Um mês nessa porcaria.

— Você pode fechar os olhos ou abri-lo enquanto eu falo. Mas de qualquer forma me ouvirá. Você pode abrir os olhos Ethan. É realidade — Sua voz soou melodiosa. Ellie sussurrava do outro lado da linha bem baixinho. E eu podia ouvir uma música lenta e arrastada tocar.

— Não pode ser realidade se é assim tão ruim — Digo ríspido. Ela bufa.

— Sou realmente tão ruim assim? Uma coisa tão horrível que você precisa ficar todo o tempo se lamentando? — Ela está irritada e com razão.

— Não é isso, Ellie. É só a distância. Estamos um mês nessa porcaria... Não que estar com você seja uma porcaria. Você me entende, não é? Você nunca vai ser porcaria!

— Eu sei, mas odeio seu drama. Odeio.

— Coisas que você odeia em mim.

— Você é chato.

— Mais o quê?

— Reclama demais. Ronca. Não me atende nas horas mais importantes...

— Como em que hora? — A interrompo — Não é importante você me dizer que tem uma barata no seu banheiro enquanto eu estou trabalhando! — Ela ri.

— É importante sim. Quando não se tem ninguém para matar essa barata e meu namorado está na Cochinchina reclamando por não poder me ver.

— Só sei que a Cochinchina deve ser mais perto que Seattle. — Silêncio — Eu preciso ir para a faculdade. Prova...

— Boa sorte, amorzinho — Debochada e estressada, alô TPM. Você acaba com relacionamentos. Rio sozinho do meu pensamento, isso enfurece a loira do outro lado da linha.

— Ellie, feliz um mês.

— Feliz porcaria — E ela desliga na minha cara.

O caminho para faculdade é igual. Samantha está pendurada nos braços de Nikki e nós observamos a fumaça saindo de nossas bocas enquanto respiramos. Mas ao menos não neva, nem chove. Só frio. Quase 8 graus com sensação térmica de -3 graus. Nós podemos ver James e seu clube de Educação Física fazendo flexão no gramado central. Samantha revira os olhos, mas Nikki parece curioso. Nós andamos até eles, estão todos risonhos e aparentemente com calor. Apesar de todo o agasalho que os protege. Eu quase não reparei, mas Elise Sparks está ali entre eles. Ela não me olha, mas posso perceber quando ela cochicha no ouvido de Mica Smith do quarto de medicina. Não sei como ela conseguiu fazer amizade com uma veterana de medicina sendo ela tão caloura quanto seus amigos. Eu as observo rir, Mica não disfarça seu olhar, mas Elise encara Dave, um sardento sem escrúpulos do seu curso, e eu percebo o quão mal ela disfarça.

— Qual é a fofoca sobre o Ethan, Sparks? — Samantha soa irônica. As duas “amigas” riem ainda mais — É tão engraçado quando a piada da formiga.

— Não começa com essa piada! — Nikki exclama entendiado.

— Ah, mas será que é? Conta, quero ouvir Sammy. — Vejo minha amiga revirar os olhos e acompanho o embate criado por Elise, Nikki observa Samantha torcer o pescoço e arquear a sobrancelha, ela sempre faz isso quando vai dar alguma cortada em alguém.

— Uma formiga diz para o formiga macho, “que bom que você veio gato...” e o formiga macho diz “eu vim, mas não por você”. Gostou, Sparks? — Silêncio. Eu tento segurar o riso, mas ao olhar Nikki escondendo sua risada entre as mãos eu deixo a minha soar altamente. Elise se levanta do banco onde está e puxa sua bolsa para o braço, ela não responde, apenas sai andando rapidamente para longe. Samantha ri daquele jeito que me dá medo.

— Ela é tão querida! — Nikki debocha — Mais tão querida que Ethan prefere namorar uma menina de Angeles ao invés dela! — E mais gargalhadas. Eu me sinto mal por isso, mas não consigo evitar e rio mais.

— Vocês não precisam humilhar assim. Não tem graça. — Diz Mica e então segue para mesma direção onde Elise fora. Eventualmente vão se juntar e falar mal de mim como se estivessem na escola.

— Eu achei engraçado! — Explode Nikki em mais risadas.

— Vamos embora, cabeça — Eu o puxo pelo capuz do casaco, Samantha nos segue. Nenhum dos caras que antes faziam flexão dizem algo. Todos estão tão sérios como Elise estivera antes de praticamente sair correndo.

— Ela me tira do sério! — Rosna Sammy — É tão previsível! Eu tinha pena antes, mas ela quer se aparecer... Eu nem entendo. Maluca.

— Seria engraçado se no final dessa história você acabe com Elise Sparks, Ethan.

— Não seria engraçado. Seria macumba, Nikki.

“As pessoas passavam por mim com pressa, algumas esbarravam fortemente em meu ombro ou suas malas ficavam presas com a minha. Eu apenas fitava bem o corredor de pessoas esperando por seus familiares, e em todos os olhares eu procurava o dela. No final da fila estava Ellie, ela tinha lágrimas pesadas em seu rosto. E correu assim que me viu. Eu a apertei em meus braços e girei abraçado a ela. Beijei suas lágrimas, seu cabelo, sua bochecha, sua boca... Eu fiz isso dezenas de vezes enquanto sussurrava o quanto a amava. Ela dizia o quanto me amava também. E nós chorávamos. Era tanto tempo e tanta saudade que ás vezes eu pensava que nunca fosse acabar. Mas acabou. E eu estava de vez em Angeles, e a tinha em meus braços. Seria completamente perfeito se uma sombra de fumaça negra não nos envolvesse. Se Ellie não fosse retirada a força dos meus braços. E se depois uma claridade intensa não atingisse meus olhos levando-me contra a vontade daquele lugar...”

— Sr. Collins. Sr. Collins! — A voz distante me acordou. Meus olhos encontraram a luz incandescente do laboratório. Odiava ter aulas ali — Você dormiu sob sua prova. — Sr. Banner murmurou indignado, eu não sei em que momento cai no sono, apenas lembro do cheiro forte de cloro.

— Tudo bem — Digo olhando para os lados. Só há eu. E claro, o Sr. Banner totalmente impaciente. — Eu já acabei — Lhe estendo a prova, ele olha e há uma ruga de preocupação se formando em sua testa.

— Você só respondeu duas de dez. Como pode dizer que acabou?

— Acabei todas que sabia, senhor. — Ele assente e volta a encarar a prova — Tenha uma ótima noite.

Droga. Eu me ferrei. Mais uma vez. Esfrego meus olhos, além de mau hálito estava com remela. Coloco o capuz e tento chegar o mais rápido possível em casa.

xXx

Eu podia ver a forma como ela fitava a TV. Não via a TV, mas Ellie dava toda atenção possível a ela. Ora sorria, ora fazia cara feia quando algo não lhe agradava, na maioria das vezes era distante. Pensante. Principalmente quando me obrigava a assistir filmes como este com ela.

— Ela é tão complexa... — Ouso dizer, por alguns instantes ela perde alguns segundos de seu filme para poder me fitar.

— Ela é humana — Diz como se fosse resolver ou mudar minha opinião

— Se eu morresse você iria fazer algo do tipo? — Ellie ri, mas não responde — Se eu pegasse você com outro homem agiria completamente como Pett. Eu não sei porque ele foi parar no manicômio por isso.

— Assim você me assusta. — Me encara então e eu sinto uma imensa vontade de beijá-la... Ela está tão linda — Ele tem uma doença. Ele precisa de tratamento.

— Tiffany não foi para um manicômio. Ela transou com todos os caras do trabalho. Ela conseguiu ser mais pirada que ele!

— O marido dela morreu! — Gritou. Ficamos em silêncio — Se você morresse eu não faria isso. Mas, ficaria tão mal quanto ela. — Murmurou tão séria como nunca tinha visto antes. Então voltou a fitar a TV. — O motivo de estarmos assistindo esse filme é para você entender que há coisas piores que estar longe. Como o sofrimento de Pet. A dor de Tiffany. Eles perderam algo que amavam.

— Eu sei... — Ficamos em silêncio — É sério que foi isso que fez ela ganhar o Oscar? — Ele riu e bufou. Provavelmente querendo me matar — La vie d’adèle consegue ser pior que esse se te consola!

— Ethan! La vie d’adèle é perfeito! Seu mal é querer encontrar final feliz em tudo. Não há.

— Eu só não acho que a vida precise ser tão merda como naquele filme. Elas mereciam ficar juntas!

Nós ficamos em silêncio e as cenas do filme que vimos na noite anterior me perturbou. A desgramada da menina chorou nas últimas meia hora de filme. Ela traiu a namorada e então chorou infinitamente. Ela chorou por três anos! E então se reencontraram, quando eu pensei que elas finalmente iriam voltar... Adivinhe? Emma só reafirmou que acabou! Eu pensei que Adèle tinha superado! Como? Em que mundo? As pessoas superam as outras com tanta facilidade. Elas simplesmente preenchem o vazio com outros corpos e outros sentimentos, e quando acabo o processo se repete.

— No que você está pensando? Você não está vendo o filme. Está bem no final. Ele vai reencontrar a Nikki. — Assinto e sorrio. Acho engraçado a forma que ela tenta me inserir em seu mundo, ela é tão linda por isso...

— Estou com pena da Tiffany — Assumo e é sua vez de rir.

— Você pode ver. Ele falou o filme inteiro sobre a Nikki. Sobre amá-la... E então ele está ali se despedindo. — Não respondo. Observo Pett correndo pela rua atrás da Tiffany e a cena que ele finalmente confessa que sabe que foi ela que escreveu a carta. Que a ama. Finalmente!

— Não é lindo?

— O quê? O casal de doidos?

— Idiota! Claro que não. O amor... — Eu nunca iria assumir o quanto aquilo mexeu comigo e o quanto me fez refletir. Não queria mais um motivo para ela me achar um tonto. — Ethan... Você sabe... Estar longe de você é tão ruim quanto o frio que sente agora.

Ela cora enquanto diz e eu penso sobre o frio, nada é tão ruim quanto ela estar longe de mim agora. Mas eu entendo. Agora eu entendo. Nós dois observamos em silêncio enquanto os créditos do filme sobem, a vejo olhar no espelho mais uma vez conferindo sua maquiagem. Agora a raiva volta até a mim. Ela vai sair. Ela vai estar com outras pessoas essa noite... Seguro minha língua ferina antes de querer atear sobre ela palavras ruins.

— Você tem certeza que algum desses seus amigos vão te deixar em casa?

— Claro. — Ela sorri — E você conhece aquele lugar. Eu adoro estar lá. — E eu conhecia muito bem. Era um lugar afastado da cidade, no subúrbio. E eu sabia o quanto ela gostava de estar lá. E sabia que ela precisava sair e viver. Apesar de querer que ela ficasse em casa esperando por mim. Tão retro, eu sei.

— Me liga amanhã de manhã? — A vejo sorrir e assentir — Ellie...

— Oi? — Ela está novamente passando o batom vermelho.

— Eu...

— Tem alguém buzinando... Acho que Elliot e Anne chegaram. Diz rápido, preciso ir.

— Nada. Se divirta. — Ela sorriu e soprou um beijo antes de sua câmera escurecer e uma notificação dizendo que ela estar off-line soar em minha tela.

Apenas mais uma oportunidade desperdiçada de dizer o quanto eu a amava.