Caro Desconhecido,
4 Mentira
Notas iniciais
P.D.V. Igor
– A culpa é minha. – Nossa. E eu preparando um daqueles discursos enormes e sem nexo nenhum que os advogados fazem para provar que alguém é inocente quando não é, e ele se culpa? Meu mundo está definitivamente virando de ponta cabeça.
– A culpa é das estrelas. – Rio sem muito humor. Ele me olha como se meus problemas mentais estivessem se transformando em parte da minha personalidade, da minha alma. – Eu só estava brincando. Tem um livro que se chama ‘A culpa é das estrelas’, daí eu pensei... Sei lá, isso poderia te animar um pouquinho. Não funcionou? – Ele me olha com medo. Como se eu fosse matá-lo com as minhas piadas totalmente sem graça. – Não? Ok, eu supero.
– Isso não é brincadeira, Igor! O IML é um dos prédios públicos que possuem maior segurança da cidade, ele tem alarme, câmeras de segurança 24 horas que estão em todos os corredores, salas, na recepção e em todas as portas e muros, existem guardas por todo o lugar. Você sabe por quê? Porque o IML é uma entidade do governo que investiga assassinatos, mortes, suicídios, além de possuir uma equipe de investigação criminal. Sabe o que eles fazem? Não? Eles estão envolvidos nas investigações mais hediondas e perigosas da cidade, eles mexem com os grandões, eles possuem provas o suficiente para colocar ou tirar pessoas da cadeia, eles podem acabar com você em menos de um minuto. Então quando um homem invade o IML, espera-se que ele pelo menos roube algo importante, mas sabe o que acontece? Ele rouba um corpo! Um corpo! Normal. Afinal, todo mundo invade órgãos públicos para roubar gente morta! Igor, isso é ridículo! Mais ridículo ainda se o corpo não está envolvido em investigações. Ela se suicidou! Suicídio! Você deve saber que suicídios não envolvem pessoas, apenas a vítima. Por que eu estava procurando a causa da morte dela? Porque é necessário, pela família, para colocar nos jornais, eu não sei. Eu só sei que todos devem achar que eu sou o suspeito! Por quê? Porque eu me responsabilizei por aquele corpo, eu fechei o IML, eu fui a última pessoa viva que esteve lá, a última pessoa a respirar lá dentro. E se fui eu que possibilitei a entrada daquele homem? Quando você me chamou talvez eu tenha me esquecido de pegar as chaves em cima da mesa de recepção, e se eu... Eu não deveria ter pegado aquela carta, eu não deveria ter aberto aquela carta, eu não deveria ter lido aquela carta, eu não deveria ter me empolgado com ela, eu não deveria tê-la trazido para dentro do nosso apartamento, para dentro do meu quarto, eu não deveria ter admirado uma garota que está morta! E o pior é que eu estou envolvendo você nessa bagunça!
Lucas parece mais frustrado do que preocupado. Abalado. Não sei disso só porque ele fez um discurso. Mas porque Lucas Maretti, o meu melhor amigo desde sempre, o garoto que sempre foi o nerd da turma, que vivia para ser zoado, que eu protegia dos garotos brigões, que odiava quando eu estava andando ao lado dele pela escola, porque assim ele não podia se passar por invisível, o garoto que vive para ler e estudar, que é antissocial e engraçado, que passou por uma fase rebelde na qual só pensava em morte e mortos, que se recuperou e se formou em medicina para se tornar um legista, nunca tagarela.
– Em primeiro lugar: respire com toda a calma do mundo. Segundo: A culpa não é sua, e nem das estrelas. Terceiro: Cara, aqui é Cascavel, não acontece nada de importante ou que choca o mundo todo, então essa sua fantasia de que os peritos são super-heróis é bobagem. Quarto: Que merda foi essa? Carta? Que carta? – Eu sei. Depois de um discurso tão longo e intelectual essa minha resposta parece boba, na verdade ela não parece, ela é boba.
Mas, eu só sei com certeza que ela é boba quando Lucas suspira e me fuzila com o olhar.
– Eu sei. Mas, você sabe que eu não sou muito bom com essas coisas de consolar pessoas. Porque eu nunca sei o que fazer. Abraçar? Dizer que tudo vai ficar bem? Ou que tudo está bem? Que as coisas nunca são o que parecem? Que a vida é feita de altos e baixos? Que temos que erguer a cabeça e seguir em frente, enfrentar os problemas? Que quando a garota dos seus sonhos te dá um pé na bunda você deve sorrir para ela e perguntar se ela não quer te dar uma surra também? Eu sempre não sei o que dizer. – Certo. Isso foi tão ridículo quanto eu acho que foi? Mas, por incrível que pareça ele riu. Não foi um sorriso triste e depressivo, foi uma risada, não me importei dele estar rindo de mim, eu simplesmente ri com ele.
– Isso foi horrível! Você sempre não sabe o que fazer? Sério mesmo? – Nenhum de nós conseguia parar de rir. Não sei foi pelo o que eu disse ou por causa da situação estranhamente familiar que nos envolve. Isso até parece intelectual. Ela é estranhamente familiar porque nossas discussões e conversas sempre acabam assim, pode ser a conversa mais séria do mundo, de vida ou morte, que eu sempre acabo com o clima. Às vezes eu começo a rir, em outras eu digo algo totalmente bobo ou cometo um erro absurdo de português que Lucas nem consegue me corrigir, por quê? Porque ele está rolando, literalmente, no chão de tanto rir.
A verdade é que ambos sabemos que eu sou o palhaço da dupla. Já ouvi isso muitas vezes. Até me gabo desse apelido. Mas, quando são os amigos de trabalho, que são muito poucos, e os amigos nerds que estão à altura do conhecimento intelectual de Lucas que dizem que eu sou palhaço e egocêntrico, eu me torno uma decepção para mim mesmo. Posso adquirir a pose de um homem confiante e inabalável, que não se importa com críticas ou e que é a rebeldia e a insanidade em pessoa, mas não sou. Quer dizer, eu posso ser esse homem quando estou com meus amigos de festa e bagunça, posso ser safado e egocêntrico quando estou com garotas, mas esse não é o meu verdadeiro eu, pelo menos eu não quero que esse garoto de papel, que todos mudam, riscam, cortam, acrescentam frases, personalidades e porcaria, se torne eu. Claro que devemos ignorar o seguinte fato: eu sou esse garoto de papel. (Mesmo eu não sabendo o que isso significa, deve ser alguma coisa que Lucas disse sobre um dos seus milhares de livros).
– Sério Igor. Eu não sei o que fazer. Eles vão deixar o IML fechado até que encontrem pistas que não existem. Eu não me importo com isso, eu só quero saber por que diabos aquele homem roubou a Andressa. Eu sei que parece loucura, afinal ela é uma garota morta, mas de algum modo eu me sinto próximo dela. Eu sei que aquela carta é um papel, e que ela não estava escrevendo pensando em mim, mas eu aceitei o desafio de qualquer forma. Eu aceitei sair em busca de... Bom, eu não sei o que eu estou procurando. Mas, sabe aquele sentimento estranho que diz que esta será a única oportunidade de você mudar sua vida, escrever sua história, viver como nos livros que lê? – Ele me olha esperançoso.
– Claro. Eu só não posso te entender completamente porque eu não tenho a mínima ideia de que droga de carta você está falando e porque eu não leio. São pequenos obstáculos que eu estou tentando atravessar. Mas, sabe por que eu não consigo? Porque o idiota do meu amigo louco ainda está sentado e fingindo que é burro só porque ficou com preguiça de ir até o quarto dele que é a menos de três metros da sala em que estamos para buscar a droga da carta de que tanto fala, e que eu não tenho a mínima ideia do que seja.
– Pensei que nunca fosse pedir para buscar a carta – Sorrindo da minha careta ele se levanta para pegar a famosa carta da misteriosa morta.
Eu, sinceramente, não o entendo.
Enquanto ele pegava a carta eu me afundei no sofá, exausto. Eu devia parar de dar festas toda semana, não por causa do dinheiro, mas isso está acabando comigo.
– Pronto. Quer que eu leia pra você?
– Hahaha. Muito engraçadinho você. Obrigado pela sua preocupação, mas eu sei ler muito bem.
– Que bom que você sabe ler. – Idiota. E ainda tem a audácia de sorrir.
– Aruhm... Caro Desconhecido vírgula... Interessante... Em nenhum...
– Ei, você não precisa ler a carta em voz alta. – Lucas disse se sentando ao meu lado, ansioso.
– Então ta. – Ele continuou me olhando, na verdade ele estava me encarando. – Hum... Olha, eu sei que sou bonito e agradável aos olhos, mas você não precisa ficar me olhando enquanto eu leio.
– Aham.
Me ajeitei no sofá e continuei a ler.
...
– Uau! Isso foi... foi... nossa... eu...
– E o prêmio de Pessoa que tirou as palavras de Igor Auguste vai para... rufem os tambores... Andressa Lemos! – Lucas se levantou ao começar a fazer seu pequeno show, e quando diz o nome dela quase pulo do sofá de susto. Por quê? O garoto gritou na minha orelha com todas as forças. – Venha receber o seu tão disputado prêmio. – Ele finge que alguém sobe ao "palco" e lhe fala ao pé da orelha, faz uma cara confusa e acena. – Infelizmente nossa vencedora não pôde comparecer por motivos pessoais. Gostaria de dedicar algumas palavras para ela: Eu espero que você não tenha faltado por ter passado tempo demais com o Sr. Auguste, e a parabenizamos pelo seu grande e perfeito trabalho. Parabéns! Agora, chamo ao palco duas mulheres incríveis e inimigas, ambas estiveram com o Sr. Auguste e concordam em apenas uma coisa: Andressa merece nosso respeito.
Finjo indiferença, mas na verdade estou me matando de rir internamente.
– Deu de ficar tirando sarro da minha cara, não acha? – Digo sorrindo.
– Na verdade fazer isso se tornou um hobbie, e se eu não fizesse isso com você pelo menos uma vez por semana minha vida não teria mais sentido. – O olho indignado.
Sou interrompido bruscamente, mesmo não tendo nem começado a falar ainda, por um som irritante. Telefone. Eu não sei por que as pessoas não nos ligam no celular, francamente, quem usa telefone? Infelizmente sou um dos poucos a pensar isso, já que Lucas e a maioria das pessoas que eu conheço discordam. Lucas me olha e sai em disparada para atender ao telefone. Olha para o identificador de chamadas e faz cara de que não gosta nem um pouquinho do que está vendo. Atende com desprezo na voz.
– Sim? ... Hum... Aham... Ah... Não... Espera... – Ele olha pra mim colocando o telefone longe da orelha, depois coloca a mão para que a pessoa do outro lado não nos ouça. – É a uma das suas ex-namoradas, a Maia, você quer estar em casa ou não?
Droga. Essa garota não desgruda mais de mim, bem que ela é bonita e beija muito bem, tirando o fato que a garota fala o tempo inteiro.
– Eu fui ao mercado. – Lucas me olha travesso. Isso não vai dar coisa boa.
– Sinto muito, mas o Igor acabou de sair com uma loira, nem sei se ele volta essa noite, se quiser posso falar para ele te ligar e assim vocês podem conversar sobre isso... Aham... Qual é o seu número do celular mesmo?... Não, seu nome não aparece na identificação... Sim ele é bem idiota... O quê? ... Você sabe como o Igor odeia usar o telefone, precisa ser do celular... Hum... Aham... Pode repetir pra eu conferir? ... Prontinho, mais alguma coisa em que eu possa ajudá-la? ... Não? ... Digo sim... Sim... Então, ta... Tchau, tenha uma ótima noite. – Ele desliga o telefone e, literalmente, rola no chão de tanto rir.
– Ótimo. Sabe o que vai acontecer agora? Ela vai ficar me ligando durante um mês inteiro todos os dias a cada meia hora para saber o que eu estou fazendo e a gente nem está mais junto!
– Triste, mas eu n... – ele não consegue nem terminar a frase.
– O que ela disse? – Ele continua rindo e me ignorando. – Lucas, eu estou falando sério! – Ele continua rindo. Que raiva. – Lucas Maretti se você não parar de rir imediatamente e me disser que droga ela te disse, eu vou te dar um chute tão forte que você nunca mais vai andar na sua vida. – Ele para imediatamente de rir, isso só porque ele sabe que não é apenas uma ameaça.
– Nossa, relaxa. Que exagero. – Ele me olha fazendo muito esforço para não rir, lanço meu melhor olhar mortal pra ele que fica entende o recado. – Primeiramente eu estava participando de um monólogo, depois eu decidi apimentar, ou complicar, as coisas entre os dois. Então ela disse que você era um completo idiota. Eu concordei. Então eu disse que diria para você ligaria, ela concordou e já ia se despedindo quando eu decidi colocar mais lenha no fogo, e pedi, inocentemente, que ela me desse o número do celular, ela perguntou se não podia ser o do telefone já que estaria gravado no telefone, disse que não estava, mas na verdade estava. Ela deu um surto e disse um monte de palavras inadequadas para uma mulher, depois me passou o número do telefone e eu a lembrei, novamente, que você não usa o telefone por motivos ridículos. Ela me passou o número do celular dela, então perguntei se ela precisa de alguma coisa e ela disse que não. Quando ia desligar ela decidiu te deixar um recado: ”Igor, você me desapontou profundamente, espero que deixe de ser um otário e decida o que quer da vida. Porque ficar vivendo à custa do dinheiro do pai é patético. Beijos”. Foi isso. – O telefone toca novamente, como Lucas não consegue parar de rir atendo o telefone.
– Olha, eu não saÍ com nenhuma garota loira, só queria que você soubesse disso. – A pessoa do outro lado da linha fica muda durante alguns segundos.
– Receio ter ligado errado, esse é o número de Lucas Maretti? – A voz soa confusa.
– Quem é?
– Aqui é Letícia Madgi do IML de Cascavel. Eu gostaria de falar com Lucas Maretti a respeito do incidente que ocorreu de manhã. Ele se encontra?
– Sim. Espere um minuto. – Olho alarmado Lucas. Ele me olha confuso, sentado no chão.
– O que foi? Alguém morreu? – Continuo o encarando.
– Eu acho que você está encrencado.
Estendi o telefone para ele. Ele me olhou receoso e então pegou o telefone.
– Alô? ... Sim, é ele... Como posso ajudá-la?... Sim... Quando?... Amanhã?... Sim, sem problemas, onde?... No shopping? ... Então, tudo bem... Que horas?... Então quatro e meia no shopping na praça de alimentação... Como posso saber quem é você?... Loira e com um casaco vermelho... Obrigado... Tchau. – Ele desliga e me olha surpreso. – Ela quer falar comigo.
– Repara-se. Mas é algo importante?
– Sim.
– Então... O que é?
– Eu sou suspeito.
– Como?
– Eu preciso prestar depoimento, mas antes ela quer falar comigo informalmente.
– Então... Lucas Maretti tem um encontro... – Cantarolei.
– Não. Ela disse que precisa me perguntar sobre uma carta. Essa carta. – Ele diz pegando a carta jogada no sofá. – E, eu tenho certeza que a carta precisa ser mantida em segredo. Você e eu. Só. Mais ninguém.
– O que a gente faz então?
– Mentimos.
Isso é novo.
Lucas nunca mente.
Em hipótese alguma.
E eu sinto que ele está mudando.
Para pior.
Porque mentir se tornou necessário para sobreviver.
Ou não.
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