Carrossel e o vale das almas perdidas
1 A partida
Notas iniciais
MAJO. Se eu tivesse escolha, a casa de campo dos Cavalieri seria o último lugar na face da Terra onde eu passaria os últimos dias antes de me mudar de vez pros Estados Unidos. Mas, como eu ainda tinha um pingo de consideração pelo Jorge, uma das poucas pessoas que eu consigo suportar naquela escola maldita, resolvi esquecer as diferenças que sempre me separaram de todo mundo, embora eu tenha passado um bom tempo fingindo que não me importava, e viajar com a cambada de mal educados do nono ano.
Tirando o Jorge, as únicas pessoas de quem eu vou sentir falta são a Bibi e o Daniel. E foi justamente por isso que eu fiz questão de pedir pro meu pai levar eles dois com a gente. Eu confesso que ainda tenho uma quedinha pelo Daniel, mas, depois de tanto tempo na friendzone, eu cansei de tentar alguma coisa com ele. Bem, pelo menos assim eu posso viajar em paz. Namoro à distância é o fim.
"Filha, os seus amigos já tão lá embaixo te esperando," falou minha mãe abrindo a porta do quarto sem bater. Eu odeio quando ela faz isso, mas dessa vez deixei passar porque já tava atrasada e gritar com ela só ia borrar a minha maquiagem. "Pois vai logo apressando o papai que eu já tô descendo," respondi. Na verdade eu já tava pronta há muito tempo, mas quando eu me dei conta de que aquela seria a última semana onde eu poderia arrancar um beijo do Daniel, fiquei nervosa e precisei de uns minutos pra relaxar.
Eu sabia que não tinha nada errado comigo. Eu sou bonita, rica, inteligente, saudável. O que mais ele poderia esperar de uma garota? Seja como for, dei uns retoques de última hora na make e desci as escadas arrastando a mala, mais pesada que uma elefanta grávida de trigêmeos.
"Deixa que eu te ajudo," disse Daniel ao me ver lutando pra conseguir descer as escadas. Quando as mãos dele tocaram a mala, os nossos rostos se encontraram e ele sorriu. "Pode deixar que eu levo," ele disse ainda sorrindo. Provavelmente era só simpatia, mas a minha cabecinha oca fez questão de assumir que ele tava a fim de mim e que não via a hora de ficar à sós comigo pra dizer o quanto ele tava sofrendo com a minha viagem pros Estados Unidos. Ai ai, só eu mesmo pra pensar essas coisas do nada.
"Oi amiga," falou Bibi me cumprimentando com um beijo na bochecha. Eu já tava tão nervosa que nem lembrei de falar com ela. Tudo que eu conseguia fazer era ficar ainda mais impaciente e me olhar no espelho de minuto em minuto pra ver se tinha alguma coisa errada com o meu rosto.
"Maria Joaquina, o seu pai mandou avisar que já tá descendo," veio informar Joana com aquela cara de despreocupada, como se o mundo não estivesse prestes a desabar na minha cabeça. "Fala pra ele se apressar senão a gente vai ficar pra trás. O Jorge já deve tá chegando," eu disse sem me tocar que ser grosseira com ela não ia ajudar em nada na imagem de menina boazinha que eu tava tentando passar pro Daniel o ano inteiro.
Na verdade eu nem me importava se a gente ia se atrasar ou não. Tudo o que eu mais queria era chegar lá sem uma gota de suor no corpo e com o rosto exatamente do jeito que eu deixei, depois de quase duas horas me maquiando e garantindo que tudo saísse maravilhosamente bem. E nem de longe eu aceitaria algo menos que perfeito nessa viagem.
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JORGE. Eu tava extremamento furioso com o meu pai. Onde já se viu oferecer carona pro idiota do Cirilo sem me perguntar antes? Eu tinha mandado uma mensagem pra ele dizendo que o carro tava cheio mas eu acho que o tapado fez as contas e viu que não tinha mais ninguém sem carona, fora ele e a Margarida.
"Jorge, se você não mudar essa cara, não tem mais viagem nenhuma, ce tá me entendendo?". Ai que ódio. O meu pai sempre dava um jeito de me fazer aceitar as coisas do jeito dele. E o pior de tudo é que sempre o Cirilo tá metido em tudo. Sempre. Aproveitei o memento de silêncio e saí da cozinha. Aquele clima com o meu pai tava acabando comigo.
"Tá tudo bem, Jorge?", perguntou Cirilo quando eu apareci na sala carregando a mala que eu comprei na última viagem que eu fiz pra Europa. Eu já devia ter imaginado que ele ia tá com uma bolsa pobre e suja, provavelmente cheia daqueles trapos que ele usa pra sair de casa. É incrível como, mesmo depois de ter virado rico, ele continuava o mesmo miserável de sempre. E mesmo assim eu tinha que fingir que nós éramos os melhores amigos do mundo pro meu pai não cancelar a viagem de última hora e me fazer pagar o maior mico na frente de todos os meus colegas.
"Tá sim. A Margarida ainda não chegou?", eu perguntei pra ver se ele me deixava em paz. "Ela tá lá fora se despedindo dos pais dela. Você quer que eu chame ela pra você?", ele respondeu como se eu precisasse de algum favor dele. "Na verdade, Cirilo. Eu preciso que você vá até o carro e verifique se tá tudo bem com ele. Vai que alguém tentou roubar né. Nunca se sabe."
Como era de se imaginar, ele obedeceu sem dizer uma palavra e saiu correndo lá pra fora. Depois de tanto tempo sendo feito de idiota, ele ainda caía em todas as pegadinhas que faziam com ele. E eu, claro, não ia deixar de me aproveitar disso. Bem, pelo menos agora eu tinha um tempinho livre antes do meu aparecer pra gente ir. Aproveitei e mandei uma mensagem de texto pra Marcelina, só pra verificar se tava correndo tudo bem na casa do Jaime. Ela e os outros iam na vã do Seu Rafael. E lembrar disso era a única coisa que me fazia ficar mais tranquilo. Além do mais, entre a companhia do Cirilo ou do Paulo, eu não precisava nem pensar duas vezes.
"A gente teve um probleminha com a vã mas no máximo em uma hora nós estamos saindo daqui. E vocês?", ela respondeu por mensagem de texto. Eu não tava acreditando que eles ainda iam demorar uma hora pra sair. Ainda bem que o meu pai enviou o mapa pro celular do Seu Rafael. Eu só espero que aquele caipira inútil saiba como se usa um GPS.
"Pronto, Jorge. Pode avisar pros seus amigos irem entrando no carro. E lembre-se de tratar bem o Cirilo, tá me ouvindo?", disse meu pai, com aquele ar de superioridade que sempre me silenciava. Algum dia desses eu vou acabar gritando com ele pra mostrar como é bom receber ordens. Mas enquanto esse dia não chega, é melhor fazer tudo certinho e garantir que as coisas saiam como eu planejei. "Tudo bem, pai. Eu prometo que vou me comportar direitinho," falei e saí apressado pra entrar no carro.
Quando eu vi a Margarida toda de branco, com umas estrelinhas desenhadas no vestido, eu achei que tava sonhando. Era incrível como, quanto mais o tempo passava, mais ela ia ficando bonita. E se eu não tivesse completamente apaixonado pela Marcelina, até que poderia tentar alguma coisa com ela.
"Vocês vão ficar aí fora com cara de bobos? Ein Cirilo, eu tô falando com você!", gritei olhando diretamente pra cara de tapado do Cirilo. Sem dar muita bola, notei que a Margarida tava rindo da forma como eu tratei ele. Acho que ela concordava comigo que ele era inferior e merecia ser tratado daquele jeito. Talvez eu consiga até fazer dela uma amiga de verdade, mesmo que a classe social dela nem se compare com a minha. O ideal seria a Maria Joaquina, mas como ela já vai sair do Brasil mesmo, melhor ficar com o que eu tenho aqui.
Meu pai veio em seguida e entrou no carro. Nós três estávamos em silêncio. Eu no banco da frente, a Margarida e o Cirilo no de trás. Dava pra ver que ele tava desconfiado de alguma coisa. Talvez o olhar de sofrido do Cirilo estivesse fazendo parecer que eu tinha feito alguma coisa. "E então, Cirilo, você tá animado pra essa viagem?", perguntei pra ver se o clima no carro melhorava um pouco. "Claro que sim. Eu tô louco pra conhecer a sua casa de campo. O seu pai disse que tem até piscina lá," ele falou mostrando uma empolgação que até então não existia. Vai ver ele tava fingindo tanto quanto eu. "É Cirilo, nós vamos nos divertir muito essa semana," eu disse, olhando pra frente enquanto o meu pai colocava o carro em movimento.
Do espelho retrovisor dava pra ver o olhar da Margarida cravado no meu. Ela sorria como se esperasse que eu estivesse pensando o mesmo que ela. O que seria? Um convite pra aprontar com o Cirilo a viagem inteira? Ou será que ela tava a fim de mim? Naquela hora eu só conseguia pensar na confusão que deveria estar acontecendo na casa do Jaime. E na coitada da Marcelina tendo que lidar com tudo aquilo sozinha.
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CARMEN. Já era quase dez da manhã quando de repente a vã do Seu Rafael começou a soltar umas baforadas de fumaça, como se fosse explodir. "Calma aí, gente, que tá tudo sob controle," ele disse há sei lá quantos minutos atrás e até agora nada. Por conta disso eu tô com um cheiro horrível de fumaça pelo corpo todo. Ainda bem que o Daniel não vai com a gente.
"O que foi, Carmen, tá tudo bem com você?", a Alicía veio me perguntar. Acho que ela percebeu que eu tava meio ausente, tipo o Adriano quando tinha aqueles sonhos malucos no meio da aula e ficava com cara de doido sorrindo pro teto. "É que… Eu tô pensando no Daniel," eu falei sem ter coragem de levantar o rosto. Mesmo a Alícia era a única menina da turma que sabia do lance que tinha rolado entre eu e ele no último dia de aula, aquilo ainda me deixava com muita vergonha. Eu nunca tinha gostado de ninguém antes.
"Amiga, não fica assim. Foi só um beijo e nada mais. Você precisa esquecer isso e aproveitar a viagem com quem realmente quer o seu bem." Ela tava completamente certa. De onde que o Daniel, o príncipe da Escola Mundial, iria querer ter algo comigo, a menina mais sem graça de todas. Mas, se ele não tava a fim de mim, por que me segurou na sala quando todo mundo já tinha saído e me beijou daquele jeito? Será que foi uma aposta com os meninos?
"Você tem razão, Alícia. O Dani nunca ia querer ficar comigo," eu falei, um pouco mais confiante. A Alícia veio chegando mais perto de mim, como se quisesse me contar algum segredo."Amiga, eu nunca vi o Daniel falar de menina nenhuma em todo esse tempo que a gente estuda junto. Às vezes eu acho que ele gosta é de garotos…". Quando ela falou aquilo, nós duas começamos a rir, sem perceber que todo mundo tava olhando pra nossa cara. Estávamos todos esperando na sala da casa do Jaime.
"O que foi, ein, por acaso tem algum palhaço aqui nessa sala?", perguntou Paulo furioso com a nossa risada. Eu até senti vontade de responder à altura, mas todo mundo já tava tão estressado que foi melhor eu ter ficado calada mesmo.
Do nada, o Jaime entrou na sala todo apressado e me dá o maior susto. "Cambada, o meu chefe mandou avisar que vai demorar mais um pouco. Acho melhor a gente fazer um lanche enquanto ele não resolve o problema." Ele devia tá pensando que a gente ia acabar com a comida da casa dele. Só isso pra explicar a pressa com que ele se enfiou na cozinha. De onde a gente tava, dava pra ouvir barulho da geladeira abrindo e fechando sem parar. Depois o Paulo, o Mário e o Koki foram atrás dele, praver se ainda tinha sobrado alguma coisa.
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MARCELINA.Quando os meninos entraram na cozinha, eu fiquei sozinha no sofá, olhando de longe pra cara da Carmen e da Alícia. Aposto que elas tavam falando de mim.
Eu ainda tava com muita raiva da Alícia pela forma como ela tratou o Paulo assim que a gente chegou, então preferi ficar quieta no meu canto, mexendo no celular. O Jorge não parava de me mandar mensagem um segundo sequer.
"E aí, Marce, vocês já saíram?", ele perguntou pela quinta vez seguida. Eu já tava ficando de saco cheio dele mas naquele momento aquelas mensagens eram tudo que eu tinha pra não ter que interagir com as meninas. "Nada, ainda. Talvez a gente demore mais do que eu pensava," respondi rapidamente. Os meus dedos já estavam doloridos de tanto digitar.
Depois que o Paulo levou um fora da Alícia e passou uma semana inteira chorando no meu ombro, eu resolvi que namorar não estava nos meus planos. Eu imagino que o Jorge esteja esperando alguma coisa de mim, mas eu tô tentando deixar bem claro pra ele que a nossa aproximação é somente por causa da viagem.
Nós dois combinamos tudo desde o começo, no intuito de reunir a nossa turma uma última vez, antes do ensino médio. A única parte ruim é que a mamãe e o papai me pediram pra guardar segredo sobre a nossa mudança. Eu até entendo que, quando o Paulo descobrir, ele vai fazer um inferno pra que a gente não vá, e isso acabaria estragando o meu sonho de morar no Rio de Janeiro. Mas eu queria que todo mundo soubesse que essa vai ser a nossa última semana, minha e do Paulo, com eles.
De certo modo, eu adoro despedidas. Parece estranho da minha parte querer ir embora depois de ter feito tantos amigos por aqui mas já faz um bom tempo que eu não tenho mais vontade de sair com o pessoal. Até fiz novas amizades com umas meninas do oitavo ano pra ver se mudava um pouco os ares. E agora tudo que eu tenho na minha frente é o olhar de reprovação da Carmen e da Alícia. Humff. Como se eu me importasse com o que elas pensam de mim.
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ADRIANO. Essa noite eu tive um pesadelo muito estranho. Primeiro aparecia uma menina com o rosto completamente branco e os olhos vermelhos. Ela aparecia por trás dos meus amigos e dava um grito bem forte. Depois disso todo mundo caía no chão desmaiado, menos eu. Tava tudo muito escuro e silencioso. Só tinha uma luz bem fraca vindo de uma janela do galpão. Eu corria até lá, sabendo que a menina corria bem atrás de mim e, quando eu me dei conta, tinha uma velha do outro lado da janela. Sem poder voltar, já que a menina tava vindo, eu cheguei bem perto da velha e do nada ela me abraçou. Por um segundo, achei que a menina tinha desaparecido mas aí a velha começou a me apertar pra que eu não fugisse, gritando alguma coisa numa língua desconhecida. A menina reapareceu no meio da escuridão e começou a morder a minha perna. Eu senti uma dor enorme, como se os dentes dela fossem tão afiados quanto os de um tubarão. Aí eu acordei completamente encharcado de suor e com a cama toda molhada. Por sorte ainda eram nove e meia da manhã e ainda faltava um pouco pra hora de sair.
"Adriano, tem alguém buzinando lá fora. Deve ser a mãe da sua amiga!", disse minha mãe ao longe. Como eu já tinha me despedido dela e tava só esperando a Valéria chegar, dei um abraço no chulé e saí correndo em direção à porta. Dentro de mim ainda restava um pouco de medo do sonho. Tipo aqueles pressentimentos de quando alguma coisa vai dar errado. Mas mesmo assim eu segui em direção ao carro, sem me importar com nada, e aos poucos a lembrança do sonho foi se apagando da minha memória.
"O que você tem nessa bolsa que tá pesando tanto?", perguntou a mãe da Valéria enquanto colocava a minha bagagem no porta-malas. "É o meu livro de sobrevivência pós-apocalíptica, tia Rosa. É sempre bom ter um desses quando se viaja pra um lugar desconhecido". Como era de se esperar, ela riu da minha cara e voltou pro carro. Do lado dela tava a Valéria com cara de nojo, provavelmente porque brigou com o Davi, e atrás tinha o Davi e a Laura. Eu sentei do lado da porta, empurrando o Davi pro meio. Dava pra sentir que ele tava sendo esmagado por mim e pela Laura.
"Será que dá pra vocês afastarem um pouco mais? Tá difícil até pra respirar," falou o coitado do Davi, suando frio. "Fica quieto Davi, senão eu vou acabar errando o caminho," a Valéria disse quase gritando. É, definitivamente eles tinham brigado. "Olha como você fala com o seu amigo, Valéria," falou a tinha Rosa, tentando acalmar os ânimos da própria filha. Eu tentei afastar um pouco pro lado, e acredito que a Laura fez o mesmo, mas mesmo assim o Davi continuou esmagado entre a gente.
"O Jorge acabou de avisar que eles já tão saindo da casa da Maria Joaquina. Então eu acho melhor a gente ir direto daqui," a voz da Valéria tava diferente, bem mais séria que de costume. Eu até pensei em dizer que era melhor ir todo mundo junto, mas como ela tava uma fera, eu preferi ficar calado. "Tem certeza, filha? A gente pode acabar se perdendo," falou a tia Rosa, calma e concentrada na direção. "Tenho sim, mãe. Eu tô vendo o caminho aqui pelo GPS. A gente não vai se perder, fica tranquila," a Valéria disse, pondo um fim em qualquer discussão que poderia vir pela frente.
De repente, eu comecei a me sentir mal, da mesma forma que acontecia no sonho, depois que a menina fantasma aparecia. Do outro lado do banco, a Laura tava rezando, apreensiva. Talvez ela também estivesse sentindo uma coisa negativa no ar. Cruzei os dedos, bastante nervoso, e torci pra que nada de ruim acontecesse durante a viagem. Afinal de contas era a nossa última semana juntos e nada poderia dar errado.
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JORGE. "É só seguir reto na estrada que liga São Paulo ao Mato Grosso do Sul. No meio do caminho eu vou dobrar numa entradinha estreita, dentro do mato. É só me seguir que não tem erro," falou o meu pai, de dentro do carro, para o pai da Maria Joaquina, em pé do lado de fora.
"Tudo bem, Alberto, mas é bom ir devagar pra não assustar as crianças," disse o Doutor Miguel, com toda a classe de um homem sério, assim como eu e o meu pai. "Relaxa, Miguel. Daqui pra frente é só diversão," completou meu pai, colocando o carro em movimento.
No carro ao lado, dava pra ver a Bibi tagarelando sem parar, enquanto o Daniel e a Maria Joaquina permaneciam calados. O Cirilo tava com a cara pregada na janela, vendo de longe a menina que nunca ia dar bola pra ele. Inclusive eu aposto que a ideia de mandar ele pedir carona pra mim veio dela.
"Você já foi lá muitas vezes, Jorge?", a Margarida perguntou enquanto eu checava se tinha mais alguma mensagem da Marcelina na minha caixa de entrada. "Só quando eu era bem pequeno. Mas o meu pai sempre fala coisas boas de lá. Se bem que também faz um bom tempo que ele não vai lá… Né pai?", eu perguntei, olhando pra cara do meu pai, que nesse momento não prestava a mínima atenção no que eu tava dizendo.
"Pai?", eu coloquei a mão na frente do rosto dele pra ver se ele me dava bola. "O que foi, Jorge, você não tá vendo que eu tô dirigindo?", ele respondeu arrogante. Ultimamente ele só falava assim comigo. Mesmo eu sendo o filho que todo pai gostaria de ter. Vai entender…
"Eu perguntei se faz tempo que o senhor não visita a casa de campo da família," insisti pra não deixar a Margarida no vácuo. "Ah, sim. Faz bastante tempo que eu não vou lá. Mas o Senhor Ferdinand, o caseiro, me falou por telefone que tá tudo em ordem," ele respondeu, finalmente.
Eu nunca tinha ouvido falar nesse tal Senhor Ferdinand, mas aí lembrei que uma vez vi os meus pais comentando que o caseiro antigo tinha morrido de tão velho e que tiveram que colocar alguém no lugar dele. Se eu não me engando, foi o meu tio que ficou responsável por encontrar um novo caseiro.
"Então o senhor nunca nem viu esse novo caseiro?", perguntei ainda interessado no assunto. "Nunca. Mas pelo que me contaram, ele parece ser uma boa pessoa. Depois que ele recebeu alta do hospício, o coitado nunca mais falou com ninguém. A loucura deve ter deixado ele mudo," por incrível que pareça, o meu pai falou sobre o assunto com a maior naturalidade do mundo.
"Como assim, hospício? Isso não é aquele lugar pra onde levam os doidos?", a Margarida perguntou, sem dar bola pro Cirilo morrendo de medo do lado dela. "É sim, mas não precisa ter medo não. Todo mundo fala bem dele. E de qualquer forma, eu e o Miguel vamos ficar lá com vocês. Não precisa ter medo. Viu Cirilo," ele virou pra trás, por um segundo, e pôs a mão no ombro do Cirilo. É incrível como aquele tapado sempre acabava chamando a atenção do meu pai e de todo mundo. Como se a gente fosse obrigado a sentir pena dele o tempo inteiro.
De repente, o meu celular vibrou. Era a Marcelina dizendo que o pai do Jaime tinha acabado de consertar a vã e que eles já tavam de saída. "Até que enfim. Qualquer coisa, me avisa," eu respondi pra ela, empolgado. Dei uma olhada pra trás, com a cabeça pra fora da janela, e vi a Maria Joaquina no carro logo atrás da gente. Fiquei imaginando se eu ainda iria vê-la depois daquela viagem. Provavelmente sim, já que eu vivo viajando pro exterior. Mas mesmo assim, eu sabia que depois daquela semana, nada seria a mesma coisa. Nem pra mim, nem pra ninguém do nono ano. E aquilo ficou entalado na minha garganta. Como se pela primeira vez eu estivesse sentindo alguma coisa por aqueles idiotas com quem eu estudei desde o terceiro ano. Como se a melhor época das nossas vidas tivesse ficando pra trás.
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