Capuz Vermelho - 3ª Temporada

37 Alfa, Beta e Ômega (Parte 3.6)


A pedra Ônix, ensanguentada, flutuava no ar após sair do interior de seu hospedeiro, indo diretamente para as mãos daquele que a extraíra. Uma ferida aberta no abdômen de Hector golfava sangue em profusão, fazendo-o entrar em pânico, tentando estancar ao pressionar a mão na barriga com toda a força para recuperar-se logo.

— Veja o que temos aqui. — disse Abamanu, satisfeito ao ter a Ônix em sua mão. — O mecanismo que possui um fascinante atributo de sorver qualquer tipo de energia, não importando a quantidade ou nível. — olhou para Hector. — Mais uma vez não estou surpreso. Esta talvez seja a única forma de um humano ter acesso a um poder que não consegue dominar. Você mal domina sua maldição, caçador. Pude sentir através do toque ao vislumbrar suas memórias.

Rosie fitou Hector com desconfiança por alguns segundos, ainda mais indecisa sobre acreditar ou não no controle absoluto que o caçador obtivera sobre seu monstro interior.

— Como sabe disso? Sobre a Ônix... — disse Hector, levantando-se com dificuldade.

— Mollock, obviamente. — disse o deus lunar, direto. — Sem ele e suas lembranças, não teria conseguido desfrutar da melhor coisa que os mortais deste mundo já criaram. Uma melodia sinfônica que ameniza minhas constantes dores de cabeça. Mas sobre isto... — olhou para a pedra. — ... Mollock tomara conhecimento deste artefato mágico ao ler um livro de bruxaria em alguma ocasião. É descartável quanto torna-se limitado. — disse, vendo a Ônix reduzir-se em pó ao vento, até não sobrar mais nenhum átomo de sua matéria-prima. — E se foi. Que pena. Segundo a pesquisa de Mollock, estas esferas possuem um prazo de validade quando absorvem grandes quantidades de energia, e não me admira o tempo ser mais curto quando energia divina limitada é incluída no jogo.

— Isto não é um jogo... — redarguiu o caçador, aborrecido ao se pôr de pé completamente. — Vim unicamente para mata-lo... Caso eu falhasse, moveria céu e terra para encontrar algum jeito de matar você... ou para-lo de uma vez por todas.

— Seu mensageiro de estimação tentou algo parecido quando dificultou a situação de sua protegida — olhara para Rosie enviesadamente — em um encontro que poderia acabar com menores transtornos, se ele não tivesse sido chamado, matado três dos meus soldados e me aprisionado em uma armadilha.

Áker apressara os passos, impaciente com tudo aquilo. Colocara de frente à Hector, logo tocando-o no ombro e usando a outra mão para tocar seu ferimento. Uma luz amarelada surgira da ferida... que sumira logo que o arauto terminou o serviço, curando o caçador. Hector ergueu a cabeça, voltando seus olhos descrentes para o mensageiro de Yuga, embasbacado com a façanha.

— Você... — gaguejou ele, ainda sem acreditar, com um sorriso fraco em formação em sua face suada.

Áker recuara alguns passos rapidamente.

— Deixemos os agradecimentos para depois. — estendera o braço direito, a palma da mão à mostra com os dedos juntos. — Vá. — dera um pequeníssimo "empurrão" com a mão, fazendo o caçador sumir imperceptivelmente da sala.

Rosie passeara os olhos pelo recinto, não vendo Hector em mais nenhum canto dali.

Áker virara-se Abamanu, desafiante.

— Nada mal. — zombara o deus, entortando a cabeça de leve. — E pensar que eu e ele seríamos uma ótima dupla contra Yuga. Não sei porque o despachou como prova de sua confiança e proteção, pois eu não tinha intenção nenhuma de mata-lo.

— Claro que não. — afirmou o arauto, sério no tom. — Mesmo que a energia na pedra esgotasse, a possessão ainda seria viável. Procuraria uma brecha. Não sairia desta sala até que ele cedesse ao acordo. Ainda há a maldição que ele sofre para controlar todas as noites. O lobo é sua parte quimérica mais predominante em dons e personalidade. Por isso esteve tão calmo quando percebeu que a energia tinha um limite de tempo na pedra, você contou com esta saída alternativa quando resolveu esconder a importância da maldição para o acordo. Você só deu importância à energia porque Hector estava cego pelo poder que ela lhe dava, mas a cada minuto que se passava ele percebia seu jogo e mais evitava cair nele. — disse Áker, em uma visão esclarecedora dos reais intentos do deus lunar.

— Não tenho mais nada a temer. Ainda possuo o mago do tempo... — disse Abamanu.

— É a sua última chance. — avisou Rosie, ameaçadora no tom. — Onde está Charlie?

O deus lunar caíra em uma gargalhada de escárnio.

— Pensa que seu protetor alado armou previamente aquela mesma armadilha? — perguntou ele, ainda rindo, esquivando-se da pergunta.

Rosie o encarava com mais fúria, cada vez menos tolerante.

— Você pode sair, se quiser. — disse Áker, conformado com a desvantagem. — Ainda mantém os sigilos neutralizados. Eu fui tolo.

— Não, Áker, isso ainda não acabou. — disse Rosie, a postura brava. — Ele não vai a lugar nenhum.

— O que vai fazer? — perguntou Abamanu, olhando-a com zombaria. — Tentar me ferir com esta... pequena espada? Eu vou lhe avisando, mortal: Há uma opção vantajosa. Correr. Correr sem olhar para trás. Você se negou a ser aprimorada por uma versão mais potente da substância que Lenox criaria especialmente para você.

— O Dr. Lenox está são e salvo. — afirmou Rosie. — Para sempre longe das suas garras imundas.

— Como o encontraram? — questionou Abamanu, enfezando-se.

— Isso não importa mais. — retrucou Rosie, lacônica. — Você terá o que merece.

— Ah é?! — indagou o deus lunar, cruzando os braços em plena tranquilidade. — Pois então teste sua lâmina contra minha armadura com camadas de blindagem impenetráveis.

— Não vai ser necessário. — disse a jovem, sorrindo de modo enviesado e balançando levemente a cabeça. — Tenho alguém capaz de fazer isto melhor do que eu. — erguera a mão esquerda, estalando os dedos duas vezes.

Uma aparição inesperada para Áker surgira depressa em sue campo de visão.

Êmina saíra de seu esconderijo atrás da parede destruída, usando a mesma roupa que usara na noite nas Ruínas Cinzas — o bem abotoado sobretudo cinza, calças pretas e botas de couro preto -, correndo por cima dos pedaços de concreto quebrado em direção à Abamanu, portando luvas metálicas, que cobriam apenas a palma da mão, com símbolos alquímicos entalhados nela para realizar decomposições de matérias.

O deus rosnara, preparando-se para o ataque.

A caçadora sorriu ao correr até ele, os cabeços pretos desgrenhados e bagunçados e o rosto sujo de poeira.

— Hora da vingança, cachorrão! — gritou ela, ganhando mais aproximação.

Áker não entendera o ato impensado por ele, nem seu objetivo, olhando estranho para a jovem caçadora que parecia encaminhar-se para uma guerra.

Rapidamente, Êmina ficara cara à cara com o deus lunar, logo tocando os antebraços do inimigo com as luvas metálicas, imobilizando-o instantaneamente e produzindo uma série de intensas descargas elétricas de tom azul que pareciam sair dos olhos do Cavaleiro da Noite Eterna, que urrava em ardor profundo, sua mandíbula alongando-se verticalmente, como se uma chama consumidora transpasse sua carne através da armadura que tanto gabava-se por ter como sua infalível proteção.

Os inúmeros raios pareciam subir para o teto, saindo tanto dos olhos de Abamanu quanto pelas manoplas, onde a alquimista aplicava seu golpe com toda força que lhe dispunha, produzindo uma aterrorizante tempestade dentro da sala. A tensão provocava um tremor que fazia quebrar as vidraças das janelas no alto das paredes, além de fragmentar as camadas de gelo que inutilizavam os sigilos criados por Áker.

Rosie — com um súbito alerta em sua mente dizendo "Afasta-se" — recuara até uma parede, com os braços protegendo os olhos da imensa claridade, afim de também não ser queimada ou atingida fatalmente por uma das descargas poderosas que saltavam e pareciam penetrar nas paredes violentamente.

Áker fizera o mesmo, perplexo com a total ausência de temor da caçadora, observando o espetáculo estático e brutal, indiferente ao ressoante grito de dor de Abamanu.

Os olhos de Êmina faiscavam de cólera, seus cabelos pretos e soltos esvoaçando com a corrente de vento que o processo causava.

Dera um furioso grito, pressionando as luvas mais fundo no metal da armadura.

— Mas o que ela está tentando fazer, afinal? — perguntou Áker, olhando para Rosie com perplexidade, com ênfase no "tentando".

— Eu não sei! — respondeu ela, ainda cobrindo os olhos. — Quando corri para alcançar Hector, ela me puxou de volta, deixou o soldado ir embora e me convenceu de que tinha um plano para feri-lo! Estávamos com muita pressa, então só houve tempo para explicar a minha parte!

Por fim, todos os efeitos causados pela forte alquimia cessaram de imediato: O tremor, os raios e a claridade intensa diminuíram em segundos.

Contudo, Êmina ofegava bastante, tanto pelo cansaço quanto por uma desanimadora revelação, seus cabelos bagunçados com alguns fios no rosto suado.

Seu olhar era de espanto desesperador, suas mãos passando a tremer, sentindo as palmas queimarem graças à fervura pela qual as luvas alquímicas foram submetidas. Olhou para os itens, os quais contava como armas secretas, e ambos estavam com os símbolos chamuscados e exibindo uma temporária coloração laranja como se estivessem em brasas ou combustão. O horror fora a emoção mais predominante naquele instante.

— Não... — gaguejava ela, desnorteada. — Eu podia jurar... — olhou para a armadura do deus. — ... que fizessem algo contra você, que...

— Reduzisse minha armadura em cinzas?! — questionou Abamanu, interrompendo-a, também ofegando, a fumaça que emanava da pesada armadura prateada dissipando-se e revelando seu rosto afetado pela alquimia, a carne fresca tendo sido completa e grotescamente exposta. — Tola! — vociferou, logo movimentando-se ao dar uma bofetada no rosto da Êmina com a mão esquerda, fazendo-a ser lançada contra uma parede.

— Êmina! — exclamou Rosie, aflita, correndo para ajuda-la. — O que estava tentando fazer? Esperava que fizesse outra coisa mais... cuidadosa. — disse a jovem, ajudando a amiga se levantar.

— Isso é impossível. — disse a caçadora, tocando nas costas ao sentir a dor do impacto. — Não, espera... Na verdade, faz todo o sentido. Ah, merda! — praguejou ela, virando o rosto, raivosa.

— O quê? Qual era seu objetivo tentando uma loucura daquelas? — perguntou Rosie, tocando-a no ombro.

— Foi veloz o bastante — comentou Áker — para não ser arremessada com um golpe antes que atacasse.

O rosto de Abamanu reconstituíra-se progressivamente graças ao fator de cura de Mollock, as camadas da pele restaurando-se espontaneamente. A armadura não exibia nenhum arranhão, apenas suaves manchas pretas que desapareceriam em questão de horas.

— O fato é que — disse o deus lunar — eu permiti que ela avançasse contra mim, estava curioso quanto aos seus dons... proporcionados por estes metais em suas mãos. Essa é a tão famigerada... alquimia? — dera uma leve risada debochante. — É graças á ela que certos seres humanos brincam de deuses? Isto não fez nem cócegas em mim.

— Cala essa sua boca... — disse Êmina, fuzilando-o com o olhar. — ... pois pelo visto a alquimia é uma ciência complexa até para os deuses. — fez uma pausa, respirando mais fundo. — Tentei decompor a matéria da sua armadura a nível sub-atômico, mas depois me dei conta de que a matéria-prima que a constitui é de uma liga metálica que não pertence a este mundo, é praticamente indestrutível. — olhou para as mãos com desalento, as luvas metálicas ainda fumaçando. — Infelizmente, elas só podem ser usadas uma única vez, e isso explica a produção abundante delas para alquimistas que decidem ser caçadores. Para meu azar, só havia levado estas duas para as Ruínas Cinzas, pois achei que não seriam tão úteis por lá. — revelou, os olhos marejados por um certo arrependimento abatê-la.

— Esta armadura é uma perfeita réplica da qual uso em minha morada. — disse Abamanu, cruzando os braços. — Com tanto conhecimento a meu respeito, graças aos meus seguidores humanos, é decepcionante que tenha sido tão ingênua a ponto de usar sua própria ciência contra mim. Algo criado por mortais que se veem como deuses para ferir deuses e fazê-los se sentirem mortais. Faça-me o favor... — virara o rosto, a expressão entediada.

— Antes falhar com ingenuidade... — disse Áker, deixando um leve sorriso formar-se. — ... do que com desatenção. — direcionou suas pupilas para a parede à direita, na qual o sigilo explosivo mostrava-se aceso após a camada de gelo sólido ter quebrado-se com o tremor.

— Mas o que... — disse o deus lunar, confuso de início ao olhar estranho para o arauto e acompanhar sua visualização à parede. Logo descruzara, rosnando em fúria. — Ora, seu... Eu já devia saber...

— Repare à sua esquerda. — disse Áker, pondo-se entre Rosie e Êmina, ficando no meio das duas jovens. — A alquimista falar com você me serviu como distração.

— É sério? — indagou Êmina, franzindo o cenho para o arauto, depois olhando para Rosie. — Afinal, quem é ele?

— Longa história. — retrucou Rosie, direta.

— Ah, ótimo. — disse a caçadora, suspirando pesadamente. — Mal sou resgatada e lá vem mistérios de pirar cabeças. Nunca estive tão ansiosa. — olhou para Áker. — É um prazer conhecê-lo... ahn...- estreitou os olhos.

— Áker. — respondeu ele, apresentando-se gentilmente e assentindo.

— Nome interessante. Inspirado em quê? — perguntou ela, curiosa.

Rosie pigarreara fortemente, tornando-se tensa.

— Êmina. — dera um sorriso nervoso. — Acho que não é uma boa hora. — voltou suas atenções para Abamanu.

— Assim aproveitei a oportunidade — continuou Áker. — para apagar o sigilo de aprisionamento que impedia nós dois de sairmos daqui a menos que eu permitisse nos libertar. Para depois desenhar... — direcionou os olhos para o chão, no ponto em que o deus lunar estava de pé. — .Bem, creio que já deva ser óbvio. — erguera a mão esquerda, estalando os dedos.

Para o completo horror de Abamanu, uma marcação criada para aprisiona-lo e neutraliza-lo acendera-se como um círculo luminosamente amarelado, cercando-o. Capturar deuses-quimera havia se tornado uma das tarefas absurdamente mais simples de se realizar por toda a vastidão da morada dos deuses. Um círculo vazio desenhado para "engaiola-las" soava risível com seres que, ao serem agraciados com inteligência e racionalidade, ansiavam por ascender ao patamar de imperadores divinos e desbravadores implacáveis. Boa parte da prole sucumbiu por conta de tamanha facilidade, enquanto poucos ainda conseguiam, com sorte, erguer seus exércitos e armadas. O mais perdurante de todos da espécie encontrava-se novamente preso em sua armadilha, em uma situação ainda mais atemorizante.

— Ora, maldito! — disse Abamanu, mal contendo-se de tanta raiva, olhando para o círculo luminoso.

Áker estalara os dedos da mão direita e, com rapidez, tocou as duas jovens em seus ombros, desaparecendo dali com elas em milissegundos.

O sigilo explosivo irradiara sua luz alaranjada com mais potência, produzindo um ruído ensurdecedor, passando a preencher toda a extensão da sala.

— Não!!! — berrara Abamanu, olhando para o teto e pondo as mãos na cabeça em desespero absoluto, logo sendo cercado e abocanhado por múltiplas explosões sequenciais que se agravavam com velocidade máxima até destruir todo o recinto.

Do lado de fora da fábrica, em certa distância da mesma, Áker, Rosie e Êmina viraram seus rostos para assistir ao flamejante espetáculo.

A nuvem da explosão soava bela e assustadora em simultâneo, aliado ao poderoso estrondo.

Rosie e Êmina, por fim, se entreolharam, suas expressões suavizando-se com emoção ao passo em que se aproximavam uma da outra... acabando por efetuarem um singelo, apertado e comovido abraço de reencontro.

***

Hector fora mandado para a floresta de árvores magras e altas, vendo-se solitário ao olhar ao redor, ainda abismado com a cura feita por Áker em sua ferida e ter sido afastado da sala daquela maneira.

A fábrica era avistada à uma considerável distância, e do ponto onde o caçador encontrava-se era possível ver exatamente uma das paredes externas da sala de controle.

Com seus apurados instintos lupinos bem aflorados e equilibrados, o caçador detectara ruídos de passos aproximando-se de onde estava. Olhara por cima do ombro direito, suspeitando da presença.

"Algum animal selvagem? Um soldado de Abamanu? Não...", pensava ele, virando-se para a direção de onde vinham tais passos. "Tenho quase 70% de certeza... É um ser humano... são movimentos característicos de uma pessoa, é inconfundível.", constatou, já preparando-se.

Virara o corpo e o rosto para vários lados, tentando abstrair precisamente a direção de onde os passos vinham.

"Apareça de uma vez. Só vai estar perdendo seu tempo esperando que eu baixe minha guarda.".

— Trabalhe melhor seus instintos... caçador. — bradou uma voz masculina sintetizada e grave, soando quase demoníaca.

Hector captara a direção exata, virando-se assim que ouvira a assombrosa voz, não tardando a estremecer com o que se deparara. Uma expressão de desafio surgiu em seu rosto, o fazendo revisitar, em pensamentos, o dia em que um pequeno grupo de lobisomens meta-simbiontes atacaram o Casarão de modo inexplicável e razões desconhecidas, ocorrido que lhe deixou com várias dúvidas.

O tenebroso homem vestido com macacão de couro preto que lhe cobria o corpo inteiro, equipado com aparelhos e fios na cintura e nas costas e que usava uma máscara de mesma cor com um par de olhos redondos e vermelhos voltara para assombrar Hector, dando passos ameaçadores.

— Surpreso em me ver? — perguntou o assassino, entortando levemente a cabeça, parecendo estranhar a reação de Hector.

— Honestamente... não tanto. — confessou o caçador, recuando devagar, a face séria. — Não seria inocente a ponto de imaginar que a primeira vez que nos vimos também havia sido a última. — fez uma pausa, olhando-o com rigorosidade. — Tentou me matar e pelo modo como o fez certamente deixava claro que retornaria para concluir o serviço.

— E agora estou aqui — disse ele, chegando mais perto — para arrancar de você o que roubou daquelas pessoas que, para você, não passavam de mais uma refeição qualquer do dia.

— Escute bem, eu lembro exatamente do que disse. Cada palavra. — disse Hector, em uma tentativa de convencimento. — Uma testemunha. Você é a principal testemunha do assassinato que causei.

— A única! — disse o assassino, ríspido.

— Sim... está bem... — disse o caçador, olhando de relance para trás, ouvindo barulhos estrondosos e advindos da sala de controle da fábrica e uma luz azulada e frenética há alguns quilômetros. — Eu entendo. — afirmou, voltando-se para seu opressor, sem nenhum resquício de receio.

— Entende? — indagou o algoz, friamente descrente. — Ah... eu farei com que entenda melhor. — aproximou-se com mais ameaça em seu tom. — Farei com que sinta a mesma dor que fez aquelas pessoas sentirem. Igual ou pior. — falou, fazendo surgir de seus braceletes cinzas duas lâminas médias pontiagudas e reluzentes.

O assassino mascarado avançara contra Hector, movimentando os braços com rapidez a fim de conseguir efetuar um corte grave no rosto ou no corpo do caçador, protegido apenas pelo sobretudo de couro marrom e pela camisa preta que ele vestia por baixo. Hector, na defensiva, esquivava-se das lâminas no mesmo ritmo, seus reflexos bem aprimorados lhe dando uma vantagem singular. Contudo, o assassino girara, logo dando um chute no rosto do caçador, fazendo-o cair de um só joelho no chão.

Aproveitando a deixa, o mascarado tentara golpeá-lo com a lâmina do bracelete esquerdo visando uma perfuração profunda nas costas do caçador. No entanto, Hector movimentara-se rápido e segurara a espada antes que ela penetrasse em seu corpo, mantendo-se de um só joelho e olhando para seu algoz com uma frieza que só instigava a atacar com mais violência.

Hector dera-lhe uma rasteira, derrubando-o no chão. Velozmente, o homem de preto reerguera-se, logo dando um pulo de costas até um dos galhos mais altos de uma árvore próxima. Hector correra para escapar dali e reencontrar Rosie, ignorando a ameaça do vingativo homem. Porém, o assassino pulara para frente para cair por cima de Hector, mantendo o braço direito esticado com a afiada lâmina ainda à mostra, visualizando perfura-lo de uma só vez pelas costas. Dois golpes em um. Pelo menos era isto que se tinha em teoria.

Com o reflexo aflorado, Hector virou-se, sem outra escolha a não ser ceder ao instinto e, sobretudo, despertar a fera que se contorcia em seu interior ansiando por alimentar sua fome incontrolável. Já transformado, o caçador rosnara com selvageria e ódio e, barrando seu inimigo ao pega-lo pelo pescoço no exato momento em que a espada o atacaria. O empurrara contra uma árvore, as costas batendo com impacto no tronco. O caçador avançara contra ele, fazendo crescer suas garras e o mantendo preso com uma mão no pescoço e ameaçando rasgar sua máscara com a outra.

— Pensa que pode escapar do seu castigo iminente? — questionou o assassino, a voz sintetizada cada vez mais fantasmagórica. Sem demora, usara a lâmina direita para fazer um corte no abdômen de Hector. O caçador gritara em dor, revidando ao bofeteá-lo na máscara, logo sentindo o sangue escorrer pela ferida e manchando sua camisa preta.

O assassino levantara-se, realizando cambalhotas típicas de artes marciais conhecidas para executar um novo golpe. Hector, rosnando, observou suas movimentações, visualizando com precisão, mesmo com a dor aguda que sentia, o ponto onde deveria atingi-lo. Quando o opressor intencionara ataca-lo com as duas lâminas após dar a cambalhota final, Hector fora mais rápido, desviando o rosto das lâminas e cravando profundamente suas garras na roupa de couro do oponente, não tardando a sentir a carne humana sangrar por entre seus dedos. Uma espada fizera um pequeno corte no seu rosto — saindo um filete de sangue -, o que seria fatal caso ocorresse o contrário, se o caçador somente visasse atacar com as garras sem se esquivar com a cabeça ao ver as duas espadas vindo de encontro ao seu rosto.

O assassino gemia, além de começar a tremer, quase perdendo o equilíbrio. Fechou os punhos, o que fez com que as lâminas voltassem para dentro dos braceletes, o ruído rápido e rascante soando irritante aos ouvidos do caçador. O homem de preto agarrara o braço de Hector, cuja mão ensaguentada ainda estava dentro da ferida com as garras cravadas no corpo, na tentativa de tira-lo à força. Em resistência, Hector não cedia e lutava para manter as garras na ferida, fitando seu adversário com cólera sem limites naquela face monstruosa com presas pontiagudas.

— Já... já che... — gaguejava o assassino, apertando um botão em um dos aparelhos acoplados à sua roupa. De repente, uma voz mais humana e aflita falara. Uma conhecida voz para os ouvidos de Hector. — Tudo bem! Tudo bem! — dizia ele, querendo se afastar. — Já pode tirar suas garras de mim, Hector! Já chega!! — vociferou ele, em desespero.

Voltando à forma humana, Hector retirara sua mão da ferida no corpo do seu oponente, recuando alguns passos, tão enojado quanto estupefato, mal conseguindo respirar. O sangue gotejava de seus dedos e ínfimos pedaços de carne grudaram pegajosamente nas unhas. Aquilo era o de menos comparado com a revelação que se apresentara diante dos seus olhos, para seu total espanto e decepção pura.

O assassino recuava mais passos, tirando a máscara sinistra, logo exibindo sua face. O rosto relativamente robusto, o cabelo curto e a barba meio ruivos com o rosto com algumas poucas sardas e olhos verdes avivados. Hector o olhou de baixo à cima, como se não o reconhecesse, a desilusão amargando seu coração.

— Isso... não pode estar acontecendo. — disse ele, em negação. Apontou o dedo para seu oposto. — Isto é um truque! Desfaça deste rosto agora mesmo. Aliás... retire já esta máscara! — vociferou, deixando cair uma lágrima.

— Não tem máscara, nem ilusão, nem nada do tipo, Hector. — disse Edgar, com frieza, largando a máscara negra. — É tão real quanto pensa. — falara, rindo levemente.

— Por que? — perguntou Hector, a voz embargada de emoção. — Só me diga... uma coisa: Por que? — tornou a perguntar, com rispidez.

— Lhe direi mais do que isso, na verdade. — retrucou Edgar, soberbo. — Também vou lhe dizer sobre a dor que seu ato me fez sofrer nos últimos dois anos. Não, eu acho que... — olhou para sua roupa especial. — ... palavras não são suficientes para expressar tamanha dor. Minhas espadas, minha agressividade, junto com toda a minha raiva que alimentei nestes dois anos já falam por si. — fez uma pausa, dando alguns passos à frente, os olhos frios fixos em Hector. — Aquelas pessoas não mereciam morrer, Hector. Eles eram minha única família. E você os tirou de mim... então nada mais justo do que tirar de você aquilo que você tirou deles. Eu daria um fim digno a sua vidinha medíocre! Se pelo menos tivesse se controlado como eu naquele dia...

— Espere, como disse? — indagou Hector, franzindo o cenho, como se não tivesse ouvido direito. — Controlar o...

Interrompendo-o subitamente, Edgar transformara-se com um furioso rosnado, sua licantropia sendo despertada após dias adormecida de modo forçado. Estremecendo, Hector dera um arquejo de surpresa.

CONTINUA...