Carpe Diem
5 Capítulo IV - O Disfarce
Notas iniciais
Agora já voltei para casa e estou escrevendo no ritmo normal. Como eu disse nas notas finais é nesse capítulo que as coisas começam a pegar fogo. Tava tudo muito entediante, muito blá blá blá... agora a partir deste capítulo que a história realmente começa.
Uma dica: Não deixem de comparar a Sakura do prólogo e desses primeiros capítulos, é extremamente importante para vocês perceberem em que ponto essa história vai chegar.
Capítulo IV – O Disfarce
Eu gostaria de me fazer acreditar
Que o planeta Terra gira lentamente
É difícil dizer que eu prefiro ficar acordado
quando estou dormindo
Porque tudo nunca é como parece ser
[Owl City – Fireflies]
Tsunade ajudou-me vestir os trajes e trançou meu cabelo igual ao das moças do campo. Tenho que dizer que os preferi assim com as mechas claras atadas formando ornamentos delicados. Estava no quarto dela, em frente ao seu espelho: queixo erguido, postura ereta e sentidos atentos à tudo o que ela dissesse ou fizesse. Assim que ela me ensinara, mas agora eu teria que ‘desaprender’ para não levantar suspeitas. Coluna relaxada e olhar manso. Achava muito mais confortável ficar daquele jeito, sem forçar nada para agradá-la.
-Kakashi já te explicou como deve agir, certo? –Assenti. –Ótimo! –Sorriu e me virou para ela. –Só um aviso: não saia do castelo. –Assenti novamente. –Tudo bem? –Ia assentir de novo, mas vi que ela queria uma resposta sonora, mesmo que fosse monossilábica.
-Sim.
-Vá. –Colocou uma bandeja com xícaras vazias em minhas mãos e abriu a porta de seu quarto para eu passar, fechando logo em seguida.
Estanquei no corredor. Fui caminhando lentamente, ouvindo os ruídos de cada passo que eu dava, observando as molduras do teto que eu já observara antes, as paredes, as portas e suas maçanetas condecoradas. Ficava me perguntando quem fizera aquilo e como; se deu muito trabalho e se um dia Kakashi me ensinaria fazer. E nesse ameno caminhar para lugar nenhum fui surpreendida por uma moça vestida igual a mim andando apressada indo para o sentido contrário quase me carregando junto.
-Você! –Voltou-se para mim. –O que ainda está fazendo com isso? Devia ter levado há muito tempo para a cozinha! –Advertiu pegando a bandeja das minhas mãos e seguindo pelo mesmo caminho do qual viera. Eu a segui, pois só sabia ir do meu quarto ao quarto de Tsunade e vice versa, num acertaria sozinha o caminho para a cozinha, afinal, o castelo parecia ser enorme pelo que Kakashi e Tsunade diziam e com certeza eu me distrairia no meio do caminho com algum detalhe besta. –Você é nova não é? A anfitriã não a treinou? Acho que deverei comunicar governanta.
-Governanta?
-A mulher que te contratou! –Disse impaciente. –Vamos! –Ela tagarelou o trajeto todo enquanto eu tentava memorizar o caminho de volta para o corredor, por uma ou duas vezes perguntou se eu havia escutado o que ela dissera, assim como com Tsunade, eu só assentia, embora não soubesse nem um pingo sobre o que ela falava.
Ela me lembrava Tsunade com seus cabelos áureos, em compensação seus modos eram afobados, nem um pouco sofisticados, fazia tudo num desespero como se o tempo corresse como água. Para mim, o tempo era tão lento quanto meus passos desajeitados. Após deixar os utensílios na cozinha, já foi me arrastando para outro canto sem me dar oportunidade de observar como aquele cômodo era.
Nos livros você tem as imagens prontas do que há numa cozinha, como uma lareira, um forno, uma mesa de mogno, tonéis e barris d’água. Eu nunca vi nada disso nem sabia para que servia cada uma dessas coisas, então, a imagem de uma cozinha, na minha cabeça, era completamente diferente do que vi de relance e isso me deixou triste por alguns instantes. Eu usava os livros como uma forma de conhecer o mundo além do corredor, mas este não estava sendo útil, estava me passando ideias erradas de como eram as coisas... Senti uma frustração dúbia, como se eu precisasse começar tudo de novo, voltar à estaca zero.
Subimos uma escadaria estreita e espiral que continha pequenas janelas do lado da parede. Estávamos em um dos vértices do castelo. Dali também era possível ver o vilarejo e os camponeses trabalhando, mas não tempo o suficiente para notar os detalhes, pois a moça me puxava com uma pressa que já me dava nos nervos.
Bateu cinco vezes numa porta e esperou.
-Abaixe a cabeça! –Sussurrou num som autoritário. Obedeci. A porta foi aberta e uma voz conhecida se pronunciou. Levantei a cabeça para ver se não estava enganada e recebi um olhar mortal da outra ao meu lado. Fez reverência e voltou sua postura.
-Olá Ino. –Ela disse cordial, me evitando. Pensava que ela não estava me reconhecendo naquela roupa, mas depois vi que isso não fazia sentido já que as que eu usava normalmente não eram muito diferentes do que as que eu estava naquele momento.
-Vim informa-la sobre esta serva. A encontrei perdida no corredor principal, suponho que é nova e não tenha recebido treinamento. Achei apropriado comunica-la, senhora. –Disse a tal Ino calmamente, completamente diferente de como falava quando estávamos apenas nós duas.
-Ah, sim Ino, fez bem. –Disse como um sorriso delicado no rosto, o mesmo de sempre, tão conhecido por mim. Pode voltar aos seus afazeres e a deixe comigo. –Meia incerta, alternando o olhar entre a governanta e eu, Ino curvou-se numa outra reverência e se retirou, descendo apressada as mesmas escadarias por onde subiu. –Olha veja só quem me aparece! –Exclamou animada. Dei um meio sorriso e ela abriu espaço para eu entrar em seu quarto, e como eu fazia com tudo, observei.
Era muito diferente do meu e do de Tsunade, parecia mais o lugar onde às vezes Kakashi me levava para estudar. Não tinha cama, mas tinha mesa de chá, não tinha armário nem baú de roupas e sapatos, mas tinha uma estante repleta de livros e papéis. Assim que bati o olho nesta, imaginei que fosse dali que Kakashi retirasse os livros que me levava e já me iluminei por dentro. Nunca havia visto tanto livro junto, só conseguia pensar em quantos sóis e luas demoraria a ler todos e em que histórias eles traziam codificadas em suas páginas.
-Gostou da estante? –Meneei a cabeça. –É feita de uma madeira muito menos nobre do que as que têm espalhadas pelo seu quarto e o da majestade.
-Majestade?
-A rainha.
-Quantos nomes ela tem?
-Um, mas nós, servos, devemos chama-la de majestade. Na verdade, é preferível nem nos comunicar com ela, porém quando for inevitável, devemos nos dirigir à rainha como majestade. –Explicou.
-Tsunade. Majestade. –Experimentei as palavras e não gostei da última.
-Um dia também será chamada assim, Sakura.
-Prefiro Sakura.
-Eu também. –Sorriu sentando-se num divã rubro. –E então, está passeando muito pelo castelo? –Fiz que não com a cabeça. Depois de notar o silêncio, achei melhor falar alguma coisa.
-Tem poucos minutos que deixei os aposentos de Tsunade e tudo o que fiz foi correr para cima e para baixo atrás de Ino. Não observei nada. –Ela riu.
-É, tem esse problema, você é muito perspicaz.
-Todas as servas são assim? –Me referi ao jeito afobado de Ino.
-Nem todas. Ino é a pior, não precisa se preocupar.
-Mas por que ela é assim?
-Querida, tem várias razões... Singularmente falando de Ino, ela quer se tornar minha assistente aqui no castelo então procura fazer tudo com perfeição e rapidez e cobra o mesmo das colegas. Quanto às outras, bem, são temerosas. Tsunade tem uma fama muito perversa através dos muros do castelo e embora a maior parte delas nem sequer a conhecerem, temem as lendas que contam sobre a rainha, achando que ela é extremamente exigente e perfeccionista.
-Ela é exigente e perfeccionista, mas não vejo problema nisso. Ela tem poder e as servas trabalham para ela. O mínimo que deveriam fazer seria agradá-la.
-Sim, mas elas acham que do contrário, Tsunade irá tortura-las ou fazer alguma barbaridade, o que é um equivoco já que só foi necessário fazer isso uma vez com um espião se fingindo de servo. Tsunade jamais faria algo de ruim aos seus súditos, ela ama o Vale dos Pinheiros...
-Mas e se algum criado fizer algo errado? Ela não fará nada mesmo assim?
-Ela virá falar comigo. Sou a governanta, responsável por eles e pelo restante dos serviços do castelo.
-Pensei que fosse médica.
-Também. –Sorriu. –Mas sou médica exclusiva sua e de Tsunade.
-Você que solicitou que me tirassem do quarto? –Ela assentiu e se levantou para servir-se de uma xícara de chá. –Viu algo de errado em mim? –Assentiu de novo. –O que?
-Tristeza, tédio... Achei que fosse bom você sair um pouco, ver as coisas... Deve ser uma tortura ficar meses e meses trancafiada num quarto sem nunca poder sair.
-Posso fazer-te uma pergunta?
-À vontade.
-Daqui que Kakashi retira os livros que leva para eu ler? –Apontei para a estante.
-Oh não! Esses são de medicina e são alguns documentos... –Falou bebericando o líquido gelado e observando a estante. –Registros de impostos, cartas de outros reinos, laudos...
-Que histórias têm num livro de medicina. –Ela riu.
-Não tem histórias, doçura! São... métodos de cura para as mais variadas doenças, procedimentos para operações e etc. Com ajuda de um desses eu e Tsunade conseguimos cuidar de você.
-Kakashi me contou mais ou menos como eu estava.
-Quase morta. –Disse sem o sorriso de sempre, com um olhar distante. –Clinicamente, você está morta. Sem sangue, sem áurea... Você realmente é um mistério. –Sorriu. –Viu Argen e não morreu... Sem dúvidas é a pessoa mais apropriada para o trono.
-Não entendo por que dizem sempre todas essas coisas para mim... Parece tudo tão sem sentido, tão...
-Sakura. –Chamou-me com uma expressão séria que dificilmente adquiria. –Você já não é mais a menina desnorteada que encontramos no Cume das Almas então a mim você não engana. Pode não saber o que deve fazer ou como fazer, mas sabe do que é capaz.
-De ler contos em livros empoeirados e me vestir sozinha? Isso é suficiente? –Ela riu debochada e me olhou de um jeito materno que até então só Tsunade me olhava.
-Ainda tem muito que aprender criança...
-Me diga o que fazer agora. –Pedi já recomposta.
-Me diga você o que deseja.
-Ir à biblioteca.
oOo
Eram duas portas, enormes, e pela cara que Shizune fez, muito pesadas. Rangeram ao serem afastadas, uma de cada vez, e o que elas escondiam era muito menos do que eu imaginava ser. Era do tamanho do meu quarto, escuro e tinha um cheiro úmido familiar, o mesmo cheiro do lugar onde eu acordei, da primeira vez em que vi Tsunade. O chão era coberto por uma camada rasa de poeira que foi revelando nossos passos a medida que adentrávamos a biblioteca. Cada corredor entre as estantes havia um candelabro, todos apagados e com velas consumidas quase que por completo. No fundo do cômodo um divã, uma mesa e uma cortina grossa, provavelmente escondendo uma janela.
-Esta é a biblioteca. –Shizune disse fingindo entusiasmo. –Satisfeita?
-Não... –Disse num tom baixo, andando a passos lentos e curtos tentando enxergar os livros nas estantes, eram milhares, finos e grossos. Não conseguia ler os títulos por conta da poeira e da escuridão do local, isso me deixou inquieta e fez com que eu perguntasse para que havia janelas e candelabros sendo que a primeira ficava fechada e as velas apagadas.
-Ninguém vem aqui.
-Por que não? Esse lugar é incrível! –Exclamei indo para outro corredor.
-Porque é proibido. –Shizune disse séria, fazendo com que eu parasse em frente aos livros e ponderasse sobre sua resposta.
Era proibido entrar naquele local, mas por quê? Só haviam livros. Claro que para ela a biblioteca era como uma mina de ouro, mas graças as histórias que lera até então, sabia que as pessoas normalmente não apreciavam a leitura e Kakashi lhe dissera que apenas a burguesia e o clero eram alfabetizados, poucos dos camponeses tinha domínio e acesso à escrita, então, qual a razão de ser proibido o acesso à biblioteca? Os criados não sabem ler, então os livros não tinham valor nenhum para eles.
-Deve estar se perguntando por que não é? –Shizune sorriu decifrando a razão do cenho franzido no meu rosto, a olhei pelo canto do olho e voltei atenção para os livros empoeirados. –Não posso te dizer. –Assenti. –É daqui que Kakashi tira os livros que você lê. –Respondeu minha pergunta de antes andando de volta para a porta semiaberta, a segui contrariada. –Antes de dar para você, ele manda eu e Tsunade avaliar se o conteúdo é seguro, se for, o livro vai parar em suas mãos. –Virou-se com um sorriso forçado e atravessou a porta, dando espaço para eu sair, mas estanquei a alguns passos dela.
-Já? –Perguntei inconformada. Ela meneou a cabeça em sinal afirmativo e abriu mais um pouco da porta. –Ainda não vi nada. –Dei um passo para trás.
-Viu o suficiente. –Desfez o sorriso e apossou-se de uma expressão mais séria. –Vamos Sakura, tenho coisas para fazer.
-Eu... –Olhou para trás e para os lados, tentando gravar na memória a imagem de oito estantes, quatro de cada lado, todas repletas de livros de todos os tipos. –Eu não voltarei mais, não é? –Shizune balançou a cabeça para os lados e me apressou pela terceira vez. Derrotada e cheia de perguntas em mente, avancei à fresta entre as duas grandes portas, grandes e pesadas portas, deixando rastros da minha saída ao lado das pegadas que havia deixado na entrada, a menos de cinco minutos atrás.
Eu estava decidida a voltar para aquele lugar, sendo permitida ou não a entrada.
Notas finais
Quero recomendar uma ótima fanfic UA que comecei a ler nessas duas últimas semanas, "Espelho", escrita por Coffee. http://fanfiction.com.br/historia/188001/Espelho/
Também quero deixar o link da minha página do facebook com trechos de fics e pequenas revoltas minhas shaushaus https://www.facebook.com/MilkFicwriter?ref=ts&fref=ts
Beijos
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