Caretrisse
11 Vou tentar
11
Eu digito o numero e olho para a tela do celular, fico assim por mais ou menos dez minutos depois largo o celular em cima do criado-mudo, que fica ao lado da minha cama, e caminho em direção a sala.
Meu pai está sentado no sofá, ainda acordado assistindo um programa que passa na tv, e a minha mãe está deitada com a cabeça no colo dele, cochilando.
“Pai?”, eu falo.
Ele vira o rosto.
“Oi.”, ele responde. “Você não deveria está dormindo?”
“Acho que sim.”, digo. “E você também.”
“Verdade.”, ele ri.
Minha mãe acorda, levanta e segue para o banheiro. Quando passa por mim, ela mexe no meu cabelo, meio sonolenta.
Eu ando até o sofá e sento próxima do meu pai, ele me puxa para mais perto e não para de apertar um botão no controle da televisão, trocando várias vezes de canal.
“Pai, você já se sentiu perdido?”, eu falo. “Ou sei lá, confuso?”
“Mas é claro. Todo mundo se sente assim, pelo menos uma vez na vida.”
“Ah.”, digo. “Deve ser.”
Ele finalmente para em um canal onde está passando um programa de entrevistas, eu ainda assisto duas partes do programa e depois levanto para ir dormir.
“Tris?”, meu pai fala quando já estou perto da porta do meu quarto.
“Oi?”
“Seja corajosa.”, ele diz.
Eu olho para ele e depois sorrio.
"Vou tentar.", eu falo.
Entro no meu quarto e deito na cama, eu abro a ultima gaveta do criado-mudo e tiro de dentro dela um caderno que eu usava como diário quando era criança, e também pego uma lanterninha verde que eu tenho a bastante tempo.
Eu puxo o cobertor por cima de mim e ligo a lanterna. Abro o caderno e passo algumas páginas, então encontro uma parte do texto grifado.
Vou levar muitas quedas ainda, meu pai falou. Mas eu sempre quero ser assim, desse jeito que eu sou, mesmo que eu esteja muito machucada. Não vou ter medo, mesmo quando estiver tudo escuro e sem brilho, correndo atrás do que eu acredito, sem medo de cair. Por isso amanhã mesmo vou buscar minha bicicleta na oficina, e vou tentar alguma coisa, porque andar de bicicleta me faz muito feliz. E é divertido!
Eu não lembro disso, não lembro do momento ou quando eu escrevi. Eu devia ter sete ou oito anos, foi quando comecei a andar de bicicleta. Queria tentar recapturar algumas memórias, ou pensar sobre isso mas estou com tanto sono.
Quando meu despertador começa a tocar, percebo que hoje amanheceu muito frio, não consigo me desgrudar da cama. Depois de mais de 20 minutos, levanto e vou tomar banho. Me visto e vou tomar café. Meu pai já está pronto, me esperando, e fica me apressando porque precisamos chegar na hora.
Assim que entramos na casa de idosos, já encontro alguns amigos com quem eu costumava conversar e me divertir. O senhor Julio fica muito alegre quando me vê, e me chama para um abraço. Tento não prestar atenção na aparência dele, que está bem mais magro do que a ultima vez que eu o vi.
Sento na mesa das garotas e começamos a fofocar, Dona Laura conta que ganhou mais dois bisnetos e Dona Suzi descobriu que seu vizinho de quarto estava interessada nela e eles começaram a namorar semana passada, todas rimos e eu peço mais informações.
Estou andando pelos corredores para tentar encontrar meu pai e ajudar os funcionários com o lanche, quando vejo um senhor sorrindo para mim. Tenho que parar um pouco para pensar.
O senhor Augusto, eu lembro. Então retribuo o sorriso e vou até onde ele está.
“O senhor está aqui agora?”, pergunto.
“Não, nervosinha.”, ele faz uma pausa. “È a minha esposa.”
“Eu adoraria conhece-la.”, digo.
“Ela está muito doente, eu não sei se...”, ele olha para o lado. “Nem eu ou o meu filho podemos vê-la.”
“Eu sinto muito.”
“Tudo bem.”, ele fala e pisca para mim.
O meu pai uma vez me disse que quando os idosos que estão doentes e precisam do acompanhamento de médicos e enfermeiros não estão bem a muito tempo, é quando os familiares começam a lidar melhor com a dor e as preocupações. Ele fez questão de me explicar que isso demora realmente muito tempo para acontecer.
O senhor Augusto começou a conversar com uma funcionaria que está atrás do balcão que estamos encostados.
“Qual o nome dela?”, eu falo.
“Oi?”, ele pergunta voltando a atenção para mim.
“O nome da sua esposa.”, digo.
“Luiza.”, ele sorri.
“Lindo nome.”, eu sorrio também.
Eu me despeço do senhor Augusto e sigo para ajudar meu pai, quando estamos servindo as pessoas, meu pai me sorri várias vezes mesmo quando estamos muito distantes.
Depois que terminamos, eu e ele sentamos em um banco no corredor e começamos a comer as maçãs que trouxemos de casa.
“Pai.”, digo enquanto abro a minha embalagem.
“Oi”
Eu coloco os meus pés em cima do banco e me viro de lado.
“Está tudo bem com o senhor Julio?”, pergunto.
Ele respira fundo.
“Na verdade, não.”, ele fala.
“Qual o problema?”
“È muito triste. São muitos problemas, filha. Ele já está se aproximando dos noventa anos.”, ele responde. “Mas sabe o que é bom? Ele não desiste, ele continua sorrindo o tempo todo e abraçando as pessoas, e fazendo piadas.”
“Eu gosto muito dele.”
“Eu também.”, meu pai diz.
“E sobre uma senhora chamada Luiza? Sabe alguma coisa sobre ela?”
“Não.”, ele fala com a expressão confusa. “Só que tem uma senhora que está doente, se eu não me engano, acho que pode ser essa. Onde você ouviu falar dela?”
“Eu conheci o marido dela.”, digo. “Pai, ela está muito mal?”
“Pelo que eu soube, sim.”
Chegamos em casa e a minha mãe preparou lasanha para o jantar, depois que comemos decidimos brincar com o jogo de tabuleiro. O celular do meu pai toca e ele fala que é o meu irmão. Minha mãe fica todo o tempo querendo tomar o telefone do meu pai e quando os dois falam com meu irmão, Caleb, que está na faculdade e não lembra muito de nós (minha mãe não gosta quando eu falo assim) eles passam o celular para mim.
“Oi, lembra de mim?”, eu falo e ele ri.
“Oi, baixinha. Soube que você está aprontando muito, eu nem acredito no que a mamãe me contou.”
“Você não mudou nada.”
“Também te amo, maninha. Mas agora vou ter que desligar. Tchau, beijos para todos.”, ele fala e desliga.
Meu pais ficam triste quando digo que ele já desligou, principalmente a minha mãe.
Tomo banho e visto uma roupa de dormir, pego mais uma vez o meu caderno-diário e a lanterninha verde. Quando deito na cama e puxo o cobertor, meu celular toca.
Vejo o nome QUATRO na tela e respiro fundo.
Toca pela segunda vez.
Eu fecho os olhos e vejo o rosto dele.
Toca pela terceira vez.
Eu sento na cama e atendo.
“Oi.”, eu falo e olho para o teto.
“Oi. Preciso falar com você.”, ele fala com a voz estranha. “Será que a gente pode se encontrar?”
“Tudo bem.”, eu digo.
“Talvez eu não mereça.”, ele fala devagar e com a voz baixa. “Mas eu preciso.”
Sinto as lágrimas descendo e respiro fundo, fecho meus olhos e me preocupo em não deixar minha voz sair tremendo.
“Onde eu posso te encontrar?”, pergunto.
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