Caro Houston

1 Capítulo 1


Caro amigo Houston,

Espero que esta carta o encontre bem.

Escrevo-lhe como última esperança de alívio e de consolo para minha mente confusa. Espero encadear bem as palavras de modo a me fazer entender, apesar do estado bastante perturbado em que me tenho encontrado há pouco mais de um mês. Peço desculpas antecipadamente se o sentido de minhas palavras se turvar, visto que não tenho certeza de estar em meu estado mental normal.

Tudo começou quando a Organização me contatou num sábado de manhã. Haviam encontrado o corpo de um jovem homem chamado Brendon Walker, morto por uma bala na cabeça e trancado dentro de seu apartamento, com as janelas fechadas e as chaves no bolso. Havia também um copo de uísque ao lado de uma garrafa quase terminada, e muitos cacos de vidro de algum espelho grande que havia se quebrado.

Tudo sugeriria um caso simples de suicídio se não fosse pelo fato do tiro haver perfurado exatamente o meio da testa da vítima, coisa pouco provável quando um homem tira a própria vida.

Nos dias que se seguiram, percorri a cidade à procura de pistas.

A primeira coisa que descobri foi que Walker era conhecido por um comportamento levemente desajustado e anti-convencional, “sempre em busca de transcendência”, segundo um amigo da vítima que logo descobri ter sido seu amante.

Além disso, Walker era colecionador de peças exóticas e antigas, e criava impressionantes ilustrações de personagens mitológicos, encontradas em seu apartamento.

Depois descobri que Walker havia sido visto, na tarde da mesma sexta-feira de sua morte, atrás da tenda de um circo que estava na cidade. Estava negociando, com um estranho palhaço, uma caixa que parecia conter algo muito delicado. O pipoqueiro do local disse-me também que Walker pareceu bem satisfeito ao sair com a caixa e colocá-la com cuidado em seu carro, com um sorriso misterioso no rosto que a testemunha não soube classificar, mas que afirma tê-lo impressionado estranhamente.

Nesse meio tempo, a polícia telefonou-me e confessou estar atônita por não encontrar a bala na cabeça da vítima, mas apenas a sua marca, que sugeria no entanto que a bala houvesse entrado em linha reta e não machucado de raspão. Deveria, portanto, estar alojada dentro do crânio ou tê-lo atravessado, mas a bala não foi encontrada atrás da vítima tampouco. Nem o crânio havia sido atravessado na parte posterior.

Voltei a procurar o ex-amante da vítima – Michael Lyss – que ainda estava visivelmente deprimido e confuso. Ele me contou, no entanto, um fato que me pareceu tão relevante quanto eu não gostaria de considerar. Disse que sete dias antes de sua morte, Walker o havia levado ao circo, e que todos os números eram estranhos e um tanto cruéis. Lyss chorava muito ao me relatar o fato, e eu inicialmente atribuí ao seu estado emocional a opinião que ele então me transmitia a respeito do passeio ao circo.

Contudo, Lyss contou-me em detalhes um número que havia particularmente impressionado Walker, a ponto do assunto tornar-se uma obsessão. Tratava-se de um mágico que, diante de um jogo de espelhos, realizara vários truques um tanto macabros, culminando com um momento em que pedira a um palhaço de aspecto desagradável que lhe atirasse no meio da testa. O palhaço assim o fizera, e enquanto o mágico parecera perfeitamente bem, sua imagem no espelho caíra morta.

Lembrei-me dos cacos de espelho no chão da casa de Walker. Seria um jogo de espelhos o conteúdo da misteriosa caixa que a vítima comprara do palhaço atrás da tenda do circo? Então procurei pelo circo, mas soube que ele havia deixado a cidade na mesma noite da morte de Walker.

Rapidamente dirigi-me à casa da vítima novamente. Algo me dizia que eu estava muito perto de descobrir a verdade, mas ao mesmo tempo algo deixava-me com uma vaga sensação de pela primeira vez não estar no controle da situação, e isso causava-me arrepios.

Examinando novamente o aposento, aproximei-me da parede da sala, a mais bela parede do apartamento: recoberta de folhas de metal e toda pintada, imitando afrescos de Pompéia. Segundo a posição em que o corpo fora encontrado, essa parede estaria à frente da vítima. Mas ao aproximar-me e examinar mais cuidadosamente o chão, encontrei no canto do tapete a terrível pista que tirou minha paz: uma bala de arma!

Notei então que a parede continha uma marca de bala, que ficara quase imperceptível entre as figuras abundantes e confusas que lá haviam sido pintadas. Provavelmente a bala não penetrara na parede devido às suntuosas placas de metal que serviam de base para a tinta.

Com medo de meus próprios pensamentos, medi a altura da marca na parede. Sim, meu amigo. Para meu desespero ela tinha exatamente a altura do centro da testa de Walker, em pé.

Como vê, caro Houston, tudo leva a crer que Walker tenha disparado, talvez como um experimento, em sua própria imagem no espelho, estilhaçando o espelho e em seguida caindo morto. Naturalmente essa hipótese é absurda.

Não posso portanto apresentar às autoridades tal conclusão, mas também não posso apresentar nenhuma outra.

Temendo minha reputação e – confesso – duvidando de minha própria lógica, ocultei a descoberta da bala e da marca na parede. Não sei o que fazer, o que pensar. Por favor, meu amigo, ajude-me.

Embarcarei para San Pittsburgh em cinco dias para visitá-lo. Peço que receba este seu velho amigo e que me ajude a elucidar o caso. E sobretudo, a tranqüilizar esta mente atormentada.

Sinceramente,

Faust Goldschmidt

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!