Há tantas cicatrizes em mim que já fazem parte do que eu sou. É como um robô programado para viver sem sentir. Levanto-me, café da manhã, levo Scott para dar uma volta no quarteirão. Volto para casa, ele fica solto no quintal. Saio para trabalhar. Volto e de novo, Scott comeu mais um dos meus chinelos e então brigo com ele. O telefone toca no mesmo horário, é minha mãe. Lhe digo que estou bem, indo bem sozinho. A casa é pequena e Scott é um cãozinho muito espaçoso para eu me sentir só. Ela diz que me ama e desligar. Eu esquento uma pizza ou qualquer coisa no microondas, como, zapeio o canal de TV e na maioria das vezes adormeço no sofá e o dia começa igual de novo. E de novo. E de novo.

Com exceção a hoje. Noivado do Nikki e da Sammy. Eu odiava estar ali, mas não tinha muita escolha. E agradeci por ser à noite, então me escondi em um lugar estrategicamente mal iluminado. Assisti os brindes aos noivos e o padrinho de Nikki falou muito bem dele e do casal. Eu implorei para não ser escolhido. Não queria estar ali na frente e de repente encontrar com ela em algum lugar. Pelo contrário, quanto mais longe, melhor. Nunca saberia como reagiria se a visse. E nem queria saber. Três longos anos... E ainda me perguntava quanto tempo mais seria necessário para curar um coração partido. Minha mãe diz que eu não dei chances a nós, mas só eu sei quantas dei. Enquanto estive com ela eu dei muitas, ela nunca me contou porque não quis e agora eu não quero estar com outra pessoa. Para depois descobrir que ela nunca existiu. Por mais real que seja.

Ouvi dizer que ela finalmente conseguiu, está na faculdade há um ano. Cinema. Talvez esteja se tornando a Ellie que tanto quis ser. Provavelmente ainda fotografa muito bem. Deve estar no seu curso de idiomas. Deve ter um namorado e morando sozinha. Provavelmente...

— Viva aos noivos! — Ouço o barulho de taças e posso ver o brilho nos olhos de Sammy. Ela sim merece isso. Ela sim é a garota perfeita. Em pensar que eu pensei que poderia ter a felicidade que ela e o Nikki têm. Isso é raro. Muito raro.

Quando se entende que números não significam nada, o amor passa a não ter limites, barreiras. Veja Ellen. Inteligente até demais. Nem tudo ela achou no Google, a opinião forte, o modo de ver a vida. O bom humor são coisas dela. Faz parte dela. E eu descobri que 17 anos não se é tão nova quando se tem uma mente de 23, como a minha há três anos. E muitas vezes mais avançada que a minha. Idade é só um número. Posso ter 26 hoje, mas o tempo me transformou em um senhor idoso, ranzinzo amargo. Sem motivos aparentes para sorrir.

Não tenho mais motivos para ficar... De longe eu aceno para Sammy, ela sabia que estive ali o tempo todo, ela não devolve o aceno ou faz algo para perceber que viu, mas eu sei que viu e sei que ela não quer que eu vá. Sei também que ela disse diversas vezes que Ellen não estava convidada e que eu não precisava ficar atrás da moita como se fosse um foragido da lei. Mas não lhe ouvi.

Enquanto fazia meu caminho para fora encontrei Emma, ela sorriu docemente, como sempre. Mas agora usava aparelhos... Viva. Aqueles dentes separados a deixavam com cara de menina.

— Ethan... Como está a festa? — Ela sorri e olha para o céu.

— Muito legal; você deveria estar lá dentro. — Minto e ela ri e dessa vez rir de mim.

— Legal e você já está indo?

— É a vida. Não fique aqui sozinha, pode ser perigoso. — Ela riu e assentiu.

— Sabe Ethan? — Murmurou Emma, eu já havia lhe dado às costas e andava em direção ao meu carro — Ela não se esqueceu de você nem um minuto. Todo esse tempo. — Despejou Emma — E por mais difícil que seja ela seguiu em frente. Talvez esteja na hora de você seguir também.

— Seguiu em frente arrumou um namorado e agora é quem ela é de verdade? Ou seguiu em frente e está iludindo mais um idiota?

— Seguiu em frente, está vivendo. Sozinha. Porque ela descobriu que para ser feliz não precisa de alguém que a faça feliz. Pense nisso.

E Emma se foi e eu fiquei ali, parado, enquanto em minha mente sua voz fazia eco “para ser feliz não precisa de alguém que a faça feliz...”. Olhei para o final da rua. E podia ver sua casa. Apenas uma luz acesa no segundo andar, seu quarto. Uma sensação estranha passou por mim. Como se nesse momento eu pudesse vê-la, mesmo não vendo. Mas era como se nesse momento ela estivesse ali debruçada na janela do seu quarto olhando o céu, a infinidade de estrelas enquanto o vento passava e balançava seus cabelos. Quase pude sentir o cheiro de erva doce. E ouvir o som de sua risada. Mas era mais um fruto da minha imaginação, a luz do quarto se apagou e eu sabia que a janela não estava mais aberta. Não tinha mais vento. Nem estrelas. Nem sorrisos... Tão pouco o cheiro de erva doce. Só restou o vazio.

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