Carpe Diem

14 Outra e mais outra noite sem você


Notas iniciais
Olá, todo mundo! Mais um capítulo, dessa vez fofinho pra superar os últimos haha A música é Without You - David Guetta ft Usher

A primeira noite sem Scorpius Malfoy foi simplesmente horrível.

Não quero que tenha a ideia errada de mim. Que pense que sou uma daquelas garotas nascidas para servir e viver pelos homens.

Mas se um dia você já amou alguém o bastante para vê-lo como a salvação de seu próprio naufrágio, sim, você saberá do que estou falando.

É claro que sim.

— Rose, não vem comer?

Até mesmo a voz de meu irmãozinho estava me irritando naquele momento. Ele havia colocado a cabeça para dentro do meu quarto, mas o corpo do lado de fora.

— Scorpius ainda está aí com você?

— Não, Hugo — disse simplesmente.

— “Não” para os dois?

— “Não” para os dois — respondi com suas próprias palavras.

Hugo tremeu um pouco a boca antes de tornar a falar:

— Rose, sei que está brava com papai, mas não precisa ficar com o resto de nós. Sabe, eu quero muito agradecer a vocês.

— Uma pena isso, já que Scorpius não voltará tão cedo aqui.

Ao ver seus olhos questionarem em silêncio, completei:

— Ele foi embora, simples assim.

Hugo respirou fundo e entrou no meu quarto. Bateu a porta atrás de si, revelando então um amontoado de bolo em guardanapos.

— Pelo menos a sobremesa você quer, não quer? Esperava que em alguma hora você descesse. Mas já passa das onze, Rose.

— Você? Me dando bolo? Ou melhor, roubando bolo pra mim? Essa é nova, Hugo.

— Estou mesmo agradecendo, irmãzona. Aquilo estava me matando por dentro! Eu gosto da Lily desde os doze, sabia?

— Você gosta dela desde que a viu soltando pum nas fraldas — falei, arrancando algumas risadas dele — Não minta para si mesmo.

— Tudo bem, Rose, você venceu. Está certa.

Sorri e chamei-o para sentar e dividir o bolo comigo na cama. Estava passando uma reprise de Doctor Who no canal trouxa e passamos horas vendo um episódio atrás do outro.

Lily já havia ido embora desde cedo, pelo que Hugo me dissera. E ele estava realmente feliz.

Muito feliz.

Mais do que eu o havia visto em toda minha vida.

Entretanto, por mais que forçasse a barra, eu nunca conseguiria compartilhar a emoção com ele.

Por dentro, eu estava muito mal.

Hugo havia percebido. Sei que sim. Mas ele estava fazendo de tudo para me incluir em sua esfera alegre de amor. E isso se prolongou durante sua curta estadia de páscoa.

A segunda noite, a terceira noite, a quarta noite, todas as noites foram da mesma maneira. Por mais que Hugo tentasse, que mesmo Lily tentasse. Nada me faria mais feliz naquele momento senão a reconciliação de Scorpius Malfoy com Ronald Weasley.

Chegamos, então, ao dia que Hugo e Lily voltariam à King’s Cross. Apesar de tudo, eu não imaginaria o quanto haveria de sentir falta daquela cabeça de cenoura ambulante que já estava maior do que eu.

A verdade, a pura verdade, é que Hugo e eu deixamos de ser tão amigos com o passar dos anos.

Puberdade, adolescência... Todas essas coisas idiotas por quais temos que passar.

Mas, aos poucos, tudo tem voltado a ser com antes.

Pelo menos, o mais próximo disto.

— Não vá fazer nenhuma besteira — sorri para ele, bagunçando seu cabelo.

— Ah, qual é, irmãzona! Sou o monitor-chefe.

— Isso não quer dizer nada — respondi, com uma risadinha. Então, aproximando-me mais, sussurrei: — Dizem que o banheiro de lá é tipo de hotel. Maravilhoso! Fale com a Lily, qualquer dia.

Com a cara de espanto de meu irmão, a minha risada escapou sem querer. Seu rosto era puro vermelho, e eu me surpreendi na rapidez com que ele havia entendido a piada. Apesar disso, preferi sair pela tangente:

— Oh, eca! Seu pervertido! — brinquei, dando um beijinho em sua bochecha — Só quis dizer que ela deve saber, já que é monitora também. Não quis insinuar nada! Só vá logo embora antes que eu chore de saudade, tá legal?

— Tudo bem — ele riu, deixando o rubor ir embora também — Tente não morrer sem mim — e então, a hesitação pegou-o em cheio — Escuta, Rose... Scorpius parece amá-la de verdade. Só espere o tempo dele, okay?

— Okay.

Hugo acenou para mim e entrou no trem.

Meus pais já haviam se despedido dele e me esperavam do outro lado da plataforma.

No entanto, tal fora minha surpresa quando uma coruja lindíssima sobrevoou minha cabeça. Ela jogou um envelope aos meus pés, que abri com evidente curiosidade.

Eis aqui os dizeres:

*O Senhor M. e a Senhora M. tem o enorme prazer de convidar*

Rose Weasley e família

Para celebrar nossa união durante uma tarde quente de primavera, quando nossa pequena flor estará ainda mais bonita.

A cerimônia e a festa serão no mesmo lugar, exatamente às 15h.

O endereço estará atrás do envelope.

PS: Trajes confortáveis e, se possível, de banho.

*Contamos com sua presença!*

Fiquei uns bons minutos olhando e relendo a carta em minhas mãos. Mas antes que eu virasse uma estátua-viva, a coruja rodopiou minha cabeça, levando consigo o chapéu que eu usava.

Corri para alcançá-la, lembrando-me de que aquilo havia custado uma fortuna de trabalho braçal com o Lovegood.

O que me lembrou também de que eu já devia estar trabalhando naquele dia, e precisava mandar uma carta-desculpa para ele logo.

Mas não tive muito tempo para pensar nisso, porque a coruja conduziu-me para uma área estranha, afastada, que eu nunca havia visto antes.

E ele estava lá.

Sim, Scorpius.

Ele estava lá atrás de uns arbustos, sorrindo como se participasse de uma grande brincadeira.

Seu pouco cabelo crescido estava amarrado para trás com um barbante preto, que eu não faço ideia de onde ele o arranjou. Ele mordia os lábios, provavelmente se contendo para não dizer nada antes da hora.

— Eu disse que voltaria para buscá-la, não disse?

— Seu idiota!

Avancei para ele, dando um monte de socos em seu peito rígido por tanto treinamento recente. Scorpius parecia rir da minha incapacidade atlética.

— Ei, ei, ei. Vai com calma, cabelo-de-fogo. Quer me queimar vivo ou o quê?

— Estava com medo que não voltasse mais, garoto-grude. E aliás, nem parece tão grudento mais. Quer me deixar sozinha na família de loucos-aurores não quer?

— Você gosta tanto de aurores que vai trocar dois por um ainda mais perigoso. Sou Malfoy, afinal.

Olhei-o realmente irritada, mas ao mesmo tempo feliz em vê-lo tão alegre.

Talvez só eu estivesse com a nuvem carregada perto de mim.

Estávamos todos felizes, então?

— Scorpius — estendi a carta para ele, apertando os olhos — Isso é arte sua, não é?

— Quanto tempo levou para descobrir? Um minuto? Dois segundos?

— Isso é uma piada?

— Piada?

Tive a impressão de que ele havia se ofendido. Mas afastei o pensamento para deixá-lo falar:

— Não vamos casar? Achei que fosse querer uma cerimônia.

— Você me convidou, Scorpius!

— Okay. Esta é a parte da piada.

— Não estou entendendo, Scorpius.

— Bela corvinal-fake você é...

Scorpius respirou fundo e se fixou em meus olhos.

— Se lembra do nosso primeiro encontro? Enviei-a uma carta, não foi? Achei que iria rir ao se lembrar disso.

Então, um sorriso chegou em meus lábios, finalmente entendendo o ponto.

Scorpius estava, lentamente, voltando a libertar aquele garoto tímido que não se achava digno de minha companhia. A diferença agora, anos depois, é que Scorpius sabia como manejar suas personalidades.

Ah, como ele sabia!

Na verdade, até mesmo hoje ele sabe.

Scorpius deixou a barreira que a dor obrigou-o a construir. O romântico e inseguro Scorpius estava dividindo o mesmo corpo com o perigoso e inconsequente auror de vinte e um anos.

E era o que eu mais adorava.

Adoro, para ser sincera.

— E quando será a cerimônia, senhor M? — perguntei, lutando para não chorar de emoção.

— Essa é a graça — disse simplesmente, exibindo um sorriso no canto dos lábios — A primavera dura três meses. No dia certo, enviarei outra carta a todos.

— Bem pensado.

— Alguém precisa ser o corvinal da relação, não é?

— Mas é claro.

E então, ambos de nós rimos.

Rimos pra valer.

— Meus pais estão esperando por mim lá fora.

— Então você se importa com eles agora — ele alfinetou, mal se aguentando de satisfação.

— Scorpius!

— A proposta ainda está de pé. Mas eu totalmente vou entender se quiser esperar até a cerimônia.

— Quero ir com você!

— Então teremos que enviar o convite de volta, não acha?

Uma ideia surgiu na minha mente ao ouvir aquilo.

Peguei o convite de novo e tirei uma pena da minha bolsa para rabiscar algumas coisas.

Scorpius estava curioso.

— O que é isso?

— Estou colocando minha própria mensagem.

— Ah é? Posso ver?

Tenho certeza que minha expressão era engraçada, porque ele voltou a rir. E eu não estava nem aí.

Juro que não.

Continuei escrevendo até mostrá-lo meu próprio bilhete:

*Observação: Caso esteja difícil decifrar este enigma, M corresponde a Malfoy, papai. Sim, é o nosso convite. Quero muito, muito, que o senhor me leve ao altar. Mas se não quiser, tudo bem. Aposto que Draco o faria com mais prazer que o senhor. Sabia que ele me adorou? E totalmente aprova nosso casamento? Pois é. Estarei na Mansão dos Malfoy até a cerimônia. Será logo, não se preocupe. Só estou lá para ninguém estragar os preparativos. Mamãe, amo você. Beijos da Rose*

Ao terminar de ler, Scorpius balançou a cabeça.

— Você é a melhor Grifinória que já vi na vida, cabelo-de-fogo.

— Acho que o Chapéu Seletor sabia que um dia isso viraria uma grande piada.

— É claro que sim.

E então, ele pegou o meu próprio chapéu do chão, que a coruja havia derrubado, e colocou em sua cabeça.

— Mal posso esperar pelo grande espetáculo que será nosso casamento.

— Aposto alguns beijos que Rita Skeeter estará lá.

— Nem precisa apostar nada, Rose. É claro que ela vai. Mas aceito os beijos mesmo assim.

— Seu idiota.

E aí ele gargalhou enquanto me conduzia para o carro de seu pai. Observamos sua coruja cruzar a pilastra encantada, para então sumir de nossas vistas.

Scorpius encostou no carro e me olhou com uma ruga na testa.

— Será que Ronald Weasley te levará ao altar?

— Eu não sei, Scorp. Realmente não sei.

— Acho que vai sim. Ele vai, Rose.

No momento, eu não tinha muita certeza de que Scorpius estava certo.

Eu só queria muito que papai o amasse algum dia.