Carpe Diem
3 Capítulo II - O Pássaro
Notas iniciais
Capítulo II – O espelho
Eu sou
O que eu quero que você queira
O que eu quero que você sinta
Mas é como que não importe o que eu faça
Eu não posso convencer você
A apenas acreditar que isso é real
Então, eu deixo acontecer, observando você
Virar as costas como você sempre faz
Abaixe o rosto e finja que eu não estou
Mas eu estarei aqui
Porque você é tudo que tenho
[Faint – Linkin Park]
Quando acordei, notei que o quarto estava menos claro, embora uma luz incandescente continuasse a brilhar do lado de fora. Tentei provar daquele silêncio que havia adorado, mas tudo parecia diferente, como se literalmente eu olhasse as coisas com outros olhos, olhos que não fossem meus.
Meu nome é Sakura. Eu moro no Vale dos Pinheiros.
Isso era suficiente, não era? Saber quem sou e onde estou. Mas por que eu sentia um vazio? Por que eu sentia aquela sensação de que era errado me satisfazer com o suficiente?
Me levantei calmamente, sem pressa, sentindo o pano macio deslizar pelas minhas pernas de encontro ao chão. Aquela luminosidade fosca me atraia de uma forma assustadora, e quando dei por mim, já estava caminhando em direção à ela, com a vista doída e a curiosidade incontida. As cortinas transparentes e finas não ocultavam o que havia através do vidro. Afastei um passo, meio assustada, meio deslumbrada. Era um grande campo com pessoas inquietas, de um lado para o outro guiando animais com carroças de comida, bebida ou objetos; mais ao longe, diversas casas, mais pessoas, uma infinidade de coisas que quanto mais eu olhava, mais notava algo novo e mais interessante. Eu poderia passar a vida toda os observando, ponderando sobre como era estar do lado de fora.
Perdida nesse deslumbre, não notei quando entraram de supetão no quarto. Era aquela mesma mulher de antes, com trajes menos rudes e os cabelos todos caídos ao lado do rosto redondo. Parecia pacífica, mas não tinha simpatia no rosto cujo sorriso estava apagado e os olhos repletos de opacidade a fitar-me.
–Está mais calma? –Começou. Assenti levemente com a cabeça, mesmo ainda não tendo entrado num acordo com meus sentimentos. Confusão descrevia tudo perfeitamente. Não sabia se estar calma era o oposto disso, se fosse, eu já havia começado a mentir a partir dessa simples pergunta. –Precisamos conversar...
–Como eu te entendo? –A interrompi, curiosa, pois num instante lutávamos para compreender uma a outra e no outro eu já interpretava perfeitamente tudo o que ela me dizia e vice versa.
–Mágica. –Respondeu com um meio sorriso. –Lancei um feitiço temporário para que possamos conversar.
–Feitiço? –Ela riu. Parecia impaciente. Caminhou até uma pequena mesinha de madeira ornada e sentou-se, convidando-me a fazer o mesmo.
–Você não sabe mesmo de nada... –Comentou ainda com aquele tom zombeteiro. Cautelosa, eu me sentei e senti a superfície macia e estofada da poltrona, encantada, esquecendo por alguns segundos os olhares inquisitivos que a mulher apoiava constantemente sobre mim. –Do que você se lembra? –Perguntou num tom diferente de voz que não ousei ignorar. Seus olhos eram firmes, não se desvencilhavam de mim. Eu realmente não sabia como me sentir sob o efeito daqueles orbes caramelados tão penetrantes, como se perscrutassem na minha alma tentando achar as resposta que nem eu mesma sabia.
–Um cheiro. –Respondi absorta por aqueles olhos.
–Que cheiro?
–Um cheiro forte.
–Como?
–Dessa cor. –Apontei para o carpete vermelho cor de sangue. Ela pareceu me compreender, pois suas sobrancelhas se arquearam e quando seu olhar voltou-se para mim, estavam mais compreensivos.
–Do que mais se lembra? –Pensei. Era difícil pensar naquilo. Parecia ter sido há muito tempo.
–O véu de cores. –Sorri bobamente ao me lembrar. –Era muito lindo. –Completei. Logo meu sorriso se desfez ao lembrar do restante. –Árvores. Sombras. Luzes e rostos lá em cima.
–Disso?
–Também tinha um passarinho. –Acrescentei.
–Um passarinho? Como ele era? –Inclinou-se para perto de mim, parecendo de súbito muito mais interessada do que antes. Forcei minha memória para recordar exatamente como ele era. O que estava mais claro em minha cabeça eram os olhos.
-Tinha olhos brilhantes. –Disse. –E tinha algo amarrado nos pés...
-Uma fita? –Concordei a olhando confusa. Será que ela conhecia esse passarinho? Pelo que eu me lembrava, ele havia sido carbonizado. Naquele momento senti compaixão pela mulher.
Ela não esboçou nenhum sentimento depois da minha concordância, permaneceu como estava quando fez a pergunto e isso não facilitou as coisas, pois fiquei sem saber o que pensar.
-Foi muito útil o feitiço. –Comentou. –Estou começando a entender.
-O quê? –Ousei perguntar.
–O que você é. –Como se ela soubesse o que eu iria lhe perguntar a seguir, levantou-se e começou: -Se for o que desconfio, devo me felicitar. Não apenas eu, mas todo o reino. –Sorriu de um jeito diferente, de um jeito que gostei. Só conseguia ponderar sobre quantas dezenas de coisas ela podia dizer com aqueles diversos tipos de sorrisos e olhares. Eu estava achando interessante tentar desvendar suas expressões, mesmo sabendo que ela só estava agindo assim para descobrir coisas mais relevantes sobre mim.
Ela se levantou, pegou os panos da cama e envolveu meu corpo nu. Prendeu bem apertado o tecido, deixando meus seios comprimidos e minha silhueta delineada. Ficou mais próxima de mim, o que fez com que seus olhos me parecessem ainda mais intrigantes. Queria tocá-la. Queria aqueles olhos. Quando tencionei mover meus dedos, ela afastou-se dizendo “siga-me”. Obedeci, deixando para trás aqueles pensamentos primitivos.
Aquela fora a primeira vez que atravessei a porta consciente. Havia homens com armas brilhantes e pontiagudas guardando o quarto onde eu estava. Fizeram uma reverência quando passamos por eles seguindo para o extremo do corredor, numa porta idêntica a outra pela qual havíamos saído. Ela abriu sem esforço e revelou um espaço maior, mas não menos encantador do que aquele onde eu estava.
Havia um enorme leito vermelho com bordados marrons, reparei bastante na colcha que revestia a cama, era um tecido chamativo que me deu vontade de tocá-lo. As cortinas eram escuras, o que deixava o ambiente com um ar claustrofóbico, mesmo sendo deveras espaçoso. Um baú, uma mesa e cadeiras mais rústicas. Era só isso que havia no quarto. Sem decoração, sem atrativos, com exceção da cama. Vi que não havia nada que me despertasse novamente aquele gostoso fascínio de antes, então resolvi me concentrar em descobrir a finalidade daquilo.
–Você precisa de roupas. –Anunciou com a voz imponente, abrindo o baú e retirando dele vestidos, os jogando sobre a cadeira.
–Roupas?
–É. –Confirmou caminhando até mim com um vestido verde-oliva que julgou acentuar-se bem no meu corpo. Ela me vestiu. Como eu era muito inocente, não me importei nenhum pouco com isso, pelo contrário, achei perfeitamente natural já que ela fazia tudo para mim, então imaginava que essas coisas não eram possíveis de serem feitas sozinha. Me puxou para ficar de frente à um vidro onde era possível ver um mulher muito parecida com ela e outra menina vestida com uma cor semelhante à minha. –Esta é você. –Disse. Arqueei as sobrancelhas e a olhei confusa. Aquela era eu? Era quem eu era? Mas como isso era possível sendo que era outra pessoa?
A menina do outro lado parecia tão desnorteada quanto eu, e no mesmo tempo que decidi avançar para tocá-la, ela fez o mesmo, então me senti segura de continuar sem a possibilidade de ser repelida. Hesitante, levei os dedos aos dela, que se dirigiam na direção dos meus, ao mesmo tempo, do mesmo jeito. Toquei a superfície gelada com o dedo do meio, depois com os outros e tentei segurar os dela, mas uma barreira impedia. Sua expressão estava tão desamparada quanto à minha.
Olhei aflita para a mulher atrás de mim na esperança de que ela me dissesse o que fazer, mas nem isso. Ela se sentou numa das cadeiras vazias e se pôs a assistir-me. Desistindo de sua ajuda, voltei a atenção para a menina. Tentei tocar seu rosto e ela tentou tocar o meu. Tudo o que eu sentia era a face quente daquilo que parecia um vidro. Verifiquei minha temperatura, eu estava quente. A vi fazer o mesmo e imaginei se lá, daquele lado ela tinha a pele quente como a minha ou fria como eu havia sentido ao tentar tocá-la. Foi muito tempo perdido para eu notar o que estava acontecendo, que tudo o que eu fazia a menina fazia, tudo o que eu falava ela repetia e todas as tentativas que eu fazia para tentar me aproximar dela ou conversar davam no mesmo fracasso. Me virei desistente para a mulher sentada com um sorriso divertido.
–Ela faz tudo o que faço, diz tudo o que eu digo... É assim que sou? –Ela balançou a cabeça. Esperei pacientemente por algumas palavras esclarecedoras de sua boca rosada, mas tudo o que recebi foi o silêncio. –Tento tocá-la mas...
–Eu sei Sakura, eu estou vendo. –Sorriu mais ainda.
–Aquela sou eu? –Perguntei desamparada. Ficaria decepcionada caso descobrisse que eu não passava de uma menina imitadora do outro lado de um vidro.
–Sim. Aquela é você. –Respondeu. –Não gosta? –Olhei para ela. Olhei de novo para a menina do vidro, olhei para os meus pés e neguei. Não gostava daquela menina. –Aquela é você refletida num espelho. Sabe o que é espelho?
–Não. –Achava que fosse magia, como aquilo que me fez falar a língua dela, mas não ousei chutar.
–É uma coisa que nos permite ver como somos. –Levantou-se e foi em direção ao vidro. Logo percebi que a mulher parecidíssima com ela se aproximava também, com os mesmos cabelos alvos, com os mesmos bustos fartos e olhos instigantes. –Aquela menina é você. –Cautelosa, dei os passos necessários para ficar uma distância segura daquilo. –Este é o seu cabelo. –Disse prostrando-se atrás de mim, pegando os fios claros e os jogando para frente, deixando-os caídos sobre meu tórax. –Esses são seus olhos. –Olhei. Eram da cor do vestido que me cobria. Minto, na verdade eram mais claros e mais brilhantes. Não eram desbotados como o vestido, mas era o mais próximo do que eu poderia comparar. Eu tinha lábios pequenos com uma cor fresca, era consideravelmente menor do que a outra e mais desprovida de carne. Mesmo assim, ela disse no meu ouvido “você é linda Sakura”.
Sorri. Não sei por que sorri. De tanto observá-la, notei que ela só sorria quando se agradava com algo, de alguma forma, e eu achava que deveria me sentir agradada diante do elogio, mesmo lá no fundo aquelas palavras não terem me tocado nenhum pouco. Sendo espelho ou não, eu não gostava da menina que via.
–Essa é quem? –Apontei para o reflexo dela. No mesmo instante ela afastou-se de mim com um sorriso diferente, puxado para o lado, zombeteiro. Sentou-se de novo na cadeira e eu me virei para ela esperando a resposta. O que eu ouvi, naquele momento de ignorância tangível, não me deu impacto, mas depois, quando eu já entendia perfeitamente de tudo um pouco, percebi a magnitude daquilo.
–Essa é apenas a rainha do Vale. –Ao notar minha indiferença, continuou. –A dona do Vale dos Pinheiros. Quem manda, a quem obedecem. –A primeira imagem que se passou pela minha cabeça quando ela disse claramente o que era, foi através da janela todas aquelas pessoas, as casas, os animais puxando carroças de comida, bebida e objetos. Tudo aquilo a pertencia. Um turbilhão se cogitação me invadiram ao me deparar com o poder que ela tinha.
–Isso é bom? –Perguntei. Parecia muita coisa para uma pessoa só, o Vale e o povoado.
–Em alguns momentos sim. –Disse sem me olhar.
–Você cuida de tudo sozinha?
–Por que a surpresa? –Perguntou retoricamente, mas respondi.
–Desde que acordei naquele monte, tudo o que fiz sem a ajuda de alguém foi caminhar. É tudo tão difícil... –Caminhei em direção às janelas. –Não consigo imaginar como é possível uma pessoa só cuidar de tudo isso.
–Você tem muitas coisas a aprender ainda Sakura. –Sorriu meigamente. –A trouxe aqui com um único propósito: te mostrar um quadro. –Me virei para ela, me deparando com sua figura procurando por algo dentro de um armário. Uma tela retangular e fina que depositou sobre a cama. Aproximei-me excitada, não pelo objeto que fora convidada a observar, mas por aquela ser uma oportunidade para eu sentir o tecido cativante do colchão.
Quando estava a um passo da cama, parei instantaneamente ao de relance bater os olhos no quadro, na figura que ele exibia. Tão real tão idêntica que imaginei se aquilo não era um tipo de espelho apontado para a criatura. O mesmo pássaro pequenino, diferente de todos os outros que eu havia visto, em sua postura desafiadora, os mesmos olhos prateados e a mesma fita presa em seus tornozelos acinzentados e delgados como galhos.
–Este pássaro que viu? –Perguntou-me. Assenti incapaz de responde-la de forma nítida, sentia algo engasgado no meu esôfago, um aperto incômodo, flashes dos meus primeiros momentos de vida, aqueles símbolos desconhecidos, a chama consumindo o pobre animalzinho. –No Cume das Almas? –Me virei para ela, sem saber sobre o que ela dizia. –No monte! Perto dos pinheiros, das sombras, do véu...
–Sim. –Sussurrei. –Ele. –Engoli a saliva. –Ele se incendiou. –Jurava que uma faísca luminosa ornou o fundo dos seus olhos.
–Você leu. –Afirmou. –A mensagem. Você leu a mensagem.
–Sim... Quer dizer, mais ou menos. Não entendi o que dizia.
–Dizia ‘carpe diem’. –Falou pegando o quadro e o colocando de volta no armário. –Dizia ‘aproveite o dia como se fosse o último’. –Sentei na cama, tentei me distrair da confusão que se passava pela minha mente. Nada fazia sentido. Um passarinho com uma fitinha amarrada nos pés me mandando aproveitar o dia? Aí, do nada, ele se incendeia, some diante dos meus olhos.
Por que ela dera tanta importância ao passarinho? Por que ela tinha um quadro dele? Como ela sabia o que estava escrito? Era dela? Na dúvida, perguntei, pois achava que se continuasse a cogitar tantas coisas de uma vez só minha cabeça explodiria.
–Esse pássaro. Você o conhecia? –Ele balançou a cabeça em negativa.
–Ninguém nunca o viu.
–Então como sabem que ele é exatamente assim? –Perguntei.
–A última pessoa que viu o relatou perfeitamente para o pintor.
–Então alguém o viu além de mim.
–A pessoa morreu depois de dois dias. –Disse casualmente e meu coração deu um solavanco.
Morrer. Eu não sabia bem o que era, mas não gostava da sonoridade da palavras, nem em como ela foi aplicada na frase. Sabia que o passarinho tinha morrido, não existia mais. Eu também não sabia o que era existir, mas entre estar aqui e não estar, eu preferia a primeira opção, mesmo que vivesse com essa confusão para o resto dos tempos.
–Então eu também vou morrer? –Perguntei bobamente. Ela riu e disse que não.
–... Já se passou uma semana e você está aqui. –Deu os ombros.
–Quanto é uma semana?
–Sete sóis. Sete luas. –Respondeu. –Dois dias são dois sóis e suas luas.
–Isso significa que não vou morrer.
–Não. Significa que até agora não aconteceu nada de ruim com você. –Aquilo não me acalmou. Mesmo eu desconfiando que a intenção daquela mulher não era me acalmar, eu achava que seria muito gentil da parte dela ao menos tentar me deixar menos preocupada quanto ao meu destino.
-Como a última pessoa morreu?
–Com uma flecha no pulmão.
–Era alguém importante?
–Era o meu avô.
Eu não sabia o que era um avô, assim como não sabia o que era pai, nem mãe, nem irmão. Pela expressão que ela fez, que por acaso não foi nenhuma, deduzi que não era ninguém importante então não senti por ela.
–Bom Sakura, não podemos mais perder tempo. Preciso fazer com que você pareça gente antes que a Aliança convoque outra reunião...
–Aliança?
–Sim, Aliança. Depois te explico. –Saiu novamente pelo corredor, sendo recebida por reverências dos soldados. Eu saí atrás, pois tudo o que sabia fazer era segui-la, obedecê-la e escutá-la.
–Por que me chama de Sakura?
–Porque é seu nome.
–Você também tem nome?
–Todos tem!
–E qual é o seu?
–Tsunade, e ficaria muito feliz se você ficasse quietinha enquanto eu procuro a sala de relíquias. –Sorriu forçado e abriu todas as portas do corredor à procura de algo, até que achou uma maçaneta trancada e deu um grito de triunfo. Parecia que aquela era a sala que ela procurava. Com sua varinha, sussurrou algumas palavras e a porta abriu-se sem ranger. –Entre. –Ordenou adentrando. –Luz! –Disse em alto tom fazendo com que todas as velas do lugar se acendessem e iluminasse o grande salão.
A luz do dia era barrada por grossas cortinas, o que dava a impressão de que o dia havia se encerrado, o que me lembrava aquele lugar onde acordei pela primeira vez. Me lembrava os calafrios, a dor, o leito duro e aqueles rostos tão assustadores. Tsunade me libertou dessas lembranças chamando-me para ver quadros pendurados na parede.
–Preste bem atenção! Nunca mais vou trazê-la aqui e explicar isso de novo! –Meneei a cabeça em sinal de concordância. –Esta sou eu, a primeira rainha do Vale dos Pinheiros. Este é Minato. –Mostrou-me o quadro de um homem cujos cabelos era loiros iguais aos dela e a expressão tão serena quanto uma brisa de fim de tarde. Era belo e parecia calmo, me encantou demasiadamente. –Ele foi o quarto rei. Morreu há dezesseis anos no Massacre Escarlate.
–O que foi isso?
–Um derramamento de sangue sem igual. –Disse com os olhos distantes. –Ele morreu para salvar o filho.
–E onde está o filho dele?
–O príncipe? Ninguém sabe. –Fiquei um bocado fitando aqueles olhos azuis e os cabelos desgrenhados e dourados. Pensei tanto que minha cabeça chegou doer.
–Ele era um pai? –Perguntei por acaso.
–Sim, ele era. –Respondeu sorrindo, me olhando de um jeito engraçado.
–E o filho era o que?
–Era um príncipe.
–Um príncipe. –Provei a palavra e gostei muito dela. ‘Príncipe’. –Onde está o príncipe então? –O rosto dela escureceu, os olhos desviaram-se dos meus e senti que não era uma pergunta legal para se fazer.
–Nos subúrbios. –Respondeu com a voz baixa, como se tivesse vergonha.
–E ele está bem? –Perguntei ingenuamente.
–Está sim! –Forçou um sorriso caminhando em direção ao outro quadro, o do meio. –Hiruzen Sarutobi. –Apontou para o quadro de um homem de cabelos alvejados e fendas no rosto. O achei sério demais, me lembrou os homens sobre o cume com suas expressões sérias. –Foi o terceiro rei. Morreu pela vila.
–Ele parece mal.
–Não é não. –Sorriu. –Ele foi meu mestre. –Deu mais dois passos. –Este é meu tio-avô, Tobirama Senju, foi o segundo rei. E esse aqui do canto era meu avô, Hashirama Senju.
–Seu avô? –Afirmou com a cabeça. –O que viu o passarinho?
–Esse mesmo. –Observei o quadro. –Foi ele quem fundou essa vila. Ele que salvou muito gente no Massacre das Linhagens. Antes que me pergunte, foi uma grande guerra que teve entre os clãs de Ongrir, que até então não tinha vilas e sim povoados de famílias centenárias. Entretanto, a fim de expandir seus territórios, os clãs começaram a entrar em guerra uns com os outros. Meu avô sugeriu unir o território do nosso clã Senju com o território do clã Uchiha, entraram num acordo e nessa parte de Ongrir não houve mais guerra por espaço.
–Tudo ficou em paz?
–Não. Os territórios unidos precisava de um líder, o povo precisava de um rei e deu mais confusão para decidir se o rei seria Uchiha ou Senju. Com bons argumentos, meu pai estriou o trono do Vale dos Pinheiros, e assim que renunciasse, prometeu entregar o reinado para um ancião Uchiha. Isso não aconteceu.
–Por que?
–Os Uchihas queriam nos trair. Então, meu avô colocou o irmão dele no poder, quebrando sua promessa com a família dos Uchiha e isso desencadeou uma batalha sem escala.
–Mais guerra?!
–Uma batalha indireta. O Vale dos Pinheiros foi dividido em três partes: dois distritos, cada um do seu respectivo clã e no meio deles o subúrbio, onde famílias meio Senju e meio Uchiha haviam se formado, fora os refugiados de outras vilas que se instalaram lá à procura de proteção e paz. Um dia, aquilo chegou ao clímax e meu avô foi à luta com um membro do clã Uchiha. Meu avô venceu, mas foi amaldiçoado.
–Pelos Uchiha?
–Sim. Os banimos do Vale dos Pinheiros sem direito a nada. Obviamente eles se rebelaram, mas resistimos bem aos ataques e conseguimos tirá-los do nosso território. Porém, antes de saírem, eles passaram em seu distrito, apanharam pertences valiosos e destruíram todas as casas para que mais ninguém pudesse morar nelas.
–E que maldição jogaram no seu avô? –Retomei aquela questão.
–Ele se apaixonou por uma Uchiha que já era prometida para o ancião de um clã do vale vizinho. Todos os dias ele ia no Cume das Almas para observá-la no bosque, de longe, apanhando ervas e tubérculos da terra. A cada dia ele ia se aproximando. Antes do topo do cume, agora nos pés, no plano, adentrando o bosque, detrás de uma árvore e até recolhendo ervas com ela. A cada dia se aproximando mais, consequentemente se apaixonando mais. Entretanto, numa dessas tardes, ele não percebeu a presença do noivo da moça e este o surpreendeu com uma flechada no pulmão. Não sei se ele morreu por falta de sangue ou de ar.
–Acho que ele morreu por causa do passarinho. –Disse.
–Ah, sim. Ele avistou o pássaro sobre um galho qualquer. Disse para os amigos que era um pássaro diferente de qualquer outro que tinha visto. Não cantava nem se intimidava com os movimentos humanos. Parecia destemido e seguro de si. Tinha olhos prateados como a lâmina de uma katana e uma fita atada nos tornozelos enrugados e acinzentados. Descreveu perfeitamente o que vira para os amigos e um desses era pintor e achou interessante esboçar um quadro no grafite. Assim fez. Dois dias depois de ter visto esse pássaro Hashirama morreu. –Ficou um bom tempo calada, fitando o quadro do avô com uma expressão indescritível.
–E a moça? –Perguntei.
–Casou-se com o assassino mas foi morta assim que deu à luz ao primeiro filho.
–Por que? –Perguntei atemorizada.
–Porque a criança não era Uchiha e sim Senju. –Sorriu.
–Oh. –Pensei mais calma. –Entendo.
–Eu sei que não entende! –Deu um tapa nas minhas costas que pensei que fosse expelir meus órgãos pela boca. –Mas não tem problema! Eu sei que é muita coisa de uma vez para alguém que mal sabe o próprio nome. Vou pegar leve com você.
–Ainda não sei o que estou fazendo.
–Estou tentando te explicar de uma forma agradável qual é o seu dever.
–O meu dever? Como assim?
–Sua missão. Pra que você serve.
–Eu não sei. –Respondi humildemente.
–Mas eu sei e isso que importa! –Segurou meu rosto entre as duas mãos. –Como rainha, tenho prioridades e embora esteja disposta a te ensinar todas as coisas do mundo, meu tempo é escasso e eu tenho coisas à fazer. Então, venha cá. –Me guiou até um baú repleto de livros empoeirados com cheiro de mofo e alguns até com teias de aranha nas bordas. –Tome. –Colocou um deles na minha mão. Tinha a cor da colcha do quarto dela e símbolos da cor da fita dourada do pássaro. Fechou o baú e voltou-se para mim novamente. –Este é o livro que contém a lenda do ‘Argen Respice’, do pássaro que você e Hashirama viram. Leia sozinha quando aprender a interpretar os símbolos. Isso irá te esclarecer muita coisa.
–Ainda estou confusa... Tudo ainda está muito confuso...
–Entenda que eu preciso ir com calma, Sakura! –Disse com a voz afável. –Você tem um dever a cumprir, um dever que apenas você poderá cumprir. O meu dever eu já sei: é mantê-la a salvo e a par de tudo.
–O que tenho que fazer. Só me diga isso. Qual é o meu dever. –Ela suspirou e depois de um silêncio agonizante, respondeu contrariada.
–Você tem muito o que fazer criança, uma das coisas mais importantes será assumir o trono de Ongrir.
–Ongrir?
–Todos os vales e vilarejos, cada pedra, cada árvore, cada pássaro... Tudo pertencerá à ti. –Meu coração deu um solavanco. Há pouco eu ponderava sobre as dificuldades de Tsunade para governar o Vale dos Pinheiros sozinha, agora eu recebia a notícia de que iria assumir o trono de um mundo inteiro.
Respirei fundo e escorei na parede do cômodo. Fiz o eficaz exercício de memória e auto controle:
Sakura. Meu nome é Sakura. Eu moro no Vale dos Pinheiros. Vou assumir o trono de Ongrir.
Um item a mais. Uma dúvida a mais. E eu só estava no começo.
Notas finais
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