Carrossel
1 Meu Pequeno Carrossel
Notas iniciais
http://www.youtube.com/watch?v=iZeomtLGCbc
Bailarinas e pianos. A casa da minha mãe era infestada por esses enfeitinhos musicais. Minha mãe sempre foi uma apaixonada por caixinhas de música e fazia questão de colecionar tantos quanto podia. Havia diversos tipos de caixinhas espalhadas pela enorme casa antiga onde ela morava: caixinhas de madeira simples, algumas de vidro em que era possível ver o mecanismo funcionando, outras mais trabalhadas com bailarinas rodopiando em frente a um espelhinho ou casais dançando ao som de uma delicada melodia. Pianinhos coloridos, carruagens dignos de princesas, pequenas vitrolas douradas e golfinhos em bolas de vidro que brilhavam na luz do sol ao lado da janela também participavam da coleção que se espalhava por toda a casa. E eu ainda me lembro da minha caixinha favorita: um minúsculo carrossel branco e vermelho, delicado e precioso como uma rosa nascida no asfalto. Eu também lembro de ver os olhos da minha mãe brilharem toda vez que me via acompanhar a música daquele carrossel.
Aos meus 22 anos, lembro de ter conversado com ela:
- Mãe, nossos aniversários estão chegando. Já sabe o que quer ganhar?
Eu e minha mãe fazíamos aniversário no mesmo dia, então a conversa era sempre a mesma: eu perguntava o que ela queria ganhar, ela dizia que não precisava de presente e eu insistia até descobrir algo que ela gostaria de ganhar.
- Eu não preciso de presente. Use seu dinheiro pra algo que você precise.
- Tem certeza? Eu acho que me lembro de ter ouvido você falar sobre uma certa caixinha...
- Você devia parar de espionar os outros – Ela disse, sorrindo como uma criança – Não era nada...
- Ora mãe, me diga. Eu vou me sentir mal se não der nada pra você num dia tão especial.
- Bom... – Ela começou, tímida – Eu estava comentando com sua tia sobre uma certa caixinha de música... Única no mundo... Francesa, feita de madeira nobre, em formato de relógio... É algo que está muito além do nosso alcance, portanto nem tente se preocupar. Apenas achar essa caixa iria custar 5 anos de nossas vidas.
- É, parece realmente uma peça rara... Mas eu prometo que vou achar algo ao alcance pra você. Está ficando tarde, então estou indo pra casa. – Dei um beijo em sua testa, peguei minha mochila e assim que minha mão tocou a maçaneta fria, ela perguntou:
- Mas e você, o que vai querer de aniversário?
- Bom, eu gostaria de morar na Alemanha, mas isso também está fora do nosso alcance.
- Parece que sim... – Seu rosto perdeu um pouco do animo que guardava – Acho que seria mais justo se esse ano comprássemos presentes mais baratos para nós. O que acha?
- Combinado.
- Ótimo. Bem, acho que está na hora de molhar as plantas.
- Adeus, mãe.
- Até mais.
Fechei a porta atrás de mim decidida: eu iria encontrar essa caixinha de música francesa nem que isso custasse minha vida. Minha mãe me criou sozinha, já que meu pai morreu enfermo quando eu ainda era muito pequena, e tudo que eu já tive eu devo a ela. Achava justo que ela tivesse tudo o que desejasse enquanto vivesse.
Como ainda faltavam alguns meses até nosso aniversário, eu comecei a busca pela tal caixa logo cedo. Pesquisei muito na internet até driblar todas as falsificações e achar o verdadeiro relógio. Estava no Canadá, sob a posse de um homem gordo e extremamente rico. Passei algum tempo completando o dinheiro para que eu pudesse viajar e negociar diretamente com o homem, já que o resto das minhas economias seria gasto com a caixinha. Enfim, consegui passagens para uma semana no Canadá, onde conheci o senhor e insisti até que ele quisesse estipular um preço pela peça, que, de acordo com ele, era tão rara que não poderia ser comprada tão facilmente. Quando usei até meu último centavo e gota de suor para conseguir a caixinha, já era meu aniversário, e eu ainda teria que passar mais um dia no país. Eu daria “feliz aniversário” atrasado para minha mãe, mas o que importa é que eu daria um presente que eu sabia que ela iria amar.
(http://www.youtube.com/watch?v=iZeomtLGCbc)
Mas foi então que eu recebi a notícia. Foi como se a bailarina de uma pequena caixinha já não tivesse mais música para dançar. Apenas uma casca vazia sem nada para preencher.
Minha mãe havia morrido no dia de nosso aniversário, atropelada enquanto atravessava a rua. O corpo já tinha sido enterrado e eu não fiquei sabendo enquanto estive fora.
A mulher que havia cuidado de mim durante toda minha vida agora não estava mais aqui. Eu fiquei perdida.
Respirei fundo e voltei para casa, abatida.
No dia seguinte, resolvi visitar a casa dela. Mais calma, abri a porta da frente e me senti uma criança de novo. Queria gritar pela minha mãe, mostrar os arranhões que tinha feito brincando no parquinho, queria levar bronca por ter sujado minha roupa nova, queria ganhar um beijinho na testa. Queria sentir aqueles olhos cuidando de mim, queria ouvir aquela voz conhecida cantando uma música de ninar antes de dormir. Queria poder vê-la mais uma vez.
As caixinhas de música me olhavam com ternura. Apesar de ela não estar mais ali, eu podia senti-la. Cada uma daquelas caixinhas guardava um pedacinho dela.
Subi até seu quarto. Vazio, frio, porém vivo. No coração de uma menina triste pela perda da mãe, o quarto ainda exalava viva.
Ajoelhei ao lado da cama e tirei o meu presente de dentro da mochila. Depositei o relógio no único espaço vazio na mesa de cabeceira.
Olhei os quatros cantos do quarto até meus olhos descobrirem o carrossel descansando em cima do armário. Puxei-o com cuidado e girei os cavalos. Ouvi a música tocar uma, duas, cinco vezes e não me cansava. Era como se cada nota a trouxesse de volta para mim. Uma mãe e sua filha, juntas novamente.
Foi então que percebi que a parte de cima do carrossel parecia meio solto. Ele sempre esteve assim e eu nunca percebi? Ou havia se soltado há pouco tempo?
Puxei a ponta dourada da minha caixinha favorita e me surpreendi. Notas e mais notas surgiam no compartimento secreto na parte de cima da caixa. Todo esse tempo essa caixinha guardava um segredo e eu nunca descobri.
Tirei o dinheiro e comecei a contar. Havia dinheiro suficiente para comprar várias caixinhas de música. O bastante para fazer uma viagem de longo prazo.
O bastante para comprar uma casa em outro país.
Olhando mais ao fundo, encontrei um pedaço de papel rasgado, meio amarelado, com palavras escritas numa letra caprichada e firme.
“Feliz aniversário”.
Fiquei observando o pedaço de papel e olhei para o relógio. Girei o carrossel uma última vez e ouvi a canção até o final, observando os cavalos girarem, sentindo minha alegria. Finalmente, sussurrei para que toda a casa ouvisse:
- Feliz aniversário, mãe.
Notas finais
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