A porta do quarto foi aberta e Mycroft avistou o volume debaixo das cobertas pesadas. Ao se aproximar os cachos foram revelados – rebeldes como sempre estiveram – e o mais velho sentiu a melancolia de ver os primeiros traços de adolescência em seu irmão mais novo.

Sherlock tinha os olhos fechados, num sono que parecia que iria se romper a qualquer momento, um sono frágil assim como a pele alva aparentava ser. As maçãs do rosto estavam avermelhadas e o pijama era ensopado pelo suor.

Febre.

Mycroft se manteve em silêncio por longos minutos por não querer quebrar aquele momento. Assistiu seu little brother dormir e percebeu o quanto a boca estava seca, a garganta exprimida.

Sherlock sentiu o perfume do irmão e mesmo não querendo já sabia da presença silenciosa. Mycroft notou quando o sono do irmão foi interrompido e não havia mais saída, o inadiável havia chegado aos dois.

- Como se sente, meu irmão?

Os olhos do caçula se abriram imediatamente. Olhos vívidos, carregados de uma intensidade tão forte que não poderiam ser explicados com palavras.

Aquela voz, aquela maldita voz.

Sherlock viu os anos de espera acabarem. Ele havia ensaiado tantas palavras – de início questionamentos – e ali diante de seus olhos estava o motivo de sua odiada vida.

Ódio.

Sherlock havia cultivado o ódio pelo irmão a cada dia que passara sozinho, porém naquele momento tudo o que ele conseguia sentir era a vontade de abraça-lo. A saudade que havia sido enterrada ressurgiu e esmagou todos os músculos de uma só vez, sem dó.

Idiota.

O insulto era para si mesmo, por ser tão fraco e emocional. Por ainda sentir algo pela mesma pessoa que o abandonara anos atrás. Num movimento rápido Sherlock se levantou da cama e se afastou o quanto pode do irmão.

- O que faz aqui? O QUE ESTÁ FAZENDO AQUI? EU NÃO PRECISO DE VOCÊ, EU ODEIO VOCÊ! EU ODEIO VOCÊ, MYCROFT!

- Sherl...

- FICA LONGE DE MIM!

Contrariando o pedido do irmão, Mycroft se aproximou lentamente.

- Eu sinto muito se sua estadia aqui não foi boa, mas eu preciso que me entenda Sherlock. Eu não poderia sair de casa e deixa-lo para trás, não com aquele louco.

- Você não precisava sair, você não era obrigado a estudar poderia...

- O que Sherlock? Eu poderia o que? Vender bala na rua? Acha que conseguiríamos sobreviver nas ruas? Eu fiz o melhor que pude, eu o deixei num lugar seguro e fui em busca de uma condição digna de vida!

- E conseguiu?

- Sim – suspirou brevemente — Eu consegui Sherlock.

- Teria conseguido mesmo não me deixando aqui.

- Não, eu não teria conseguido.

- Por que não?

- Porque você é o meu irmão mais novo e você vem em primeiro lugar. Eu não poderia priorizar meu sucesso com você no colo.

- Então eu era um estorvo?

- Não foi isso que eu quis dizer.

- Mas disse.

O silêncio pairou por momentos que pareceram eternos. Sherlock não dirigiu mais a palavra ao irmão por horas, nem mesmo para rebelar-se contra o fato de estar sendo levado embora pelo maior.