Capuz Vermelho - 3ª Temporada

12 Você não suporta a mudança (Parte 3)


A porta havia sido aberta apressada e subitamente. As passadas largas de Rosie denotavam seu completo descontentamento. Hector caminhava um pouco mais à frente, indo em direção à escada, aparentando estar exausto devido ao terror passado. A adrenalina em seu corpo ainda pulsava. Sabia que para Rosie só estava tentando fugir do inevitável. Estando a um passo de defrontar com a verdade, tendo isto como seu pior pesadelo do dia. "Eu assumi meu outro eu. Mas que escolha havia? Era o único jeito. O estranho é que não sei se estou disposto a pagar o preço, embora eu tenha estado consciente da urgência. Situações desesperadas exigem medidas desesperadas.".

— Aonde pensa que vai? — perguntou Rosie, equilibrando a firmeza de seu tom para fazê-lo estacar no meio do caminho, na sala de estar.

O caçador se virara, olhando-a com cansaço, dando um suspiro pesado.

— Tudo bem, diga o que Holt afirmou a meu respeito.

— Não é sobre isso. — falou ela, severa. — O que foi aquilo? — fitou-o suspicazmente.

— A que se refere? — indagou ele, franzido a testa.

Rosie dera alguns passos á frente, desafiadora.

— Não se finja de desentendido. Sabe muito bem o que vi... — fez uma pausa, relutante. — Não, agora sim faz sentido. — apontou-o com o dedo indicador de modo acusador. — O fato de você ter matado aqueles soldados de Abamanu tão facilmente. Ter matado o psiquiatra que tentou me envenenar. Tudo isso vinha desse seu outro lado! Há quanto tempo você está assim?

Hector engolira em seco. Obviamente, sua expressão impassível indicava que já esperava por aquele sermão.

— Você não entenderia. — disse ele, resistente.

— Como assim? — indagou Rosie, balançando a cabeça em negação. — Se eu não fosse capaz de entender, então como você, nessa situação, conseguiria entender a si mesmo?

— Você está certa, devo admitir. — concordou Hector, respirando fundo. — Nem mesmo eu me compreendo mais, muito menos me reconhecer no espelho. Estou vivendo uma das maiores ironias de toda minha vida, Rosie. Me tornei minha própria presa... meu próprio inimigo. — fez uma pausa, olhando para o chão, cabisbaixo. — E, para começo de conversa, o General Holt me libertou antes do previsto.

— Por quê? — questionou Rosie, cada vez mais se aborrecendo.

— Algo aconteceu no QG, o suficiente para que fosse ordenado um sigilo absoluto e rigoroso. Vi alguns soldados conversando em baixo som, mas consegui abstrair o tom das conversas. Certamente foi algo de impacto. Ainda não sei porque... mas tenho quase certeza que minha liberdade foi concedida graças ao incidente que houve lá.

Rosie ficara pensativa por alguns instantes. Voltou a olha-lo, sem alterar sua postura.

— Arrisca considerar que Sekhmet possa ter alguma coisa a ver com isso? Afinal de contas, ela controla um corpo de uma espiã do Exército, logo está infiltrada lá.

— É o único palpite plausível. — salientou ele.

— Disse que queria saber o que o General me falou sobre você... — continuou Rosie, numa tentativa segura de não desviar da questão principal e gritante. Baixou a mão esquerda até sua bota, tirando de dentro um papel dobrado. Abriu-o por inteiro, logo exibindo seu conteúdo. — O desenho está bem fiel, devo dizer.

A figura estampada na folha fizera o sangue do caçador gelar. Seu semblante tornara-se apreensivo, enquanto Rosie mantinha-se séria, mas com uma certa satisfação por estar certa de que, cedo ou tarde, saberia toda a verdade. "A diferença entre mim e ele é que não devo nada a ninguém.".

Lívido, Hector encarou o papel com um misto de surpresa e raiva.

— Onde conseguiu isso?

— Quando estávamos comprando mantimentos. Você se distraiu e aproveitei para pegar isso aqui que estava fixado numa parede. — revelou Rosie, mantendo a folha à mostra. — Parece que o caçador se tornou a caça.

— O que Holt lhe disse? — perguntou Hector, seu tom tornando-se um tanto ríspido.

— O que ele partilhou comigo me ajudou a chegar a uma conclusão. — disse a jovem, amassando a folha. — Os corpos das vítimas... das pessoas que você matou... — sua voz se embargara de comoção. — ... haviam sido mantidos em câmaras criogênicas, uma tecnologia nova e ainda exclusiva do Exército. Concluíram que você foi o autor do crime através das digitais e dos aspectos dos cortes profundos.

— Isso foi há muito tempo... no dia em que acordei nas Ruínas Cinzas. — disse o caçador, em tom baixo, balançando a cabeça negativamente. — Foi durante uma missão... a qual o General considerou um teste para constatar se eu tinha a desenvoltura requerida para supervisionar as operações. Eu saí de mim completamente. Uma crise de descontrole total. Aliás, eu tive esta crise no dia em que fui libertado.

Rosie arqueou uma sobrancelha, transparecendo sua curiosidade e desconfiança.

— Onde esteve naquela noite? — exigiu ela.

— Aqui mesmo. Além disso, Áker estava aqui, e parecia aflito. Mas não reparei nesse detalhe e tive de pedir ajuda à ele antes que eu perdesse a cabeça. Nós... — ele hesitou, olhando para um canto do chão. — Nós discutimos...

— Se desentenderam? — especulou Rosie, sem deixa-lo terminar.

— Não. Na verdade, eu... Expressei meu completo arrependimento.

— Pelo quê? — indagou ela, como se fingisse não saber. O caçador a olhou sem entender.

— De todos os erros que cometi, é óbvio. Eu... até pediria algo totalmente desesperador à ele. Como, por exemplo, me matar. Mas àquela altura eu já sentia... todo o meu eu ser consumido. É como se a cada transformação uma parte de mim morria, isso em todas as vezes. Eu posso jurar à você, Rosie. Eu consegui me controlar... Os últimos dois anos foram intensos, senti meus instintos de caça e sobrevivência serem elevados de um jeito que você nem pode imaginar.

— E o que esperava ganhar se entregando à essa maldição? — perguntou Rosie, ficando mais aturdida a cada minuto.

— É complicado. — disse ele, tentando desconversar.

— Complicado, nesse contexto, tem muito mais a ver com a minha situação! — argumentou Rosie, aproximando-se dele, colérica. — Qual é o seu problema, afinal? Guardar segredos agora se iguala a tentar proteger alguém?!

— Fiz uma promessa, e estou disposto a cumpri-la até o fim, com o objetivo de sobrepujar essa maldita licantropia. — disse Hector, endurecendo a face.

— Uma promessa feita a si mesmo. — retrucou Rosie. — Por que meu pai... estaria tão decepcionado quanto eu se soubesse de seus podres.

— De fato, ele se arrependeria de ter se referido a mim naquela carta.

— Da mesma forma como me arrependo de ter conhecido você. — disparou ela, fuzilando-o com os olhos. Levou a mão esquerda ao cinto de utilidades, de lá retirando uma pistola. Apontou a arma para o caçador, segurando-a firmemente. — Já chega. Eu cansei!

Hector estremecera, recuando vários passos, o olhar fixo no cano da arma. Depois voltou-se para Rosie, suando em demasia, a respiração acelerada. Certamente fora um movimento inesperado por parte da jovem. Contudo, bastou um minuto para que pudesse realmente compreender a necessidade e o sentido daquela atitude subitamente desesperada. Tentou fazer parecer que tivera engolido em seco, mas foi em vão. Expressou mais medo do que segurança.

— Rosie... Não precisamos ir tão longe...

— Cala a boca. — redarguiu ela, enfurecida. — Aqui nessa arma tem uma bala de prata. Eu tinha bisbilhotado seu arsenal na primeira noite que passei aqui... e a peguei. Tendo em mente do quão fácil você matou aqueles soldados de Abamanu... eu não tive mais dúvidas do que fazer depois. Tive que garantir minha segurança.

— Então você já presumia desde o início?

— Sim. Só precisei das informações do General Holt para juntar as peças. E aqui está meu movimento para que eu ganhe este jogo. Sabia que em algum momento eu tinha que fazer isso, só não queria aceitar o quanto você havia mudado. — uma lágrima escorrera pelo seu rosto.

O caçador baixara um pouco a cabeça, entristecendo-se com aquele fato.

— Sim... é verdade. Eu mudei. Talvez tarde demais.

— O quê?! — exclamou Rosie, revoltada, ganhando mais proximidade.

— Você não entende! — disse ele, erguendo a cabeça, passando a olha-la com fúria. — Isto me tornou mais forte. Enquanto eu prosseguia com minhas investigações eu pude enxergar os benefícios, do quanto isso me fez sentir o melhor caçador que existe neste mundo.

— Está errado. — insistia Rosie, confrontando seu ponto de vista, sem deixar de mirar a arma no peito do caçador. — Você abraçou um fardo que já estava disposto a tomar conta de sua vida. Plantou as sementes sem antes pensar nos frutos que ia colher.

De repente, Hector tivera a estranha sensação de não estar a sós com Rosie no casarão. Sua visão periférica parecia ter acionado um alarme, obrigando-o a olhar lentamente para a direita... para a figura que se postava próxima à ele e Rosie. Ele sorria com escárnio nos olhos. As presas brancas à mostra. Os pelos crescidos que lhe davam todo o aspecto de um verdadeiro monstro. E os olhos amedrontadores com pupilas diminuídas. Nada mais parecia real. Uma pérfida alucinação havia surgido para lhe atormentar até que não vesse o fim.

Tentando disfarçar o temor, o caçador forçou ignora-lo. Mas era impossível. Era tentadora sua carência de atenção. "Eu devo estar.... a um passo da loucura absoluta.", pensou, sentindo-se a beira da insanidade, resistindo ao máximo.

— Ela está errada, Hector. — disse a visão horrenda com uma voz monstruosa e aterradora. — Nós dois... Juntos somos mais fortes. É a única coisa que deve provar agora.

— Cale-se. — disse o caçador, baixinho, de modo contido.

Rosie franziu o cenho, confusa.

— O quê? — indagou. — Hector... Você está bem?

A ilusão insistira mais perversamente.

— Vamos lá. Liberte-me. Experimente para ver quem é mais rápido: Você ou a bala. — desafiou ele. Nós dois sabemos a resposta. E o resultado da soma... você e eu... é a morte dela.

Trêmulo de raiva, o caçador se limitara a apenas vislumbrar uma terrível possibilidade. "Posso acabar me transformando aqui e agora, seu caso eu cair na lábia desse monstro... Tudo vai estar perdido! A prova de que obtive controle vai se arruinar. Rosie vai apertar o gatilho assim que notar algo diferente em meu rosto... O bom é que não sinto nada nesse momento. Eu precisei perder o controle para reencontrar o equilíbrio. Nada pode romper esse equilíbrio, a não ser por eu me deixar ludibriar.".

Hector passara a mão no rosto, como se mostrasse-se cansado.

— Pra ser honesta... — começou Rosie — Eu estou testando você. Se seus limites se fortaleceram diante dessa maldição. Não vou incentivar que o controle, sei que pode muito bem fazer isso sozinho. Essa vai ser... a última vez que esconde algo de mim.

— E pretende arrancar de mim todas as respostas me apontando uma arma!? — reclamou Hector, ainda inconformado com a ideia. — Rosie, neste exato momento, ele está na minha cabeça. — cutucou a têmpora com o indicador. — Me dizendo o que eu devo ou não fazer. E então... surge a dúvida cruel: Quem realmente está no comando deste corpo?

— Lamento. — ditou ela, sucinta e fria. — Esse... é o único modo de fazê-lo ser sincero comigo. — deixara mais uma lágrima cair, sua voz adquirindo um tom angustiado. — Me diga o que o deixou desse jeito. Só vou pedir uma vez. Eu preciso que me fale toda a verdade... ou não vou hesitar em atirar.

— E porque considera isto uma opção?

O monstro tornara a intervir novamente.

— Não está claro pra você? — perguntou ele, com um sorriso presunçoso. — De todos os seus propósitos, o único em que você falhou foi em protege-la. Agora que somos um só, tudo o que ela consegue ver não é nada além de uma ameaça. Ela é seu fardo, não eu. Sua fraqueza também, devo ressaltar. — o olhou como quem gosta de se aproveitar de outrem. — Mate-a enquanto ainda resta tempo. Estará se livrando de um estorvo, um peso desnecessário. Apague a estrela brilhante que destrói a escuridão que o deixa mais forte. — pediu ele, relanceando Rosie, logo fitando-a com desprezo.

As dúvidas pairaram no ar por um silêncio dramático. A mão de Rosie que segurava a arma estava começando a tornar-se instável. Para ela não restou outra escolha a não ser acreditar no argumento de que Hector pudesse estar sendo vítima de uma alucinação que o ordenava a fazer coisas que confrontavam suas princípios.

— O que ele lhe diz?

Suspirando com os olhos fechados, Hector tentava se desligar de seus pensamentos ruins... sobretudo fazer uma varredura mental que obliterasse aquela ilusão.

— Que eu devo mata-la. — revelou ele, direto.

— Sei que está lutando, o máximo que pode. — disse Rosie, depositando certa confiança nos instintos de Hector, embora não desistisse de sua estratégia para fazê-lo falar de uma vez. — Eu sei... sei que não se tornou o que é antes de irmos às Ruínas Cinzas. Você assassinou vidas inocentes... a sangue frio. Nós dois concordamos que você deveria estar pagando pelo que fez. Que o General foi complacente demais com sua sentença, sem excluir sua licença.

Sem esperar nenhum segundo a mais, o caçador respirou fundo mais uma vez, preparado para afirmar tudo o que deveria ser revelado.

O monstro se mostrou descontente com a posição de Hector.

— O que vai fazer? Não fique parado aí, vamos logo, mate-a! — esbravejou ele, selvagemente. — Vai desperdiçar esta chance valiosa caindo nesta conversa fiada?! Prove que você é forte, mostrando seu verdadeiro eu. Eu!

O caçador desviara o olhar firme para sua direita. Para Rosie, entretanto, ele apenas observava o nada.

— Está enganado. — disse ele, como se estivesse falando com um fantasma. — Você nada mais é do que um artifício, um impulso para libertar toda minha fúria. Se possuo controle, então eu posso manipula-lo, em vez de permitir que seja o contrário. Pertencemos um ao outro. Mas não somos iguais. Nunca fomos e jamais seremos. — afirmou, mostrando-se categórico.

Rosie sentia-se desconfortável ao assistir àquilo. À primeira vista parecia que seu parceiro tivesse enlouquecido. "Que coisa estranha.". Jurou a si mesma não se pôr no lugar dele. Praticamente estava cogitando abaixar a arma naquele instante.

Hector virara-se para Rosie, retesando os músculos e preparando-se.

— Sua avó é a culpada, Rosie. — disparara ele, permitindo-se ser o mais lacônico possível. — Na época em que você esteve desaparecida, eu estava em um bar lamentando meu fracasso e me odiando profundamente. Foi lá que a encontrei. Pensei ter conhecido uma pessoa diferente... — seus olhos marejaram-se de repente, adquirindo caráter tristonho. — Nós lutamos juntos para deter Mollock no museu após firmarmos uma aliança. Na noite... em que Michael revelou tudo sobre mim... ele mencionou algo sobre sua avó relacionado a um soro da juventude. — fez uma pausa, rememorando novamente aquele fatídico evento, fitando o chão com tristeza na face. — Ela me enganou... com esse elemento. Ela se apresentou à mim rejuvenescida... tentando me fazer acreditar que eu estava diante de alguém que nunca vi antes em minha vida. E quando fracassamos em impedir Mollock de chegar às Ruínas Cinzas... ela me revelou quem realmente era. Revelou também que estava sendo alvejada e perseguida por seu clã por ter roubado o soro. — tornou a olhar para Rosie. — Ele não me permitiu que eu a acompanhasse nessa fuga. Se recusou a lutar junto à nós. E para me impedir... ela enfeitiçou um lobisomem meta-simbionte. Baixei a guarda e fui mordido. E logo depois...

— Não diga mais nada! — disse Rosie em voz alta. Sua pele estava pálida como a neve, sua expressão de completo horror. Tentou em minutos assimilar o que o caçador dissera, sendo que conseguiria melhor em dias. Uma sensação de trauma causou-lhe calafrios. "Hector e minha avó juntos!? Mas como? Isso não faz sentido!".

— Rosie, por favor...

— Não! — disse ela, raivosa, tentando manter a arma apontada e firme. — Minha avó está desaparecida há anos. Sequer deu notícias. Como você se atreve... a usar a única coisa que restou da minha família para sustentar seu argumento? Como você pode ser tão baixo? — agora se encontrava em prantos, as lágrimas saindo com mais abundância.

— Mas essa é a mais pura e crua verdade. — defendeu-se o caçador, assumindo um tom rigoroso. — Tem que acreditar em mim. Eleonor deve estar na Alemanha ou na França, à mercê de qualquer coisa relacionada à guerra. Posso provar...

— Com quê? — perguntou Rosie, enxugando os olhos com uma mão.

O caçador lembrara-se onde teria guardado a carta escrita e enviada por Eleonor há quase 1 ano. Emudeceu diante da obrigação que tinha a cumprir. Sentia-se no olho de um furacão naquele instante. Ao avaliar o estado de Rosie, era sabido que não bastaria muito para intensificar o torpor da jovem. As palavras escritas naquele amassado papel a fariam desabar em prantos. "Péssima ideia". Vasculhou mentalmente as palavras corretas para desviar o curso daquela tempestade.

— Vamos Hector, fale! — sua paciência estava absurdamente limitada, a arma ainda em punho.

— Não creio que importa agora. — disse ele, incerto, temendo como ela reagiria.

— Por que?

— Se quisermos que tenhamos sucesso no resgate dos nossos amigos... vamos ter de superar nossas diferenças. Aceitarmos um ao outro da forma como somos. — fez uma pausa, assumindo uma postura tranquila. — Talvez um dia ela ligue. Envie uma carta. Mas, estranhamente, não passei a ter raiva dela. Sei que ela teve uma razão. Estava aflita, desesperada. Ao contrário do que ela pode estar imaginando sobre mim... me sinto satisfeito por te-la conhecido melhor. — disse, suspirando em seguida.

Rosie, por alguns segundos, sentiu-se reconfortada. Olhava-o ainda atônita, segurando tremulamente a pistola. "Se ele tem a prova... eu devo saber onde está!".

Hector tentou uma aproximação de modo que a convencesse a reconsiderar a parceria.

— Sei que é sensata o bastante para assumir o que acabou de confirmar, o que está diante de seus olhos. Esta arma apontada para mim não tem mais nenhum sentido. Pense bem: Eu teria me transformado assim que eu vislumbrasse o cano desta arma. — tentou formar um sorriso, mas parecia difícil mediante o semblante inflexível de Rosie. — Se estivéssemos aqui, um diante do outro, no dia em que fui libertado, seria completamente diferente. Não estou mais submetido à crise. Eu consigo controla-lo agora, voltei a domina-lo por conta daquela manifestação.

— É, acho melhor pararmos por aqui. — disse Rosie, rapidamente guardando a arma em seu cinto. — Como eu disse: Estava testando-o. E você passou. Com muita sorte, mas passou.

Um lampejo de alívio instantâneo acometeu o caçador. Deixou forma-se um leve sorriso amigável.

— Não me olha desse jeito. — disse ela, virando o rosto. — Eu... achei que dizendo ter colocado uma bala de prata na arma você surtaria e acabaria se transformando, pensei que seria o suficiente para despertar seu outro lado...

— Agora está tudo bem. — interrompeu ele, chegando mais perto. — Tenho quase certeza de que poderei garantir mais dois ou quatro anos de estabilidade. — disse Hector, esperançoso.

— E se isso chegar a um ponto em que... — ela hesitou, dando de ombros. — Não sei... Você não consiga suportar mais.

— Isso não vai acontecer. — garantiu ele, parecendo confiante. — Viver como homem e animal ao mesmo tempo requer adaptação... e posso dizer que a obtive.

— É bom que esteja certo. — disse Rosie, em tom firme e sério, assentindo para ele. — Porque enquanto estivermos juntos esta arma vai permanecer comigo, e da próxima vez não vai ser um teste. Você entendeu?

— Claro. — respondeu ele. — Se me ver perdendo o controle... não hesite. Atire para matar. É sério.

— Quanta firmeza. — elogiou ela, dando um sorriso irônico.

— Ainda não me desliguei de quem realmente sou. Meus instintos investigativos me dizem... que devemos ficar atentos quanto aos movimentos do General, tanto quanto ele vai estar aos nossos.

— E quanto à acusação de assassinato? — perguntou Rosie, ainda incerta quanto ao ato do caçador. — As evidências estão lá. Se estiverem armando alguma cilada...

— Holt só conseguiria uma prova definitiva se me visse transformado. Ele não vai tentar nenhuma estratégia desnecessária. Não, na verdade ele tentou conseguir uma prova hoje mesmo. — disse Hector, novamente tornando a refletir a respeito da suposta armadilha idealizada pelo General com a única finalidade de extrair uma prova definitiva das especialidades da dupla. — Se caso matássemos os miméticos com facilidade, resolvendo tudo em um curto período de tempo... Sim, é isso! — estalara os dedos, empertigando-se.

Rosie o olhou intrigada.

— O que foi?

— Ele queria matar dois coelhos em uma só cajadada. — afirmou ele, com total segurança, mas, naturalmente, sem utilizar da clareza.

A jovem fez cara de confusa, balançando a cabeça.

— O que quer dizer com isso? Eu pensava que o General só estivesse de olho em você...

— Não, de modo algum. — dera um sorriso misterioso. — Em nós dois, Rosie. Nós dois estamos sendo empurrados para um cerco que dificilmente sairemos. Ouso suspeitar que ate mesmo uma vigilância esteja sendo preparada quando formos assumir nossos papéis.

— Mas... — ela andou para um lado, tentando depreender alguma explicação. — ... o General não pareceu desconfiar de mim quando eu estava lá...

— O amuleto. — disparou o caçador, a fala rápida. — Enquanto você e Sekhmet estavam lutando... eu fui levado para o QG e lá me submeteram a interrogatório. Num momento, Holt me perguntou o que você tinha de tão especial.

— Espera, não faz sentido. — objetou Rosie, erguendo levemente uma mão para pedir que ele a escute. — O General nem sabia da minha existência enquanto você estava sendo levado... — ela fez uma pausa, desviando o olhar para um canto da sala, a expressão tornando-se vaga. — A menos que... Não, autoridades que agem a favor da justiça não permitem que seus incriminados digam alguma coisa para se defenderem enquanto está sendo algemado. Não havia como você me mencionar.

— Mas mencionei. — retrucou ele, seguro de si. — Afinal, estava engajada tanto quanto eu a participar dos resgates, cedo ou tarde saberiam quem é você.

— O que o General disse sobre o amuleto? — perguntou Rosie, com certa urgência.

— Ele o confiscou. — Hector se aproximara dela. — Veja bem: O Exército possui aparelhagens capazes de detectar atividades extraordinárias em qualquer parte do mundo. É uma tecnologia compartilhada com os caçadores. Foi assim que chegaram até o antiquário, onde Sekhmet estava irradiando muita energia...

— E como ela se apossou de alguém que é ligado ao Exército... — disse Rosie, fazendo com que as linhas de raciocínio fossem se igualando gradualmente.

— Provavelmente Sekhmet achou uma oportunidade segura para conseguir o que quer através do General. — disse Hector, extremamente compenetrado na questão. — Fosse o que tenha acontecido lá... tem a ver com ela. Tem a ver com o fato de você ter sido requisitada. As aulas, as orientações que recebeu...

Rosie estava com a mão no queixo, bastante pensativa.

— Então acredita que o General foi manipulado?

— E subornado, talvez. — especulou Hector, esfregando as mãos, mal aguentando sua ansiedade. — Se o General e Sekhmet de fato se encontraram... ela revelou mais do que ele necessariamente deve saber, inclusive sobre você. — a olhou preocupado.

A pausa dada fizera a sala mergulhar em um sinistro silêncio. A verdade estava começando a se deseclipsar. A suspeita mirada na acusação de que foi uma armadilha poderia ser entendida como a tentativa de confrontar a autoridade do General, se caso seus mais fiéis discípulos soubessem da escapada que os dois vigiados fizeram para se esquivar de qualquer afirmação que fosse feita sobre suas naturezas. Ou se caso escutassem aquela conversa por meios eletrônicos e, certamente, pouco discretos. Holt havia pensado na possibilidade de que poderia te-los conduzido à morte enquanto proferia a ordem? Era algo a se pensar. Há quem dizia que algumas ideias que se materializavam da mente carregada do corpulento homem passavam longe da sensatez, sempre imergindo a equipe de soldados em um risco relativamente desnecessário.

— Agora sabemos que há tecnologia pronta para ser usada nas operações. — disse Hector, sem esquecer de Erick e sua bem-vinda incapacidade de manter sigilo.

— Se Sekhmet e o General estiverem mesmo aliados... — conjeturou Rosie, afligindo-se ao baixar o capuz. — Então de nada servirá uma vigilância à mim. Agora não sei se será para vigiar cada passo meu ou garantir minha segurança.

— Ele pode ter tentado abafar o incidente. — presumiu Hector, indo mais além. — Seja lá o que conversaram, de qualquer forma você ainda é o alvo. O Exército é especialista em esconder segredos.

— Por isso o General viu algo vantajoso em você. — provocou Rosie.

De repente, um estridente barulho ecoou pela sala. Como se algo tivesse sido severamente quebrado. Sobressaltados, Rosie e Hector viraram-se exatamente na direção do estrondo, atônitos. Uma pequena parcela do teto da sala havia sido destruída. Dois indivíduos ergueram-se na penumbra próxima à janela, andando na direção da dupla ameaçadoramente. Ambos exibiam um característico e inconfundível aspecto selvagem, sendo logo reconhecidos por suas presas afiadas, pelos acentuados e olhos penetrantes.

Outros três meta-simbiontes surgiram com estardalhaço na porta dos fundos, quebrando as vidraças das mesmas e rosnando. Relanceando os dois lados, apreensiva, Rosie ficara sem saber como agir primeiramente, sentindo-se cercada por um bando de feras indomáveis. Hector, por outro lado, se afastava lentamente, mas mostrando-se auto-confiante, embora intrigado quanto ao motivo daquele ataque inesperado.

— São seus amigos? — perguntou Rosie, com ironia no ar.

— É claro que não. — respondera Hector, olhando-a com reprovação.

— Então acho que é uma boa hora para se transformar. — sugeriu ela, desembainhando duas adagas, atenta e alerta quanto aos dois lados. — Vamos discutir sobre quem pode ter soltado esses cachorros, se sairmos vivos dessa.

— Odeio admitir... — disse Hector, vendo-se sem saída. Sem completar a frase, despertara seu monstro interior em questão de milésimos com um rosnado, alterando a face segura para raivosa.

CONTINUA...