, pelo ácido. Vomitamos, trememos, espumamos. Paramos.
Um dia você disse que queria ir para casa. Não, menina, já não tinha mais volta. Você tirou minhas correntes e jogou a chave fora. Eu morava ali ou em qualquer outro lugar, eu morava com Deus, ia onde o vento me levar. Mas você me disse que estava cansada, já tinha vivido o que tinha de viver, essas coisas que gente velha costuma falar. Perguntei o que você tinha, não quis me falar. Não me preocupei, você daria um jeito, sempre deu. Não me enganei, uma semana depois você fugiu do nosso ninho com um outro cara. Não amor, não estou triste de maneira alguma. É uma das peculiaridades do amor, você fica feliz por quem você ama mesmo que isso te mate, te envenene, te castre… enfim. Lá estava você, casada — sim, casada! — com uma pedra. Imutável, dura, sem forma. Não se aflija minha querida, eu entendo que o vento precisa seguir seu caminho, você tem mais pedras para modelar. É só… não me entenda mal, estou feliz por você, mas esse menino no seu colo, esse mesmo que você dá de mamar, com os olhos iguais ao meu e que você deu a luz poucos meses depois de me deixar… ah, quer saber? Deixa para lá. Estou errado, eu sempre estou, estive quando pensei que podia te ter para sempre, estive novamente quando pensei que esse menino, talvez, pudesse ser tão meu quanto seu, mas o maior de todos os meus — persistentes e incontáveis — erros foi dizer que o amor morre.
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