Notas iniciais
“Sua razão e sua paixão são o leme e a vela de sua alma navegante. Se um dos dois quebrar, você pode adernar e ficar à deriva ou ficar imóvel no meio do mar. Porque a razão, reinando sozinha, restringe todo impulso. E a paixão, deixada a si é fogo que arde até sua própria destruição.” (Khalil Gibran)

Félix passou um dedo em sua sobrancelha, ajeitando-a, como sempre fazia quando a ansiedade o dominava. Por todas as folhas perdidas do Livro do Destino, que poder incompreensível possuía essa criatura inocente diante dele para deixá-lo assim tão desnorteado?

O silêncio ainda pesava no ar entre os dois, carregado de tensão com tudo que seus olhares trocavam sem palavras. A impressão era que se olhavam há uma eternidade, e nenhum dos dois ousava quebrar o encanto. Até que, por fim, chegou ao ponto de abrir os lábios para dizer algo, quando houve um movimento tímido dele em sua direção. As mãos hesitantes do loiro se dirigiram à sua cabeça e começaram a retirar delicadamente seu vistoso turbante branco. Em um movimento suave porém decidido ele foi completamente removido de sua cabeça, libertando seu cabelo negro, liso, agora um pouco desgrenhado... Uma das mãos pequenas e delicadas ainda segurava as faixas desfeitas do turbante, que logo seriam esquecidas no chão. A outra mergulhou nas mechas negras, desvendando caminhos por entre os fios sedosos de seu cabelo. O tempo todo, os olhos verdes concentrados nos olhos negros, como se houvesse uma linha invisível e poderosa conectando ambos os olhares.

Os dedos dele, carinhosos, cada vez menos tímidos em seus cabelos, acariciaram as mechas mais um pouco e desceram para uma de suas faces, percorrendo suavemente a pele morena, delineando traços invisíveis que seguiam as linhas fortes de seu rosto... Os dedos passearam pelas pálpebras que se fecharam brevemente ante o contato leve, deixando um ligeiro toque nos cílios negros e longos, para depois traçarem o contorno de seu nariz, faces... até repousarem, delicados, em seus lábios.

Félix entreabriu os lábios e deixou que a ponta de sua língua tocasse aqueles dedos exploradores. Foi o suficiente para aquele mar à sua frente voltar a agitar-se perigosamente, e um suspiro escapar pelos lábios finos e rosados. Foi brindado com seu hálito fresco, um leve sopro que tocou sua pele, enviando arrepios à sua espinha e uma pulsação a mais ao seu baixo ventre já em completa ebulição. Ele se perguntou que gosto teriam aqueles lábios úmidos... E que insanidade súbita tomara conta do seu ser para ainda não havê-los tomado para si, para ainda não havê-lo tomado inteiro para si, como era seu direito essa noite.

Já sabia o motivo... Só precisara daquele breve interlúdio e da tímida tentativa de sedução do escravo para confirmar. Ele queria que esse Carneirinho inexperiente lhe mostrasse na prática todo o potencial que Félix podia ler naqueles olhos... Até que ponto aquelas águas verdes e cristalinas eram capazes de se agitarem em desventurada e insana tempestade, até que ele pudesse se afogar nela, sem chance de redenção.

Aguardou, e logo foi recompensado por sua paciência quando o rosto alvo encurtou a distância entre ambos, aproximando aquele lábios rosados e úmidos dos seus. Quando enfim os lábios se encontraram, por um breve momento, Félix sentiu tudo girar à sua volta, como se houvesse embarcado em uma viagem a outro mundo completamente novo ao seu conhecimento. O contato quente e molhado da língua dele de encontro à sua, o sabor delicioso de sua boca, em conjunto com as mãos já nem tão tímidas que envolviam seu pescoço à medida que o beijo se aprofundava mais e mais... Tudo isso superou todas as expectativas que haviam se instalado dentro dele assim que seu olhar pousou naquela criatura loira pela primeira vez.

A repentina consciência de que a excitação dele já queria acompanhar a sua o atingiu, como podia sentir através do contato do quadril dele com o seu, a ereção dele, também pungente, também exigente, beijando a sua pelo tecido dos trajes de ambos. Ainda colhendo os lábios dele nos seus, Félix depositou as mãos em sua cintura por dentro do colete, sentindo a reação imediata dele com o toque na pele sensível e desnuda, na forma de um gemido que escapou por entre os lábios colados. Possessivamente, puxou-o para mais perto de si, intensificando o beijo, invadindo e explorando com mais ardor os recônditos daquela caverna quente e cada vez mais convidativa. A pele dele era macia de encontro às suas mãos exigentes e dominadoras. Podia sentir todo o corpo do loiro estremecendo em seus braços à medida que suas mãos descobriam mais recantos por debaixo do colete, percorriam suas costas e apertava sua pele já úmida de um suor frio, não saberia ele dizer se de medo, tensão ou tesão... Ou tudo junto. Em breve descobriria.

Séculos ou segundos transcorreram até separarem os lábios e Félix poder ser brindado com o semblante corado do Carneirinho trêmulo que segurava nos braços. Ele não abriu os olhos imediatamente após o beijo, como se relutasse em acordar de um sonho, os lábios úmidos e ainda entreabertos, as faces rosadas e a respiração levemente ofegante. Mas quando os abriu, Félix pôde vislumbrar nas esferas de jade um breve prenúncio dos prazeres vindouros que lhe aguardavam, e deliciosas pontadas de tesão agitaram seu íntimo. Ainda preso naquele olhar tão entregue, afastou-se um pouco dele, retirando as mãos de sua cintura e criando um pequeno espaço entre os dois. Permaneceu observando sua reação e foi tamanho o desamparo que viu na expressão da frágil criatura que quase o tomou novamente nos braços. Mas a antecipação pelo proximo passo dele era prazeirosa demais para ele conseguir abrir mão desse capricho adicional.

Félix levantou uma sobrancelha de forma interrogativa. Uma leve confusão passeou pelo olhar do escravo até que os olhos verdes se iluminassem finalmente com a compreensão do que fazer a seguir, antes de se dirigirem para baixo... Para o volume imenso já estufado dentro da pantalona larga do Sultão. O Carneirinho voltou a encará-lo com um novo brilho promissor no olhar. As mãos delicadas, já não tão hesitantes agora, foram ter ao encontro das abas de sua capa aberta na frente, para em seguida despi-lo dela, revelando por debaixo o corpo esguio, o peito amplo, os ombros fortes e a silhueta imponente. A próxima peça a ser tirada do caminho foi a faixa que foi lentamente desenrolada de sua cintura até beijar o chão. Félix continuou aguardando pacientemente até que o toque dele chegasse onde mais interessava... A calça larga que já deixava entrever o tamanho de sua excitação crescente foi abaixada em um movimento suave, e em resposta o membro endurecido agora liberto das vestes despontou no ar, um mastro em riste e demandante da mais urgente atenção.

Podia jurar que um suspiro de surpresa escapou daqueles lábios entreabertos... Na verdade um misto de surpresa e êxtase que não saberia dizer para onde pendia mais. A essa altura, pouco importava. Melhor dizendo... Nada mais importava além daquele Carneirinho completamente fascinado pelo seu... Atributo. Isso era bom, mas as coisas precisavam andar mais rapidamente naquele quarto. O desejo urgia cada vez mais intensamente. Após alguns segundos, Félix achou por bem soltar um breve pigarro para tentar lembrá-lo que pretendia ser servido em suas necessidades ainda naquele milênio. O loiro encontrou seu olhar, compreendendo imediatamente o que era-lhe esperado a seguir. Ajoelhou-se no piso desenhado com mosaicos de pedras e postou-se em frente ao seu membro em riste, que foi logo envolvido por uma mão surpreendentemente decidida.

Um ofêgo baixo foi a resposta de Félix àquele primeiro contato dos dedos delicados se fechando em torno da sua excitação efervescente, que logo evoluiu para um ensaio de gemido, quando os movimentos de bombeio em seu pênis começaram, suaves, quase lânguidos, como se o escravo a servi-lo ali de joelhos temesse de alguma forma danificar o valoroso e imponente instrumento de prazer de seu Amo.

Félix ainda tentava se encontrar em meio às primeiras sensações prazeirosas do vai e vem daquela mão em seu membro quando sem qualquer aviso prévio, a ponta de uma língua úmida brindou-lhe com um pequeno toque molhado e gentil, que logo foi estendido para toda a cabeça de seu membro cada vez mais intumescido. Sua respiração tornou-se dolorosamente mais rápida à medida que aquela língua percorria não só a cabeça brilhante mas também toda sua extensão, deixando trilhas incertas e molhadas por onde deslizava.

Teve que fechar os olhos quando sentiu-se envolvido, quase que completamente engolido pelos lábios do loiro que como descobria agora, estava demonstrando ser um excelente aprendiz na arte de testar sua sanidade. Dentro da caverna quente daquela boca a língua determinada e incansável continuava os movimentos sinuosos por todo seu membro cada vez mais túrgido e indefeso frente ao assalto inesperado e instigante. Félix não suportou muito tempo sem a visão, ou melhor, sem a falta da visão do próprio pênis que desaparecera engolido pelos lábios dedicados. Na verdade ele queria mais do que isso... Queria não, precisava da visão daqueles olhos, para que pudesse mergulhar neles ao mesmo tempo que afundava no turbilhão de sentidos que aquela língua dançante lhe provocava tão fortemente. Por isso, levou as mãos, com uma ternura desconhecida para si mesmo, à cabeça de cachos cor de sol e dispensando-lhe uma carícia nos fios encaracolados, soltou um som para chamar-lhe a atenção.

– Psiu... – Foi um breve sibilar, mas mesmo tão concentrado no que fazia, o loiro ouviu, e sem interromper sua labuta, levantou o olhar para ele, e isso quase foi sua perdição. Os olhos cor de mar fixos em sua direção, a língua ainda em seu membro se movendo cada vez mais rápido, a fome que flutuava naquele olhar... Por um momento o poderoso Sultão não se sentia mais tão poderoso assim. Por alguns segundos os papéis se inverteram naquele quarto. O escravo se tornara o Sultão... E o Sultão fora reduzido a um escravo daqueles lábios e daqueles olhos, e estranhamente, não havia pressa para que o mundo voltasse ao seu estado original.

Foi quando Félix decidiu que não podia mais esperar... Por todos os grãos de areia do deserto, fora capturado de forma tão inebriante por aqueles lábios dedicados que nem ao menos se dera conta que enquanto ele se encontrava ali, em pé, completamente desnudo... O escravo que se desdobrava em prol de seu prazer ainda estava completamente vestido.

Lutando contra a própria relutância, levou as mãos à cabeça cacheada e fez com que os lábios se afastassem. Breve confusão transpareceu nos olhos verdes. “Estou fazendo algo errado?” Era o que diziam. Félix quase sorriu sentindo uma nova ternura acender no íntimo. O problema, se é que podia chamar assim, era justamente o que ele estava fazendo bem demais... Não queria gozar ali, em pé, pelado no meio do quarto com aquele Carneirinho devotado ainda todo vestido a seus pés. Abaixou-se e ergueu-o delicadamente... Mas sem demora toda a delicadeza foi abandonada perante o desejo insano que alastrou-se por todo seu corpo, ao admirar sua expressão perdida, entregue, os lábios ainda úmidos do contato com seu membro, os olhos entreabertos e algo sonhadores, as faces vivas e coradas... Definitivamente não de vergonha. Esta já fora superada e esquecida há vários momentos atrás.

As vestes do jovem loiro foram arrancadas de seu corpo sem a menor cerimônia ou gentileza, deixando finalmente à mostra para a apreciação do Sultão toda sua exuberante nudez. Félix engoliu em seco ao percorrer com os olhos aquele corpo alvo, perfeito, e altamente desfrutável... Sem mais demora puxou-o para si, colando o corpo e os lábios aos dele. Agora livres das vestes incômodas, as ereções se beijaram e se esfregaram deliciosamente entre os corpos colados. Suas mãos se apoderaram das nádegas firmes e agora deliciosamente disponíveis em sua nudez. Aprofundou o beijo colhendo cada suspiro e gemido dele nos próprios lábios como o mais delicioso néctar dos deuses, enquanto o empurrava em direção à imensa cama atrás deles. Caíram mais do que deitaram nela, ainda abraçados, ainda se beijando, o faminto Sultão e seu Carneirinho submisso.

Félix apartou o beijo e encarou o jovem escravo deitado abaixo dele, capturando o momento exato em que o verde daqueles olhos se escureceu. Reconheceu imediatamente a nova emoção exposta neles. Medo. Quase pavor na verdade.

Ele me viu... e finalmente compreendeu o que vai acontecer. Essa cabecinha loira pelo jeito demora um pouco para entender as coisas...

Não saberia dizer de onde surgira essa estranha necessidade de afastar aquela sombra de medo do olhar do escravo, mas o fato é que de alguma forma, parecia-lhe insuportável essa ideia... A de que aquele jovem imaculado abaixo de si poderia se sentir uma presa, um mero animal pronto para o sacrifício de se submeter aos seus caprichos carnais. Ele nunca se importara com isso antes. Nem ao menos gostava de olhar para os rostos dos escravos... Sempre os possuía por trás, justamente para evitar encará-los. Tornava muito mais fácil esquecê-los depois. Eram somente corpos para saciar seus desejos, desprovidos de rostos ou nomes.

Mas essa criatura... Essa criatura era diferente. Ainda não entendia como nem porque, mas é como se o tivesse enfeitiçado, e agora, não conseguia nem pensar em possuí-lo de outra forma em que não pudesse olhar para seu rosto. Precisava que fosse assim. Só que com aquela sombra incômoda passeando nos olhos amedrontados...

– Carneirinho... – Mais do que nunca o nome que lhe apelidara combinava perfeitamente com o ser rendido abaixo dele. Os olhos verdes o encararam, vulneráveis. Algo em seu peito apertou-se quase roubando seu ar. – Não tenha medo... – foi o sussurro inacreditavelmente confortador que saiu de seus lábios.

Fosse por obediência de escravo ou por realmente se acalmar... O fato é que aquela sombra de medo se esvaiu de seus olhos, deixando no lugar nada além de expectativa ansiosa. As esferas de jade o fitaram, na mais confiante e submissa entrega. Passeou o olhar pelo corpo nú deitado abaixo dele, completamente jogado nos finíssimos lençóis de seda da cama do Sultão. Por si só já era um espetáculo hipnotizante mesmo para ele que estava acostumado a ter em sua cama os mais diversos e atraentes amantes, noite após noite... O peito do jovem movia-se ligeiramente mais rápido, os braços estendidos ao longo do corpo, as pernas ligeiramente abertas...

Félix já esperara demais, já segurara o próprio desejo demais... Por que dar voltas e voltas e não tomá-lo logo de uma vez, selvagemente, cruamente, como o seu tesão assim comandava? O latejar febril de seu membro endurecido o estava levando à loucura. O golpe final em sua sanidade veio quando as pernas alvas se dobraram e começaram a se abrir mais em mudo convite, deixando à vista o esconderijo quente do Carneirinho, disponível e à espera.

Alá, olhai pra isto! Se confiasse na própria voz talvez aquele pensamento se transformasse em palavras. Mas não... Seu desejo se transformara em uma tormenta do deserto, cegando-o e desvirtuando seus sentidos... E somente aquele oásis inexplorado abaixo de si seria capaz de aniquilar sua sede e confortar seu corpo castigado por fome tão devastadora.

Não esperou nem mais um segundo antes de encaixar-se entre suas pernas abertas e procurar com a ponta de seu membro o refúgio acolhedor que o aguardava... Ao mesmo tempo procurou o rosto do escravo para ler-lhe a expressão, enquanto a ponta úmida e inchada começava a penetrá-lo lentamente. Já havia introduzido toda a cabeça quando um esgar de dor no rosto dele o fez parar. Félix sentiu-se engolindo toda a areia do deserto do Saara quando o corpo quente contraiu-se ao seu redor, resistente, apertado... Mesmo em meio a tantas sensações enlouquecedoras, não conseguiu ignorar aquela face retesada pela dor e pelo desconforto, a ponto de fazê-lo morder os lábios e apertar os olhos fechados em silenciosa agonia.

Virgem... Carneirinho Virgem... Pelas pirâmides do Egito... O que estava fazendo afinal? Ficara tão cego pelo próprio desejo que esquecera desse pequeno... detalhe?

Retirou-se suavemente de dentro dele, o que fez com que os olhos verdes confusos o encarassem, meio receosos, meio decepcionados.

– Está tudo bem, Carneirinho... – assegurou-lhe, e mais uma vez a face dele anuviou-se.

Trouxe a mão longa aos próprios lábios, e ainda mantendo o olhar no rosto ansioso abaixo de si, lambeu generosamente três dedos esguios, introduzindo em seguida um primeiro dedo molhado aos poucos dentro dele, testando, abrindo o caminho com cuidado, ao mesmo tempo em que observava as mudanças em sua expressão. O peito alvo se ergueu em uma respiração mais acelerada com a delicada mas decidida invasão. Muito sutilmente pôde perceber a leve mudança... Aquela nuance quase imperceptível entre a dor e o prazer que já queria se anunciar. Félix continuou penetrando-o cada vez mais profundamente, até onde a extensão de seu dedo permitiu. Quando se deu por satisfeito com a face mais relaxada do Carneirinho, retirou o dedo e enfiou dois dessa vez, avançando e desvendando-o cada vez mais. Ele era o grande desbravador daqueles caminhos quentes e úmidos que seus dedos agora revelavam.

E todo o tempo, seu próprio membro pulsante urgia de revolta pelo desejo não satisfeito, ainda em riste, ainda à espera do momento em que finalmente teria seu alívio. Mas não ainda... Necessitava que ele se mostrasse pronto. E esse momento finalmente chegou quando três de seus dedos longos e molhados se introduziram nele, mais provocativamente, mais profundamente... Buscando fervorosamente um ponto mais sensível dentro dele, aquele que o faria se entregar completamente ao próprio prazer. Foi quando as nádegas brancas e redondas se contorceram ao redor de seus dedos e sua face corada franziu-se de tesão, que Félix soube que ele estava finalmente pronto. Pronto para ele.

Rapidamente retirou os dedos e recomeçou a possuí-lo, deliciando-se na sensação quente e ardente do corpo dele ao redor de seu membro que avançava dentro dele, encontrando bem menos resistência do que antes, mas ainda assim, havia alguma, não podia negar. Assim dizia sua face ainda tensa pela luta explícita entre os extremos opostos... A agonia da dor da invasão e o êxtase do desejo crescente.

Ainda não conseguira possuí-lo por completo... Pela primeira vez naquela noite, aliás, pela primeira vez em sua vida... Preocupou-se que o jovem servo ao seu redor não fosse capaz de acolhê-lo inteiramente. E se fosse deveras avantajado para tão frágil e pequena entrada?

Cessou o avanço dentro dele, refastelando-se por alguns momentos no insano prazer da carne quente, ardente ao redor de seu membro túrgido, latejante. Mesmo depois de seus esforços, sabia que era preciso mais... Três dedos não foram suficientes. Foi quando seu olhar foi atraído para uma parte chamativa no baixo ventre do Carneirinho prostrado abaixo dele. Mas que pecado imperdoável... Ali estava ele, esquecido, abandonado à própria sorte: O membro tumescente e rosado parecia acenar sua carência em sua direção. Antes que pudesse atinar com o que fazia, sua mão o envolveu com dedos longos e generosos, iniciando uma massagem leve ao mesmo tempo em que captava o exato momento de realização naquela face ainda retesada. Seu desejo inflamou-se ante o pensamento poderoso de que seria capaz de transformar aquela aflição reticente em prazer desmedido... que poderia substituir a agonia que ainda lia em sua expressão por êxtase abnegado... Quase foi capaz de esquecer do próprio tesão tamanha a intensidade com que essa ideia lhe obsediou.

Mantendo o olhar fixo no rosto contorcido, pôs-se a masturbá-lo com lentidão proposital, provocativa, ao mesmo tempo que retomava a invasão dentro do corpo estuante. Os olhos verdes se abriram e o fitaram, enevoados, algo perdidos. Sua face começara a relaxar-se antes mesmo que demonstrasse a grata surpresa em ter a mão longa do Sultão lhe proporcionando prazer, em uma instigação simultânea com os movimentos dentro dele, ainda lentos, ainda amenos, mas que encerravam toda uma promessa de uma tormenta prestes a se iniciar para ambos.

A sua mão continuou estimulando-o cada vez mais rapidamente, e a cada bombeada frenética, mais dele se oferecia à poderosa expedição de seu membro envolto pela carne quente e agora, bem mais receptiva. Não demoraria muito até que estivesse absolutamente todo dentro dele, e enquanto esse momento vinha ao seu encontro, Félix tornara-se prisioneiro daqueles olhos, pois eles pareciam mudar de cor como as dunas do deserto mudam de lugar com o vento contumaz de uma tempestade... Nunca imaginara que pudesse haver tantos tons diferentes de verde. Nem que pudesse ansiar por extrair dos olhos daquele Carneirinho cada um deles... Quem sabe até criar novos.

Em certo momento daquela erótica e insana inserção no oásis inexplorado do corpo dele, Félix percebeu que seus esforços foram recompensados... afinal o tomava inteiramente. Afinal estava todo dentro dele. Nem precisava dos gemidos baixos que agora escapavam de seus lábios ou da visão da face rosada e transfigurada pelo tesão para ter certeza que afinal, eram uma só carne, ininterrupta e ardente. Mesmo assim, permaneceu estimulando-o e investindo dentro dele no mesmo ritmo rápido, sem perder nem um segundo que fosse daquela visão lasciva abaixo de si. Em certo momento, as íris verdes foram escondidas quando ele fechou os olhos e afundou a cabeça na almofada atrás de si. Suas mãos foram se agarrar aos lençóis suntuosos de seda do leito real, cravando-se neles em velado desespero.

Não... Eu quero esses olhos... Eu quero esse Carneirinho por inteiro. Eu quero olhar pra ele quando...

Ninguém poderia jamais dizer que o Sultão Félix não sabia o que queria. E nunca ele tivera tanta certeza do que queria quanto nesse momento. Muito mais importante que seu próprio clímax, muito mais importante que a demanda gritante de seu próprio prazer... Ele queria assistir aquela face ser transpassada pelo êxtase do gozo desatinado e desvairado que sabia estar bem guardado dentro dele. Esse era o oásis que desejava a todo custo descobrir... aquele oculto no corpo ansioso ao seu redor e nas íris cor de mar em violenta tormenta.

O mundo inteiro parou quando os movimentos cessaram, tanto as estocadas dentro do corpo quente do Carneirinho, quanto as bombeadas em seu membro intumescido. A mão de Félix abandonou-o, deixando-o cruelmente à deriva. Por alguns segundos todo o movimento restante naquela cama era o latejar persistente de seu próprio membro endurecido dentro dele, que clamava surdamente toda a insatisfação na pausa forçada, reduzido a um prisioneiro confesso da volúpia ardente que o envolvia.

Félix ignorou tudo à sua volta, até mesmo a pulsação surda no próprio membro que ameaçava enlouquecê-lo. Abaixando-se por sobre ele, segurou com as duas mãos a face rosada de olhos cerrados, obrigando-o gentilmente a encará-lo. Foi brindado com os olhos verdes lânguidos, por entre pálpebras semi-cerradas, e quando achava que nada poderia ser mais excitante do que isso... sentiu pernas surpreendentemente firmes se enroscarem possessivamente em torno de seus quadris, cruzando-se e fechando o cerco que expressava nesse simples gesto tudo que aquelas íris brilhantes lhe diziam sem palavras.

– Carneirinho... – Nem soube como conseguiu murmurar o nome que lhe emprestara e do qual ele se apoderara tão bem quanto fazia agora com as pernas cruzadas ao seu redor.

– Meu Amo... – o sussurro rouco do escravo incendiou suas entranhas e reduziu a cinzas o que ainda restava de sua lucidez. – Sou seu... – o aperto das pernas se intensificou, puxando-o, instigando-o que continuasse, que tornasse mais selvagem e completa ainda sua entrega. Todo o corpo rosado e prostrado gritava esse apelo, assim como seu olhar recheado da mais pura luxúria... Um mar em franca tempestade irrefreável e devastadora.

Meu... Meu Carneirinho... – Essas foram as últimas palavras do sultão antes que o turbilhão a duras penas represado finalmente irrompesse, envolvendo ambos os corpos que agora eram só um, no mesmo desvario que tanto ansiavam.

Félix recomeçou as estocadas furiosas dentro dele e com uma mão, buscou o membro abandonado do servo para retomar-lhe a posse, bombeando-o novamente de volta à sua dolorosa imponência. O corpo do Carneirinho enlouquecido se retorcia ao seu redor, as pernas se fecharam com mais força reafirmando sua posse daquele que o possuía... um paradoxo perfeito e impossível de ser explicado, não importando que fosse por um simples escravo ou por um poderoso Sultão. Nada disso tinha mais importância agora quando Félix sentia-se sendo totalmente engolido, tragado sem indulgência pelo corpo ardente e voluptuoso daquele escravo. Ainda que a entrega e a cegueira fossem totais, Félix nada temeu. Naquela cama imensa coberta por de lençóis de seda agora amarfanhados por tanta paixão... expurgara-se todo e qualquer pensamento coerente. O Sultão agora possuía completamente seu Carneirinho. O tempo inteiro, os olhares se mantinham fixos um no outro. Os gemidos sofridos de um se juntavam ao do outro em uníssono. Uma só onda de poderosas sensações anunciava-se na forma dos espasmos poderosos que começavam a assaltar o corpo do Sultão. E já que eram um só corpo naquele momento, ele sabia, em meio a tempestade turbulenta que alterava seus sentidos, que seu adorável e agora desvirginado escravo estava prestes a atingir seu próprio clímax também...

Que Alá me puxe aos Céus se eu perder um segundo que seja...

Em meio a tanta loucura, a tanto tesão passeando freneticamente por seu corpo... Um balbuciar ofegante abriu caminho entre os gemidos, e Félix abaixou-se para ouvir melhor o que saía dos lábios úmidos e entreabertos que lutavam com muito custo para se fazer entender.

– Meu Amo... Eu... Eu... – Os olhos de um verde turbulento e agitado demonstravam toda a perdição em que estavam mergulhados.

– Diga... – conseguiu murmurar em um sussurrar irreconhecível aos seus ouvidos – Diga, meu Carneirinho...

– Vou... estou.... morren... – O loiro não conseguiu completar a sentença, que foi engolida junto com ele pelo orgasmo que finalmente o arrebatou com garras desprovidas de qualquer clemência. Os olhos se apertaram sofregamente, os lábios se crisparam em franca e deliciosa agonia, a face mais rosada do que nunca se contraiu, entregue ao enlevo do clímax, e a carne ardente ao seu redor aumentou a força com que o envolvia.

Com a mão que não o estimulava, buscou uma das mãos dele que tateava pelo lençol, perdida, e a agarrou com firmeza, como se para assim transmitir-lhe que estavam juntos na mesma agonia e prazer. Fosse lá onde fosse o lugar para onde tão poderoso gozo o transportara... Sentiu a mão dele na sua correspondendo o aperto, no mesmo desespero suado, como se desejasse manter uma âncora no mundo real que o impedisse de ser tragado para sempre na explosão do próprio desejo.

Somente após o vislumbre do começo do êxtase do Carneirinho, Félix se permitiu, ou melhor, se rendeu ao próprio orgasmo, pois a visão com que era brindado derrotaria vergonhosamente mesmo o mais valente dos guerreiros. Fechou os olhos com relutância de separar-se da imagem do rosto do loiro, entregue ao próprio desafogo, mas nenhuma força no mundo seria capaz de impedir que seu próprio orgasmo avultasse agora, violento, imperativo e poderoso, como era de se esperar após semelhante embate dos sentidos.

Foi então que a tempestade, misericordiosa, explodiu vigorosamente dentro dele na forma dos espasmos intensos que sacudiram seu corpo febril. De muito longe desse mundo, Félix sabia que as estrelas mudaram de lugar no firmamento. As dunas do deserto se paralisaram contra o vento quente e cortante, contrariando todas as leis da natureza e divinas. O universo parecia conspirar em volta deles para celebrar essa união de corpos em uma só paixão. Atrás de seus olhos fechados, todas as cores pareciam mais vívidas e mais belas do que nunca nesse novo mundo que se desbravava dentro dele juntamente com o clímax sublime e majestoso.

Toda a tormenta explodiu de dentro dele para dentro do Carneirinho, na forma do alívio líquido e quente que pretendia preenchê-lo por inteiro. Ao mesmo tempo, sua mão incansável recebia a dádiva do jato de prazer dele, forte e abrasador, que inundava seus dedos no mesmo calor com que despejava seu gozo dentro dele.

Seu corpo ainda era sacudido pelas derradeiras ondas de prazer quando desabou por cima dele, os corpos suados e quentes ainda unidos, as mãos ainda entrelaçadas, inseparáveis. Um silêncio morno se seguiu substituindo os gemidos e ofêgos antes compartilhados, somente quebrado pela respiração de ambos, Sultão e Escravo, voltando aos poucos ao normal. A cabeça de Félix agora descansava no peito do Carneirinho, e seus olhos ainda se mantinham fechados. Dentro dele, o tamanho de seu membro recuava, derrotado pela recente explosão de prazer, mas ainda aninhado pelo corpo quente do escravo ao seu redor.

O tempo pausara benignamente enquanto se recuperavam, inertes na mesma exaustão do gozo extremado que dividiram. E foi em meio a esse bem aventurado silêncio que Félix sentiu o peito do loiro sacudir-se levemente com breves soluços. Algo semelhante a alarme o fez levantar a cabeça e olhar para ele. E o que viu, desconcertou-o de uma maneira que não conseguiria explicar nem que vivesse mil anos.

O Carneirinho chorava contidamente, e a vergonha o levara a esconder o rosto com uma mão, aquela que não estava unida na sua... como se com isso pudesse impedir que as lágrimas o tomassem de assalto tão completamente.

– Carneirinho... – Félix sussurrou enquanto levantava-se e saia suavemente de dentro dele, deitando-se ao seu lado na cama. Ele continuou com a face escondida, mas continuava falhando miseravelmente em evitar que as lágrimas o dominassem cada vez mais. Os soluços intensificaram-se e ele virou o rosto para o lado oposto ao Sultão. O peito de Félix contraiu-se de forma inexplicável, mas sem nem pensar no porque dessa sensação, ele levou uma mão ao rosto dele e delicadamente fez com que se virasse de volta.

– Eu... machuquei você? – A voz saiu gentil e recheada de preocupação. Sim, por que não admitir logo? Estava preocupado com aquele escravo... Mas isso se devia somente ao fato de ter acabado de tirar sua virgindade, não era? Claro, era uma explicação perfeitamente aceitável naquele momento.

Observou-o pacientemente quando ele afinal descobriu o rosto. A vergonha ainda passeava ali... Os olhos verdes marejados o encararam, vulneráveis e mais brilhantes do que nunca. Mais lindos do que nunca. Se não tomasse cuidado, se arriscava a se deixar enfeitiçar perigosamente por aquele par de olhos despretensiosamente sedutores.

– Não, meu amo... — A resposta veio naquela voz suave, macia com que fora brindado assim que o ouvira pela primeira vez. – É apenas... Emoção.

Mais uma lágrima escapou e deslizou pela face vermelha de choro. A luz de uma compreensão súbita iluminou Félix e o fez entender o mistério do oásis que nesta noite tanto se esforçara para desvendar... O verdadeiro oásis era salgado, ao mesmo tempo que doce... O sal daquelas lágrimas misturado à doçura da completa entrega dele. Era dessa fonte que desejava beber, e assim o fez, aproximando-se de seu rosto e colhendo de sua face a umidade daquelas lágrimas recém nascidas nos próprios lábios, saboreando-as como o mais delicioso maná dos deuses.

O Carneirinho fechou os olhos, em nova entrega ao surpreendente gesto carinhoso. Enquanto ainda colhia suas lágrimas nos lábios, sentiu seu peito se mover em novos soluços, e antes que a emoção novamente o dominasse, tomou seu lábios em um beijo terno e envolvente, que teve o esperado efeito de abrandar sua emoção e novamente acalmá-lo.

Os lábios se separaram, indulgentes, relutantes. Os olhares novamente se encontraram em muda cumplicidade, antes que o exaurido Sultão voltasse a repousar a cabeça no peito do jovem escravo... O leito mais perfeito para seu descanso após semelhante explosão de sentidos que se abatera sobre ambos.

Antes de ser vencido pelo torpor do sono, uma mão gentil tocou seus cabelos, aninhando-se ali, em um carinho leve, amoroso. Deixou-se ser subjugado pelo cansaço e também porque não dizer, pela plenitude extasiante que tomara conta de todo seu ser. Fechou os olhos pesadamente, emitindo um último suspiro satisfeito, antes de adormecer embalado pelas batidas do coração do jovem escravo e pelo cheiro suave da pele dele de encontro ao seu rosto.

Talvez fosse o afago daquela mão confortadora... Talvez fosse o êxtase pleno que experimentara com aquele Carneirinho... Fosse como fosse, pela primeira vez em muito tempo, quando a sombra das asas dos sonhos se estendeu sobre ele, não temeu sua escuridão, e tranquilamente permitiu-se ser arrastado para a bem vinda inconsciência.

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Notas finais
Capítulo dedicado à Jéssica A. do grupo Feliko do Facebook.