Um funeral não era o lugar onde duas crianças deveriam estar, mas era tudo o que os irmãos desejavam. Assistir o corpo da mãe apodrecer no chão da cozinha não era justo. Mummy era boa e digna de um funeral.

Era a segunda vez em que Mycroft descia as escadas da casa sendo seguido pelo irmão mais novo. O pai se mantinha imóvel sentado na mesa simples de jantar. Nas mãos ainda escorriam o sangue da esposa.

- Ela precisa ser enterrada – a voz do irmão mais velho era firme, mas Sherlock em sua natural observação notou o quanto os batimentos estavam elevados.

Um minuto de silêncio se estendeu até a cadeira ruir sobre o piso. O homem estava de pé, havia fúria nos olhos. Mycroft empurrou o pequeno corpo do irmão para trás de si, mas não teve o mesmo tempo para se proteger e recebeu o soco no nariz. O sangue quente escorreu rosto abaixo e manchou a camisa sempre tão limpa do garoto.

Mycroft sentiu vontade de sair para o mundo, morar num lugar tão distante dali onde seu irmão não teria que assistir cenas tão ruins. Toda a vontade não era o suficiente, Mycroft ainda era um adolescente com um estudo para terminar, sem dinheiro e sem emprego o único destino distante daquela casa seriam as ruas. Seu irmão era novo demais para as ruas e por isso ele engoliu. Engoliu toda a raiva, toda a mágoa e qualquer outro sentimento que fazia suas mãos tremerem. O garoto se limitou a encarar o pai e ouvir toda a baboseira que ele dizia. Depois do discurso agressivo, ele tomou o irmão nos braços e subiu de volta para o quarto.

Sherlock compartilhou do mesmo silêncio enquanto o irmão mais velho limpava o sangue do rosto. Apesar de mais novo – apenas 6 anos — o caçula tinha idade suficiente para entender a situação: Estavam presos aquele homem até terem idade suficiente para declamar independência.