Carneirinho e as Cento e Uma Noites
16 A História de Fahir – Parte II
Notas iniciais
“A partir deste ponto da história, Cacheadinho, devo lhe avisar que as coisas só vão piorar, e quando você achar que não pode ficar pior... Aí é que ficará mesmo. Logo você entenderá porque não estou exagerando ao dizer isso. Tudo que eu mais queria nesse momento é não ter que prosseguir. Mas existe uma distância imensa entre querer e poder nesse caso. Eu simplesmente devo continuar, porque você precisa saber de absolutamente tudo.
Após Pércia conhecer o tatuador cigano chamado Ninho, eu pude sentir nitidamente o encantamento que envolveu os dois, como se o restante do mundo à volta deles houvesse desaparecido. Eu não ousava interromper esse momento mágico aos meus olhos, pois algo me dizia que os meus desejos mais profundos seriam atendidos, começando bem ali, naquele inusitado encontro entre a Princesa e o Cigano. Eu sabia que não era o destino de minha irmã que começava a ser revelado... Era o meu. Procurei com todas as forças controlar minha euforia para não estragar a chance de ouro de finalmente me livrar do maior incômodo da minha existência.
– Quem é o cavaleiro com você... É seu marido? – Veio a pergunta de Ninho, que finalmente havia notado a minha presença.
– Ah! Não... – Pércia riu, balançando a cabeça. – Ele é...
– Sou o irmão dela, Sir Fahir, a seu dispor. – Eu a cortei, de repente temendo que ela pudesse distraidamente deixar escapar quem realmente éramos. Fiz um cumprimento com a cabeça, sorrindo para o rapaz moreno que ainda segurava a mão de Pércia, como se não pretendesse soltá-la nunca mais, o que eu intimamente torcia com todo o fervor. – Somos viajantes, viemos de longe para que minha irmãzinha se consultasse com a famosa Lady Alejandra.
– Alejandra? Ela é minha irmã. – declarou ele, sorrindo.
– Não diga! Estamos todos em família aqui. Que tocante... – Eu exibi meu sorriso mais convincente, e dirigi meu olhar para os outros dois ciganos, o que aguardava pela finalização da tatuagem nas costas e o outro encostado na carroça. – E vocês, são da família também?
– Todo o nosso clã é uma grande família. – Ninho se adiantou em responder. – Aquele é o Máximus. – Ao ser mencionado o rapaz moreno e barbudo escorado na carroça de braços cruzados apenas assentiu com a cabeça. – E este aqui é o Wendler. – O rapaz de costas nuas com a borboleta incompleta nas costas virou-se de lado para exibir um meio sorriso e também assentiu levemente com a cabeça.
– Encantada em conhecer vocês. – Pércia sorriu com simpatia para ambos, em seguida encarou Ninho. – Será que poderíamos assistir você terminar de pintá-lo? Eu queria muito ver como vai ficar no final. – Em seguida virou-se para mim, como se só então lembrasse que eu estava ali, mas nem me importei. – Podemos, meu irmão?
– Ora, mas claro, se nossos novos amigos nos deixarem acompanhar a evolução dessa obra de arte... E não atrapalharmos o artista... Não me oponho em absoluto. – Respondi categórico. O sorriso dela se ampliou, então voltou-se para Ninho, ansiosa.
Ele nada disse, apenas sorriu e puxou um outro banco de madeira próximo para que Pércia pudesse se acomodar ao seu lado. Minha irmã sentou-se no banquinho, compenetrada, mostrando a mesma antecipação que uma criança mostraria diante de um brinquedo novo. Ninho sentou-se e diante do olhar curioso de Pércia, retomou o trabalho de tatuar a enorme borboleta nas costas de Wendler.
Mais uma vez eu fora deixado em pé sem ter onde sentar, por isso me aproximei de Máximus e encostei-me na carroça ao seu lado, cruzando os braços também e aproveitando para observá-lo melhor. Reparei que ele também era bonito, uma beleza mais crua e primitiva, mas evidente nos traços fortes do rosto. Sorri-lhe amistosamente.
– Então... Você também vai fazer uma tatuagem? – Tentei puxar conversa com o cigano barbudo, que me encarou com um leve sorriso, mas nada disse. Eu não insisti, simplesmente concluindo que ele não era de muitas palavras. Aliás de nenhuma. Com um suspiro, aguardei enquanto observava o trabalho do tatuador continuar por um tempo, até que satisfeito, Ninho repousou na tigela as varetas e com um tecido limpou o pouco sangue que surgia dos minúsculos ferimentos. Pércia não perdia nenhum movimento, ainda enlevada. Quando Ninho levantou-se, ela fez o mesmo.
– Está pronto. – Ao ouvir isso Wendler levantou-se também, e imaginei que a primeira coisa que faria seria procurar um espelho onde pudesse ver o resultado final da tatuagem, mas não foi isso que o cigano fez. Ao invés, veio em nossa direção, e sorrindo orgulhoso para Máximus, pôs-se na frente deste e virou-se de costas. O rapaz barbudo ao meu lado abriu um enorme sorriso de aprovação diante da borboleta colorida e completa que ornava as costas de Wendler, então fez algo que me surpreendeu mais ainda. Máximus começou a despir a própria blusa branca de seda, revelando o tórax bem torneado e onde se revelava também em suas costas uma enorme tatuagem de um par de asas abertas de pássaro.
Só pude entender o significado de tudo aquilo quando os dois ciganos seminus se abraçaram e uniram os lábios em um beijo profundo e apaixonado, que durou tempo suficiente para eu rever ainda que por segundos, meus conceitos sobre o povo cigano. Talvez... Só talvez, não fosse tão ruim assim fazer parte daquela gente, afinal. Eu ainda tentava me decidir se sentia pena ou inveja, quando eles separaram os lábios do beijo e sorrindo afetuosamente, deram-se as mãos e se afastaram, certamente para comemorar a nova tatuagem de Wendler de forma mais privativa... Quem sabe voar juntos para algum lugar, agora que ambos contavam com suas respectivas asas desenhadas na carne?
– Oh... Eles se amam! – Exclamou minha irmã em tom maravilhado, ainda olhando os vultos de mãos dadas se afastando, ligeiramente atrasada em sua observação. Ninho virou-se para ela com um novo sorriso, que foi logo retribuído por ela, enquanto suas faces novamente se enrubesciam com o olhar cortante do cigano. Eu quase podia ouvir as borboletas se agitando em seu estômago e sonhos misteriosos e exóticos dançando por debaixo das madeixas castanhas. E foi esse momento que decidi ser ideal para uma pequena retirada estratégica. Pedi licença aos dois, com a desculpa que precisava checar os cavalos ali perto. Ninho nada respondeu. Minha irmã balançou a cabeça distraidamente sem ao menos piscar ou desviar o olhar do cigano. Me afastei rapida mas silenciosamente, sem olhar para trás.
Se um cavalo pudesse exibir uma expressão, eu sabia que a de Alazão seria de surpresa, quando reapareci sozinho na clareira onde ele e a égua Muriel aguardavam. Alazão bufou para mim, e eu procurei acalmá-lo com um carinho no dorso, que o cavalo refutou, afastando o pescoço. Eu só consegui rir, achando graça em ser julgado por minha própria montaria... Mas esse era um privilégio que definitivamente eu podia conceder ao meu companheiro de tantos anos.
Procurei um lugar para sentar-me debaixo de uma árvore enquanto aguardava um tempo que eu calculava como necessário para o encantamento de minha irmã se transformar em uma decisão. Claro, seria tão mais fácil simplesmente subir no Alazão e voltar para o castelo. Deixá-la ali, à própria sorte... Mas isso tornaria muito mais difícil arranjar uma mentira convincente o suficiente para explicar aos meus pais o sumiço de minha irmã. Não... Eu sabia que esse momento era crucial, por isso aguardei pacientemente, sentado embaixo ao pé da árvore, ignorando os bufões que Alazão soltava de vez em quando.
A decisão teria que ser dela. E tudo que eu podia fazer era esperar, e torcer para que a burrice nata de minha irmã não resolvesse fraquejar justo agora. Para me distrair, fechei os olhos e imaginei as expressões de meus pais quando eu voltasse com a grande novidade.
Após um longo tempo, finalmente decidi que já bastava, e abri os olhos. Eu sentara ali com as mãos sobre meus joelhos dobrados. Agora, pousada no dorso de minha mão coberta pela luva negra... Uma borboleta azul e preta batia suavemente suas asas uma contra a outra, e não voou mesmo quando mexi um pouco a mão. Eu a observei, com um começo de sorriso no rosto e um aperto de antecipação quase doloroso no peito. A borboleta bateu as asas mais algumas vezes e alçou vôo. Eu a segui com o olhar até ela sumir entre as copas das árvores, então me levantei. Pura confiança me movia agora, pois eu sabia reconhecer um sinal quando o via. Voltei rapidamente ao acampamento dos ciganos, onde pude confirmar o que já sabia.
Ninho e Pércia estavam de mãos dadas. Ao me avistar, Pércia abriu um grande sorriso e levando a mão de Ninho aos lábios, beijou-a antes de se afastar do cigano e se aproximar de mim, visivelmente emocionada.
Eu fiz de tudo para conter a excitação que se revolvia dentro de mim, ao ouvi-la contar que estava convencida de que acabara de conhecer o amor de sua vida. Conforme Ninho lhe contara, ele também era uma espécie de príncipe, por ser filho do líder dos ciganos e por causa da linhagem de ancestrais a que pertencia. Pércia falava e falava sem parar, sem conseguir mais conter as lágrimas, e eu só ouvia, dessa vez, dedicando-lhe toda a minha atenção sincera, talvez pela primeira vez em minha vida. Até que ela enfim chegou na parte que eu tanto ansiava ouvir.
– Ele é meu Destino, meu irmão. Eu o amei desde o primeiro olhar. E ele também já declarou seu amor por mim. E... Fahir... – Ela não conteve um soluço. – Ele me pediu em casamento!
– Mentira! – Eu exclamei, e dessa vez não me refreei de puxá-la para um abraço efusivo. — Minha doce irmãzinha... – Eu murmurei junto ao seu ouvido. – Como estou feliz por você! – E o pior é que eu realmente não poderia estar mais feliz... Por mim é claro.
Pércia não conseguiu mais falar, chorando copiosamente dentro do meu abraço. Eu afaguei seus cabelos e a cobri de felicitações até que ela se acalmasse e me encarasse, dessa vez com uma nova emoção no rosto.
– Nossos pais... Eles vão me odiar, meu irmão. Principalmente papai... Ele não suporta os ciganos. – Identifiquei um vislumbre de dúvida em seus olhos, e não demorei a combatê-la.
– Não vou mentir, meu doce, eles não ficarão satisfeitos com sua escolha. Por isso mesmo, você sabe que precisará ser forte, não é? Você vai romper com eles, pra sempre... Mas fará isso para seguir o seu destino. – Eu a olhei bem sério enquanto falava essas palavras, e segurei suas mãos nas minhas com força. – Você precisa fazer isso, porque o verdadeiro destino não bate duas vezes na mesma porta. Não pode deixar o amor da sua vida escapar por entre seus dedos. Agarre-o, Pércia... E seja feliz com seu príncipe! – Apertei mais suas mãos, e vi quando os olhos amendoados se arregalaram.
– Irmão! Você... Você está chorando... – Pércia recomeçou a chorar, mas sorria entre as lágrimas. – Eu nunca vi você chorar.
– Estou chorando porque desde já não aguento de saudades de você... – Abracei-a novamente antes que ela me flagrasse reprimindo uma risada intrusa. – Mas vou sobreviver, porque sei que você será imensamente feliz. Ah... Minha doce irmãzinha...
Entre lágrimas e sorrisos, ainda nos abraçamos mais um tempo, até que finalmente Ninho se aproximou de nós, e eu sabia que chegara a hora de partir, e dizer adeus à minha irmã. Dizer adeus à minha irmã! Essa frase dançava na minha mente e eu precisei me controlar para não externar isso fisicamente com meus pés. Haveria tempo para minha própria comemoração, mais tarde, longe de olhos curiosos. Agora, eu precisava representar meu papel de irmão-triste-feliz-saudoso-querido-compreensivo e abreviar logo aquela despedida tão difícil. Antes de me retirar, no entanto, prometi a Pércia que tentaria de tudo para que nossos pais compreendessem e aceitassem a decisão que a filha tomara. E me comprometi a consolá-los e prestar-lhes apoio, como uma compensação pela falta que certamente sentiriam de Pércia. Essa parte pelo menos eu podia me orgulhar de ser verdade. O único detalhe era que eu não pretendia deixar que sentissem essa falta por muito tempo.
Senti o olhar do novo casal sobre mim ao me afastar em passos calmos, e ainda dei uma última olhada para trás. Acenei sorrindo para eles, e eles acenaram de volta. Voltei-me então para a trilha por entre as ruínas de pedra, e segui em frente até mergulhar na floresta. Só quando me senti seguramente fora do alcance da visão deles foi que me permiti, finalmente, soltar uma risada genuinamente feliz em muito tempo. Logo, eu gargalhava sem conseguir parar, e acima de mim, o vento que balançava os galhos das árvores parecia rir junto comigo.
Após extravasar toda minha alegria, eu consegui parar de rir e suspirei longamente. Eu nem acreditava no que acabara de acontecer. A pedra na minha bota, o sapo da minha lagoa... Pércia, enfim, fora da minha vida, definitivamente. Um novo caminho se abria à minha frente, muito mais iluminado e promissor. Só que ainda não acabara... Ainda não chegara a hora de relaxar e colher os louros que o destino me presenteara. Havia um último obstáculo a ser superado antes da verdadeira felicidade.
Meus pais. E certamente essa parte seria muito mais difícil do que dar um nó na tonta da minha irmã...
Um plano quase completo já se formara em minha mente, e as arestas e possíveis falhas, eu acertaria na cavalgada de volta para o castelo. Cheguei na clareira onde Alazão e Muriel aguardavam. O que me fez lembrar: Eu não podia levar o cavalo de Pércia de volta. Também não podia deixar o animal preso ali para morrer de fome... O jeito seria deixá-la livre. Talvez até a égua seguisse a caravana dos ciganos e acabasse por se encontrar com sua dona. Sendo assim, soltei-a e levei-a até a entrada da trilha, em direção ao acampamento. Dei-lhe um leve tapa no lombo, e Muriel adentrou a trilha e desapareceu.
Com a questão resolvida, voltei-me para Alazão, e levei alguns minutos para conseguir subir no cavalo, que em clara reprovação, dava trotes para trás e para o lado, tentando se desviar para impedir que eu o montasse. Ainda sob efeito da euforia avalassadora do que acontecera antes, não pude evitar achar aquilo muito divertido. Ainda tentei suborná-lo com alguns torrões de açúcar que trazia no bolso do meu traje, que ele não aceitou, antes que finalmente desistisse resignado e ficasse imóvel para que eu subisse nele.
No caminho de volta para o castelo, nunca o vento me parecera tão refrescante, nem os campos mais verdes ou o calor do sol mais benvindo em minhas faces. A sensação de liberdade era indescritível e sedutora. Precisei me controlar para não me deixar consumir pela felicidade extasiante. Era perigoso render-se cedo demais a uma vitória que ainda não se completara. Me obriguei a repensar todo meu plano na mente, detalhe por detalhe, embalado pelo som dos cascos de Alazão percorrendo a planície verdejante, encurtando nossa distância do castelo de Elcure. Enquanto a forma majestosa do castelo tornava-se maior e mais próxima, eu pensava no simbolismo do meu retorno ao Reino. Estava voltando a um Reino completamente diferente daquele que deixara algumas horas mais cedo.
Estava voltando para o meu Reino. Por obra e graça do Destino ou de uma força maior que nem sonharia em chamar de Deus, esse Reino estava retornando às mãos daquele de quem era de direito. De quem sempre fora de direito.
Eu.
Com uma euforia incessante em vias de explodir de dentro de mim, eu repetia para mim mesmo que tudo que fizera fora corrigir um grave e inaceitável erro. Eu nada fizera de mal contra minha irmã (embora soubesse que não descartaria essa opcão se fosse necessário), eu simplesmente fiz um pequeno ajuste para que as coisas voltassem a ser como deviam ser. Um fio rebelde se soltara, mas eu estivera atento. Sempre atento. Conseguira puxá-lo de volta, e agora, à medida que os portões principais do castelo de Elcure rapidamente se aproximavam, eu sabia que faltava só uma última puxada. Eu não falharia. Já conseguira a parte mais difícil de todas. Se eu mantivesse a cabeça fria e seguisse com o plano meticulosamente arquitetado, não havia como algo dar errado.
Com todas as partes do meu plano já devidamente alinhavados com mais esmero que o mais talentoso artesão das Terras Médias de San Magno conseguiria, eu adentrei os portões abertos do castelo, sem esquecer de manter a face bem séria. Um sorriso por mais leve que fosse não pegaria bem depois a meu favor, já que galopando junto comigo no Alazão, supunha-se que a notícia mais triste me acompanhava.
Mas em meu íntimo, tenho certeza que meu sorriso poderia iluminar a noite mais escura de todo o Reino de Elcure.
* * * * * *
‘Queridos papai e mamãe,
Antes de mais nada, quero que saibam que meu irmão fez de tudo para me dissuadir da minha decisão, e aconteça o que acontecer, não se esqueçam disso. Não desejo que culpa alguma recaia sobre ele, pois ele sempre foi o melhor, o mais protetor, o mais atencioso e amoroso irmão que jamais sonhei ter. Na verdade, além do meu imenso amor por vocês, amor este que permanece e jamais terminará, um dos outros motivos importantes de eu ter escrito essa carta foi para reforçar isso: Fahir fez de tudo. Até chorou de tristeza quando viu que não ia conseguir me convencer, e eu nunca vi meu irmão chorar antes. Isso me emocionou demais, meus pais, e não pensem que eu também não estou triste. Uma parte de mim está devastada pela dor de nunca mais ver vocês, mas preciso que vocês também entendam que um motivo muito forte me levou a partir.
Eu quero que vocês saibam que eu encontrei o grande amor da minha vida. Jamais poderia ir embora e deixar vocês na ignorância. Isso seria muita ingratidão com aqueles que me presentearam com a coisa mais sagrada que alguém pode ter. A vida. Nunca existirão pais que tenham amado mais sua filha do que vocês me amaram. Exatamente por isso eu preciso que entendam, ou tentem entender pelo menos, a importância da minha decisão e de como cheguei nela.
Já faz algumas semanas que, escondida de vocês, do meu irmão e de todos, eu venho usando uma saída secreta do castelo, para ir até um acampamento clandestino de ciganos a algumas horas daqui. O motivo que me levou a procurar esse lugar pela primeira vez foi a curiosidade. Eu ouvira falar de uma poderosa cigana que sabia ler mãos, e quis me consultar com ela. Eu sabia que vocês jamais permitiriam tal coisa, principalmente o senhor, querido pai, mas o impulso de espiar o meu destino foi mais forte do que o meu senso de obediência. Eu pretendia ir lá, me consultar com a cigana e nunca mais retornar, mas nesse acampamento, além da olhada no meu futuro, fui surpreendida com algo que não previa. Conheci um jovem príncipe cigano, e foi amor à primeira vista. Eu nunca pensei que a força do amor poderia ser tão forte e tão avassaladora. Eu me apaixonei perdidamente por ele, e ele por mim. Esse amor que nos une é tão grande que é até difícil escrever agora, pois minhas mãos estão trêmulas. Eu sabia que o amor era algo lindo, mas nada me preparou para a força desse sentimento. É tão imenso que só de pensar em ficar longe dele, me falta o ar. Eu sei com toda minha lucidez e com todo meu coração que jamais conseguiria viver sem ele. Essa pessoa é minha vida. Ele é o mundo para mim, meus pais.
Depois de nos conhecermos, voltei várias vezes ao acampamento para vê-lo, sempre usando a saída secreta. Numa das minhas últimas escapadas, ele me contou com um sorriso que logo a caravana do povo dele migraria para outro lugar. Eu nem tive tempo de começar a sentir tristeza, pois ele não permitiu. Meu príncipe querido se ajoelhou na minha frente e me pediu em casamento. Ele queria me tornar sua esposa, e junto com ele, nós dois lideraríamos o povo cigano em suas intermináveis viagens nômades. Eu nem conseguia falar. A emoção nos dominou. Eu só consegui chorar de alegria e aceitar. Dentro do meu coração apaixonado, eu já tomara uma decisão. Mas eu sabia que essa decisão me separaria de vocês. Isso me causou uma dor enorme, volto a repetir isso, na esperança que acreditem e nunca se esqueçam disso.
Com a importante decisão tomada, fiquei sabendo que somente teria mais algumas semanas até a caravana partir. Talvez até menos. A partir daí eu ainda voltaria algumas vezes ao acampamento antes da última vez. E foi justamente nessa última vez em que todo o amor que meu querido irmão mais velho sempre demonstrou por mim, também provocou a exposição do segredo que eu vinha guardando tão bem.
Vocês se lembram da noite passada? Quando me despedi de vocês antes de me recolher ao meu leito? Fiz de tudo para parecer normal, mas por dentro meu coração sangrava. Seria a última vez que veria vocês, pois eu pretendia usar a saída secreta pela última vez hoje de manhã, e assim o fiz. Eu consegui esconder minha tristeza de vocês, mas foi mais difícil com meu irmão. Ao me despedir dele, não pude disfarçar a emoção e deixei escapar algumas lágrimas. Meu abraço nele foi mais demorado. Ainda que sempre tenhamos sido carinhosos um com o outro, tenho certeza que foi isso que chamou sua atenção e o pôs alerta.
Eu e Fahir sempre tivemos uma ligação especial, sempre fomos próximos. Eu sei que ele sentiu minha enorme tristeza. Como o cavaleiro inteligente e sensível que é, ele leu dentro de mim e percebeu alguma coisa. Uma despedida velada. Uma melancolia pungente. Meu irmão nada falou, mas no dia seguinte, de manhã, eu não percebi que ele me seguia até o acampamento dos ciganos até ser tarde demais.
De alguma maneira, Fahir descobriu a minha escapada furtiva. Eu, menina tola, achava-me segura na decisão de sair do castelo o mais cedo possível, mas meu diligente e atento irmão mostrou-se como sempre competente na sua proteção amorosa da irmã mais nova. Talvez ele tenha me seguido desde a porta do meu quarto, e assim, descobriu a saída secreta do castelo. Não importa. O fato é que fiquei incrivelmente surpresa quando ele irrompeu no acampamento dos ciganos, espada e escudo em punho, a face valente e destemida, disposto a salvar a irmãzinha das pessoas que é claro, só poderiam estar sequestrando a jovem princesa de Elcure.
Mesmo diante do porte altivo de cavaleiro do meu irmão, meu noivo não se sentiu ameaçado, olhando de igual para igual. Enfrentou-o, como príncipe e guerreiro que também era. Para evitar uma tragédia, tive que intervir entre eles, e tive muita dificuldade para arrastar meu irmão para um lugar longe dali onde pude lhe explicar tudo. Fahir me ouviu em silêncio, até o fim, mas quando terminei de falar, ele não queria aceitar de jeito nenhum. Ah, como meu irmão vociferou e gesticulou com as mãos. Eu não me lembrava de tê-lo visto tão nervoso antes.
Ele sempre me protegera, cuidara de mim. Eu era sua irmãzinha mais nova. E agora eu queria partir com ‘aquele bando de brutos’ para vagar sem destino e ele nunca mais me veria. Ouvi-lo dizer isso me fez chorar, e quando olhei para Fahir vi que ele também chorava. Me senti despedaçando por dentro, pois nunca o vira chorar. Choramos abraçados, até não haver mais lágrimas. No final, Fahir finalmente entendeu minha decisão. Ele me disse que só não podia abrir mão de uma coisa, isso era o principal. Eu seria feliz? Seria bem cuidada? Estaria protegida? Eu sorri e lhe assegurei que sim, que eu lhe dava minha palavra de irmã mais nova que é claro que seria feliz. Tudo que eu estava deixando para trás, vocês, meu irmão, minha avó, o povo de Elcure, minha linhagem real... tudo isso era em prol de uma só coisa.
Ser feliz, para sempre.
Querido pai, sei muito bem que seu primeiro sentimento ao ler essas linhas será de raiva, revolta, inconformismo. O senhor desejará me trazer de volta, até à força. Eu entendo, meu pai. Eu sei que não será fácil para seu coração sequer entender, que dirá aceitar que eu escolhi esta vida para mim. Uma vida que o senhor sempre amplamente reprovou. Mesmo que o senhor não entenda, mesmo que a senhora também não, querida mãe, uma coisa acho que vocês podem entender muito bem: O poder do amor sobre o coração do ser humano. Esse poder é grande demais para eu sequer tentar vencê-lo. Foi ele que me venceu.
Mesmo eu sabendo que não tenho o direito de pedir ou exigir nada, vou pedir mesmo assim. Por favor, não tentem arrancar a localização do acampamento do meu irmão. Eu o fiz prometer que nunca o daria, e seria inútil de qualquer jeito. No momento em que vocês lêem essas linhas, eu, meu amor e nosso povo já migramos para outro lugar bem distante, possivelmente já fora dos limites do Reino de Elcure. Esse será nosso destino: nunca ter um destino, a não ser os braços um do outro, para sempre. A essa hora, também já estaremos casados, e aqui quero reforçar um ponto que sei que é importante para o senhor.
Eu me casei virgem, meu pai. Minha castidade foi entregue àquele que já possuía meu coração. O meu príncipe, e agora, meu amado marido. Talvez isso não amenize a perda no seu coração, mas espero que seja ao menos um tênue consolo.
Por favor, querido pai, não envie tropas da Guarda Real em meu encalço. O povo cigano sabe como se esconder e se tornar inacessível. Nessas semanas eu aprendi muito sobre eles, e cada dia meu conhecimento cresce junto com meu amor por esse povo que tão amorosamente me aceitou como sua líder, junto com meu marido. Não posso esquecer de dizer que estou ciente de que com meu ato de rompimento com o Reino de Elcure, estou abrindo mão de meu título de princesa e de todos meus direitos reais. Levo comigo nada além do amor que nutro por vocês, e para mim nunca haverá riqueza maior do que esta.
Para não haver dúvidas de que realmente escrevi estas linhas, usei meu selo real pela última vez para fechar esta carta. Após selar este documento, eu destruirei o selo, pois ele será inútil, visto que este é meu último ato como membro da realeza de Elcure.
Se vocês quiserem escolher uma só coisa do que digo nesta carta para acreditar, será esta: Eu estou imensamente feliz, como nunca pensei que pudesse ser. E quero que vocês mantenham isso em mente e sejam muito felizes também. Por favor, cuidem do meu irmão querido, pois sei que a tristeza dele também é imensurável. Que vocês todos possam se unir no mesmo carinho e no mesmo amor, sempre lembrando que onde quer que eu esteja, sempre levarei todos vocês no meu coração.
Eu amo vocês.
Ass. Pércia Elcure’
Nunca o peso do silêncio se fizera tão opressivo no salão do trono Real, como quando o Rei Cesare terminou de ler em voz alta a carta da minha irmã, a voz falhando miseravelmente nas últimas linhas. Ninguém falava palavra. Lágrimas escorriam pelos rostos de meu pai, de minha mãe e de minha avó. Alguns murmúrios de pesar se faziam ouvir entre os nobres presentes.
Eu me mantive impassível, parado em pé diante deles que, sentados em seus tronos, ainda não podiam acreditar no que acabaram de ouvir. Observei que meu pai releu a carta, como se fosse possível encontrar algo diferente nas linhas que ele mesmo acabara de ler. Minha avó abraçou minha mãe, e as duas choravam copiosamente. Eu sabia que meu pai estava em total choque, e que provavelmente após esse choque se dissipar, viria a verdadeira explosão de raiva e indignação esperada com semelhante notícia.
Enquanto eles ainda absorviam as más novas, me distrai passeando o olhar pelas faces das pessoas, estudando suas reações. A única expressão ligeiramente diferente das demais era a de Epifânia. Minha noiva me olhava fixamente sem nem piscar, com um ar indecifrável na face. Por algum motivo senti-me desconfortável com isso, mas concentrado como estava em manter a atuação do irmão pesaroso e triste, eu joguei para o fundo da mente essa sensação. Havia algo muito mais importante para eu me preocupar agora e não podia deixar minha irritante noiva me atrapalhar no que talvez fosse a maior atuação teatral de todas as Terras Médias de San Magno.
Não fosse eu o futuro Rei de Elcure, poderia até pensar na carreira de ator. Esse pensamento me divertiu e me controlei ao máximo para me manter sério. Na verdade eu me esforçava heroicamente para reprimir o sorriso que forçava sua presença em meus lábios, pois não podia deixar de sentir um orgulho absurdo da carta que escrevera imitando a letra de Pércia. Para alguém como eu que nunca acreditara nessas bobagens de amor, eu até que fizera um ótimo trabalho. Mas precisava admitir para mim mesmo que isso seria bem mais difícil sem tantas horas torturantes em que meus ouvidos foram abarrotados com as asneiras românticas que ela me impligia. Eu não soubera então, mas era o Sábio Destino me fornecendo material precioso para ser usado em um futuro não muito distante. E eu não me fiz de rogado.
Para mim não houve surpresa quando ficou claro que a carta falsificada cumprira sua função perfeitamente. Todos acreditaram que Pércia a havia escrito, o que talvez fosse a maior ironia de todas. Mesmo recheada de bobagens de amor e sentimento, aquela carta era uma verdadeira obra-prima das palavras. Minha tola irmãzinha jamais seria capaz de atingir tal proeza. Por um momento tive que dominar um insano impulso de gritar para todos ouvirem que eu é que escrevera aquilo e conseguira enganar a todos. Claro que não fiz isso mas vontade não faltou. Acalmei meu ego e respirei fundo, relembrando como fora relativamente fácil escrever aquela carta. Não levara nem meia hora. Ao voltar ao castelo e sem ser visto por ninguém, fui direto para o quarto de Pércia, onde busquei o material para a confecção da carta. Papel, tinteiro, pena, o selo real da minha irmã... E algo crucial para o sucesso do meu plano. Levei tudo para meu quarto e lá escrevi de uma vez só as linhas mais convincentes já escritas.
Talvez você se pergunte, Cacheadinho, como consegui imitar a letra de Pércia. Certo dia, em uma das muitas vezes que fui chamado ao seu quarto para mais uma sessão de confidências, descobri com desgosto que dessa vez não seriam só meus ouvidos a serem castigados: meus pobres olhinhos também. Ela me confidenciou enrubescida que escrevia poesias em uma espécie de diário, e queria me mostrar as que mais gostava. Eu concordei, o que havia de fazer? Li algumas passando o olhar rapidamente, depois cobri-a de elogios. Eu estava certo de que ela era uma poetisa nata, lhe disse efusivamente. Ela sorriu e me abraçou. Eu aguentei mais uma vez, depois dei uma desculpa qualquer e praticamente fugi dali.
Não me lembrei mais desse diário até a cavalgada de volta do acampamento dos ciganos, quando a última chave para o sucesso do meu plano girou fazendo tudo se encaixar.
Agora, eu pacientemente aguardava os próximos passos. Ou melhor dizendo, atos. Era como se todos ali presentes fossem minhas queridas marionetes, que se mexiam e pulavam conforme eram comandados pelas minhas hábeis mãos. Cada um tinha seu papel esperado, e o do meu pai era o da ira. Confesso que me sentia até aliviado quando ele finalmente deixou explodir toda sua revolta, levantando-se num rompante do trono e rasgando em gestos furiosos a carta de Pércia. Na verdade alívio e pena se misturavam em mim. Aquela carta era tão perfeita... Se houvesse um pingo de modéstia em mim eu a colocaria de lado para dizer que ela fora o instrumento mais importante para atestar a veracidade da história da irmã desertora. Por isso era tão difícil vê-la reduzida a faixas rasgadas de papel no chão que agora meu pai pisava em fúria insana... Mas eu sabia que era necessário, e correspondia até a um merecido prêmio por meu trabalho bem feito.
Minha mãe e minha avó ainda choravam, parecendo até um pouco assustadas com a reação do meu pai. Eu não. Continuei na mesma posição, saboreando intimamente o momento de vitória, que foi reforçado com o desfecho ideal: Enquanto minha mãe tentava acalmá-lo, ele vociferou que a partir daquele instante, Pércia estava morta para ele. E mais ainda... Declarou que todos estavam proibidos de mencionar seu nome, sob risco de punição severa. O encerramento perfeito para um capítulo que fora longo demais em minha vida, mas que felizmente chegara ao fim.
Eu prendi o fôlego quando o olhar do meu pai pousou sobre mim, como se só então reparasse que eu estava ali. Uma velha emoção há muito esquecida renasceu como um golpe de ar fresco em meu íntimo. Há quanto tempo ele não olhava para mim de verdade? Poderiam ser até séculos. Não importava. Agora meu pai me enxergava de novo, e senti as pernas trêmulas quando ele desceu os degraus que levavam aos tronos e andou em minha direção, até parar bem na minha frente e olhar dentro dos meus olhos. Sustentei seu olhar por um instante, antes de abaixar a cabeça em gesto respeitoso, e nem pude acreditar quando senti os braços de meu pai me envolvendo e me puxando para um abraço apertado e forte. Acreditei menos ainda quando um sussurro baixo chegou aos meus ouvidos.
– Meu filho...
– Pai... – Consegui responder com a voz embargada antes de retribuir seu abraço, um abraço demorado e caloroso que imediatamente me conduziu a um passado longínquo. Aquele passado quando eu era uma criança genuina e plenamente feliz. Antes de Pércia. Antes do erro que agora já fora devidamente apagado.
Quanto tempo dura um segundo no paraíso? Se alguém souber essa resposta, poderia dizer que fiquei aninhado nos braços do meu pai durante um milênio, até que sentisse também os braços de minha mãe enlaçando a nós dois, completando o círculo perfeito de nossa família Real como ela sempre deveria ter sido.
Aninhado entre meus pais, a felicidade me embriagava como o mais delicioso vinho, e finalmente me permiti soltar um pouco da emoção em forma de lágrimas que logo se misturaram com as deles. Permanecemos assim durante um longo tempo, enquanto uma certeza crescia e fincava pé dentro de mim.
Eu os faria esquecer que Pércia sequer nascera.
Ou não me chamaria mais Fahir Elcure.”
(continua...)
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