Carne Viva

— Doutor, quanto tempo tenho de vida? — ele questionou, sabendo que a resposta, seria, no mínimo, apavorante. E no máximo, também. Ele sabia que, de qualquer forma, a resposta não seria boa. Na melhor das hipóteses, alguns meses. Na pior, alguns dias.

— Não sei se devo falar, senhor David. — O doutor contorceu a boca, praticamente anunciando “você vai morrer”. Coisa que já sabia perfeitamente bem. E não se importava de modo algum. Sua vida inteira havia sido um fracasso, solitária, sem aventuras e momentos impactantes. Uma vida plana, imutável, sem relevos, sem sentimentos fortes.

— Por favor. Diga — insistiu.

O doutor respirou fundo para aguentar o possível choro, apelo, o “por favor, salve-me!” em meio aos prantos, seguido de soluços. Mas David não era como os outros pacientes, que, em pânico, tentavam implorar por meses, dias, segundos de vida a alguém que nada poderia fazer. Suplicavam vida com meras palavras, enquanto deveriam suplicar com papéis e moedas. Ele era um mortal, e morreria, mais cedo ou mais tarde, e não se importaria de viver um segundo a mais ou a menos. Pelo menos, não com aquela vida. Contentar-se-ia com todos os simples tique-taques do relógio que ainda lhe restaria para viver, mesmo que não tivesse muitos prazeres naqueles curtos momentos.

— Seis meses — o doutor forçou as palavras a saírem como uma criança se força a tomar o xarope com gosto amargo: num só trago.

David não se surpreendeu. Manteve-se impassível, seus olhos não lacrimejaram, os joelhos não tombaram, as pernas não enfraqueceram. Era o esperado, não era? Portanto, iria vivê-lo. Não faria as mesmas promessas que as outras centenas de pacientes que dali saíram — com a mesma notícia — faziam. Prometiam viver cada dia intensamente, como se fosse o último, e quaisquer outros clichês.

— Obrigado, doutor — disse, secamente, talvez até de um jeito meio rude. Fez uma mesura com o chapéu e saiu de seu consultório.

A rua, naquele dia, não estava movimentada, mas o delicioso som das rodas de madeiras das charretes latejando sobre os paralelepípedos confortava David, assim como os cascos dos cavalos trotando sobre o chão. Era uma cidade pequena, mas confortável, se não fossem os beberrões, assassinos e estupradores durante a madrugada, e os políticos nojentos durante as manhãs. Pensando bem, não havia muitos pontos positivos naquela cidadezinha no meio da Inglaterra. Era pequena, feia durante a manhã, sombria e horrível durante a noite. Mas às vezes ela lhe parecia tão confortável…! Afinal, fora o único lugar em que morou durante toda sua vida, e era o único lugar que conhecia.

A sua casa não era longe do centro, mas era um pouco afastada. Nunca foi um homem pobre, que morava em casebres e tinha de suar e sangrar todos os dias para sustentar a si próprio. Era afortunado, não tanto quanto outros moradores da região — era o mais pobre, na realidade —, porém havia vários interessados no dinheiro que tinha, herança de seu pai, de seu pobre pai, que agora viajava pelas nuvens do Paraíso ou pelas colinas de grama vermelha com o céu de fogo e aterrorizante do Inferno, ou até mesmo galopando num cavalo imaginário rumo ao nada, ao Vazio.

A casa era simples, e o trajeto até lá, tão simples quanto atravessar uma rua. Era uma linha reta. Tomava-se a principal rua da cidade, a Avenida Hoffmann, que passava em frente à praça principal, a única fonte de entretenimento além dos bares daquela cidade, até encontrar-se com uma casa simples, mas bonita, pintada da cor de barro. O jardim, antes bem cuidado devido ao zelo excessivo de sua mãe, agora se mostrava sem flores, e a grama, antes verde e invejada pelos outros vizinhos, agora era verde-claro em sua maioria. Mas não chegava a ser um jardim feio, apenas um jardim sem decorativos.

No interior da casa, havia alguns luxos, que pouquíssimas pessoas davam-se o prazer de possuir, como estantes recheadas de livros, máquinas de escrever e móveis feitos com madeira de excelente qualidade. Artigos que um simples homem morreria, daria todo o esforço e o dinheiro da sua vida para poder comprar. Fazer assim como seu pai o fez. Trabalhou, trabalhou e trabalhou, e depois de tanto trabalhar, conseguiu tudo o que queria. E quando conseguiu tudo o que desejava, morreu sem aviso, sem dor, sem sentimentos. E após a morte do pai, a mãe se foi. E após a morte dos pais, David também ia, e sem deixar prole, ou herdeiro confiável para a pequenina fortuna.

Ter herdeiros era uma obrigação para ele quando seus pais estavam vivos. Sempre o pressionaram para se casar, ter muitos filhos, netos e bisnetos, formar um grande legado, assim como Abraão. Mas agora que haviam falecido, e ele próprio estava morrendo por dentro, não havia mais obrigação neste mundo e nem em nenhum outro.

No entanto, a pena de deixar a casa para as aranhas e ratos era grande. Um lugar tão belo no meio da feiura daquela cidade não poderia ser corrompido pelo negrume das almas daquele povo, ou pela atmosfera densa. Deveria ser a única referência feliz daquele lugar, um dos poucos locais onde pessoas boas viveram e morreram, onde se havia felicidade, mesmo após a cruel separação eterna. Aquela felicidade triste das recordações, das primaveras, das flores, da infância, da própria felicidade passada. Agora, havia aquela pequena felicidade seca, cinza, insossa, agridoce.

Mas como poderia gerar prole em tão pouco tempo? Como poderia se casar e conseguir ter filhos em seis meses? Era impossível, casamentos não se arranjam em poucos meses. Talvez funerais, mas casamentos… a felicidade merecia tempo, mas a tristeza poderia ser de última hora. Manter seu último motivo de sorriso vivo também merecia tempo, mesmo que fossem seis meses.

A casa merecia um novo dono, um dono que fosse tão feliz quanto ele e seus pais foram quando estavam unidos ali. Com o dinheiro que ganhasse com a venda e o acumulado pelas décadas de trabalho do pai, poderia gastar os últimos momentos em outro lugar, de preferência, longe daquele lugar esquisito. Talvez pudesse viver não seis meses, mas sete. Um ano. Talvez Deus fosse-lhe bondoso e lhe deixasse completar seus trinta e seis anos, um ano e três meses depois daquele dia. Mas talvez Deus lhe tirasse a vida antes. Em apenas cinco meses, um mês antes do previsto, ou no dia seguinte, assassinado.

A vida era cruel. Não fora cruel com seus pais, ao menos. Morreram ambos sem dor. Mas David tinha doença. E se os últimos dias fossem tão agonizantes que o fizessem clamar a morte, suplicá-la, chorar porque sente sua falta como sentisse a falta de uma amante? Era daquilo que tinha mais temor: a dor. Primeiro, pois não tinha ninguém para tomar conta de si. E segundo, pois era tão cruel…! Era uma coisa tão terrível, a dor. Imaginava o coração doendo como se estivesse prestes a implodir dentro do peito. A dor era tão forte que ultrapassava a própria camada, forte, porém invisível, da imaginação, e ele punha a mão no peito para atenuar a dor que jamais existiu.

Entrar na casa era uma sensação nostálgica, feliz e triste ao mesmo tempo. Sempre se sentia bem ao voltar para casa, mas a sensação acabava quando se lembrava de que ninguém estaria esperando por ele. Aquela sensação de estar esperando por algo que jamais vai acontecer. E seu sorriso morria, e a nascia aquela expressão fechada, a boca reta, mas escondendo uma decepção, e uma repreensão mental em como havia sido tolo por pensar que havia alguém esperando.

Os dias seguiram-se silenciosos, solitários, mas atarefados. David concentrava-se na venda da casa a um proprietário decente. Gostaria que um casal alegre, com muitos filhos cheios de vida, comprasse a casa, para lhe renovar o sentimento de união e alegria há muito tempo perdido.

Contudo, foram poucos os interessados, e, para sua infelicidade, nenhum lhe parecia bom o suficiente. Havia um homem rico e gordo, cujas expressões lembravam uma foca, e sua esposa, que era tão gorda quanto ele. O homem, chamado Jack, era rude e mal-educado, e sua esposa, Sylvia, fútil e esnobe. O outro interessado era um homem magro e alto, que também atendia por David, e era escritor. A princípio, poderia ser um ótimo comprador, se não parecesse tão deprimido e infeliz. O último era um homem simples, pálido, de estatura mediana, de nome John.

David descartou o casal e seu homônimo — ambos não combinavam com a personalidade pura e alegre da casa. Porém, o último, John, deixou pendente.

Quando o comprador visitou a casa, parecia bastante interessado, e ofereceu ainda mais dinheiro, cento e cinquenta mil libras, trinta mil a mais do que o preço inicial. A oferta deixou David muito desejoso, mas não se importava com o dinheiro. O que lhe era importante era manter a memória da casa viva, e John não parecia ser o comprador ideal. Era um homem soturno, apático, pálido, e parecia doente, também. A última coisa de que aquela casa precisava era de mais doenças.

Durante a visita, David não ficou muito interessado, e já seria um nome a ser descartado da lista sem nem mesmo ter entrado, porém, a oferta e o grande interesse de John pela casa o fizeram repensar.

Escreveu uma carta ao interessado convidando-o para tomar um chá dali a uma semana, com segundas intenções, é claro. Na verdade, não o convidaria para uma simples conversa entre amigos regada a chá, mas para um interrogatório, uma análise.

A semana passou-se tranquila. A cidade permanecia com as manhãs ensolaradas e bonitas, tardes às vezes nubladas, e noites silenciosas e que faziam qualquer um ter medo de cruzar a porta de entrada da própria casa, temendo o que havia lá fora. Ou seja, nenhuma mudança brusca de temperatura nem de atmosfera naquele local pacato. Aquela pequena cidade na Inglaterra permanecia a mesma, invariável em todos os sentidos: sociais, físicos e econômicos. Quase igual à vida de David, exceto na parte física.

Havia marcado de encontrar-se com John na sua própria casa à venda. Preparara uma mesa, duas cadeiras e, obviamente, o chá, nos fundos da propriedade. Ali se possuía uma bonita vista de seu jardim e do terreno dos vizinhos próximos, que tinham casarões rodeados por árvores, quase como bosques.

O convidado chegou ás quatro e meia, nem um minuto a mais nem a menos. Assim que o ponteiro maior do relógio avançou até o número seis, fazendo um taque tão grave que soou como um tuc, David pôde ouvir batidas numa superfície de madeira. Caminhou até a porta, sabendo que o som provinha de lá, e abriu-a. Viu o comensal diante dele, e seu primeiro pensamento foi de que ele não havia reparado o quão alto era o homem. Apenas depois dessa ideia que lhe veio, ele o convidou para entrar, tentando esboçar seu melhor sorriso. Era complicado, entretanto, já que parecia estar diante de um monstro de quase dois metros de altura, trajando um enorme casaco preto, pálido e com um olhar que parecia querer destruir tudo o que via.

— Senhor John! Por favor, entre antes que o chá esfrie!

John, o conviva, apenas assentiu com a cabeça, e pôs os pés dentro da casa, um de cada vez, lentamente, enquanto olhava de cima a baixo, estudando todo o lugar novamente. Aquilo lhe era amedrontador. Um homem gigante, trajando roupas que simplesmente não combinavam com o ambiente e o horário, pálido e que pouco trocava palavras, olhando cada centímetro, cada canto, cada parede da casa, era aterrorizante.

O coração simplesmente congelou, estagnou-se dentro do peito, ao pensar que o homem poderia ser um assaltante e estar carregando inúmeras armas dentro daquele casaco. A mão começou a tremer e a ficar gelada, como se estivesse se gangrenando de pânico; o coração, antes estático, espancava o peito, de tão rápido e frenético eram os batimentos.

Mas se ele fosse mesmo um assaltante, ou alguém que estaria ali para lhe fazer mal, por que temeria? Estava próximo à morte de qualquer forma, e morrer pelas mãos daquele homem apenas adiantaria a morte pelas mãos de Deus. Talvez o próprio Criador havia mandado aquele homem ali para poupar-lhe do sofrimento da solidão e da dor, quando a doença já estivesse em estágio avançado.

Fechou a porta calmamente, sem pressa, e virou-se para o convidado, que continuava a analisar toda a casa. John parecia uma pantera. Vestia-se de negro, era observador e silencioso, e talvez estivesse pronto para atacar a presa, feito um daqueles felinos. E o que era David? Pálido, magro, um pouco desajeitado e agora, com uma sentença de morte. Era apenas um rato, talvez até um camundongo.

— Acompanhe-me, senhor. — Encaminhou-o até o jardim onde tudo estava preparado. — Espero que goste do chá.

— Não é minha bebida preferida — sua voz era grossa e meio falha, parecendo raspar na garganta pelo pouco uso.

David mostrou-lhe o jardim, e indicou-lhe a pequena mesa redonda, perto da porta dos fundos, sob o telhado, que proporcionava uma sombra. John sentou-se próximo à porta, e seu anfitrião, na cadeira da outra ponta.

Assim que David estendeu a mão para pegar o bule de chá sobre a mesa e servir a bebida às duas xícaras, John também ergueu o braço, com a mão aberta, num gesto óbvio para pará-lo.

— Eu sei que me convidou aqui para saber minhas intenções, senhor David — sua voz agora estava mais limpa, mas permanecia grave e clara. Mesmo num salão recheado de gente, sua voz seria audível num tom normal, sem precisar aumentá-lo. — Mas hoje, quem o interrogará sou eu.

David simplesmente parou de pensar e ficou de olhos arregalados observando John falar, sem conseguir assimilar palavra alguma. Pouco a pouco, o raciocínio lhe foi voltando ao normal, mas mesmo assim, não conseguia assimilar o que ele havia dito. Aquilo com certeza era alguma brincadeira ou o homem estava ali para lhe fazer mal. Não havia explicação lógica para o fato de que ele sabia sobre as intenções de David ao convidá-lo para sua casa. Talvez algum oportunista o estivesse investigando, espionando, e tivesse contratado aquele homem para matá-lo.

E quando já estava imóvel, como se seu corpo tivesse virado uma pedra gélida, John o surpreendeu novamente:

— Eu sinto o cheiro de seu medo — a última palavra soou como o sibilo de uma serpente venenosa, e a pantera desmanchou-se no mar negro dos olhos de David. Agora, suas feições pareciam se transfigurar. Os olhos cor de mel, quase amarelos, se tingiam de vermelho tão brilhante e hipnotizante feito duas enormes pedras de rubi incrustadas.

David levantou-se tão abrupta e automaticamente que a cadeira onde estava sentado havia segundos caiu para trás.

— Eu senti o cheiro da doença — a voz reptiliana continuava a soar feito vários murmúrios, porém, murmúrios vindos de todas as direções, que entravam em seus ouvidos e se chocavam contra o seu crânio, e o fazia se arrepiar e se debater de agonia. — Eu senti o cheiro da morte vindo daqui.

Mesmo frases tão curtas soavam tenebrosas, dilacerantes, torturantes, piores que a própria morte, e o faziam pôr a mão na cabeça como havia posto no seu coração quando imaginou a dor que sentiria no leito de morte. Mas aquela dor que sentia no coração era imaginária, mas a dor na cabeça… era algo entre imaginário e real. Eram sopros dentro de sua cabeça, que não chegavam a doer, mas deixava seu cérebro gelado e era agonizante. Quase a mesma sensação de se pôr a mão gelada numa parte quente do corpo, porém, dentro da sua cabeça.

Tudo parecia escuro, já não se sentia dentro de seu corpo humano mais, era tudo escuro, e escuro, caía, e caía, via e ouvia gotas caindo, e um glup no final, e depois vinhas vermelhas pareciam adentrar em seus olhos, mas não os perfuravam e nem o cegava. Apenas entravam, como se ele fosse apenas pele sem órgãos, ossos e músculos. Além do som das gotas d’água caindo, ouvia outro som, um ssssssssss, mas que não era o sibilo de uma cobra. Parecia uma pessoa fazendo aquele som com a língua, pondo-a no céu da boca e assoprando.

Nunca sentira tanto medo, pânico, terror, tristeza, e todos os outros sentimentos mais terríveis da espécie humana juntos. Era tão, tão horrível que a coisa que mais queria era ter um corpo para poder dilacerá-lo, berrar feito um lunático animalesco, arranhar o peito, arrancar os olhos com as próprias mãos e depois comê-los, enquanto chorava sangue, e se lembrava de cada motivo de arrependimento e tristeza de sua vida, e o fazia querer bater cada vez mais forte na própria cabeça, bater, bater, bater até que pow!, aquilo se explodisse, ossos quebrados voassem para todo lado, e seu cérebro começasse a se derramar pelo seu corpo numa massa quente, cinzenta e viscosa.

— Não tenha medo — disse uma voz, mas que não estava dentro daquela escuridão. De alguma forma, ela parecia estar em outro plano, no exterior, como um narrador-observador de toda aquela cena. A voz parecia vir da esquerda.

E depois se viu deitado na grama de seu jardim, numa posição estranha, que sugeria que poderia ter se debatido enquanto todas aquelas coisas estranhas aconteciam. Estava completamente sujo de grama e terra, mas a agonia parecia ter acabado. Porém, quando olhou para o lado, viu John, sob o telhado, apenas o observando.

— Eu posso acabar com a dor — mesmo a alguns metros de distância, a voz dele era poderosa.

— Que dor? — David levantou-se. — Você me causou mais dor agora do que eu já havia sentido em toda minha vida! O que é você? — Já estava vermelho de raiva, mas misturado com a fúria, vinha também o pânico. Aquela sensação de poder, mas, no último segundo, hesitar, ou ficar trêmulo de medo enquanto tentava soar furioso.

— A dor de sua doença. Ou acha que não senti o cheiro das coisas apodrecendo vindo de você. Está forte. Não dou nem um mês de vida.

— O doutor disse-me seis meses. — Mas não já mais confiava no que o doutor dizia. Nem mesmo soube por que havia falado aquilo, pensava. Talvez eram os últimos esforços de uma mente descrente para continuar descrendo no inimaginável. Mas seu instinto já achava o impossível perfeitamente aceitável.

— Confia nele? Eu cheiro a morte, a doença, o medo, a dor. Ele apenas diz o que acha ser certo. Eu digo o que tenho certeza de ser certo.

— O que é você?

— O que você quer ser?

E então fez-se um silêncio quase que mortal. David já havia ouvido lendas sobre criaturas estranhas na cidade e nos arredores, mas nunca acreditara. Até aquele momento. Desde que viu os olhos do homem transformarem-se em vermelho diante de si, tinha certeza de que ele não era um homem qualquer, e mais certeza ainda quando sua voz começou a ecoar dentro de sua cabeça.

— Você vai morrer de qualquer forma — ele prosseguiu. — Mas as mãos da Morte são mais frias que as minhas.

— O q-que você quer de mim? — E naquela hora, o sobrenatural se tornava o incompreensível possível. Havia diferença entre morrer por aquele homem e morrer pela morte? Talvez ele fosse Deus, e estivesse ali para testá-lo. As mãos de Deus eram frias, mas como uma brisa em um dia de primavera, não um vento invernal.

— Morra pelas mãos da Morte e você estará fadado a um Paraíso ou a um Inferno. Mas morra pelas minhas e você renascerá e não haverá mais dor. Jamais. Você aceita?

— O que é você?

— O que você quer ser? Pó a sete palmos do chão ou carne viva?

Não soube o que responder. Mas já estava certo de que aquele não era Deus. Talvez fosse o Diabo em pessoa. As ofertas de Lúcifer sempre eram tentadoras, mas sempre traziam consequências piores que a morte. Deus indiretamente testava-o, não trazendo a si próprio em forma humana, mas o Anjo Caído. E ele deveria recusar, se quisesse ascender ao Paraíso.

— Não posso aceitar… você… você é o Diabo. — David fez o sinal da cruz com os dedos. — Você está me tentando.

— Eu também ouço a dúvida em sua voz. — A coisa deu uma risada.

Era verdade. David jamais teve tanta dúvida em sua vida. Se aceitasse, iria ser eterno, mais eterno que Deus. Deus não tinha carne, era apenas espírito. Todavia, poderia elevar-se se aceitasse a oferta. Seria espírito e carne, ambos em comunhão, e não haveria sofrimento. Nunca mais. Qualquer consequência desagradável que viesse a seguir valeria à eternidade, o infinito da vida. Qual poder que Deus teria sobre sua vida eterna? Ele não poderia matá-lo, que era o pior castigo que Ele poderia ordenar. Sem o poder da morte sobre si, Deus não era nada.

— Vamos, David — a voz de John agora se tornava clara, mas calma e serena. — Eu sei que você está em uma luta dentro de si. Uma parte sua quer ser temente a Deus, mas uma parte, e uma parte maior, deseja a vida.

Tudo aquilo agora parecia um sonho. Só podia ser um sonho. Tão real, mas ao mesmo tempo tão surreal. Tudo era tangível, com cores iguais às da realidade, uma imitação perfeita, porém, aquelas coisas, aquele homem não era próprio da realidade. Não era um teste, afinal. Era apenas uma artimanha da mente, em um sonho febril de sua doença crônica e mortal. Independente da escolha que fizesse, iria acordar no dia seguinte em sua cama, suado, cansado, doente, humano, mortal.

— Quais são as consequências?

John sorriu com o canto dos lábios, e respondeu o que David achou que ele iria responder — e o que mais queria que ele respondesse:

— Nenhuma consequência que não valha a pena. — Estendeu a mão. — Agora venha. Aperte minha mão. Saia do sol.

David olhou para baixo, para suas próprias pernas. Elas, fracamente, deram um passo, e ele hesitou. Poderia não ser um sonho e ele estar fazendo o pior arrependimento de sua vida. Entretanto… tudo era tão impossível…! E quando pensou nisso, deu mais um passo. E outro. E outro. E mais outro.

E então saiu do sol.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!