Em cima do pequeno e improvisado bolo, a pequena chama da vela iluminava apenas uma parte do quarto. Sherlock mantinha os olhos claros atentos ao irmão mais velho esperando que o mesmo fizesse o pedido. A vela foi apagada num sopro forte.

- O que você pediu, My?

O caçula teve o silêncio como resposta. Mycroft não acreditava que um simples pedido de aniversário o tiraria daquela vida. Havia tanta raiva, tantos gritos engasgados que ele teve medo de abrir a boca e acabar sem o controle das palavras.

- Você está zangado – Sherlock tinha um tom simples na voz e Mycroft não conseguiu esconder a amargura.

- Nós vivemos uma vida miserável, Sherlock. Eu tenho muitos motivos para estar zangado, será que você pode parar de fazer perguntas das quais já sabe a resposta?

Houve o silêncio denso, pesado e amargo. Não havia mais luz no cômodo, mas Mycroft soube quando o irmão se levantou. Antes de deixar o quarto, o mais novo sussurrou.

- Não foi uma pergunta, My. Eu estava afirmando que estava zangado. Eu sei que sou o culpado por levar as surras do papai...

- ELE NÃO É NOSSO PAI! PÁRA DE CHAMÁ-LO ASSIM! – O gosto amargo das palavras lhe invadiu a boca.

Sherlock ainda estava parado na porta quando o barulho de sapatos ecoou.

Ele chegou.


Sem pensar duas vezes o mais novo fechou a porta e levou a chave consigo deixando Mycroft para trás. Tomando toda a dor e toda a raiva do irmão o mais novo deu um passo a frente até a punição. O brilho nos olhos do homem era algo que Sherlock nunca esqueceria. Havia algo de psicopata naquele olhar, algo que beirava o prazer cada vez que o cinto chicoteava e estalava.

Naquela noite o homem só parou quando se cansou.

As mãos tremeram quando Sherlock tentou encaixar a chave na fechadura. Quando a porta finalmente foi aberta Mycroft tinha a missão de recolher os pedaços do que sobraram do irmão.

Havia sangue em toda parte, a roupa estava rasgada e surrada. Os cabelos – os cachos que My sempre adorou – eram uma total bagunça. Sherlock se deixou cair no chão e só quando sentiu o abraço reconfortante do irmão se permitiu chorar.

Eram lágrimas e soluços de uma agonia que só o próprio irmão entendia. Era o choro de um jovem despedaçado, sem qualquer vestígio de esperança, eram lágrimas tão pesadas que mal rolavam pelo rosto – caiam diretamente na camisa daquele ombro amigo, inundando a alma de um desejo forte por revanche. E foi naquele abraço apertado, ensanguentado e desesperado que a voz quebrada de Sherlock ecoou.

- Feliz aniversário, My.

Mycroft fechou os olhos e sentiu quando a lágrima solitária rolou pela bochecha encontrando os cachos do mais novo.

- Ele nunca mais vai te tocar Sherlock. Você ainda tem chance de viver algo diferente e eu vou cuidar pra que isso aconteça.