Cara certo, hora errada.
2 Precisamos falar sobre o Nicholas.
Eu praticamente corri assim que meu celular tocou e Sammy disse que ela e Nikki estavam indo para a casa dos pais de Nikki. Finalmente havia acabado tudo aquilo. Eu entrei no primeiro táxi que encontrei livre, mal tive tempo de me despedir de Ellie. Mas, tempo suficiente para ter seu celular rabiscado com letras elegantes em minha mão. Recebi uma piscada maliciosa e um sorriso divertido, ela era linda! Linda mesmo. Eu sou um cara de sorte. Ou não tanta sorte assim, quando eu dispensei o taxista após pagar pela corrida Sam esperava-me na varanda de entrada da casa de Nikki.
— Me diz que você se perdeu! Só diga isso! — Samantha reprimiu um grito e socou meu ombro com toda sua força — Eu tive que inventar para o Nikki que você estava com diarreia. Acredita? E que provavelmente estava à procura de alguma farmácia para comprar um remédio que desse jeito nesse seu intestino porco. Onde você estava?
— Preso na privada — Samantha socou-me outra vez — Ei! Isso dói caramba! Eu me distraí ok? Você precisa concordar. Olhar para aquela velha sentada no altar estava me deixando doido! — Cochichei e ela me bateu de novo — Para Sammy! — Gritei. Respirei fundo.
— Onde você esteve? Se eu tiver que perguntar de novo, prometo que vou arrancar seu pênis fora!
— Ei! Tá, tá, eu falo. Estava em uma confeitaria na descida da Igreja. Encontrei uma garota...
— Tinha que ter mulheres envolvidas! Minha nossa, Ethan! Ele é seu melhor amigo — Ela me interrompeu.
— Olha. Não foi planejado. Ela apareceu, estava tão mão quanto eu. Precisava me distrair. Me desculpa Samantha, eu amo o Nikki, mas aquilo lá estava muito bizarro. E eu estou aqui, não estou? E amanhã vou estar na merda do sepultamento! Sem drama. — Ficamos em silêncio — Eu não sou egoísta, antes que você jogue isso na minha cara. Ela estava lá, e é a garota mais linda que eu já conheci. Foi indolor. Na verdade eu não iria poder fazer nada pelo Nikki. E de qualquer forma, estou com dor de barriga, certo?
— A garota mais bonita que você já viu? — Perguntou. Parece que ela ignorou tudo que eu disse e só ouviu essa parte, franzi o cenho — Nossa. Nunca ouvi você falando assim de ninguém.
Eu ri. Ela tinha razão. Sammy e eu nos sentamos em um dos degraus da escada que dava para a varanda e olhamos o nada. O dia ainda estava claro, mas visivelmente apontava indícios de estrelas no céu. A noite logo chegaria.
— Nicholas está meio quieto demais. — Ela voltou a dizer, encarei-a.
— A avó dele morreu. Normal. Ela morreu ontem. — Assentimos juntos — E de qualquer forma ele vai sair dessa. Vamos dar um tempo para ele.
— É porque nunca o vi assim — Respondeu aflita — Queria sei lá, ajudar.
— Só podemos apoia-lo, Sammy... Eu estou bem triste por ele. Mas...
— Mas... Não podemos fazer nada — Concluiu.
Mais silêncio.
— Ela faz cinema. E fotografa. É loira, tem olhos castanhos...
— E os peitos? — Ela me cortou e riu — Grandes?
— Confere — Gargalhou — A bunda confere muito! Mas não é isso... É mais. Você acredita em amor a primeira vista? Ou paixão?
— Para! Não brinca! Você não esteve nem uma hora com ela, Ethan. — E riu mais.
— Eu sei. É disso que eu estou falando. Essa mágica. Ela me deixa arrepiado! Sério. Eu só olhei para seu seio, ou sua bunda... Porque é muito difícil não olhar. Ela tem belos seios! Fartos! É bem grande. Maior que o seu! E ela só tem 18 anos...
— ETHAN! — Censurou-me.
— Há três meses para 19! — Me defendi. Ela riu. — Ela faz cinema e fotografa! — Completei. Samantha era apaixonada por cinema e livros. Então iria amá-la, com certeza.
— Ainda assim. Ela nem pode beber álcool ainda.
— Provavelmente ela tem um carro. Se ela pode votar e dirigir, é responsável e madura suficiente. Pare de falar como se ela fosse um bebezinho. Sinto-me horrível! — Rimos e ela concordou.
— Me desculpe senhor “apaixonadinho” a primeira vista! Que papo de homossexual.
— Não sou gay, porra! — Paramos quando ouvimos uma risada. Nikki apareceu da porta a fechou e andou até nós.
Vestia short jeans e blusa de mangas branca. Ao menos tomou banho. Ao menos não estava fazendo “shivá*” para sua vó. Ele desceu dos degraus e sentou-se entre as pernas de Sammy. Ele deixou que lhe desse um selinho e abraçasse seu pescoço.
— Que papo é esse de gay? — Olhei para Sammy que riu.
— Ethan foi ao banheiro de uma confeitaria ali por perto e foi paquerado lá...
— Não brinca? Hilário. Queria estar lá para ver. — Nikki forçou um riso e eu fechei a cara.
*Shivá faz parte da cultura judaica e é um ritual de sete dias. Eles costumam fazer em homenagem aos seus entes queridos e para aliviar a dor do luto. Quando muito grande os dias podem ser estendidos em até três semanas.
— Eu não sou gay e para com essas merdinhas... — Instantaneamente lembrei-me de Ellie. Por qual motivo não podia falar sobre ela com ele? Que misteriosa.
— Nikki. Mamãe precisa de você. — Uma voz chorosa nos alertou, a irmã mais nova de Nicholas apareceu na varanda chamando por ele que se levantou e correu. Tudo que vi foi o vulto da menina o seguindo. Sua cópia viva; nunca vi irmãos serem tão parecidos quanto a Emma e Nikki.
— Momentos em que eu gostaria de estar em um hotel! — Desabafou Sam — E sua garota? Pegou o telefone?
Apontei a palma da minha mão para ela que sorriu discretamente. O número de Ellie escrito ali. Peguei meu celular no bolso e o anotei. Abri no aplicativo de mensagens.
— Mas já? Sufocante! — Brincou Sam. — O que vai dizer? “Adorei te conhecer, preciso te ver novamente. Você roubou meu coração, docinho” — Imitou minha voz e saiu engraçado. Nós rimos.
— Bem que eu podia fazer isso mesmo! Você acha que ela iria gostar?
— Eu acho que ela iria correr. Se eu fosse ela correria de você. Maníaco. — Rimos mais.
“Gostaria que em Seattle tivesse pessoas como você. Preciso te ver novamente”.
— Que piegas! — Grunhiu com cara de nojo — Seattle tem pessoas lindas. Charmosas. Elegantes! Deixa de ser gay. — Sam levantou e riu, eu a encarei e ela parou de andar, percebeu que tinha algo a dizer — Que foi?
— Não comente nada com Nikki. Eu vou contar na hora certa.
— Mas eu não ia comentar nada mesmo! — E andou cerca de cincos passos de volta para a casa. Meu celular apitou e vibrou em minha mão.
“Ethan? Suponho... Temos um encontro marcado para amanhã em um sepultamento. Se vista a caráter. Acho tão charmosos homens de terno. Até amanhã, Ethan. E ah, qual o problema com as pessoas de Seattle? Ellie.”
Eu ri.
“Elas não são você rs. Até amanhã, Ellie.”
“Olha! Ele sabe ser romântico. Quase acreditei! Haha... As pessoas são peculiares, Ethan. Basta encontrarmos algo que nos encante nelas. Sempre há... Até amanhã, não chegue atrasado.”
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As pessoas aglomeravam-se envolta do caixão de madeira cor de mogno. E o choro continuava, encarei a família de Ethan, a mãe segurava a mão da filha. Essa tinha em seu rosto óculos grossos e escuros. Ela era bem alta para sua idade. Porém as curvas diziam e gritava “eu tenho dezesseis anos”. E ela tinha os dentes separados, perfeitamente quadrados. Algumas sardas como as de Nikki. O jeito que ela sorria dizia que claramente o quão fácil era sua vida. Queria ver quando ela estivesse na faculdade. Provavelmente seria fácil também. Eles são ricos, gente rica não tem problema em trabalhar. Ou chorar. Somente em momentos como esse. São os momentos que vemos que todos são iguais e terão o mesmo triste fim. Acabarão sendo comidos por insetos nojentos, rastejantes ou voadores. Terão suas vísceras reviradas e então voltarão ao pó. Não sei ao certo o que tem após a morte, nunca fui tão religioso para acreditar em céu ou inferno. Tão pouco em vida após a morte. Acho que é o fim. Qual é o sentido de viver toda uma vida, para depois de morrer, continuar vivendo e vivendo e vivendo?
Revirei meus olhos pelo gramado liso e extenso. Não havia sinais dela. Peguei Sammy lançando-me um olhar apreensivo. Ela acompanhava quieta ao lado de Nikki que segurava uma das alças do caixão e percorria o caminho no cemitério até a sepultura de sua vó. Eu não fazia nenhuma ideia do que se passava na cabeça dele nesse momento, mas imaginava o que se passava na dela. Os cabelos curtos balançaram com o vento e soube que ela odiou isso. Como estava odiando todo o resto. Ela odiava cemitérios tanto quanto filmes e séries de zumbis. Porque ela odeia mortos. Ela não foi ao enterro do próprio pai! E eu sei o quanto ela ama Nikki para estar aqui e ele também sabe que ela é a garota que mais o ama no mundo. E o quanto valor ela merece.
— Procurando algo? — Pulei de susto e ela riu. Ellie passou rapidamente seus braços pelos meus e o apertou. Uma intimidade que surgiu do nada, então ela riu e o retirou, olhando para os lados, preocupada se alguém nos observou.
— Você. Onde esteve? — Ela riu mais e olhou pelos lados.
— Que feio. A única convidada de honra aqui é a Sra. Watson! — Fez uma cara inocente e olhou para frente como se estivesse andando simplesmente do meu lado, sem estar necessariamente comigo — Eu estava olhando você de longe. — Que vergonha! Disse a mim mesmo.
— Tudo bem, você me pegou... Estar aqui tem mais a ver em te ver do que acompanhar a Sra. Watson ir descansar em paz.
— Ao menos hoje ela está no caixão. Isso te conforta? — Minutos depois ela respondeu. Assenti que sim — A mim não. Eu não quero envelhecer. — Ficamos em silêncio, Ellie me encara e eu a encaro, ela está séria demais — Não quero morrer velha. Eu encontro você ás oito. Te mando uma mensagem. Você guardou segredo sobre mim, não?
— É claro, Ellie — Assenti desesperado e gritando mentalmente para ela não se afastar — Tudo bem, minha mãe meio que vai surtar se eu não estiver do lado dela em cinco minutos.
E correu para frente. Observei quando ela entrelaçou seus braços com o de uma mulher. Sua mãe. Ela era do tamanho da mãe! Eu ri. As duas caminharam a passos lentos e eu queria estar mais perto para ouvir o que falavam. Será que ela me mencionou? Ah, idiota que eu sou. Ela tem mais juízo que eu, mesmo sendo mais jovem. Madura e centrada. E eu um tolo, pareço um adolescente sem juízo, desmiolado.
O sepultamento foi tumultuado. A irmãzinha de Nikki gritou enquanto o caixão da vó descia ao túmulo. Coube a ele e ao pai segurar a menina. A mãe deitou nos ombros da tia mais próxima que Nikki tem, percebi que Sammy estava ali, mas não sabia o que fazer. Todo o tempo eu tentava fazer algo, mas seu olhar dizia para eu ficar de longe, olhando. Eu encarei Ellie por algum tempo, ela estava abraçada a mãe, mal me olhou. Como se não me conhecesse, eu disfarcei para que as pessoas não percebessem. Eu vi quando ela e sua mãe cumprimentaram a família de Nikki e o tempo que ela passou abraçada com Emma e Kate, mãe de Nicholas. Ela abraçou até Sammy, inclusive, que me encarou nesse momento. Mas não percebeu nada. Ela se foi com a mãe quando terminou de falar com a família e eu me aproximei.
Nicholas me abraçou e chorou. Nunca tinha o visto chorar tanto. Ele soluçou coisas intangíveis e Sam o abraçou pelas costas, nós três ficamos ali tempos a fio abraçados. Quando dei por mim só havia restado nós. Emma tocava a tampa de mármore e chorava, enquanto seus pais e outros parentes se abraçavam. Eu pude ler rapidamente “A melhor esposa, mãe e avó que o mundo já teve. 1945 – 2013”.
— Vamos Nikki... Ficar aqui não vai resolver muita coisa, bebê — Samantha ensaiou uma voz manhosa e segurou o rosto do namorado. Ela depositou um beijo cheio de carinho em sua bochecha — Eu vou buscar a Emma, tudo bem? — Ela simplesmente adorava a cunhada.
Enquanto Nikki e eu saímos abraçados ele cessou seu choro, me olhou curioso e respirou fundo antes de começar a falar: — Você parece bem nervoso.
— Não, estou legal. Preocupado com você — Suspirei com a mentira. Nikki me analisou bem, continuamos a caminhar em silêncio — Ei Nikki, qual o nome daquela menina que ficou abraçada com sua irmã por tanto tempo? Elas são amigas.
— Quem? A Ellen? — Assenti — Elas já foram inseparáveis um dia. O problema é que Ellen é muito evoluída para a Emma. Mas as duas se dão bem até. — Concordei. Emma ainda estava no colegial e Ellen na faculdade. Havia uma grande diferença entre as duas. — Por quê? Não vai me dizer que você...
— Nem termine, por favor. Eu só percebi que ela era intima da família. E sua irmã é sempre só... — O interrompi. O medo surgiu. Não queria que Ellie soubesse que eu havia quebrado nossa promessa. Se ele não poderia saber... Eu não contaria. Não agora. Aliás, não temos nada demais mesmo.
— Nenhum dos amigos de Emma veio ao velório... Eu não sei o que aconteceu. Ela sempre foi cercada de amigos.
— Deve ser a idade, não se preocupa com isso. — Finalizei o assunto.
A casa estava tão mórbida quanto tudo. Samantha levou Emma para comer e depois lhe deu meio comprido desses que ela toma para dormir. Felizmente fez o mesmo com Nikki. Não saberia explicar o motivo da minha saída quando a noite chegasse. Não tirei meu celular da mão, ela daria seu sinal de vida em algum momento.
O momento não chegou. Sammy e eu jantávamos em silêncio. A casa inteira parecia ter desaparecido. Até os parentes que estavam hospedados, não havia nenhum barulho a não ser o de nossos talheres, ora ou outra ríamos baixo da situação constrangedora que nós estávamos vivendo.
— Ainda bem que você já conhece a família. — Disse, Sam concordou — Imagine se isso tivesse acontecido no começo do relacionamento? Você não saberia agir.
— Eu nem iria vir. O que me fez estar aqui é o amor. — Deixou claro, me senti mal. Se Nikki ouvisse se sentiria péssimo.
Samantha e Nikki namoraram no segundo ano da faculdade, nós nos conhecemos desde sempre, pirralhos dividindo nossos acentos em barcos no caminho e na volta da escola. Sempre juntos. Relacionamo-nos na festa de integração na primeira semana de aula, foi estranho. E ela se declarou, disse que sempre fora apaixonada por mim. Isso meio que me obrigou a estar com ela, mas Sammy era aquela amiga, amiga, amiga mesmo. Eu me sentia horrível quando a beijava. E ela percebeu isso. Nós terminamos dois meses depois quando percebemos que namorar só estragaria nossa amizade. Ela nunca disse, mas acho que continuou gostando de mim até se apaixonar mesmo por Nikki. E ele sabia disso, e o mais estranho era que não havia nenhum clima ruim entre nós. Ou falta de confiança. Ele já a amava, desde há mesma semana em que eu dei o primeiro beijo nela.
— Eu não sei se aguento mais uma semana disso. É horrível o clima — Confessou num sussurro, essa fora minha vez de concordar.
— Só mais uma semana. Vamos convencer Nikki de sair. Sei lá, ir à praia? Tem feito um calor imensurável. Aproveitamos e levamos a menina. Ela não tem cara de ter muitos amigos.
— Ela não tem mesmo... — Samantha deixou seu talher cair no prato — E a sua garota? Não estava lá?
— Estava. — O sorriso largo apareceu, Sammy fez cara de nojo.
— Quem é ela? Eu a vi? Eu a conheço?
— Seu nome é Ellie... — Bom, eu não estava falando da Ellen.
— Nunca ouvi falar. Como ela é?
— Alta. Bonita. Linda...
— E loira! Você a olhou quando ela abraçou a Emma! — Samantha riu e eu assenti — E ela tem mesmo mais seios que eu, invejinha! — Gargalhei — Por qual motivo ela não ficou lá flertando com você?
— Aquilo era um funeral, não é?
— E daí? Ai que perca de tempo — Bufou.
— Não comenta nada com o Nicholas... Pode ser? Acho que ele não curte muito ela...
Um ponto de interrogação imenso surgiu na face de Samantha. Ela ficou esperando que eu explicasse.
— Bom. Eu moro em Seattle e ela Los Angeles. Nada vai sair dessa história a não serem alguns beijos e... Sexo? Quem é que sabe. Não vale a pena dizer. Não quero desgastá-lo mais.
— Se você acha que vai aborrecê-lo não deveria se envolver com ela. Nada fica encoberto para sempre, Ethan.
— Se você não contar, eu não vou contar, Ellie não vai contar e ele nunca vai saber. Dê um tempo e fique feliz por mim. Eu estou gostando de alguém! Finalmente. — Seu olhar fora tenso, passei a mão pelos cabelos e mordi o lábio inferior, mal tinha notado o que disse. Como assim? Minha cabeça estava muito confusa e Sam parecia preocupada demais — Não importa Samantha. Eu tenho uma semana com ela.
— E depois acabou... — Murmurou com pesar.
— E depois acabou. Como tudo acaba um dia. — Levantei-me, empurrei meu prato limpo e meu copo vazio, ela se encarregaria de lavar a louça. Desejei boa noite e andei lentamente rumo às escadas para o segundo andar. O corredor para os quartos estava completamente escuro e vazio, caminhei para o banho. Um banho rápido, dentes escovados, cueca limpa, cama macia. Acendi o visor do celular. Nada. Nenhum sinal de Ellie.
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