Região montanhosa de Kéup

— O que significa isso? — se perguntava Yuga, esquadrinhando o ambiente que o cercava na forma de um espaço médio como uma sala de estar com paredes e telhado um tanto desgastados. — Não posso... me mover... — disse, forçando os músculos do corpo da jovem que pareciam terem sido congelados por dentro.

Para sua total infelicidade, Údon, Hector e Lester apareceram por teleporte. Lançou-lhes um olhar embargado de cólera pulsante.

— E de volta ao antigo lar. — disse Lester, vislumbrando alguns pontos do cômodo mais amplo da cabana onde se reunia com seus companheiros de caçada, sentindo uma pontada de saudosismo angustiante pelos tempos mais simples.

— Acabou, Yuga. — disse Hector, entre o arqueu e o caçador estrategista, a postura brava e confiante — Assim que livrarmos o corpo de Rosie da sua influência maléfica, vamos protege-la como se nossas vidas dependessem disso até você voltar. E pode acreditar que vamos estar preparados.

Com um estalar de dedos, Údon acendera o bem confeccionado sigilo do deus da guerra Onúris que se iluminou sob os pés do demiurgo com uma luminosidade amarelada e visivelmente mais forte que as dos convencionais.

— Então é isso. — disse o deus solar, sorrindo com infâmia, a luz do sigilo iluminando-o de baixo à cima, lhe dando um caráter relativamente tenebroso — Já imaginava, mas não esperava que reunissem tanta coragem para fazê-lo. — pausou, desdenhando a armadilha — Não posso silenciar o arqueu... mas não quer dizer que não exista um modo de interromper seu genioso plano.

— O que quer dizer com isso? — perguntou Údon, temerário.

— Não perca tempo — disse Hector, ansioso -, é a nossa deixa. Faça o exorcismo.

— Todos possuem alguém com quem se importe. — disse Yuga, fazendo suspense — Hector e Rosie. — olhara para o arqueu — Údon... e sua preciosa escolhida. — fez uma pausa, deliciando-se ao ver o desespero tomar conta da face do ex-confidente — Com a quebra do acordo entre mim e Hector, não dou nada menos que 30 segundos para esses rabiscos fosforescentes se apagarem para que eu possa visita-la.

— O que ele tá dizendo? — indagou Lester, demonstrando apreensão na voz — Diz que isso mentira. 30 segundos?!

— 95, na verdade. Tendo já se passado 26. — corrigiu Údon, retraído pelo medo e fitando-o com raiva — Não vou culpa-lo, Hector. — disse, virando-se para o caçador como quem pede desculpas — Mas se eu negar meus instintos agora, pode ser que minha honra como arqueu seja completamente perdida. Não posso. — balançou a cabeça em negação — Não posso deixa-la morrer. Me perdoe. — falou, desaparecendo em um piscar de olhos, o que despertara imediatamente a revolta em Lester.

— Desgraçado! Covarde! — exclamara o caçador, chutando uma cadeira, inconformado pela decisão inconsequente do arqueu em deixa-lo sozinhos com Yuga.

— Lester, pense antes de falar. — aconselhou Hector, afastando-se do sigilo ao virar-se para o amigo e convence-lo — Olhe pra mim. — tocou-o no ombro — É Alexia. Se estivesse no lugar de Údon, o que você faria?

— Será que não passou pela cabeça dele que foi pego num blefe? — questionou o caçador, exasperado.

— 15 segundos... — disse Yuga, absorvendo a energia contida no sigilo. Por reflexo, Hector virou-se e enxergara as linhas do símbolo perdendo luminosidade rapidamente, logo erguendo seu olhar espantado para o corpo de Rosie que reluzia fortemente graças ao progressivo aumento de poder, refletindo até mesmo nos cabelos loiros que esvoaçavam tal qual a capa vermelha. — Estão sentindo o ar mais abafado? Se os incomoda, então eu sugiro que saíam para tomar um ar antes que fique pior.

Uma adrenalina obrigou Hector a buscar uma salvação urgentemente no menor tempo possível.

— Rápido, Lester, vamos sair daqui, depressa. — disse o caçador, quase que puxando o amigo pela manga da camisa, encaminhando-se para a porta a passos largos.

Na corrida desesperada, o caçador estrategista dava rápidas olhadelas para trás, apavorado.

— Ali! — disse Hector, apontando para uma rocha praticamente do tamanho de um carro, direcionando-se mais veloz até ela com o companheiro atrás. Ambos esconderam-se e agacharam-se com segurança por detrás da grande pedra.

Dentro da cabana, Yuga intensificara sua reluzente aura coruscante que preenchia cada polegada do recinto, ultrapassando pelas janelas em alguns feixes. Os olhos e a boca iluminaram-se fulgidamente até o ponto de liberação da energia alcançar seu pico explosivo que destruíra a cabana instantaneamente e alastrando-se aos arredores em chamas densas.

O fogo avassalador chegara até a rocha na qual Hector e Lester protegiam-se, passando como um furação infernal acima de suas cabeças.

— Já sinto minha pele chamuscando! — disse Lester, com os olhos apertadamente fechados em pavor.

A tempestade de chamas dissipara-se velozmente.

— Acho que já podemos ficar expostos. — disse Hector, confiando em sua intuição ao se erguer ao poucos e parecer não estar sentindo a presença de Yuga.

— Continuaria aqui se fosse você. — disse Lester, cauteloso — Ele pode voltar só pra nos fritar de vez.

— Não. — retrucou Hector, levantando-se mais rápido, as mãos seguradas na pedra, logo enxergando a extensão devastada do campo que circundava a cabana. — Ele não vai nos matar, desde que o permitamos explorar seu potencial. É o seu principal objetivo, atrás de enfrentar Abamanu.

— A barra está limpa então? — perguntou Lester, mantendo-se hesitante. Hector preferiu o silêncio ao encarar aquela visão horrenda e entristecedora — Tudo bem, vou considerar essa cara de espanto como um sim. — disse Lester, se levantando, logo assustando-se com o se deparara.

Toa a área ao redor da cabana estava com o solo enegrecido pelo calor das chamas ardentes, cujos vestígios ainda se viam em alguns pontos. Em linhas gerais, uma destruição incendiária e extrema.

— Não sobrou nem um tiquinho de grama. — disse Lester, atrás de Hector , visualizando o campo totalmente queimado, espantando a fumaça com a mão direita. — Olha... vamos recapitular: Rosie aceitou ser armadura pra um deus insano, você e ele fizeram um acordo, nosso plano de derrota-lo foi por água abaixo, o antigo QG da Legião já era... — olhou para Hector que, de costas à ele, observava a destruição silencioso, dando uns passos em sua direção — Ou a gente rastreia o barba cinza calças borradas pra arriscar um plano B... Ou podemos pular para o plano F... de funerário.

O emudecimento de Hector durou por mais alguns segundos.

— Ainda não perdi as esperanças. — disse o caçador, virando-se para o companheiro — Podemos localizar Údon se formos até Croydon. É lá onde estão Alexia e Eleonor.

— Ah sim. — aquiesceu Lester, assentindo, mas logo franziu o cenho em confusão — Espera... Quem é Eleonor?

— Não importa, já perdemos tempo demais. — desconversou o caçador, seguindo em frente — Com Áker ocupado, só nos resta irmos por nossa conta. Údon não só obedeceu ao instinto, como também viu um refúgio seguro nessa aproximação com Alexia. Na verdade, eu até suspeito que ele sabe que será encontrado cedo ou tarde, aconteça o que acontecer, está ganhando tempo para solidificar sua relação com Alexia a tempo de apostarmos no próximo passo. Ele não teve escolha, precisou sacrificar o plano em prol da segurança de sua eleita. Devia compreender isso tanto quanto eu, Lester.

— Ahn... É que eu... Sim, eu assumo, fui um tremendo idiota. — desabafou Lester, rendido ás desculpas por sua inflexibilidade, coçando a parte de trás da cabeça ao seguir Hector — Mas você ouviu o que ele disse. Pareceu que ele ia fazer mais pela própria honra, ao próprio ego, do que pela Alexia.

— Gosto de acreditar que é pelos dois. — declarou Hector, sendo realista.

A aparição repentina de Áker à alguns metros de distância os fez se virarem quase que em simultâneo. O ex-segundo em comando do exército de Yuga observava o cenário devastado pela fúria de seu outrora imperador.

— Áker. — disse Hector, andando até o arauto em ritmo rápido, enquanto Lester vinha por trás — E então? Conseguiu algo a respeito das vítimas?

— Chamei reforços. — informou o arauto, desviando o olhar sério para a dupla — Os estragos causados... são extremos de tal forma que não podemos deixar que os mortais lidem com essa realidade tão precocemente.

— Como assim? — indagou Lester, levantando uma sobrancelha.

— É uma questão de segurança. Nenhum ato de terror provocado por ele deve ser assimilado, e pensando nisso recorri ao meu pequeno grupo para tomar as medidas preventivas e eliminar qualquer iminência de efeitos a longo prazo. — explicou Áker, objetivamente — Sei que não tenho muitos ao meu lado, mas os encorajei a serem firmes e vigorosos, não deixar essa calamidade desanima-los e força-los a entregar os pontos. Muitos que apoiavam a minha causa passaram para o lado de Sekhmet, por ainda acreditarem que sou favorável a nova política do imperador.

— Sorte a sua ter convencido os poucos que restaram. — disse Hector, mostrando-se consolador — Como esperam contornar todos os danos?

— Estamos considerando um método eficaz, porém ainda deve ser revisto com cautela. Não deve demorar até que tomem a decisão correta. — disse o arauto, assentindo positivamente. — Onde está Údon?

Lester sentiu-se no direito de responder.

— Ahn, mas o desgraçado escapou, o plano não foi...

— Isso eu já percebi. — retrucou Áker, logo expressando desconfiança — Quero saber por que Údon não está com vocês. — fechou os olhos por um segundo, imaginando a razão — Não me diga que...

— Não, ele não abriu mão da aliança. — disse Hector, erguendo de leve uma mão para acalma-lo — Acontece que ele foi indiretamente coagido a procurar Alexia por uma chantagem de Yuga com base na quebra do acordo. E, como pode imaginar... — demonstrou certo desalento — ... isso fez com que perdêssemos a chance valiosa.

— Mas a gente não vai desistir. — disse Lester, surpreendentemente determinado, alguns fios no alto de seu cabelo curto e preto balançando com o vento — Não vou me permitir fraquejar logo agora que cheguei no nível máximo de caçador.

Hector deu um leve sorriso fechado e bem humorado ao amigo, tocando-o no ombro.

— Vou leva-los de volta ao Casarão. — decidiu Áker — Enquanto ficam em segurança, vou rastrear Údon, tenho certeza que ele não vai dificultar em vista das circunstâncias.

— Está bem. — concordou Hector, a expressão séria — Certamente ele quer se encontrado. Só precisa de um tempo ao lado da pessoa que ele jurou proteger.

***

Ifley, Oxford

A residência antes pertencida ao desconhecido Christian Nevook possuía uma visita específica naquela tarde ensolarada. Ao entrar devagar, Údon sentiu a reação com um nó na garganta quando bateu os olhos nas belas madeixas ruivas alaranjadas da pessoa que estava sentada de costas à ele no sofá de couro castanho caramelo. Estacado, ficou sem a menor ideia de como se apresentar. "Previ que eu fosse convida-la, não que ela viesse sem meu consentimento. Pelo visto, a ligação se estendeu até demais. Mas ela finalmente chegou à mim. Espero não assusta-la...".

Foi andando a passos vagarosos e quase inaudíveis.

— É bastante tímido para alguém com tamanho poder. — disse Alexia repentinamente, fazendo-o estremecer e apressar o ritmo dos passos — Vamos, só quero conversar. Não estranhe eu estar tranquila no meio de toda essa situação.

O arqueu se pusera diante dela com rapidez, um pouco desajeitado e visivelmente nervoso.

— Em primeiro lugar: Não tem autorização para pegar café sozinha, poderia esperar que a servisse. — disse Údon olhando-a com firmeza — E em segundo lugar: É um prazer tê-la aqui. — deu um sorriso amigável.

A vidente o estudou por um instante, o semblante de gratidão bastante nítido. Sorriu de leve, depositando a xícara e o pires na mesa.

— Bem, nem sei como agradecer... — disse ele, um tanto acanhada — Fico... lisonjeada. — ergueu os estonteantes olhos verdes para o deus-profeta — Vindo de você é honroso. Posso sentir. É estranho, mas creio que com o tempo eu vá me acostumar.

— Ahn... — disse Údon, sentando-se no sofá à frente do qual a vidente estava, inclinando-se para ela em seguida, pigarreando — Posso assegura-la de que está fora de perigo ao meu lado. E peço desculpas se meu poder psíquico a incomodou...

— É exatamente sobre isso que vim tratar. — disse Alexia, sem rodeios, fixando seu olhar concentrado no arqueu — Eu saí da casa da minha amiga, uma bruxa, ela conhece Hector e ele a informou de que você é uma entidade com avançados poderes psíquicos, designada a eleger... pessoas como eu.

— Então era mesmo uma mulher. — disse Údon, desviando o olhar com um sorrisinho enigmático, saindo do foco — Uma bruxa?! Isso é interessante. E explica porque não quis nos contar.

— Como é? — indagou Alexia, perdida, franzindo o cenho.

— Ah, não, nada demais. — disse o arqueu, recompondo-se — Bem, você... Você quer saber tudo sobre mim. Tudo bem, é justo, mas vou ser cuidadoso em não alongar a história. A coisa anda pegando fogo lá fora e o nosso tempo ficou bem mais curto.

— Ah, é verdade. — soltou Alexia, pondo as mãos na cabeça ao lembrar da situação de Rosie e deslizando-as sobre as maças do rosto, recostando-se no sofá — Dei tanta atenção pela minha ansiedade para encontrar você logo que acabei me cegando ao problema da Rosie. — fez uma pausa, olhando para o escriba de Abamanu com nervosismo — O que aconteceu? Como ela está?

Era forte o aperto no coração sofrido pelo arqueu ao ouvir o tom alarmado da jovem profetisa. Por mais que achasse estranho, ele tinha de admitir que uma semente de empatia foi plantada graças ao apelo de Hector, Áker e Lester, principalmente de Hector, e interromper o crescimento dela só o faria considerar-se um fugitivo egoísta e covarde que não se dá ao luxo de arcar com as consequências de seus atos por um bem maior, pondo sua própria sobrevivência à frente de uma frágil vida humana que foi severamente violada. As mãos sobre os joelhos fecharam-se e ele exibiu certa tristeza.

— Nada bem. — disse ele, secamente.

— O que realmente aconteceu? — perguntou Alexia, inclinando-se com a face embargada de aflição.

— Ela aceitou ser o receptáculo de Yuga em troca da liberdade de sua mente. — disse Údon, sem muita clareza.

— Yuga!? — disse a vidente, surpresa, automaticamente rememorando a primeira sessão de regressão na qual se viu como espectadora do confronto titânico entre as duas divindades há 500 mil anos — Não pode ser... Libertar a mente dela? De quê?

— Da minha influência. — revelou Údon, sem medo — Eu fiz isso com ela. Fui um agente duplo.

— Você o quê? — indagou Alexia, elevando o tom, levantando-se depressa e olhando-o com confusão.

— Está bem, sei o que deve estar pensando — disse o arqueu, deixando esvair a tranquilidade -, sou um traidor, talvez merecedor de sofrer punições que me conduzam à morte, mas... — pausara, sem saber como tentar convence-la de modo mais esforçado.

— Tudo faz sentido agora. — disse Alexia, pensativa, mas não menos abalada — Não foi coincidência eu ter sofrido com a ligação no mesmo dia em que o Hector liga para a Eleonor avisando que a Rosie teve um surto psicótico a partir de uma dor de cabeça. — olhou-o, séria — É tudo parte do plano de Abamanu, não é?

— Sim. — confirmou Údon, assentindo — Mas por favor — levantou-se -, tudo o que fiz foi para manter-me vivo. Sem mim todos vocês estariam às portas da aniquilação total. Yuga está por aí espalhando terror e destruição, usufruindo de um corpo que não é seu e que detém um poder que virou sua mente do avesso. Eu fiz uma escolha, Alexia. Por obrigação, mas fiz. Então, por favor, não me rejeite, não me odeie e nem me veja como um criminoso.

A vidente permaneceu em silêncio por vários segundos, aparentando não ter ideia do que decidir.

— Por onde esteve... antes de me encontrar?

— Com Hector e o amigo resmungão dele. — respondera, o tom mais calmo — Estávamos a um passo de arrancarmos Yuga de Rosie, no entanto... o miserável mencionou você. O resto da história é bem previsível. — expressou confiança na face — Larguei um plano que tinha uma certa chance de falhar para vir proteger você.

— Me proteger?! E quanto à Hector e Lester? — questionou Alexia, cada vez mais duvidando das intenções do mentor — Os deixou lá para morrer?

— Claro que não. Obviamente, eles são espertos, deram um jeito de escaparem ilesos, isso eu garanto.

— É bom mesmo. — retrucou Alexia, mantendo sua reação negativa à revelação — Olha... Eu acho que... é melhor eu voltar.

— Não, não, você deve ficar. — insistiu Údon, segurando delicadamente o braço direito da vidente — Independente dos meus erros, tem que aceitar que é comigo onde deve aprender mais sobre si mesma. Eu faço questão. Por favor. Você... é extremamente importante pra mim. — tocou nas brancas mãos da jovem. — Não me abandone.

A imploração nos olhos do arqueu tocava a sensibilização fácil da vidente.

"É inevitável... Vejo uma sinceridade transbordar dele que me atrai, mas... Não sei o que pensar, não sei como me decidir, ele mentiu... Mas eu também guardei segredos por muito tempo, não tenho direito de apontar o dedo e acusa-lo. É como se depois dessa revelação uma boa parte daquela empolgação se perdeu. Agora imagino como Rosie se sentiu. Porém, meu caso é um pouco mais diferente. Rosie e Hector ainda estavam plenamente conhecendo um ao outro naquela época, já eu e ele... sinto como se tivéssemos um vínculo forte desde o início, e é exatamente a força desse vínculo que me leva a reconsiderar apoia-lo, mesmo hesitando.".

— Está bem... — disse o arqueu, parecendo rendido, afastando-se — É inútil força-la. Volte para sua amiga bruxa... se sente-se mais à vontade com ela, mais segura e confortada, não vou convence-la do contrário, você é livre.

— Espere... — disse Alexia, com menos relutância na voz — Posso não confiar totalmente em você, mas a última coisa que quero é que se magoe e se torture por minha causa. Honestamente, eu sinto que semanas com a Eleonor não se comparam a minutos diante de você. Ela me ajudou, fez o melhor que pôde, mas tenho consciência de que você vai me mostrar um longo caminho a percorrer onde eu vá encontrar o meu eu por inteiro. Então... — baixou um pouco a cabeça, o olhar meio distante — ... sim, eu quero sua ajuda, eu... preciso saber mais sobre você para eu me conhecer melhor.

Um sorriso de satisfação formou-se em Údon.

— Acho que temos um tempinho para uma longa história resumida. — disse ele, reavivando a esperança.

Alexia sorriu abertamente, seus límpidos dentes realçando sua beleza. Voltou a se sentar.

— Bem, vá em frente.

***

Liverpool — 17h22

O movimentado centro da cidade do noroeste, sob o céu azul em tons levemente alaranjados do poente, estagnou sua atenção para um elemento ligeiramente atípico e que ganhou arquejos de espanto pela maioria da população que observava e murmurava a respeito da aparição inesperada.

Um grupo de homens de ternos sociais — dois deles com chapéus — que saíam de um prédio de advocacia reuniam-se à multidão curiosa ao invés de adentrarem nos seus carros e retornarem ás suas casas. Multidão esta que se avolumava a cada minuto.

As vestes da misteriosa garota que pareceu ter surgido do nada chamavam atenção em uma escala de reação bastante oscilante. Muitos se perguntavam, veementemente, quem era a tal jovem com roupas extravagantes e de capa vermelha que julgavam estar perdida. Mas faltava algo para concluir esse julgamento com melhor segurança. A expressão dela, aliada à postura firme, pouco sinalizava um desamparo esperado de alguém naquela condição. Alguns podiam jurar, com todas as forças, que perceberam o exato instante no qual viram-a surgir de modo quase fantasmagórico. Ouviam-se cochichos a respeito.

— Calem-se! — bradou Yuga, a voz de Rosie retumbando sobre todos que assustaram-se com sobressaltos e tremulações como se tivessem escutado um som reproduzido como mil trovões.

O trânsito congestionara devido ao alvoroço, com sons exaltados de buzinas ouvidos ao longe.

— Essa garota é insana? — indagou uma simples mulher loira da área residencial, procurando manter distância, lançando um olhar de estranheza — Como ela apareceu assim tão de repente? — tremia devido ao som da voz da jovem estranha.

— Ouçam-me — disse Yuga, dando alguns passos adiante — Estão prestes a testemunhar algo que desafiará todos os conceitos que a simples existência humana construiu. Vocês criaram regras e ensinamentos baseados em seres como eu... — ficou pensativo por um segundo — ...como eu costumava ser... Mas nunca questionaram os próprios limites da ignorância. Eu estou aqui para mostrar que estavam completamente enganados esse tempo todo. E vou adorar vê-los gritarem por vidas. — ergueu seu braço direito, manifestando sua aura pressionadora sobre todos ao seu redor.

Uma série de gritos de dor ocupou o espaço intensamente, com várias das pessoas que encaravam a garota desconhecida e louca ajoelhando-se com mãos na cabeça e olhos fechados sendo atormentados por uma força submetedora que se efetuava como um peso de toneladas sobre as costas misturada a um zumbido agudo e ensurdecedor. Por conta do forte impacto da enorme aura, carros tinha seus vidros quebrados sequencialmente e suas latarias amassadas como papel, tal efeito estendendo-se aos prédios e estabelecimentos comerciais cujas vidraças estilhaçavam ao mesmo tempo.

— Isso... Curvem-se... — dizia Yuga, sorrindo maleficamente — Gritem por misericórdia. Até reconhecerem verdadeiramente aquele que devem louvar em absoluto temor.

Uma voz feminina quebrara a atmosfera de súbito.

— Eles não devem nada à você. Se quer um conselho: Nenhum deles vale o esforço. — disse Sekhmet, parada com os braços cruzados próxima a um poste em um ponto próximo à estrada onde se via o engarrafamento à alguns metros — Desperdiçar energia com tortura só para provar seu valor é um passo bem preguiçoso. — dera dois passos adiante — Um deus com auto-controle saberia disso.

Yuga foi virando-se lentamente, a expressão enfurecendo-se aos poucos, logo desfazendo seu poder submissor sobre os inocentes que caíram sobre o chão enfraquecidos.

— Essa é você de verdade. Por um momento imaginei que meu ex-mensageiro criou uma cópia fajuta para me ludibriar como distração a mais uma tentativa desesperada de me separar à Rosie Campbell.

— Vim por conta própria. — assegurou a deusa, firme na postura — Não que eu esteja afim de me aliar á eles, mas isso não significa que vou ficar satisfeita apenas assistindo.

— Então por que veio? — perguntou Yuga, levantando uma sobrancelha — Fui generoso com Mihos, não espere que o mesmo aconteça à você.

— Eu vim na espera de enfrentar um medo que fez parte de mim durante todo o tempo em que desejei a cabeça de Rosie Campbell na palma da minha mão. — disse a deusa solar, exprimindo raiva no tom — Lutei esse tempo todo para evitar, a qualquer custo, o que está bem na minha frente. Agora só me resta encarar a verdade: Nada será como antes. — deu de ombros, balançando de leve a cabeça em negação.

— Se está pensando em salvaguardar o que restou da nossa família tentando me impedir — disse Yuga, desafiador — , eu diria que já cavou sua própria cova. Olhe pra eles. — relanceou as pessoas que corriam apavoradas por todos os cantos em um alarido tresloucado — Vermes de carne e ossos desesperados ao sentirem na pele o poder de um verdadeiro deus! — deu uma risadinha infame — Não é de dar dó? São como... uma colônia de formigas, em que basta matar uma para todas irem à loucura.

— Não os culpo por agirem pelo instinto. — disse Sekhmet, severa — São imperfeitos, frágeis e patéticos, mas quem sabe, com uma metodologia mais eficaz... — olhou-os de soslaio — ... talvez um dia aprendam a viver. Você se tornou refém da sua própria loucura. Essa é a diferença entre você e eles.

— Deixa eu adivinhar: Prefere lutar para reconquistar minha confiança? Se sacrificar para ser lembrada como uma guerreira que morreu lutando pela honra do império?

— Não. — respondeu Sekhmet, apertando o passo em direção ao deus solar — Quero lutar... exatamente como manda o protocolo: Até que a morte nos separe.

— Com certeza não será a minha. — retrucou Yuga.

Ambos colidiram-se supervelozes gerando um impacto fatal. Yuga a erguera com sua extrema força e a arremessara brutalmente contra um carro de cor preta estacionado próximo ao prédio de advocacia.

Amassando completamente a parte superior do veículo, o corpo de Betsy Rossman que a deusa usufruía estava praticamente imobilizado pelo ataque.

Yuga estalara os dedos da mão esquerda, explodindo o carro instantaneamente, com alguns pedaços do mesmo voando pelos lados. A densa nuvem flamejante subira com bastante rapidez. O deus solar, confiante do golpe, sorriu de canto debochadamente. Porém, viu-se agarrado por trás pelas mãos ardorosas da esposa que teleportara-se milésimos antes da explosão.

— Ora, sua... — disse ele, logo depois "voando' para trás a fim de fazê-la larga-lo quando se colidisse contra alguma parede. As costas da deusa foram de encontro à uma pilastra de um prédio, rachando-a completamente, em seguida recebendo uma cotovelada forte de Yuga que a fizera sangrar e, por conseguinte, perder a firmeza do agarro. O deus solar virou-se e a pegou pelo pescoço, tirando-a do chão e em seguida jogando-a violentamente.

Levantando-se rápido da pequena cratera formada, Sekhmet, através da mão direita aberta, o empurrou telecineticamente, fazendo com que os pés se arrastassem no chão. No entanto, o efeito surtira fracamente, para o total azar da deusa que fitava o resultado desconcertada.

— Sua brisa refrescante mostra que continua amável. — ironizou Yuga, com um sorriso canalha. — Até fez umas cócegas. O que acha da minha? — perguntou, realizando o mesmo ataque. Sekhmet dera um grito rápido ao ser abatida pelo golpe, mil vezes mais efetivo, sendo empurrada até chocar-se contra um outro veículo severamente danificado, quase fazendo-o pender para cair.

Enquanto os minúsculos cacos de vidros caíam sobre seus ombros, a deusa sentiu um gosto molhado e inconfundível na boca, comprovando ao encostar sua mão direita. Ao ver certa quantidade de sangue na mão, admitiu estar com a derrota garantida. Mas ainda precisava atrasa-lo por mais um tempo. "Meu emblema vai recarregar em breve. Só preciso segura-lo por mais 30 minutos. Mesmo que essa cidade seja varrida do mapa."

— Vamos mesmo continuar com isso? Estou ficando entediado. — disse Yuga, andando na direção dela. — Só um lado dessa luta vai se preocupar com desgaste. Posso liberar e repor o que foi gasto na mesma medida.

"O que ele está dizendo?! Não pode ser verdade..."

— Não vou parar... — disse a deusa, ignorando as feridas no rosto — Até fazê-lo pagar.

— Até que essa cidade vire pó? — indagou Yuga, curioso quanto ao desafio.

— Não me importo! — retrucou ela, trincando os dentes em cólera — Eu vou desintoxica-lo e depois tranca-lo numa cela e jogar a chave fora!

— Ótimo. Vou gostar de vê-la tentar. — disse Yuga, exibindo uma iluminação amarelada em seus olhos que progredia rapidamente... até culminar em duas rajadas ópticas e retilíneas.

Sekhmet não demorou nenhum segundo ao imitar o movimento e atacar.

Os raios chocarem-se com extrema intensidade proporcionando uma espécie de "cabo de guerra", sendo a parte de Yuga a que levava uma evidente vantagem. Um constante "vai-e-vem".

O deus solar rira de uma forma insana como nunca antes vista, impondo mais força a sua rajada. Em seguida cerrou os punhos e dera um estridente urro que ajudara a fortalecer o ataque, seus cabelos loiros esvoaçando quase que em câmera lenta.

A deus solar tentou forçar um pouco mais, embora sentindo as pernas ficarem bambas. Urrara no mesmo tom num esforço dobrado, sua rajada sendo empurrada de volta ao meio do campo de batalha... entretanto, rivalizando por pouco tempo.

Com um impulso ainda mais forte, as rajadas de Yuga obtiveram a vantagem, empurrando as de Sekhmet até chegar ao ponto de atingi-la certeiramente e fazê-la colidir com uma loja de joias que explodira com o abalo, afetando dois carros que estavam próximos que praticamente voaram até capotarem repetidas vezes.

O incêndio na loja alastrou-se pelas proximidades, alertando as pessoas ali por perto a solicitarem a emergência imediatamente.

Quando pensou que havia terminado, Yuga detectou, extra-sensorialmente, um objeto vindo em sua direção... pelos céus. Ainda sentia a energia de Sekhmet enfraquecida, mas passou a se concentrar no tal objeto que tinha ele em sua mira

Virou-se com pressa, esticando o braço direito e erguendo-o um pouco com a palma da mão aberta contra um míssil disparado por um avião que sobrevoava pela região.

A colisão evocou uma explosão arrebatadora que gerou um impulso pelos arredores, fazendo vidraças de prédios localizados a um raio de dois quilômetros estilhaçarem simultaneamente. Pessoas continuavam correndo e lutando por suas vidas para se protegerem, ´tendo uma boa parcela ficando mais calma graças à chegada do Exército Britânico com sua intervenção rigorosa.

Em velocidade aterradora, Yuga absorvera todo o fogo gerado pela explosão, com os olhos fechados, mas ainda deixando resquícios de brasas espalhados à sua volta. Ao abrir os olhos, sentiu o poder ser reabastecido em toda sua plenitude.

Cerca de oito carros militares se avizinhavam, com potentes metralhadoras acopladas na parte superior. O comandante do grupo — um homem troncudo e de rosto rechonchudo com barba por fazer — bradou sua voz autoritária enquanto alguns soldados desciam dos veículos e se juntavam fortemente armados.

— Fique onde está! Não se mexa! Um movimento brusco e abriremos fogo!

Yuga, indiferente à mobilização, voltou-se para o grupo que lhe apontavam as armas. Percebeu que do outro lado da rua vinham em torno de três tanques super-pesados, com suas esteiras barulhentas passando pelo asfalto e canhões direcionados ao alvo.

— Diga para seus lacaios não chegarem muito perto, quem sabe assim eu os deixe viver por mais... algumas horas. — dissera o deus solar, zombeteiro. O comandante descera do carro principal, andando para falar diretamente com o causador daquele rebuliço.

— Rosie Campbell, as leituras de EMF implicaram considera-la uma anomalia classe Alfa, e além de receber a classificação terá o direito de permanecer em silêncio até que sua sentença seja declarada pelos crimes de genocídio e terrorismo.

— Não vão nem perguntar porque meu cabelo mudou? — questionou ele, enrolando alguns fios no dedo indicador esquerdo, assumindo uma direção conveniente e visando algum tipo de saída que lhe beneficie em curto prazo ao se passar pela jovem, em uma atitude ousada e certamente presunçosa.

— Como se atreve a zombar de nós só porque é uma aberração com enorme poder destrutivo? — perguntou o comandante, exaltado.

Sem responder a pergunta, o deus estalara os dedos da mão direita, teletransportando para perto um soldado aleatório da equipe de força-tarefa móvel. O rapaz ficara sem ação ao perceber ter se deslocado de um ponto ao outro em velocidade impressionante.

— Como eu vim parar...

Yuga não permitiu que concluísse a pergunta ao pega-lo pelo pescoço com a mão direita e levanta-lo.

— Estão afim de uma barganha?

— Socorro... — dizia o soldado, sentindo-se asfixiado pela imensa força aplicada.

— Ponha-o no chão agora ou seremos obrigado a atirar! — vociferou um soldado, com todos os outros ganhando mais proximidade.

— O que você quer? — perguntou o comandante, recebendo olhares de estranheza ao concordar com a negociação.

— A localização do meu confinamento. — disse Yuga, incutindo mais força no aperto — A meditação é um caminho seguro para o fortalecimento da mente e do corpo.

— Acha que vai para um clube de campistas? — indagou o comandante, franzindo o cenho — É a cela de contenção revolucionária que vai fazê-la sentir uma dor a ponto de desejar ter morrido. Com placas geradoras de energia eletrizadas em mais de 2.000 volts.

— Serão as melhores férias que alguém como eu poderia merecer. — retrucou o deus solar, irônico.

— Então, se concorda em vir conosco, cumpra sua parte. — ordenou o comandante, severo no tom — Ponha-o no chão, inteiro!

Um sorriso de escárnio foi tracejado na face da recém odiável Rosie Campbell.

Em um golpe surpresa e traiçoeiro, o deus solar quebrara os ossos do pescoço do soldado com a mão que o segurava, em seguida largando-o no chão como papel descartável.

O comandante, em lamento, fechou os olhos por um segundo.

— Você disse inteiro. — disse Yuga, logo mostrando-se rendido ao poder do Exército Britânico ao juntar os pulsos — Não mencionou vivo. Vocês tem a mim agora, agradeçam minha generosidade.

— O General Holt terá uma longa conversa com a senhorita. — disse o comandante, algemando-o — Vamos destrinchar sua natureza sobre-humana... e depois garantir que coisas como você sejam banidas do convívio em sociedade.

— Como se esse mundo os pertencesse. — rebateu Yuga, mantendo o sorriso sacana.

Por um instante, o comandante o encarou profundamente, para depois puxa-lo com força.

— Venha. — disse, com rigor.

Camuflada pela fumaça que expelia da loja destruída ainda em chamas, à alguns metros de distância, Sekhmet observava atenciosamente aquele que um dia amou para uma vida eterna ser levado pelos soldados que acreditavam estarem prendendo Rosie.

Os olhos azuis claro realçavam-se com a expressão séria indicando que teimaria no objetivo de reaver o deus honesto e justo que acreditava existir em algum lugar por baixo daquela casca refém.

CONTINUA...