Notas iniciais
"Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e íngremes. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir." (Khalil Gibran)

Um suspiro entediado escapou por entre os lábios do poderoso Sultão do Reino de Khoury. A fraca luz do entardecer penetrava através do seu enorme e luxuoso quarto real, através das espaçosas janelas avarandadas, anunciando o começo de mais uma noite no Palácio. Refastelado na cama gigantesca, ornada com belíssimos tecidos bordados com fios de ouro, o Magnífico Sultão Félix aguardava por seu entretenimento daquela noite. Levou a taça cheia de vinho aos lábios e sorveu um gole, com o olhar perdido no vazio. Só esperava que o presente diário a lhe ser ainda trazido esta noite fosse capaz de arrancá-lo desse marasmo sem fim que o dominava. Será que era pedir demais por um pouco de diversão de qualidade, após tudo que passara? Por todas as pilastras de mármore do Templo Real, esperava que não! Afinal depois de toda a tempestade de areia que já atravessara... Merecia desanuviar sua mente, toda sagrada noite, e assim ele achava seu mais do que justo direito.

Menos do que isso era inaceitável para alguém como ele, não só por ser a Criatura mais poderosa do Reino, mas também como uma compensação por tudo que já sofrera com sua Ex... Fechou os olhos e sacudiu-se como se tomado por uma repulsa com a lembrança infeliz. Não, não queria lembrar disso de novo... Por que não conseguia esquecer? Ele se fez a pergunta mentalmente e ele mesmo se respondeu, em voz baixa cheia de ressentimento:

– Daria de tudo para esquecer o que aquela desgraçada da Edith fez comigo... Como ela pôde... – Seu murmúrio morreu dentro do cálice de vinho, em um novo gole distraído, enquanto as lembranças voltavam à sua mente mesmo a contragosto, como ocorria toda noite.

* * * * * *

Félix casara-se com Edith principalmente porque precisava de um sucessor para dar continuidade ao seu sultonado. Ela lhe fora apresentada por seu pai, César o Grão-Vizir, que lhe dissera que ela era uma princesa virgem de um país vizinho. Riu sarcasticamente ante esse pensamento. Virgem... só se fosse dos ouvidos, e ainda assim era de se duvidar!

Edith foi a primeira mulher que desposou, e a única que conseguiu lhe dar um filho, Jonathan. Depois que conseguira o grande feito de dar continuidade ao sangue real, Félix sentiu-se na liberdade de providenciar outras esposas e concubinas (e também concubinos, porque por Alá, ele era o Sultão e seus desejos, todos eles, deveriam ser obedecidos e privilegiados) para compor seu Harém Real.

Sua primeira esposa de início não criara nenhum problema com a idéia da formação do harém, o que estava de acordo com os costumes predominantes. Várias mulheres e homens foram se integrando ao salão descomunal que servia para tal finalidade, o qual o sultão visitava frequentemente. Claro que Félix tinha suas preferências, e sinceramente, ele preferia os homens. Sempre fora assim desde que se lembrava. Chegara a casar-se também com outra mulher, Glauce, uma princesa que viera de um reino distante, que ficava em uma ala extremamente oposta do Palácio já para evitar conflitos de qualquer natureza com a primeira esposa. Félix raramente a visitava... Ciumenta demais! Se havia uma coisa que não suportava era mulher ciumenta. Às vezes tinha gana de esganá-la... Mas não sujaria suas mãos sagradas com tal feito se havia os guardas do palácio para tanto. Mas tudo bem, ela era controlável. Não chegava a merecer nem um segundo de seu pensamento.

E de esposa já estava muito bom, pensara. Foi quando começou a arranjar os primeiros concubinos que seus problemas com Edith começaram. Primeiro, resmungos e chantagens emocionais toda vez que resolvia visitar o Harém... Por todas as Jóias do Faraó, será que sua mulher não compreendia que um homem tem suas necessidades especiais? E que essas necessidades ela nunca poderia atender? Ora, ele era o Sultão de Khoury... Podia fazer o que lhe desse na cúpula!

A situação somente piorou com a chegada de um rapaz jovem, moreno, com um corpo apetitoso e um tórax tão bem definido que olha... Félix desejou-o à primeira vista como nunca desejara ninguém antes. E foi justamente a intensidade desse desejo carnal que atiçou o ciúme da sua primeira esposa a um nível insuportável.

Desde que Anjinho passara a integrar o harém, Félix não fizera nenhuma questão de esconder sua preferência por ele, e acabou por negligenciar totalmente sua primeira esposa. A cada vez que não era a escolhida para a noite, as crises de ciúme de Edith foram se incrementando tanto que uma bela noite ela quase o agrediu, e isso... Isso poderia ter sido seu fim. A penalidade por agressão física ao marido, ainda mais sendo este um Sultão, era a morte. Por degolamento.

Edith escapara desse terrível destino porque se acovardara no último instante, mas mesmo assim, Félix sentiu-se tão ofendido pela desobediência e pela intenção violenta que ordenara seu confinamento em um quarto menos luxuoso do Palácio, por uma semana. Além disso retirou todos os seus servos e colocou para servi-la somente um mero escravo de casta mais baixa. Um sujeito inferior coberto por tatuagens obscenas por todo o corpo. Mais parecia um tapete persa, a criatura!

Sabia muito bem o quanto ela iria sentir falta dos luxos aos quais estava tão acostumada... Edith comia, vivia de luxo! No entanto... Félix nunca saberia dizer se o que se seguiu foi consequência desse pequeno castigo que impligira a ela, mas o fato é que logo depois que a libertara de volta aos seus aposentos e devolvera seus servos, ele teve que fazer uma breve viagem a um reino vizinho, para visitar sua querida irmãzinha, a princesa Paloma. A tonta da sua irmã cometera o incrível desatino de se casar com um plebeu sem importância nenhuma para os vínculos políticos entre reinos vizinhos. Ainda cometera o absurdo de chamar aquilo de “amor”.

“Ah, mas faça-me o favor... Sou a pessoa mais inteligente que já pisou em todos os reinos do Oriente... Mesmo assim me foge à percepção tanta ingenuidade assim! Se tem algo que me tira do sério é burrice... “

Mas enfim, não havia nada que se pudesse fazer... Funções sociais e políticas o levaram a ter que fazer essa viagem, principalmente porque sua queridíssima irmã estava grávida. Para completar seu azar só faltava mesmo ser um menino, mas duvidava que a tontinha de sua irmã fosse capaz de fazer uma coisa certa na vida. Também jamais entenderia a predileção de seu pai por ela. Já desistira... Até porque seu pai parecia aplaudir de pé tudo que Paloma fazia.

Quanto ao bendito “amor”... Nunca acreditara mesmo nesse conceito tão abstrato. Muito menos que alguma de suas esposas ou concubinas (e concubinos) pudesse dedicar-lhe alguma afeição verdadeira. E era bom mesmo que sempre tivesse sido assim. Sem sentimentos dentro do peito, não havia nada para ser atacado em caso de uma decepção. O que lhe feria mesmo, mais fundo que qualquer adaga afiada era o orgulho estraçalhado, e a maneira deplorável como ocorrera a descoberta da traição.

Acabara regressando mais cedo da viagem, e quando adentrou seu quarto real... Mal pôde acreditar no que seus olhos viam. Em sua cama, a cama onde somente o poderoso Sultão tinha o direito de repousar e ter seus prazeres atendidos... Bem ali, em meio aos lençóis luxuosos de seda, aqueles dois... A adúltera da sua esposa, Edith, com pernas e braços entrelaçados ao festival de tatuagens ambulante que lhe servira durante a fatídica semana do castigo.

Félix não emitira palavra. Só ficou ali parado, de pé em frente à cama, deliciando-se sadicamente com a mudança de cor na expressão de ambos. O escravo tatuado que conforme descobriu mais tarde, atendia pelo nome de Wagner, estava tão pálido que subitamente as suas tatuagens haviam adquirido uma cor mais vibrante e nítida. Quanto à sua esposa... Parecia paralisada pelo completo terror. Eles se encararam durante alguns minutos, em mórbido silêncio.

– Félix... Meu senhor e marido, eu posso... Eu posso explicar... – Ela ainda tentou balbuciar, desvencilhando-se da criatura tatuada e tentando cobrir-se com o lençol numa tentativa de salvar a sua já condenada virtude, se é que já possuíra alguma na vida.

Não houve resposta, apenas a mão de Félix levantou-se no ar, indicando a ela que se calasse, o que foi prontamente obedecido. A tensão era grande demais para que alguém ousasse falar alguma coisa. E foi esse silêncio pesado que foi quebrado com o som do cajado adornado por pedras preciosas que Félix levava sempre consigo, atingindo o chão repetidas vezes, fazendo reverberar um som oco por todo o aposento.

Não demorou até que dois componentes da guarda real adentrassem o cômodo, cada um deles munido de um olhar carrancudo e uma cimitarra afiadíssima. Os guardas olharam para Félix à espera de uma ordem.

– Levem-nos para os calabouços até que eu decida o que fazer com eles. – A voz sombria e sem nem um pingo de emoção do Sultão ordenou e os dois guardas aproximaram-se da cama, onde uma apavorada Edith e um mais apavorado ainda Wagner tentavam descobrir como se fundir aos lençóis de seda ou se liquefazer... O que fosse mais rápido. – Ah, sim... – Acrescentou, enquanto os dois eram arrastados para fora da cama – Celas separadas, o mais longe possível uma da outra.

– Meu Senhor! Meu marido... Meu Amo e Senhor... – Félix ainda pôde ouvir a voz de Edith soando em completo desespero enquanto era levada sem delicadeza nenhuma pelos guardas, pelo longo corredor em direção às escadarias que conduziam aos porões do Palácio. – Eu lhe imploro! Misericórdia, meu senhor... Por favor não faça isso comigo... Eu te amo, Félix! Eu te amo!

A voz dela fui sumindo até desaparecer por completo do alcance de sua audição. Ainda parado em frente à sua cama imensa, agora vazia com apenas os lençóis suntuosos e amarfanhados como evidência do que se passara em cima dela, ele quase soltou uma risada sarcástica com a menção daquela traidora à palavra “amor”... Só não o fez devido a um peso estranho que lhe invadira o peito. Félix fechou os olhos lentamente, como se assim pudesse apagar da existência o que tivera que presenciar naquele quarto. Sentiu uma umidade no rosto, e levando uma mão à face, resvalou um dedo pela pele. Abriu os olhos e fitou a própria mão úmida. Sim, lembrava-se vagamente daquilo em seus dedos... Lágrimas.

* * * * * *

Um suspiro nostálgico o trouxe de volta como se tentasse resgatar a si mesmo de volta pro presente. Incrível como o seu passado ainda tinha o poder de tentar segurá-lo com unhas e dentes naquele momento tão doloroso. Agora, Félix vivia diariamente uma luta para deixá-lo definitivamente para trás, onde era seu lugar. E era justamente para tentar fugir desse chamado que Félix tomara todas as atitudes para enterrá-lo de uma vez por todas. A primeira providência fora se divorciar imediatamente das duas esposas, o que gerara imediata comoção por parte do Grão-Vizir César e sua esposa Pilar. Ele ignorara solenemente os apelos de ambos seus pais para que reconsiderasse e mantivesse pelo menos a segunda esposa, Glauce.

Não, pensou, definitivamente não. Era só uma questão de tempo até ser traído de novo. Nada de casamento, nunca mais. Apesar de adúltera, Edith já cumprira sua principal função, que era lhe dar um sucessor. Missão cumprida, tudo bem, adeus. E quanto à Glauce, ela não podia gerar filhos, então para que mantê-la? Para se arriscar a ser traído uma segunda vez?

Quanto ao seu Harém Real... Achara prudente desfazê-lo também. Não queria mais ter que olhar para nenhum amante que lhe servisse na cama por mais de uma vez que fosse. Nem mesmo seu preferido Anjinho. Mas não seria ingrato com uma criatura que lhe proporcionara tanto prazer... Era magnânimo demais para isso, gostava de pensar. Por isso o cedeu para um aliado governante de um país do Ocidente. Esperava que ele fosse bem cuidado por lá. Não tinha do que reclamar daquele que o servira tão bem em seus prazeres mais arraigados.

Depois de tudo isso... Afinal, o que restara a ele? Uma ex-esposa adúltera e seu amante escravo trancafiados no calabouço do Palácio, um incômodo que ele preferia continuar ignorando até conseguir decidir o que fazer com eles... Outra ex-esposa despachada convenientemente para bem longe... Um harém desfeito e vazio. A sua cama vazia.

Ele se sentia vazio. E sozinho. A única forma que encontrara para compensar esse imenso vácuo que ameaçava esmagar seu peito toda noite era mergulhar de cabeça nos mais desvairados e insanos prazeres que a carne pudesse lhe proporcionar. E era isso que estava fazendo. Um amante por noite, toda noite, sem nunca repeti-lo. Corpos ardentes e variados, a seu belprazer, desfilando pela cama real para agradá-lo no que desejasse. Já perdera a conta de quantas noites haviam se passado desde que assim o decidira.

Cada escravo ou concubino que era trazido ao quarto do Sultão a cada noite era devidamente avisado que deveria deixar o aposento real antes do sol nascer, ou sofreria a morte mais lenta e cruel possível. Félix fazia questão de acordar sozinho, uma forma que encontrara de não se arriscar a enganar a si mesmo sobre mais ninguém. Ele conhecia muito bem sua realidade. Não precisava de mais nada além do que aquele desfile sem fim de rostos e corpos ansiosos por servi-lo poderia lhe proporcionar. Ele sabia que isso seria tudo que teria... Sempre.

Félix se perdera tanto em mais divagações pelo passado que só agora notava que a noite já se derramara sobre o Reino, com suas infinitas estrelas e uma meia lua brilhante imponente no céu. Deixando a taça de vinho de lado, ele levantou-se da cama e em movimentos lentos, quase preguiçosos, dirigiu-se ao balcão da varanda para apreciar a visão do manto negro e estrelado acima de tudo. Enquanto olhava o firmamento e tentava achar alguma beleza que pudesse provocar-lhe um ensaio de emoção em seu íntimo, ouviu baterem à porta do quarto.

– Entre. – Ele permitiu sem se voltar.

– Com licença, Senhor Sultão. – Félix reconheceu a voz de seu fiel serviçal Maciel. – Mas a... Pessoa dessa noite já está pronta para vir ter aos seus aposentos.

Silêncio. Pareceu passar uma eternidade até que o Sultão se virasse e assentisse para seu servo.

– Podem trazê-lo.

A porta se fechou e Félix voltou a deitar-se em sua cama. Aquele imenso e inóspito vazio... Não sabia porque, mas esta noite ele se fazia mais presente do que nunca. Talvez não tivesse bebido vinho o suficiente. Talvez nunca mais nada fosse suficiente. Deitou-se na cama enorme enquanto aguardava o seu “presente” dessa noite... Quem sabe, apenas talvez, a criatura a caminho de seu quarto não fosse capaz de segurá-lo no presente ao menos por algumas horas?

A sombra de um sorriso quase tocou seus lábios, e ele fechou os olhos, à espera.

* * * * * *

Notas finais
Quem será o presente do Sultão Félix esta noite? Preciso mesmo responder? :)