– Não vai me perguntar para onde estou o levando?


O silêncio era a única resposta.


– Tudo bem, já que não vai perguntar... Estou o levando para casa.

O carro parou lentamente.


Mycroft abriu a porta do apartamento.


Sherlock levantou os olhos e se surpreendeu com a definição de ‘lar’ do irmão.


Era um espaçoso lugar, ambientes planejados, lustres, poltronas, uma lareira grande que já o aguardavam acessa. Quadros pintado por consagrados artistas, no chão tapetes do mediterrâneo.


Com o queixo levemente levantado Mycroft escondeu o sorriso ao notar o quão surpreso o irmão estava.


– Eu te disse, my little brother... Que sairíamos daquela miserável vida.


X


Sherlock quase o perdoou, quase teve orgulho do irmão, quase acreditou que de fato valeu a pena.


Sherlock acreditou que a espera havia chegado ao fim, mas quanto mais os dias se passavam mais seu cérebro se agitava.


Aquela sala vazia, o silêncio que ecoava por todas as paredes, todos aquelas paisagens pintadas, tudo aquilo passou a não ter mais significado. O apartamento era tão frio quanto as ruas em noite de inverno. O jovem sentiu a fúria voltar a cada vez que se permitia esperar e desejar ser surpreendido pelo peso do irmão no colchão, despido de qualquer traje social, sendo apenas o My – o irmão mais velho – que o protegia dos pesadelos.


E então Sherlock conheceu. Experimentou. Gostou. Pediu por mais. Perdeu a conta de quantas vezes estivera estirado no chão solucionando casos que somente acompanhava na TV. Toda aquela química que corria por suas veias, toda aquela sensação, a dormência de qualquer dor física ou psicológica... Tudo aquilo era bom demais para ser deixado de lado.

Quando as substâncias rodopiavam pelo corpo o jovem sentia o tédio se desfazer.

Sua mente pediu por mais, seu corpo pediu por mais, sua alma pediu por mais e ele não hesitou.Tinha o endereço em mente tão claro quanto o sol de meio dia. Reconheceria de longe o rosto do homem que o ajudaria a sobreviver.


Os passos do jovem o levaram até a delegacia e á distância ele viu o homem. Os traços ainda conservados, as mãos carregavam uma caneca de café. Sherlock nunca sentiu seu sangue correr em agitação pelo corpo quanto naquele momento. Lestrade ainda não havia abandonado a carreira como anos antes o menino havia previsto, mas também não estava longe de disso.


Sherlock entrou no cômodo daquela sala para mudar a vida não só do inspetor, mas de si mesmo, de toda a cidade. Como antes, revirou os arquivos, fez bagunça, provocou o caos.


Achou o propósito para a vida que não era a espera era a ação, era o agora, o atirar e o se esconder, o prender e o sobreviver.


A vida era mais do que esperar alguém se importar.