Caramel
1 Confins
Notas iniciais
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê..."
Florbela Espanca
Naquela noite, a água estava mais calma que nunca, as ondas brancas do luar dançavam lentamente com a brisa que ecoava pelo céu estrelado. O breu da madrugada cobria o planeta como um manto negro, escondendo o pontinho azul do resto do universo. E essa mesma serenidade era refletida pela garota sentada a beira do pequeno lago. O vento já não parava de rondear a superfície pálida de seu corpo, tocando de leve cada ponto, cada linha, cada curva. O único contraste daquele cenário preto e branco, era a púrpura mecha que pendia da pensativa moça preenchida de devaneios esvoaçantes.
Os seus pensamentos eram infinitos e suspirantes, distantes como Plutão, quentes como Vênus. E, por mais que tentasse, nunca conseguira desviar estes para outros assuntos que não fossem as delicadas mãos, ou o fino pescoço, ou os macios cabelos, ou o carnoso corpo, ou os olhos caramelados, ou, enfim. Não havia dúvidas sobre ter sido atingida por uma flecha brutal, que desde que acertou seu peito não pára de afundar mais e mais. Desde quando se sentia assim? Um ano? Uma década? Talvez, desde que as estrelas condensaram-se nos indivíduos que somos hoje. Todavia, apenas uma certeza destacava-se: o seu desejo não se limitava a admirar e suspirar pela amada; ia até os confins dos oceanos, ia até o núcleo do planeta, dava voltas no ciclo dos anéis de Saturno, saltava de galáxia em galáxia, de universo em universo.
Admitia-se estranha por ter esta obsessão não-platônica pela amiga de infância, admitia-se uma tola por nunca dar sinais, nunca tentar descobrir se o que sentia era recíproco. E ali estava ela, molhando os pés em um lago gelado, esfriando o corpo da ansiedade que continha. Nem mesmo dando um mergulho profundo, purificando a alma e afogando as mágoas, seria suficiente para amenizar a dor que sentia, o sentimento saudosista. Queria encontrá-la, queria acariciá-la, contar para ela que mesmo um indivíduo objetivo como ela teria um coração atingível, alcançável, saciável.
Infelizmente, ela era apenas uma garota de olhos púrpuros e severos, com ideais diretos e com objetivos completamente centrados. Não havia espaço no coração da garota de olhos caramelizados para uma pessoa dura como ela. Ela afundava nos confins de sua mente, repetindo para si mesma:
– Sou estranha.
Fale com o autor