Caro Desconhecido,
10 Máscara
Notas iniciais
Fico olhando para o Igor todo o tempo em que ele lê a carta.
As reações dele são as mais variadas possíveis: surpresa, confusão, um leve riso, confusão de novo, e então no fim como se aquilo tudo se encachasse perfeitamente.
– Agora tudo faz sentindo! – Igor exclama dando um pulo do sofá, que me deixa um pouco confuso. – Foi por isso que ela deixou essas cartas e todo esse mistério, ela deve se sentir culpada não apenas pela morte da amiga, mas sim por ter matado um cara. Então, provavelmente está tudo relacionado. Seja lá o que esse 'tudo' signifique!
Olho para ele, meio que confuso e sabendo que logo que ele terminou sua teoria de conspiração me fez lembrar da garota de cabelo rosa do shopping.
– Até que pode ser uma boa teoria, Igor.
– Você não parece interessado na minha teoria. E nem muito atento.
Nossa teoria de conspiração sobre as cobras cascavéis foi realmente uma viagem incrível. Foi tão estranhamente fácil conversar com uma completa desconhecida. Do mesmo jeito que aceitei tão prontamente fazer tudo o que Andressa mandasse. No fim, acho que sou meio maluco. Gostaria de encontrar Micaela novamente, quem sabe um dia.
– Lucas? Terra chamando Lucas. – Igor está na minha frente balançando as mãos. – Voltou?
– Ah, sim. O que você disse?
– É claro que você não prestou atenção no que eu estava falando. Fica aí nessas suas viagens pelo espaço. Mas, enfim, como eu estava dizendo: Andressa é louca.
– Hã, você está falando sério?
– Claro, porque eu não falaria. Ela mata alguém, se culpa pelo suicídio da amiga dela, se suicida e deixa cartas. Doidinha.
– Ok. Ela não é tão normal, mas deveríamos estar falando sobre outras coisas.
– Tipo quais?
– Sobre o bilhete e a carta, não é óbvio?
– Agora é. – Igor olha para os dois papéis como se pudesse interrogá-los com os olhos. E extrair todas as informações que queremos. – Eu acho que o bilhete é sobre drogas. E que a carta é uma pré-carta suicida.
– Pré-carta suicida? – Ele concorda com um leve movimento. – Pode ser. E acho que a carta não era para Antonella.
– Por quê?
– Se as duas eram tão amigas como Antonella disse, por que chamá-la de 'Cara desconhecida'? Seria desnecessário.
– É, então nossa colega não era tão próxima da Andressa e está envolvida com drogas.
– Como você tem tanta certeza disso?
– Lucas, eu sei que você é totalmente contra a qualquer tipo de uso de drogas, mas é óbvio. Por que motivo ela teria que entregar alguma coisa para um cara com codinome? E estamos em Cascavel, é bem provável que seja isso.
– Talvez. Se descobríssemos quem é esse tal de O Alvo, poderíamos conseguir alguma resposta.
– Lucas, sua coragem é admirável. Mas não vamos nos envolver com traficantes para perguntar sobre os fornecedores da droga. Nem pensar.
– Por que não? Podemos fingir que vamos comprar.
– Cara, ninguém vai acreditar que nós dois estamos lá para comprar. Nunca. E se eles desconfiaram apenas um pouco, eles nos matam sem dó e piedade. E eu sou muito bonito para morrer.
– Tudo bem, é só nos disfarçarmos. – Igor me olha como se eu tivesse ficado completamente louco. – O que foi? Eu estou falando sério. – É nesse momento que ele começa a rir. Até que demorou para acontecer dessa vez.
– Lucas, como exatamente você pretende fazer isso?
– Eu não sei, é você que adora festas em que é preciso ir fantasiado. Como você faz isso? – Ele me olha como se eu fosse um caso perdido.
– Amanhã... – Ele olha no relógio. – Hoje, na verdade, resolvemos isso. Hoje mas daqui umas doze horas. Até lá, Sherlock. – Igor dá um sorriso e sai em direção ao seu quarto. E, mesmo sendo uma hora da madrugada e sabendo que moramos em um apartamento, Igor fecha a porta com um baque surdo.
Sigo seu exemplo, mas fecho a porta cuidadosamente. Deito na cama depois de apenas escovar os dentes, trocar de roupa fica para outra hora. Olhando para o teto, o que é quase a mesma coisa de olhar para completa escuridão, visto que é de noite e as cortinas estão fechadas, penso. Não que eu tenha parado de pensar em algum momento. Isso nem sequer é possível. Mas eu penso no quão maluca minha vida acaba de se tornar. No quão maluco eu sou de fazer tudo isso e de ficar relembrando da conversa com a garota do cabelo rosa no shopping.
De como a risada dela era contagiante e como o sorriso era parecido com o de um anjo. Os olhos azuis eram vibrantes e davam um ar de loucura. Como se eles ficassem brilhando e saltando. A pele dela era tão branca que até mesmo Branca de Neve ficaria com ciúmes. Droga. Agora estou citando as princesas da Disney exatamente como Igor.
A imagem dela sorrindo e me olhando como se eu fosse um psicopata estão gravadas na minha mente. O que é muito estranho. Muito mesmo.
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– Sinceramente, Lucas, essa é uma das piores ideias que você já teve na vida. – Essa é a milionésima oitava vez que Igor me diz isso. Praticamente foi a única coisa que ele falou desde que acordou. E com certeza a única que ele disse desde que entramos no carro.
– É, você já disse isso.
– Eu sei. E vou continuar falando até que eu me convença de que essa ideia é ótima e que você continua sendo o mais inteligente da nossa relação. – Primeira coisa que ele diz diferente de 'essa é a pior ideia que você já teve'. Evoluímos.
– Ok. Aonde mesmo você disse que estamos indo? Ah sim, você não disse.
– Lucas, você pode ficar quietinho um momento? Eu estou tentando dirigir aqui. – Ele fica mais concentrado de repente. Um minuto depois, quando ele parece se localizar e saber para onde vamos afinal, afirma – Eu realmente não disse onde vamos.
– E você pode compartilhar essa informação?
– Claro. – Ele me olha confuso. – Você quer se disfarçar, então vamos até a loja que eu compro minhas fantasias. Porque nem uma roupa diferente é possível para tirar essa sua cara de nerd. – Antes que eu possa protestar, ele continua. – E, tem uma festa de máscaras amanhã. Muita gente foi convidada e a festa vai ser baseada no uso de drogas. Não que eu fosse ir antes, mas tudo cooperou. – Olho para ele. Ele me olha. – Ok. Mas, nessa festa você vai ser obrigado a ir. Com certeza vamos encontrar O Alvo ou até mesmo Antonella.
– Tudo bem. Mas como você fica sabendo dessas festas? – Ele dá um sorriso convencido.
– Modéstia a parte, mas eu dou as melhores festas da cidade. E sou recompensado sendo convidado para as maiores festas da cidade. A polícia odeia isso, então eu sou quase um fora da lei.
– A polícia?
– Aham. – Ele olha o nome da rua e vira bruscamente. – É, tem muita gente de menor. Mas aqui em Cascavel isso não acontece muito. Uma vez a cada dois meses, se não for menos. Além de que vai ser quase no limite da cidade. Espero que não sejamos os próximos a morrer e ir parar no IML.
– O quê? No IML? – Então me lembro de que ainda trabalho lá, mesmo que hoje de manhã tenham me ligado dizendo que estou sendo afastado durante um mês e que eles precisarão de mim em alguns momentos. – Então os três ou quatro corpos que apareciam lá a cada dois meses são dessas festas?
– Não sei. Você sabe que muita gente morre assassinado por causa de drogas e dividas no geral, não sabe?
– É claro que eu sei. Mas e se a polícia apare....
– CHEGAMOS! – Igor praticamente grita para me cortar no meio da frase. Então olho para a loja. E ao redor. E digamos que ele me trouxe no fim do mundo.
– Onde estamos?
– Não sei. Mas essa é a melhor loja de fantasias.
– Pensei que a festa era de máscaras.
– Aqui também tem máscaras, Lucas. Obviamente.
– Eu sei.
Igor revira os olhos e sai do carro. Fico olhando para a loja, a aparência é completamente rústica. As paredes foram pintadas a aparentemente dez anos atrás. O que as deixa em tons diferentes. A placa está enferrujada. Nela está escrito o nome: Fantasiado. A porta parece antiga demais para uma loja de fantasias. E europeia demais para estar em Cascavel. A vitrine está vazia. E não dá para ver nada que tem lá dentro. Apenas Igor na frente do carro acenando para que eu saia.
Quando entramos na loja, a porta toca um sininho. Exatamente como vemos em filmes americanos. Igor anda até o balcão como se já tivesse feito isso um milhão de vezes e chegasse a ser entediante.
– Oi. – Igor e eu nos viramos assustados para atrás. E uma garota sai de uma porta ao lado da vitrine que eu sequer tinha reparado. Vendo nossos olhares de susto ela saí da escuridão se desculpando. – Eu não queria assustar vocês, desculpa. – O sorriso dela é tão parecido com o da... Meu Deus.
– Micaela? – A descrença na minha voz é palpável. Ela não está mais com o cabelo rosa. Essa é a primeira coisa que consigo perceber.
– Lucas! – Ela diz alargando o sorriso e vindo na minha direção. – Não sabia que você frequentava lojas de fantasia. Não é exatamente o que um psicopata faria. – Ela fala rindo. O que me deixa extremamente constrangido, principalmente porque Igor está bem atrás de mim e sei que ele está com um sorriso ridículo no rosto.
– Ah, geralmente ele não faz isso. Mas as coisas andam meio complicadas, sabe. – Micaela olha na direção de Igor assim que ele começa a falar.
– Vocês são amigos? – Ela fala quase escandalizada.
– Sim. Por quê? – Igor diz, num tom de confusão mas com um sorriso de que está amando tudo isso.
– Minhas suspeitas de que ele era um psicopata vão por água abaixo visto que ele tem um amigo. – O olhar dela fica desolado e ela olha para o chão. – Poxa, Lucas, pra que me iludir desse jeito?
– Eu não disse que era um psicopata.
– Mas parecia, fala sério.
– De onde vocês se conhecem? – É claro que Igor tinha que dizer alguma coisa.
– Nos encontramos no shopping. – Micaela diz com um sorriso.
– Ela invadiu minha mesa.
– Hey, nós dois sabemos que não foi bem assim. Eu estava tentando fazer novas amizades. – Ela começa a rir e eu a acompanho. Igor tem um sorriso de extremo orgulho no rosto.
– Tenho certeza de que essa não é uma visita social. – Ela ri. – O que estão procurando exatamente, rapazes? Vão naquela festa de máscaras?
– Exatamente. Também foi convidada? – Igor é que responde. E pergunta.
– Fui sim. – Ela passa por nós dois e vai até o balcão. – Mas não tenho certeza se vou. Muita gente.
– Pensei que quisesse fazer novas amizades. – Igor levanta uma sobrancelha, indagador.
– Ok, me pegou. – Micaela levanta as mãos. – Eu não sei se vou porque não tenho como ir.– O olhar dela vaga por alguns instantes em uma prateleira do lado de dentro do balcão. – Aqui. – Ela pega uma caixa. E quando abre tem umas quinze máscaras dentro de pacotes. – Podem escolher. Cada máscara está em torno de vinte reais.
– O que acha de ir com a gente? – Igor pergunta e olho para ele, surpreso e preocupado. Micaela olha para ele e depois para mim, sorrio para ela meio nervoso.
– Vocês não são completos estranhos, então eu vou sim.
– Que ótimo. – Igor diz enquanto examina algumas máscaras. – Aquela outra garota ruiva que trabalhava aqui se demitiu?
– Sim. Ela disse que esse lugar é assombrado. Até agora não vi nada. – Ela diz olhando ao redor para confirmar sua afirmação.
– Ah, sempre achei ela meio maluca. – Igor pega uma máscara e tira do pacote. – Lembra dela, Lucas? A ruiva da lanchonete?
– Ah sim. A que fez um escândalo quando descobriu que você não era vegetariano.
– Essa mesmo. – Micaela ri como se estivesse imaginando a cena.
– Deve ter sido engraçado.
– Até foi, se depois ela não tivesse me dado um tapa na cara e dito ao Lucas que eu era um babaca. – Igor fala enquanto experimenta a máscara. – Vou levar essa.
– Perfeito. E você? – Micaela olha para mim, com aquele sorriso angelical.
– Você mudou o cabelo. – Os olhos dela brilham.
– Mudei. Agora sou loira. O que achou? – Ela diz jogando o cabelo para frente.
– Ficou legal. – Olho para a caixa e pego a primeira máscara que gosto. Uma azul petróleo.
– Vou levar essa. – Igor se vira para olhar e revira os olhos.
– Perfeito. Mais algum a coisa?
– Aqui tem alguma coisa que possa transformar nosso amigo Lucas em um cara que não é nerd?
– Não. – Ela balança a cabeça. – Mas tem uma coisa que pode deixar ele com cara de nerd que usa droga.
– Melhor ainda. – Igor diz enquanto bate no meu ombro.
– É incrível como eu não posso ser eu.
– Ah, você pode ser você. Mas não em uma festa desse tipo. – Micaela diz rindo. Ela está em uma das araras procurando alguma coisa. E quando encontra nos mostra. É uma calça preta, uma camiseta preta escrito NASA e um chapéu.
– Por que vocês vendem roupas normais aqui?
– Algumas pessoas não normais ás vezes querem ir fantasiadas de pessoas normais.
– Isso não faz sentido. – Igor diz.
– Nenhum. Além de que eu não uso chapéu. E já tenho uma camiseta igualzinha essa. E uma calça preta. – Ela sorri.
– Ótimo. Vista isso. Mais alguma coisa?
– Não.
– Sim. – Igor diz ao mesmo tempo. – Vamos levar o chapéu.
– Eu não vou usar chapéu.
– Quanto fica?
– Igor, eu não uso chapéu.
– Vai usar amanhã.
– Vejamos, duas máscaras e um chapéu. O total fica de setenta reais. – Micaela diz praticamente alheia a nossa pequena discussão.
– Não vamos levar o chapéu. – Igor abre a carteira e paga.
– Certinho. Muito obrigada. – Micaela coloca o que compramos em uma sacola de papel e entrega para Igor.
– Onde você mora?
– Que tal se vocês passassem aqui? Acho mais fácil do que tentarem encontrar minha casa.
– Claro. – Igor me entrega a sacola. – Bom te conhecer Micaela. Passamos aqui lá por sete horas, pode ser?
– Sim, muito obrigada. – Igor já está quase na porta e dá um aceno.
– Até mais. – Digo.
– Até logo, Lucas. – Ela se inclina no balcão e me dá um abraço rápido. – Você vai ficar bem de chapéu.
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