Caretrisse

13 Capítulo 13


13

Nós entramos na outra rua e Miguel olha para mim e depois aponta para uma moto parada próxima a calçada, que eu nem me dei conta que estava ali até ele me mostrar. Eu olho para ele com a expressão confusa e ele coloca um sorriso no rosto.

“Você está falando sério?”, eu falo depois de entender o que ele quis me dizer.

Enquanto isso chegamos perto da moto e ele pega uma chave no bolso.

“Você nunca andou de moto na sua vida?”, ele pergunta.

Eu continuo confusa e penso um pouco. Eu já andei de moto alguma vez na minha vida?

“Meu Deus, eu acho que não!”, eu falo e começo a rir. “Sério, eu não lembro de ter feito isso algum dia, deixa eu pensar mais um pouco, não estou conseguindo lembrar de nada.”

“Quem é careta agora?”, ele diz.

“Eu não sou careta, não me chame de careta.”

“Desculpa, careta.”

“Você me chamou de careta agora de novo.”, eu falo e Miguel ri.

“Será que você vai ter coragem de se arriscar comigo?”

“Não sei, estou pensando.”

“Eu tenho que esperar você pensar?”, Miguel pergunta.

“Espera, eu tive uma ideia!”, digo colocando a mão no ombro dele. “Não, deixa eu perguntar uma coisa, por que sua voz é desse jeito?”

“Desse jeito como?”, Miguel fala rindo e sobe na moto.

Ele aponta para que eu suba, e eu olho para ele como se estivesse em duvida se devo fazer o que ele está me pedindo ou não.

“Sua voz é muito aterrorizante, deve colocar medo nas pessoas.”, eu falo e subo na moto.

Eu começo a pensar que ele deveria ter um capacete mas não digo nada.

“Você é uma pessoa.”

“Sim, mas eu não conto.”, digo.

Ele não responde e não fala nada durante o caminho. Eu começo a imaginar como seria Miguel quando criança, eu tento imaginar a cena dele com apenas cinco anos de idade chorando por ter levado uma queda e sua mãe tentando lhe mostrar o lado bom das coisas.

Talvez a verdadeira coragem seja continuar procurando o lado bom da vida mesmo quando tudo parece ruim, e ajudar as pessoas a fazerem isso quando elas não conseguirem sozinhas. Andar de moto é bem melhor do que parece.

Quando paramos de frente a Casa de Idosos eu descubro que é a mesma que o meu pai é voluntario. Descemos da moto e eu percebo que Miguel está tenso.

“Qual o nome dela?”, eu pergunto.

“Luiza.”, ele fala e respira fundo.

“Luiza?”

“È.”

“E o seu pai? Qual o nome dele?”

“Não quero falar sobre o meu pai.”, ele diz e pega minha mão.

Entramos e Miguel fala com uma funcionaria. Ela pede para Miguel esperar porque está recebendo muitas ligações no momento, e ele me olha impaciente.

Uma enfermeira vem vindo do corredor e se aproxima de Miguel.

“Que bom que você está aqui.”, ela diz e o abraça. “Seu pai saiu não faz muito tempo, você falou com ele?”

“Não.”, Miguel responde. “Eu posso vê-la?”

“Miguel, ela teve momentos difíceis recentemente.”

“Eu sei.”

“Eu acho que o recomendado é que você entre sozinho.”, ela fala e olha para mim.

“Tudo bem.”, ele fala e se vira para mim.

Miguel segura minha cabeça com as duas mãos.

“Você pode me esperar aqui?”, ele pergunta.

“Claro.”, eu respondo e ele me beija.

Quando Miguel me abraça, eu sussurro em seu ouvido: “Não precisa ter medo, Quatro. È a sua mãe.”

Ele segue a enfermeira até o quarto e eu sento em um dos sofás e pego uma revista. Eu me distraio com uma matéria na revista e alguém senta do meu lado.

“Agora eu que tenho que perguntar, você está aqui agora? Tão novinha.”

Eu me assusto com a voz mas sorrio quando percebo que é o senhor Augusto falando comigo.

“Muito nervosismo, é um problema.”, eu digo.

“Ah, claro, conheço senhoras de idade menos nervosa que a senhorita.”

Eu observo como os seus olhos estão vermelhos, deve ter chorado bastante hoje.

“Como vai a sua esposa?”, eu pergunto.

“Nada bem.”, ele fala e passa a mão na testa. “Eu queria pelo menos que meu filho não fosse um irresponsável, ela sempre foi uma ótima mãe.”

“Eu sinto muito. Qual o problema com o seu filho?”

“Ele não vem visita-la mas é melhor assim.”

“Por que ele não vem visita-la?”

“Porque simplesmente não se importa. Ela fez tudo certo, foi eu que não fiz a minha parte direito.”

“Eu tenho certeza que você deu o seu melhor. Mas talvez ele não tenha percebido ainda o que está acontecendo.”, digo.

“Nem vai perceber, ele não se importa. È porque você não o conhece, eu prefiro que não venha mesmo.”, ele fala.

A funcionaria chama o nome dele e ele levanta para falar com ela.

Miguel surge no corredor e eu reparo nos seus olhos vermelhos, eu levanto e o observo caminhar.

O senhor Augusto começa a andar em direção ao corredor, de repente ele vai para cima de Miguel e coloca as mãos no seu pescoço.

“O que você está fazendo aqui?”, ele grita.

Então eu percebo tudo o que está acontecendo, Miguel é o filho de Augusto. Como demorei tanto para descobrir isso?

Augusto da um soco no rosto de Miguel, que continua com a mesma expressão. Ele não olha para mim, só continua com os olhos fixos nos de seu pai. A funcionaria e alguns enfermeiros se aproximam para tentar acabar com a discussão.

“Por favor, vejam onde vocês estão.”, ouço a funcionaria falar.

Eu caminho até os dois e sinto as lagrimas vindo quando o senhor Augusto da outro soco no rosto de Miguel.

“Por favor, senhor Augusto, solte ele!”, eu falo e ele se vira.

Um funcionário separa os dois e a mesma enfermeira que levou Miguel para ver a mãe dele aparece e se aproxima colocando a mão no ombro do senhor Augusto.

“Ela se foi.”, ouço ela dizer baixinho.

Miguel olha para seu pai que está com as mãos na cabeça, então os dois se abraçam e começam a chorar.

Eu também estou chorando.