Cardiopatia congênita - One-shot
1 Capítulo único
Já vou avisando que essa história não tem um final feliz. Vocês já devem ter percebido isso. Mas eu senti a necessidade de falar de novo. O final não é feliz, mas me falaram que escrever sua história faz bem, então.. Aí vou eu.
Meu nome é David. 24 anos. E eu tive “Cardiopatia congênita”. Nome difícil, eu sei. Vou explicar. É uma anomalia na estrutura do coração. No meu caso eu tive um defeito na válvula cardíaca, ela pode estreitar ou fechar de vez. Nasci com isso, sabe? Não foi culpa minha. A cardiopatia pode ser tratada com medicamento, ou até mesmo uma cirurgia. E nos casos mais graves, é necessário um transplante de coração.
Há um ano atrás eu estava à beira da morte, e ela me salvou. O nome dela? Debóra. Ela era a mulher de 22 anos mais madura e infantil ao mesmo tempo que eu já conheci na minha vida.
E essa história nem é tanto sobre mim, sabe ? É sobre nós dois. Mas principalmente sobre ela.
Eu conheci ela na porta de um café no centro. Caralho, ela era linda. Tipo, muito linda. Os cabelos dela eram ondulados e negros e ela tinha olhos verdes que me deixavam sem fala.
Nesse dia eu estava de folga, meu pai me deu folga. Não sou um filhinho de papai. Longe disso. Mas bom, quando seu pai te oferece um emprego, você simplesmente aceita até arranjar um melhor. Mas voltando ao assunto. Poderíamos ter tido um começo perfeito, mas destraído por ela, nem reparei no café que ela levava na mão. Trombamos com tudo, e eu sujei toda a roupa formal que ela usava. “Droga, olha o que você fez.” Foi a primeira frase dela. A voz dela era perfeita. Melodiosa, sabe? Atordoado pela voz doce dela, deixei ela ir embora limpando a roupa com a mão. Eu sei. Fui um perfeito idiota.
No dia seguinte, quando cheguei ao trabalho, sou um contador, meu pai me disse que finalmente tinha mandado minha secretária embora, e contratado outra. Nada contra Dolores, mas a velocidade que ela andava já não era suficiente. Perdoe-me Dolores.
Fui direto para a sala, e nem olhei para a mulher abaixada na mesa de entrada. Até ela entrar na minha sala. Sim. A linda moça do café. Ela parou na porta surpresa. Estávamos estupefatos. “Ora vejam só. A moça do café.” Sim. Me xinguem, joguem pedras, me batam. Essa foi a primeira coisa que eu falei pra ela. Pensei que ela ia me bater. Pensei que ela ia jogar uma cadeira na minha cabeça.
Ela riu. Cacete. De tudo que ela podia ter feito, ela riu. E o sorriso dela era lindo. Ela fechava os olhos e aparecia uma covinha na bochecha esquerda. Pode falar. Tô muito gay. Ela me provocava tudo isso.
Ela veio andando até minha mesa e se apresentou. “Débora” Já falei da voz dela ? Acho que já.
“David”. E foi no aperto de mãos que tudo começou.
Lembra que eu falei que eu tenho uma doença no coração? À medida que a gente ia se conhecendo, minha doença estava evoluindo. No dia em que eu deixei ela na porta da casa dela, logo após beijá-la pela primeira vez, fui pra minha casa, e logo após levado às pressas pro hospital. Estava com falta de ar, meu peito doía, e desmaiava constantemente.
O médico me falou que o remédio que eu tomava já era fraco demais, e ele receitaria um mais forte. Quando contei sobre a doença à Débora, ela chorou. Foi nesse instante que eu descobri que já a amava.
Durante dois meses, a gente foi muito feliz. Sério. A gente ia pra tudo quanto é canto. Eu me sentia a droga do cara mais sortudo de todo o planeta. Até que um dia, eu pedi ela em casamento. E ela disse sim. Apesar do pedido totalmente inusitado, ela aceitou.
Coloquei em uma mesa, vários copos vazios e fechados de café. Ela foi abrindo um por um. Quando acabou ela ficou confusa e eu numa cara inocente, puxei um escondido e coloquei na mão dela. Lá dentro estava a caixinha com o anel. Ela aceitou e vou ser sincero com vocês. Eu me achei o cara mais fodão do mundo.
Essa nossa felicidade durou 4 dias. No final do quarto dia, passei mal novamente. Fui levado em uma ambulância pro hospital e o médico me soltou a notícia que acabaria com meu mundo. Eu estava morrendo. Meu coração estava parando de funcionar e eu precisava de um transplante. Eu tinha duas semanas.
Naquela noite no hospital, Débora foi quem ficou comigo. Velho, a gente chorou pra cacete. Ela disse que não conseguiria viver sem mim. Apesar de ela ser a melhor coisa que já aconteceu na minha vida, tentei terminar com ela, pra que ela não sofresse depois. Ela se recusou e fechou a mão com a aliança com toda a força, repetindo que eu conseguiria o transplante. Eu não tinha esperança. A fila de transplante de coração era gigante e você não acha um coração saudável pra ser doado a cada esquina, certo?
Passei uma semana no hospital. Ela sempre estava comigo. Ela dizia que me amava muito. Que me amaria pra sempre. O médico me falou uma noite que não estava conseguindo um transplante. Que ele sentia muito. Não vou mentir não. Chorei muito. Eu tinha uma semana de vida e aquela perspectiva me assustava.
Já tinha planejado minha vida todinha. Eu me casaria com Débora. Teríamos dois filhos e uma menininha. Ela amava animais, então todo animal que ela me pedisse eu daria. Mas isso tudo era apenas um sonho que seria interrompido em uma semana.
Uma manhã, o médico entrou no meu “quarto” e disse que eles tinham conseguido um coração jovem, e que eu teria a cirurgia no dia seguinte. Estranhamente ele não parecia tão feliz quando deu a notícia. Eu nem liguei na hora. Meu sonho seria realizado. Débora. Dois garotos e uma menininha.
Maldição, era pra eu ter percebido isso.
Débora entrou no quarto logo a seguir, e eu a abracei, tanto quanto meu coração batendo fraco permitia. Ela estava chorando e eu assumi que eram lágrimas de felicidade. Ela ficou comigo o dia todo e eu contei a ela sobre o meu sonho. Ela somente sorriu. Assumi que ela estava sem palavras. Na hora de ir embora, ela me abraçou muito forte, me deu um beijo super demorado, e disse que me amava e sempre iria me amar. Assumi que ela estava com medo da cirurgia.
Assumi muitas coisas. E fui uma droga de um cego.
No dia seguinte me levaram pra sala de cirurgia e eu estava tranquilo. Me sedaram e eu acordei no meu “quarto” um dia depois. Sentia o novo coração bater forte no meu peito, e sorri agradecendo quem quer que fosse. Meus pais entraram e me abraçaram. Eles estavam de preto e talvez alguém tivesse morrido. Nem me importei. Queria ver o amor da minha vida.
Pedi para chamarem ela, e quando eles hesitaram eu entendi. Antes de eles falarem algo eu já estava soluçando. “Foi ela né?” Eu gritava. “ Caralho, não, NÃO!” Eu passava a mão no peito com força querendo tirar a força aquele órgão do meu peito. " Por que? Por que ela? DÉBORA!" Meu pai me segurou quando alguns pontos começaram a abrir. Uma enfermeira entrou com um sedativo. Mas eu já não tinha força pra mais nada.
Quando eu acordei novamente, meu pai me vigiava. Mas eu não queria fazer mais nada. Não queria mais viver. Quando eu descobri que eu estava morrendo eu chorei. Mas nada me preparou pra isso. Chorei por dois dias seguidos. Sem parar. Quando falam que homem não chora, é a mais pura mentira. No terceiro dia, eu não tinha mais lágrimas. Eu ouvia as batidas do coração dela no meu peito e sofria.
No dia que eu achava que eu já não choraria mais, meu pai me trouxe “a carta”. E aí pronto. Já viu o que aconteceu né ? Vou copiar a carta aqui pra vocês verem.
“Ei anjo,
Peço seu perdão.
Eu te amo, espero que você saiba. (É um pouco estranho dizer amava pra se adequar a quando você ler essa carta, portanto estou escrevendo no presente).
Lembra quando a gente se conheceu? Eu fiquei com tanta raiva de você. Extrema raiva. Eu iria fazer a entrevista naquele dia. E você derramou café em mim.
Hoje eu rio, agradecendo a Deus por aquilo.
Eu te amei em cada momento nosso. Te amei quando você me contou sobre seu coração. Quando você me pediu em casamento eu realmente vi nossa casa com nossos dois meninos e a garotinha, e o periquito, papagaio, cachorro, gato, peixe e um porquinho da india.
Você me conquistou de corpo e alma David. A perspectiva de viver sem você acabava comigo.
Na noite que o médico te contou que não tinha transplante eu ouvi você chorar, sentada no corredor. Chorei junto, meu amor.
Dormia todas as noites chorando.
Quando tomei A DECISÃO, foi uma decisão egoísta, devo assumir. Ou era você ou era eu. A escolha estava em minhas mãos. Eu não conseguiria viver sem você. Você era minha vida. E eu decidi que você merecia viver mais.
Meus pais e eu brigamos muito, meu bem. Muito mesmo. Discutimos por umas duas horas. E no final nos abraçamos chorando, porque eles aceitaram minha decisão.
Pedi pro seu médico não te contar. Eu era a única pessoa que poderia fazer isso. Quando eu entrei no seu quarto antes da sua cirurgia, entrei decidida a te contar. Eu juro.
Mas você estava tão feliz, que eu decidi que aquele seria o momento que ficaria na minha memória. Então, você me contou seu sonho, e eu espero que você realize algum dia. Te dei meu coração para que você viva, e não quero você agarrado a mim.
Amor, viva sua vida. Seja feliz. Cuide de meu coração, porque ele é seu. No sentido figural e literal da coisa.
EU TE AMO DAVID.
E sempre vou amar.”
Hoje faz um ano que Débora se foi. Eu ainda sinto a perda. Ela deixou a aliança no envelope da carta. E agora eu vou levando minha vida assim. Todos os dias antes de ir trabalhar eu venho ao cemitério. E é aqui onde eu escrevo minha história. Não vou colocar nenhuma moral ou nada do tipo. Não é necessário.
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