Capuz Vermelho - 3ª Temporada
55 Deixe queimar (Parte 1)
Notas iniciais
Reconhecidamente, era o mesmo bar/restaurante no qual Údon trabalhara para manter o disfarce. O primeiro a notar e focar sua atenção na pessoa que ali adentrava fora o barman — um homem aparentando estar na casa dos 30, caucasiano, cabelo preto em corte social e penteado para um lado, bigode pequeno do tipo "escovinha" e vestindo um colete preto por cima de uma camisa branca com mangas longas -, erguendo aos poucos sua coluna, deixando de organizar os pratos que ficavam guardados atrás do balcão apenas para observar, com nítida estranheza, a figura que caminhava a passos estonteantes e calmos, sentindo-se um tanto consternado com o ar soberbo exalado por ela.
O restante dos clientes davam constantes olhadelas preconceituosas. Alguns até disfarçavam, discretamente olhando para seus acompanhantes, mas visualizando de soslaio. Outros riam sem serem chamativos. Outros faziam comentários maldosos e questionadores como "Essa garota foi barrada de algum baile a fantasia e resolveu sair por aí para inventar sua própria moda?". E outros observavam fixamente, um tanto constrangidos, parecendo sentirem o mesmo tipo de aura superior que o barman constatou.
A jovem branca como a neve de cabelos loiros e vestimentas extravagantes tornara-se o centro das atenções em questão de segundos. Seu sorriso pouco indicava vergonha por estar sendo ridicularizada disfarçadamente pelas pessoas. Disparava, a cada passo, olhares altivos para cada um deles, de todos os lados, enaltecendo sua face e postura segura e inabalável de auto-confiança.
Só não sabiam que a garota perdera a liberdade. E que já não estava mais ali.
O bar-man desfez da "anestesia" que aquilo lhe causava e tratara de intervir ao se dar conta do quão estupefatos alguns de seus clientes estavam. Deu a volta no balcão, encaminhando-se com rapidez nos passos até a garota, sem largar o pano com o qual enxugava os pratos.
— Moça... Me desculpe, mas... — dizia ele, com as mãos juntas enroladas no pano, tendo a sensação estranha de que falar em repreensão poderia significar um erro do qual se arrependeria. Engoliu a saliva, olhando-a com certo temor. — Está envergonhando os clientes. Por gentileza, eu peço que se retire. — fez uma pausa, olhando de relance para as vestes da jovem, o olhar meio triste. — Suas roupas, elas... não são adequadas ao estabelecimento. Sinto muito.
Uma risada leve e veloz fora a reação da "garota" que o fitava com ar debochado.
— Então é assim que os mortais privilegiados desta parte do mundo se comportam? — perguntou Yuga, olhando para o resto da clientela com enojo. As pessoas retribuíam com expressões sérias e desconfiadas. — Ditando regras limitadoras para determinadas espécies. Patético. — voltou o olhar para o barman — Vou dizer o propósito de minha vinda: Provar o quão vulnerável é esta forma de vida. Provar que meu poder ultrapassa qualquer um já visto. E, sobretudo, provar que estou num patamar que muitos como eu jamais alcançariam. — foi andando, intimidando o barman a cada passo.
— Por favor, moça. É claramente insana. Eu... — gaguejava ele, recuando tremulamente e suando em demasia. Alguns clientes levantavam-se apreensivos para se retirarem do local. — Eu... Eu conheço um excelente psiquiatra que vai saber como diagnostica-la perfeitamente.
— Não preciso ser examinado. — retrucou o deus solar, a expressão tornando-se séria e ameaçadora. — Só preciso... trazer luz aos seus corações.
— Do que está falando? Você... Você é louca! — bradou o barman, sem paciência e já no limite do medo.
Yuga fechara os olhos, sorrindo tranquilamente, emanando uma aura fortemente carregada de calor.
As luzes começaram a tremeluzir e piscar, ao passo em que as pessoas — várias perguntando-se o que realmente estava acontecendo — desconfortavam-se com a intensa onda de calor que acumulara-se em segundos no local. Homens afrouxavam suas gravatas, mulheres e crianças suavam abundantemente e sofriam com a falta de ar súbita.
Um agudo som reverberou seguido de um tremor de terra, causando histeria coletiva repentina. O barman gritava em dor enquanto via a pele de seus braços ganharem um aspecto avermelhado e cair como gotas de água, como se estivesse derretendo em meio à altíssima temperatura que o lugar adquirira. Seu rosto deformava-se em visível derretimento.
As luzes faiscaram até quebrarem-se à medida que o tremor aumentava. Os olhos e a boca de Rosyuga abriram-se brilhando uma intensa luz amarela após o mesmo urrar estridentemente, seus cabelos e a capa vermelha esvoaçando.
Com a grandiosidade e magnitude atingidas, a luz expandiu-se por todo o estabelecimento como uma enorme onda solar, quebrando as vidraças do restaurante, atravessando as aberturas e chamando a atenção de todos que passavam pelas proximidades, fazendo-os pararem para assistirem ao "espetáculo" estupefatos, horrorizados e boquiabertos com o fato surreal que presenciavam. Muitas delas cobriam seus rostos com os braços e encaravam a cena com olhos estreitados.
Dentro do bar, Yuga voltara a estabilidade, olhando com certa satisfação para a quantidade de corpos caídos no chão... completamente tostados — as órbitas dos olhos vazias — e fumaçando um odor forte. Focos de brasas e fogo viam-se nos cantos e entre os cadáveres.
Um pegajoso líquido meio rosado e meio alaranjado escorria e alcançou o pé direito do corpo de Rosie controlado pelo deus solar. Era a pele de todo o corpo do barman — provavelmente misturada com a de clientes de mesas próximas — liquefeita e fervente tal qual lava de vulcão.
— E então houve luz. — disse Yuga, encarando sua obra com um sorriso extremamente malévolo.
***
Área florestal de Raizenbool
Hector havia encerrado a ligação que prometeu retornar a Eleonor caso informações relevantes viessem ao conhecimento dos principais envolvidos. Ergueu o tristonho olhar para os demais companheiros, Lester e Údon, após devolver o fone ao gancho. A atmosfera soava esmagadora para todos.
Sentado no sofá, Lester "brincava" com os polegares com os as mãos juntas e os braços apoiados sobre os joelhos, encarando o nada com uma seriedade que lhe era atípica. Seu sentimento era de luto. Já Údon estava aparentemente calmo, sendo assim o menos atingido pelo impacto do ocorrido, pois já lhe fora absurdamente previsível que aquela chuva de incertezas e desespero prenunciaria uma tempestade ainda pior. Tentou transmitir um olhar de consolo à Hector.
Áker não retornara desde que escutara o chamado de Sekhmet, reacendendo a preocupação sufocante, principalmente em Hector, que andava de um lado para o outro vagarosamente, procurando descobrir uma forma de atrasar consequências extremas e processar toda a emergência do caso a fim de se adaptar completamente. Era presencial uma eminente desistência. Mas barrada por sentimentos ainda mais conflitantes. "Pense, Hector, pense! Pare de querer acreditar que isso significa o fim da linha. Que a promessa não passou de palavras jogadas ao vento em um juramento inútil".
Lester não se conteve, sendo torturado pelo silêncio do ambiente e a inércia.
— Que droga! — vociferou ele, batendo em um vaso de cerâmica posto numa mesinha próxima do sofá, fazendo-o voar até a parede e quebrar-se em vários pedaços. O caçador se levantou, exasperado, dirigindo-se a Hector. — Assim não dá, Hector. A gente não pode ficar, sentar e agir como se não pudéssemos fazer nada!
— Reagir a dor do seu aliado com raiva e impulsividade — disse Údon, palpitante — não vai ajuda-lo a reerguer sua motivação.
— Você fala como se Rosie já estivesse morta. — retrucou Lester, olhando-o estreitamente, com aborrecimento pulsante. — Nós queremos salva-la, porque acreditamos que isso não é o fim! — argumentou, erguendo de leve o indicador esquerdo, repreendendo o Arqueu.
— O que estou tentando dizer é que não deve simplesmente deixar tamanha raiva assumir o lugar da razão. — afirmou Údon, pedindo que a calma fosse restabelecida. — Mas... já era esperado. Já me justifiquei o suficiente para não ser apontado como cúmplice vitalício. — baixou os olhos para o chão, pensativo. — Não quero apenas a redenção. Mas sobreviver a tudo isso, de alguma forma.
— Ah, você quer sobreviver?! — disparou Lester, inflexivelmente, arqueando as sobrancelhas. — Pensa que só você deseja isso mais do que tudo? Olha, francamente, está bem estampado na sua cara que você quer sair de fininho e achar o modo mais fácil de escapar sem nenhum mísero arranhão, ainda que fique ciente que não vai ser um fugitivo pra sempre.
— Em nenhum momento, desde que os encontrei, estive cogitando fugir. Pare de falar tanta estupidez. — redarguiu Údon, o semblante irritadiço.
— Você não nos oferece nenhuma ajuda sequer para termos que lidar com uma bomba atômica ambulante e eu sou o estúpido? — perguntou Lester, esboçando um leve sorriso sarcástico, apontando o polegar para si mesmo rapidamente.
— Você que começou errando ao demonstrar uma raiva que não condiz com o certo a ser feito. — devolveu Údon, aproximando-se lentamente. — Veja seu amigo, Hector. — apontou para o caçador com os olhos — Silencioso, reflexivo, paciente. Obviamente, está elaborando um plano. Por que não toma essa atitude como exemplo?
— Acho que esse trabalho deveria ser mais seu do que dele. — disse Lester, com uma veia de sua testa evidenciando-se decorrente do enfezamento. — É sua responsabilidade dar um jeito de consertar as merdas que você foi obrigado a fazer. Então é melhor pensar rápido num plano, você tem os culhões, não dá pra entender porque acha que não depende de você.
— Eu até pensaria, mas fui contaminado pela sua impaciência revoltante. — rebateu o escriba, logo virando-se de costas para Lester como quem desiste de discutir por esgotamento. — Se as poucas opções continuarem nebulosas, vai significar mais problemas.
— Não conte com isso. — disse Lester, olhando-o com certo desprezo, ao mesmo tempo em que se voltava para Hector. — Você é o líder original dessa equipe, Hector, sempre foi. Você viu aí, eu tentei, mas o barba cinza não quer colaborar. Acho que é melhor você investir mais pesado.
— Acho melhor os dois pararem com a discussão inútil. — determinou Hector, severo no tom e na face, andando para chegar mais perto. Olhou para o companheiro de caçada como quem dá um sermão numa criança. — Lester, está sendo duro demais com ele. — em seguida foi a vez do escriba. — E Údon, é realmente sua obrigação elaborar um plano para pararmos Yuga, a menos que prefira esperar até metade do mundo ser queimado em extinção. Nós confiamos em você.
— É a última coisa que eu esperava que você dissesse. — disparou Lester, discordante, levantando uma sobrancelha ao fitar o escriba que observava a floresta pela janela.
— O mínimo que podíamos dizer para provar que estamos no mesmo time. — justificou Hector, sucinto.
— E cadê o engomadinho? Foi o primeiro a fugir com as calças borradas? — perguntou Lester, lembrando-se de Áker e andando pela sala com as mãos na cintura. Údon virou-se bruscamente ao escutar a clara indireta, esperando fuzilar o caçador com os olhos, mas o mesmo já havia se virado.
Como um fantasma, Áker surgira diante de Lester em nanosegundos, assustando-o naturalmente.
— E falando no diabo... — disse ele, quase tremendo pelo súbito aparecimento e olhando-o dos pés a cabeça.
— Áker. — disse Hector, chegando mais perto do arauto. — Me diga que sua conversa com Sekhmet não foi um plano para distraí-lo.
— Ué, mas essa deusa maluca não estava querendo matar a Rosie? — questionou Lester, meio perdido. — Por que ela distrairia ele só para acelerar a possessão, coisa que ela não queria?
— Estávamos enganados sobre Sekhmet o tempo todo. Ela foi inteligente em esconder suas reais intenções. — dissera Áker, para o completo espanto de Hector. Interessado, Údon empertigou-se logo ao se aproximar. Áker prosseguira: — Todo esse tempo... ela só tentou salvar o império mesmo que o sacrifício de uma vida humana fosse necessário. Ela sabia da lenda e tomou a medida mais drástica possível para impedir que ela viesse a se tornar realidade.
— Então não foi por mera sede de poder... — disse Hector, concentrado em seus pensamentos, compreendendo.
— Seu plano não exatamente consistia em tomar para si a energia bruta. — revelou Áker, mantendo-se tranquilo embora o clima estando pesado. — Se possível, ela a destruiria, após matar Rosie. Mais do que o império, ela lutou para salvar Lorde Yuga de uma auto-destruição pela energia em seu nível máximo. A ambição doentia, desde o princípio, estava naquele em que menos pensamos.
Hector parecia sensibilizado ao ver um vestígio de desilusão na face de Áker.
— Isso não muda quase nada. — opinou Údon, franzindo o cenho. — Sekhmet ainda continua sendo uma assassina, sem compaixão ou piedade. — dissera, o olhar endurecido e sério. — E não se contenha. Ele não é mais seu imperador, não o chame mais de Lorde. — fez uma pausa, passando a assumir uma postura mais acolhedora. — Sei o quão difícil está sendo suportar tamanha decepção. Mas pode supera-la persistindo em lutar pelo o que é certo. Nunca pensei que diria isso... mas você está precisando e é do meu instinto encorajar meus aliados a seguirem fortes na batalha.
— Agora você entende, Údon? — indagou Hector, olhando-o. — Confiamos no que pode ter a nos oferecer. Portanto, não hesite, precisamos de uma artimanha, não importando o quão arriscada ela seja. É salvar uma vida... para pouparmos bilhões.
— Seria uma boa hora para ceder. — disse Lester, de braços cruzados, também atento ao que o escriba sugeriria.
Áker assentiu para Údon, confiante do que ele poderia ser capaz de fazer em prestação de auxílio.
Pigarreando e esfregando de leve as mãos, o escriba preparou-se para apresentar suas ideias.
— Vamos direto aos fatos primeiramente: No fim das contas, Yuga queria ser a própria fênix apoteótica, usufruindo de um poder ilimitado e expansivo. — disse ele, andando pela sala ao explicar. — Rosie Campbell é seu único e verdadeiro receptáculo, sem direito a transferir a energia bruta a nenhum outro mortal, porque obviamente é impossível. Em vez de ascender a uma forma beneficamente superior, entretanto, Yuga tornou-se o que de pior um deus pode se transformar: Um Demiurgo. — revelara, virando-se para os três. — Uma divindade que excede o seu poder máximo e se torna uma criatura inescrupulosa, capaz de até mesmo assassinar seus semelhantes. Tamanho poder distorce sua mente, impedindo que ele faça juízo de suas ações.
— Ou seja, uma máquina louca genocida. — disse Lester, fazendo uma curiosa definição.
— Yuga é incrivelmente um caso inédito na história. — declarou Údon, inteiramente convencido do imenso poder que o deus solar ganhara através do intensamente oscilante estado de humor de Rosie. O escriba suspirou com a boca. — Não temos a menor chance contra um Demiurgo. — olhou de modo inseguro para o trio. — Ma-mas não me interpretem mal, não quero desistir, ele ameaçou me matar se eu não cooperasse. Se era assim sem sua energia bruta, imaginem agora. Um movimento brusco e talvez nos aniquile num piscar de olhos. Precisaremos ser sorrateiros e bem discretos.
— Está bem. O que tem em mente? — perguntou Hector, deixando-se levar pela ansiedade. — Se não podemos atacar diretamente, deve existir um modo de investirmos pelos fundos.
Údon precisou de alguns segundos para realinhar sua estratégia repetidas vezes, andando devagar com um dedo no queixo inteiramente focado.
— Áker, você por acaso estava por dentro desse lance de insanidade divina? — questionou Lester, voltando-se para o arauto.
— Há certos mistérios que só cabiam aos Arqueus preservarem. — disse ele, vendo Údon terminar sua idealização — E é compreensível que essa informação jamais tenha vazado em nenhum panteão. Quem sabe o que aconteceria com uma horda de deuses de intenções obscuras tendo conhecimento disso?
— Então quer dizer que....
— Vocês, mortais, não estão seguros em lugar nenhum. — declarou Áker, interrompendo Lester, soando firmemente categórico — Eras de adoração pura e honesta nada mais significam quando um soberano perde o controle de si mesmo. Eu estou em guerra contra meu próprio imperador e forçado a aceitar que minha devoção não vale absolutamente mais nada. — fez uma pausa, olhando nervoso e apreensivo para os dois caçadores — Isso é como se meu propósito de vida perdera o valor a partir do momento em que ele se proclamou auto-suficiente. Já não me resta nenhum sentimento senão vergonha.
— Áker — disse Lester, mostrando-se surpreendentemente consolador, tocando-o no ombro -, a última coisa que nós queremos é que você se torture por causa disso. Olha, podemos não ser muito chegados, a gente se conheceu de supetão, mas... — sorriu fracamente para ele — ... o pouco que vi de você hoje foi o bastante para eu perceber que você merece um lugar na nossa equipe. Então considere isso um convite para se juntar à nós pra valer. Como um legionário. — olhou para Hector, depois voltou-se para o arauto — Como um amigo.
— Lester tem toda a razão. — aquiesceu Hector, assentindo positivamente — Não queremos que pense em lutar essa batalha sozinho. Porque não vale a pena se esforçar pacificamente com inimigos que não podem ser convencidos com palavras. Falo por experiência própria. — afirmou, olhando-o sério.
Uma centelha de compreensão invadia o âmago do sentinela solar. Escolher entre ir à luta sozinho e desvanecer-se do império passara a ser seu mais tortuoso dilema. Mas tinha plena ciência de qual lado pendia mais na balança. Os fitou confiante de uma decisão que agarrara como se fosse sua própria vida.
— Eu só... tenho a agradecer. — disse Áker, mantendo-se seguro — Será uma honra fazer parte disto. Por Rosie.
— Por Rosie. — disse Lester, erguendo de leve o punho esquerdo fechado.
— Por Rosie. — disse Hector, determinado.
— É, não há mesmo um outro jeito. — disse Údon, finalmente decidido, virando-se para os três.
— O quê? O que foi? Não vai me dizer que pensou demais e acabou sujando as calças? — perguntou Lester, ávido por respostas.
O Arqueu fechou os olhos por um segundo, pronto para falar, ignorando as ironias do caçador.
— Melhore sua interpretação, rapaz. — disse Údon, logo voltando suas pupilas à Áker e Hector — Quis dizer que existe somente uma maneira, proporcionalmente arriscada em relação às outras que descartei. — assentiu com positividade — No mais, pode funcionar.
— Se pode funcionar, então vá direto ao X da questão. — exigiu Lester, no limite da impaciência — "Pode", à essa altura do campeonato, já é bem animador.
— Então lá vai: Vocês, caçadores, devem ter ouvido falar ou já tiveram que lidar com... exorcismos, de demônios, djinns ou outros espíritos malignos. Não é?
— Ahn... Não. — respondeu Hector, olhando com suspicácia contida — Nunca tivemos oportunidades. Está sugerindo que...
— Isso! — empolgou-se Údon, apontando para ele com o indicador direito. — Acreditariam em mim se eu dissesse que é completamente possível exorcizar receptáculos possuídos por entidades maiores?
— Mas tinha acabado de nos dizer que Lor... — Áker cortou a frase, percebendo — ... que Yuga havia se transformado em uma coisa diferente, superior e maléfica. Um Demiurgo, como você disse. Como esse processo funcionará se vamos estar diante de uma força que nenhum outro igual à mim ou maior do que eu testemunhou antes? Para cada opção há um porém. Se quiser que acreditemos que isso dará certo, precisamos de uma garan...
— Acalme-se, mensageiro, está muito afobado. — pediu Údon, incomodando-se com o estado do arauto — Me deixe terminar. — pigarreou — Com eu estava dizendo... É possível separar deus e mortal. O fato de ser um Demiurgo não dificulta o plano, que por si só já é difícil, nem diminui as nossas chances, mas também não garante que vá funcionar como o esperado.
— Ah, qual é!? — reclamou Lester, dando as costas e andando uns passos com as mãos na cintura, esbaforido.
— Você se contentou com o "Pode funcionar", então ao menos confie nas minhas ideias e deposite uma fé nas probabilidades. — recomendou Údon, desaprovando o comportamento do caçador — Nós temos que tentar.
— E depois do exorcismo, o que acontece? — perguntou Hector.
— Yuga é mandado de volta ao palácio, selo o corpo de Rosie Campbell com um sigilo, dreno a energia divina, arranjo um jeito de conserva-la, ninguém se fere, voltamos para casa e assamos uns marshmallows.
— Não sei o que é pior. — disse Lester, encostado na parede, de braços cruzados — As incertezas desse plano ou essa sua tentativa de querer fazer parecer fácil.
— Estou me esforçando, acredite. — retrucou Údon, estreitando os olhos em uma face meio zangada.
— Não, espera aí, Údon. — disse Hector, dando alguns passos até o arqueu — Fazê-lo retornar ao palácio, à morada dos deuses, não minimiza os riscos. Se nunca foi testado, como saberemos se a possessão pode ou não ocorrer novamente?
— Eu avisei sobre os poréns. — disse Áker, olhando para o caçador, em seguida para Údon como quem questiona os limites de alguém — Além de não termos ideia se o exorcismo é definitivo, existe a possibilidade do exército de sentinelas ser massacrado em seu próprio lar.
— Então seria uma ótima hora para mostrar quem é o novo chefe. — sugestionou Údon, arqueando as sobrancelhas. A ideia pareceu deveras absurda até mesmo para Lester que o encarou balançando a cabeça em negação, completamente desesperançoso quanto ao auxílio.
— Quer que Áker assuma a liderança? — indagou Hector, franzindo o cenho. — Não nestas condições.
— Hector está certo. — concordou Áker, aproximando-se, emanando aborrecimento — Levando em consideração o quanto Sekhmet manchou minha imagem, seria imprudente e ligeiramente suicida me atrever a reunir meus irmãos, incitando uma conspiração a favor de uma rebelião contra o imperador que se rendeu à sede insana por poder. — fez uma pausa, ficando pouco centímetros diante do arqueu — Tem ideia das implicações disso? Posso ser morto antes de emitir uma única palavra. Devia esperar isso de Mihos, não de mim. Você, Hector e Lester são os únicos seres do universo que confiam em mim. Tenho meu orgulho próprio, mas prefiro usa-lo para lutar pela humanidade. E você? Não tem um propósito à parte da sua sobrevivência pelo qual lutar?
Um longo suspiro de Údon não o ajudara a reaver a calma. No entanto, parecia ter ficado claro para o arqueu que suas ideias transmitiam desespero ante as nuances da situação e que era necessário equilibrar os pensamentos na medida do possível.
— Desculpe, Áker. — disse ele, irredutível — Posso ter sido um pouco precipitado, mas... ainda podemos tentar. Sei que ainda lhe resta os poucos apoiadores, portanto eu peço, encarecidamente, que os avise.
— Prepara-los para a morte? — perguntou Áker, olhando-o com dúvida.
— Praticamente todo o exército será liquidado depois de concluída a primeira parte do plano. — disse Údon, seguro de si — Sei que um Demiurgo à solta é um perigo extremo para todos... Mas se queremos mantê-lo longe deste mundo permanentemente, devemos nos preparar psicologicamente aos sacrifícios que cada escolha feita irá gerar. O que detesto, Áker, é ver você estar aparentemente dividido sobre o que vale a pena salvar. — o encarava fixamente, com seriedade — É melhor que revise suas prioridades. O que vai restar de um império inativo e à beira do declínio com um rei caído em perdição disposto a causar destruição a tudo o que vê? Não estava pedindo que se rebelasse para morrer pelo império. Mas fui falho nesse pensamento, me perdoe. Eu tenho certeza que reconhece o vínculo que você formou com os mortais. Se quer lutar pela humanidade, já trilhou metade do caminho. Faça como eu. Se preste a largar o passado e construir um novo futuro. Aprendendo com os mortais. — olhara para Hector e Lester. — E, talvez, ensina-los.
Hector demonstrara uma expressão de concordância explícita.
— Áker. — disse o caçador, voltando-se para o arauto — A proteção de Rosie é um juramento que pertence a nós dois. Somos iguais por termos extrapolado e irmos além de nossas obrigações. Agora temos a chance de ir até o fim. — virou-se para Údon — Presume que o efeito do exorcismo seja temporário?
— É a hipótese que me aparenta ser mais plausível. — respondeu Údon, assentindo — O alto escalão não vai segura-lo por muito tempo, mas até eles perderem o controle, vamos estar preparados para o contra-ataque.
— Tempo o bastante para resgatarmos Charlie? — perguntou Hector.
— Sim. Ele será de suma importância para a próxima fase do plano onde mataremos dois coelhos numa só cajadada. — declarou o arqueu, socando a palma da mão esquerda de leve. — A previsão é que haja um encontro entre eles após a marca do exorcismo se esvair da essência e ele, obviamente, vai recorrer a uma casca aleatória e vai estar desesperado como nunca antes imaginou. Quando estiverem frente à frente... — sorriu de forma enigmática — ... e quando o sangue ferver... já será tarde demais.
— Tá, tudo bem, podemos nos concentrar na primeira parte? — questionou Lester, se reaproximando.
— Precisamos de um local para prende-lo. — disse Údon, esfregando as mãos em sinal de preparação.
— Prende-lo com o quê? — indagou Hector, franzindo o cenho sem entender — Quando fui atacado, ativei o sigilo que Áker gravou embaixo do tapete e ele não esboçou numa reação, ao ponto de ultrapassa-lo como se não fosse nada.
— Só existe uma coisa supostamente capaz de neutralizar um Demiurgo. — afirmou Údon , o que para Lester significava mais um sinal que denunciava a falta de conhecimento do arqueu. — E antes que você me venha com sermões — apontou para o caçador estrategista — ... A opção mais viável é o sigilo de Onúris. De gravação restrita à divindades de primeiro escalão... e à Arqueus.
— Onúris?! — indagou Áker — O progenitor de Sekhmet possuía um sigilo de contingência?
— Não exatamente. — respondeu Údon, balançando de leve a cabeça ao negar — Estava inclusa uma linha que funcionava como motor para uma função que seria desbloqueada caso as outras duas fossem acionadas antes. Mas isso sobrecarregaria o sigilo à níveis críticos.
— E que função seria essa? — perguntou Hector.
— O aprisionado teria permissão de absorver a energia do sigilo. Inteiramente. — informou ele, olhando para cada um dos aliados. — E demiurgos são como esponjas ambulantes de qualquer tipo de energia. Se excluir a linha, o sigilo se tornará disfuncional. As duas primeiras funções são fixas. Imobilizar e torturar. Retirando a terceira, não existe plano.
Lester contorcera-se internamente ao se ver refém das dúvidas, piscando várias vezes com o cenho franzido.
— Espera aí, deixa eu ver se o reles mortal aqui entendeu. Se essa armadilha funciona se cada linha estiver no seu devido lugar, então significa que o deus pirado vai tirar uma casquinha disso e se fortalecer enquanto estiver preso. Onde é que está vantagem nesse seu plano tão perspicaz? — questionou, fitando-o com incredulidade.
— Um momento, Lester. — disse Hector, permanecendo a olhar para Údon com reflexão — Acho que sei o que Údon está querendo nos fazer entender. — fez uma pausa — Afinal de contas, é justo estarmos abertos a riscos que podem custar nossas vidas. O sigilo é inútil sem a tal linha. Mas seu aumento de poder será temporário pois temos o exorcismo como nossa carta coringa.
— Mas não entendi porque ele absorveria a energia do sigilo se já detém a própria energia purificada pelo corpo de Rosie. — salientou Áker. — Presumo que ele seja sua própria fonte.
— Demiurgos podem absorver de toda e qualquer fonte justamente por saberem converter, mas a sobrecarga é o único meio efetivo para mata-lo, o que obviamente não iremos esperar acontecer. — disse Údon, olhando para Áker — A base do plano é engana-lo da pior forma. Vamos lhe dar uma falsa sensação de superioridade e uma falsa impressão de desinformados. Vai ser necessário um local isolado para realizar o exorcismo.
Hector não pestanejara antes de citar o lugar ideal.
— A cabana em Kéup. — disse o caçador, a fala rápida — Está abandonada desde a noite em que fomos às Ruínas Cinzas.
— Excelente. — disse Údon, arregaçando as mangas em preparação — Mas para garantir a total eficácia da armadilha... devemos primeiro estar em um lugar que pode ser escolhido aleatoriamente. Uma grande mansão, por exemplo. Aliás, de preferência.
Os dois caçadores estranharam a aparente mudança repentina.
— Pra quê? — indagou Lester — Podemos pega-lo na cabana, sem problemas.
— Achei que tivessem entendido a razão de ser um local isolado. — repreendeu Údon, a expressão séria. — Chamarmos sua atenção imediatamente no ponto do exorcismo seria de tremenda idiotice. Por isso preciso que o contato seja feito num ponto específico do primeiro local onde marcarei com sigilos teleportadores que podem ser ligados ao de Onúris.
— Ótimo, mas quem vai fazer todo o lance do chamado psíquico enquanto você espalha as ratoeiras? — perguntou Lester, mantendo-se visivelmente descrente no andamento do perigoso plano.
— Áker pode cuidar disso. — sugeriu Údon, voltando-se para o arauto com um sorriso fechado.
— E se ele não acreditar em nenhuma palavra do que eu disser e acabar se encaminhando até aqui e destruir absolutamente tudo? — teorizou Áker, apreensivo.
— É melhor que torça para que ainda haja nele algum resquício de respeito pelo seu segundo em comando. — alertou o arqueu, não soando muito tranquilizador aos ouvidos do arauto. — Estão prontos? — voltou seu olhos para Hector — Você está pronto? Imagino como foi difícil encarar sua protegida naquele estado.
— Não vou desistir. — determinou Hector, cerrando um punho ao encarar o arqueu — Nem ouse dizer que a perdi para sempre. — fez uma pausa, visualizando seus companheiros — Traremos Rosie de volta, sã e salva. Custe o que custar.
— "Custe o que custar" — imitou Údon — Tome cuidado com as palavras, rapaz. Pode não gostar do que vai encontrar. — avisara, elevando nos outros uma ácida sensação de inquietude.
Mas na lógica seria ver para crer. Arriscar para crer, acima de tudo.
CONTINUA...
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