Capuz Vermelho - 3ª Temporada
36 Alfa, Beta e Ômega (Parte 3.5)
Na sala de controle, Áker entrara em nervosismo incontrolável enquanto ouvia um alerta de um dos seus aliados que provavelmente estaria do lado de fora da fábrica, temeroso quanto ao desanimador fato. Áker retirara com rapidez o amuleto do bolso de seu smoking e colocara na palma da mão direita. Aproximara-o à boca para proferir a resposta.
— Khétro, ouça-me. — disse ele. — Não sei onde exatamente está, mas... sugiro que fuja daí o mais rápido que puder ou volte para o palácio. — logo em seguida guardara o objeto.
"Maldita seja!", pensou ele, enraivecido ao juntar as mãos e coloca-las diante dos lábios em preocupação, imaginando o modo como a péssima notícia se desenrolou. "Era impossível... Não havia a menor chance de escapar! Como ela conseguiu, afinal?".
Andou de um lado para o outro, temente às imprevisibilidades.
Para sua decepção, Sekhmet conseguira se desvencilhar dos efeitos nocivos do sigilo que a mantinha neutralizada, muito devido ao poder de seu amuleto combinado à energia residual do emblema de Yuga. A deusa recorrera à uma improvável fusão energética que possibilitaria sua fuga em um curto período de tempo. Com os dois objetos em mãos, Sekhmet optara pelo movimento audacioso. Pusera ambos à sua frente, dentro da marcação, utilizando suas forças para ativar o poder de absorção deles, ainda que tal habilidade estivesse enfraquecida. Ao invés dos objetos serem esvaziados energeticamente pelo sigilo aceso, eles, prontamente, tiveram suas forças de absorção ativadas e sorveram a quantidade de energia de Sekhmet retirada pela marcação. Vendo o sigilo perder sua atividade aos poucos, a deusa comemorara sua vitória perfeita com uma mefistofélica gargalhada, livrando-se gradualmente das perturbações físicas que o símbolo lhe afetava. Após o sigilo perder seu brilho amarelado e desaparecer completamente do chão, Sekhmet logo pegara os dois objetos dourados, apertando-os com os punhos cerrados e absorvendo a energia consumida por eles. Em outras palavras, reavendo sua energia antes sugada pela marcação, bem como a energia residual já antes presente no emblema de Yuga, fortalecendo-se novamente.
"Deixei algo passar despercebido, com certeza.", pensou Áker, culpando a si mesmo pelo deslize. "Foquei minha atenção em somente coloca-la sobre o centro do sigilo, esquecendo totalmente de que ela é muito mais bem instruída do que eu. Deve haver alguma testemunha que saiba me fornecer todos os detalhes, tem que haver. Preciso saber como ela conseguiu escapar sem grandes dificuldades.". Caminhou pelo espaço vazio da sala, praticamente andando em círculos. Certamente estava à espera de alguém e não era nenhum de seus aliados ou Mihos. "Eu também fui cego.", lamentou.
Um baque surdo na porta metálica situada na parede da esquerda o arrancou de seus devaneios, fazendo-o virar-se rápido para ela olhando-a com expectativa. "Finalmente veio. Posso sentir sua aura intoxicante daqui.".
Mais um estrondo. A porta retorcia-se furiosamente como se algo estivesse querendo amassa-la como uma folha de papel. Áker observava atento, aproximando com alguns passos à frente, a expressão séria. Olhou de relance para as duas paredes e tornou a visualizar a porta sendo destruída em baques sucessivos e assustadores.
Por fim, ela fora violentamente jogada para frente como um pedaço de metal sem valor, deslizando no chão de concreto com um som rascante e produzindo algumas faíscas até chegar próximo à alguns cabos pretos grossos e meio emaranhados conectados ao vaporizador.
Irrompendo do corredor ao entrar na sala, Abamanu exibia fúria transposta em uma pose autoritária realçada pela robustez de sua armadura prateada que reproduzia ruídos incômodos e mecânicos. A primeira coisa que seus frígidos e lupinos olhos amarelos fitaram foi a figura de Áker posicionada em um ponto central da sala. O deus lunar limitou-se a andar, esboçando um sorriso vil.
Áker o analisou por uns instantes, estranhando as feridas em um lado da face do inimigo.
— Francamente, sua visita desnecessária mal passou pela minha cabeça. — disse o deus lunar, virando-se para o arauto. Ergueu a mão direita, mexendo-a próxima à orelha. — É isso que ocorre quando energias se confundem e me direcionam justamente ao local errado. Você não me engana, garoto de recados. — provocou.
— E quem esperava, afinal? — perguntou Áker, curioso.
— Também não sabe fingir, pelo visto. — retrucou Abamanu, olhando-o com zombaria. Fechou os olhos, suspirando lentamente. — Não está... saboreando essa sensação? Não está sentindo o mesmo que eu?
Áker tornou seu olhar vago ao fitar o nada enquanto influenciava-se por uma estranha energia sendo irradiada em algum ponto da fábrica. Obviamente, não era Sekhmet, tampouco Mihos. Era algo ligeiramente renovado. Pulsante e indiscreto, bem como vagueante. "Mas... quem está liberando todo esse poder?", pensou o arauto, fortemente intrigado. Olhou para Abamanu com um semblante preocupado.
— Caso fosse Sekhmet ou Mihos estaria irritado em vez de calmo. — constatou o arauto. — Significa que tal indivíduo que está dentro desta estrutura detém um poder equivalente ao um deus-quimera. É simplesmente inconfundível. — deu alguns passos à frente, sem esconder a apreensão.
— E sabendo que todos os meus irmãos de espécie foram mortos... — disse Abamanu, suspeitando.
— Chega. — interrompeu Áker. — Deixando isso de lado... pelo menos por enquanto... Você não aparenta estar revigorado. Não da mesma forma quando o vi pela última vez. Posso sentir seu cansaço apenas ouvindo sua respiração forçada. Ao que parece o predestinado mencionado nas escrituras não era exatamente o que pensávamos. Ou estou enganado?
— Você e suas travessuras. — disse Abamanu, olhando enviesadamente para as duas paredes com suspicácia máxima. Sorriu sacanamente ao olhar para o arauto. — Acha mesmo que vai funcionar?
— Está bem, você acertou. — disse Áker, erguendo levemente a mão esquerda. — Mas saiba que, hoje, foi ainda mais ingênuo que eu ao cair nesta armadilha. — estalara os dedos, acionando repentinamente dois sigilos gravados em tamanho maior nas duas paredes. Ambos irradiaram uma luz alaranjada.
Sem demonstrar surpresa, Abamanu dera uma risadinha zombeteira, sentindo o espaço ao redor vibrar de modo leve.
— Impecável. — ironizou ele, batendo as palmas.
— Com este plano não há necessidade alguma dos mortais intervirem com seus métodos para destruir esta fábrica. — disse Áker, sorrindo misteriosamente. — Nenhum de nós pode sair daqui. O sigilo à esquerda nos mantém prisioneiros, enquanto que o da direita é um explosivo que pode ser executado com um único comando meu. — afirmou, sem parecer estar para brincadeiras. — Automaticamente você imagina que decidi me sacrificar para aniquilar a última coisa que mantinha seu plano em funcionamento.
— Ainda há as vidas que julga inocentes aqui dentro. — disse Abamanu, pressionando-o.
— E sua casca está se esfacelando. — apontou o arauto, levantando uma sobrancelha. — De qualquer modo, toda esta estrutura logo mais será destruída por completo, reduzida à escombros. Para facilitar seu julgamento, você decidirá: Saímos vivos ou mortos. — disse, lançando o desafio.
O deus lunar respondera com uma infame gargalhada, as presas enormes à mostra.
— Facilitar... o meu julgamento?! — disse, ainda rindo. Alterara bruscamente a expressão ao erguer os dois braços intencionando um movimento habilidoso. — Se sacrificar por meras vidas humanas... É este o seu propósito atual? Isto é digno de pena.
— O quer vai fazer? — perguntou Áker, incerto. — Ouça minha sugestão para seu próprio bem: Desista... enquanto ainda resta tempo para repensar nos danos que pode causar.
— Os danos à este mundo pouco me importam. — disse Abamanu, produzindo sua contra-ofensiva.
Um ar gélido elevara-se subitamente naquele recinto. Áker olhara desesperado para ambos os lados, completamente sem ideia de ação para impedir o processo. Camadas de gelo puro formavam-se nas paredes em velocidade considerável, inibindo as atividades dos sigilos embora não os apagando.
— Pare! — pedia Áker, irritado.
— Tente. — desafiou Abamanu. — Eles são fracos, imperfeitos e irrelevantes, é perda de tempo se sacrificar por eles. Além do mais, você claramente descumpriu a ordem que lhe foi dada. — abaixara os braços, fitando o arauto ameaçadoramente. — Fez muito mais do que dar o aviso e sair. Um arauto que impõe tarefas extras a si mesmo torna-se um criminoso destinado a sofrer uma punição de igual caráter a de Chronos, por exemplo.
— Até onde eu sei Chronos ainda aguarda sua sentença. — disse Áker, enfático. — A ruína do seu império lhe deu uma vantagem.
— Você terá o que merece, arauto. — ameaçou Abamanu, andando alguns passos em direção ao inimigo, cerrando os punhos. — Com o que está contando, afinal? Aliás, com quem? Sua armadilha foi inutilizada por ora. Agora é minha vez de mostrar minha esperteza... de um jeito mais ativo, se é que me entende.
— Não recebeu a punição por seus crimes... — continuou Áker, olhando-o com ojeriza e recuando alguns passos. — ... por conta da sua própria irrelevância, a qual tentou usar contra aqueles que julgou indignos de uma vida próspera. De fera passou a ser domador. Injustamente, é claro.
— De modo justo! — enervou-se Abamanu, chegando mais perto. — O fato de meu nobre pai reconhecer este mérito é a prova inabalável! Não me force a contrariar meus princípios, seu mensageiro patético!
— Não quero força-lo a nada. — afirmou Áker, seguro de si, franzindo o cenho. — Apenas quero que repense seus conceitos relacionados ao poder que lhe foi confiado.
— Quer discutir sobre poder? — estralou os dedos das mãos, em preparação para um embate. — Prefiro o caminho mais curto.
— Um conflito desproporcional. Tão produtivo. — disse Áker, soando irônico.
— Por que está sugerindo isto... — disse Abamanu, rangendo os dentes em fúria. — ... se deseja tanto que Rosie Campbell sirva de artifício para Yuga me enfrentar neste mundo condenado?
— Condenado pelo seu reinado de podridão. — atacou o arauto, revoltado.
— Exatamente. — aquiesceu Abamanu, dando uma risada escabrosa em seguida.
— Não ouse dar mais nenhum passo. — avisou Áker, severo, sacando sua espada dourada. — Gaste suas energias para pensar em uma maneira de salvar seu receptáculo antes que exploda. Presumo que saiba das consequências. Está se deixando levar pelos instintos sanguinários não só por causa de minhas palavras sinceras... mas também pelo fato do que está vindo diretamente para cá. — sorriu de canto de boca, olhando de modo enviesado para a parede à esquerda. — Quem quer que seja, está expondo um poder que mal pode conter em si mesmo.
— Então não passa de um reles humano. — constatou Abamanu, olhando interessado para a parede à esquerda, praticamente desistindo de confrontar Áker fisicamente. — Instável... e, sobretudo, estranhamente familiar. — estreitou os olhos, sorrindo.
A proximidade que tal força ganhava à medida que os segundos passavam era entendida como assustadoramente descontrolada e desequilibrada, embora ambos tendo ciência de que tal usuário esforçava-se para manter o poder sob domínio pelo tempo que lhe foi permitido usa-lo. Os olhos de Abamanu estavam fixos na parede de concreto, o deus lunar estando ansiosamente no aguardo pelo indivíduo carregando um poder ligeiramente reconhecível de modo inexperiente. "Apareça. Venha até mim. Sinto sua aura engrandecer à cada passo que dá, a cada respiração que executa e a cada batimento cardíaco que ouço desta distância. Esta distância que está encurtando mais rápido do que esperava.", pensou ele, aparentando estar fazendo pouco caso da presença de Áker, bem como os sigilos ainda neutralizados.
O arauto, por sua vez, já demonstrava apreensão na face ao se dar conta de quem se tratava, reconhecendo apenas pelo ritmo da frequência cardíaca. "Se for verdade...", pensou, olhando de relance para Abamanu e tendo contínuos flashes na mente que o faziam revisitar as visões que tivera sobre o futuro desastroso para o qual enviou Rosie. "Sei que ela aqui, mas... Não, talvez não reste muito tempo, muito provavelmente poderá ser tarde demais, ela pode ainda estar muito ocupada resgatando sua amiga. O que eu faço?".
A parede rachara-se em velocidade impressionante com fachos de luz azul saindo pelas fissuras, logo em seguida rompendo-se com o baque estrondoso produzido pela pessoa que a destruíra. Como se houvesse sido explodida, a parede quebrara-se violentamente, levantando uma enorme quantidade de fumaça e poeira cinzenta pelo ar. Aos poucos uma silhueta vaga em meio a fumaça foi se tornado mais visível a cada vez que se aproximava. Uma figura alta e relativamente truculenta, mas claramente bastante forte. Pela poeira ainda levantada viu-se dois pontos azuis brilhando. Eram olhos. Furiosos olhos que fixaram sua atenção em Abamanu.
Um sorriso presunçoso formou-se lentamente na face do infame deus lunar ao visualizar e, finalmente, a pessoa que enervava-se com tanto poder dentro de si.
Áker, contudo, observou com certo espanto, o suor abundante descendo pelo seu couro cabeludo careca e pela testa. "Inacreditável! Mas como, afinal?".
Desviando dos escombros de concreto, Hector chegava mais perto esbanjando uma raiva soberba ao fuzilar Abamanu com os olhos repletos de cólera. O surreal brilho azulado de seus olhos sumira rapidamente.
— Hector... — disse Áker, intencionando impedi-lo de fazer uma estupidez. — Consigo perceber... que ainda está ajuizado o bastante para me escutar. — andou alguns passos até lá, hesitante. — Você não precisa, de modo algum, fazer o que acha que deve. — aconselhou, fitando-o incisivamente.
— Cale-se, Áker. — disparou o caçador, desrespeitando-o, continuando a andar em direção à Abamanu.
— O quê? — indagou o arauto, como se não tivesse entendido. — Como disse? Não pode ser... — virou o rosto para um lado, desistindo de tentar mais uma vez.
— Agora tenho a chance — disse Hector, confiante — de finalmente poder acabar com esse monstro de uma vez por todas, e não vai ser agora que alguém me impedirá, muito menos você! — afirmou, enfurecido.
— Isso. Continue vindo. — incitou Abamanu, pretensiosamente pérfido. Ergueu a mão esquerda, logo estendendo o braço e aplicando uma força telecinética que empurrava o caçador para trás. — Mostre-me o que aprendeu. Vejamos se conseguiu se equiparar à mim, seja lá onde tenha encontrado esse incrível poder, tampouco importa como conseguiu. — sorrira, as presas medonhas à mostra, aumentando a intensidade de seu empurrão telecinético.
Hector sentia seus músculos serem espremidos por uma força brutal e descomunal enquanto era afastado, seus pés arrastando-se no chão frio. Em persistência aliada à resistência, o caçador gemeu, esboçando uma expressão que indicava estar realizando um intenso esforço para seguir em frente. Seu olhar estava mais penetrante do que nunca devido à fúria que sentia. Rangeu os dentes, dando poucos passos adiante, resistindo ao máximo contra o teste do inimigo.
Abamanu rira em escárnio, intensificando sua força ao empurrar ainda mais o caçador.
— Ha-ha! — debochara ele, seus olhos amarelos fitando Hector com expectativa.
Áker, mal sabendo como intervir, limitou-se a assistir o sofrível teste de habilidades. "Já chega... Pare já com isso, sua besta desprezível. Não percebe que já teve uma demonstração convincente somente por ter sentido esse poder... que antes já lhe pertenceu?", pensou o arauto, indignando-se com a insistência do deus lunar.
Hector reunira dentro de si toda a força para perpetrar um contra-ataque, cerrando fortemente os punhos. Por um breve instante, permaneceu parado, parecendo, pela perspectiva de Abamanu, não estar mais sofrendo com o empurrão telecinético, estando parado num ponto, completamente inerte.
O deus lunar aplicara ainda mais força, rosnando furiosamente ao esticar mais o braço contra o caçador, abrindo mais a mão.
Hector, entretanto, não sentira mais nenhuma influência de tal habilidade, sorrindo fracamente de canto de boca.
De súbito, avançara em impressionante e altíssima velocidade contra o algoz, logo pegando-o pelo seu pescoço ferido e erguendo-o pucos centímetros do chão.
Boquiaberto, Áker encarava aquilo como algo inconcebível. "Com tamanho poder fixado dentro de si, seu corpo deveria ter explodido no mesmo instante em que o recebeu! Mas ainda necessito saber: Como?", pensou, balançando de leve a cabeça em negação.
Hector saboreava seu momento de glória ao objetivar esmagar aquele robusto pescoço animalesco. Olhou para Abamanu mantendo seu semblante raivoso ao passo em que apertava cada vez mais. O deus lunar, por outro lado, gemia levemente, fitando-o com um misto de surpresa e frustração.
— Vamos acabar logo com isso. — disse o caçador. — Não tenho muito tempo... — seus olhos voltaram a brilhar a luz azulada por alguns milésimos.
— Ah, você tem sim. Eu o oferecerei à você, com todo o prazer. — disse Abamanu. — Sem arrependimentos.
— É sua súplica final? — perguntou o caçador, pressionando-o.
— Uma... — disse ele, a voz entrecortada por conta do aperto forte em seu pescoço. — ... tentativa de dialogar pacificamente.
— Engraçado como não teve esta ideia enquanto usava os rastros de sangue como trilhas para encontrar os tesouros que roubou. Muito menos quando um inocente implorou por sua vida enquanto encarava a ponta da sua espada. — disse Hector, enfurecido.
— Aqui vai a primeira proposta. — disse Abamanu, mal aguentando a familiar força que o caçador exercia sobre seu pescoço. — O que acha... de nos desprendermos de nossos passados? Sem remoer mais nenhuma mágoa ou fracasso.
— Passo! — vociferou o caçador, rejeitando logo de imediato a ideia.
— Hector! — chamou Áker, interrompendo. — Diga-me: Onde conseguiu essa energia? Alguém lhe ofertou? Se sim, que preço foi obrigado a pagar? — questionou o arauto, olhando-o severo.
— Em vez de fazer perguntas desnecessárias — disse Hector, sem olha-lo. — deveria salvar sua vida fugindo daqui e deixar isto somente entre eu e ele. Portanto, faça isso! — falou, em tom de ordem.
— Não sairei daqui enquanto não obter a resposta. — disse o arauto, irredutível, aproximando-se mais.
— Se ficará apenas assistindo — determinou Hector, rigoroso. -... então me deixe mata-lo.
Abamanu rira baixinho de modo zombeteiro.
— Qual é a graça? — perguntou Hector, ríspido, apertando com mais força o pescoço do deus.
— Deixe-me explicar a situação, mortal. — disse o deus. — Sei que notou estas... desagradáveis marcas no meu pescoço, e é sobre elas que prefiro falar. Você está me fazendo sentir dor, muita dor! — reclamou.
— Então é um bom sinal. — disse Hector, fulminando-o com o olhar.
— Ah, ouça de uma vez! — disse Abamanu, impaciente. — Esta criatura está perdendo sua capacidade de me comportar a cada hora que passa! Mollock está sendo destruindo aos poucos, de dentro para fora! Então, aqui vai a segunda proposta: Tendo em vista de que possui restos de meu poder, ainda que não possa me matar mas pode me ferir gravemente, eu preciso usa-lo... — olhou com ansiedade extrema ,as pupilas dilatadas. — .... como meu novo e definitivo receptáculo.
Uma efervescência nos nervos abateu sobre Hector no mesmo instante em que aquela frase aterradora fora dita. Como resposta, empurrara o deus com a mão esquerda de modo violento em um golpe preciso, fazendo-o cair sobre o chão que se destruía quanto mais ele se afastava.
Áker ficara embasbacado com a força adquirida pelo caçador apenas com aqueles resquícios de energia divina abrigados na pedra Ônix.
"Uma clara atitude vergonhosa de desespero.", pensou Áker, indignando-se com a carência supérflua que o deus lunar utilizara para obter o consentimento do caçador, bem como um certo perdão. "Não é possível que Hector vá cair neste golpe, percebo que está em total domínio de suas faculdades mentais, está equilibrado demais para ceder à esse pedido.".
Abamanu levantara-se vagarosamente, ficando de um só joelho no chão, olhando de modo impressionado para Hector, espantando com a força proporcionada por aquela quantidade de energia.
— Também passo esta. — disse Hector, decisivo no tom, cerrando os punhos.
— Tem ideia do que pode vir a ocorrer caso Mollock tenha pedaços de seu corpo espalhados por todos os lados? — questionou o deus lunar, tocando no ponto onde o caçador o ferira, pondo-se de pé. — Você não quer me matar... — deu um passo trôpego à frente. — Afinal, não pode.
Hector redobrara os sentidos, reforçando sua resistência. Sua face estava mais sisuda do que nunca.
— Admita, caçador. — disse Abamanu, logo rindo em tom baixo. — Aceitou acompanhar seus aliados às Ruínas Cinzas para apagar uma chama que consome cada fio de esperança que seu coração produz. — olhou-o incisivamente. — Não é sobre me impedir. Nunca foi.
— O que está querendo insinuar? — perguntou Hector, olhando-o intrigado.
— As perdas que sofreu... — disse o deus lunar, passando a andar em direção ao caçador de modo lento, a armadura reproduzindo os insuportáveis ruídos ferrosos. — ... são comparáveis às minhas. A hierarquia de minha espécie foi desmoralizada e vista como indigna de valor ou atenção. Minha esposa... os meus bens valiosos que me foram tirados...
— Bens valiosos que seus soldados roubaram de Yuga para que você os colocasse na cripta. — acusou Hector, rememorando o fato que causara o início do confronto entre as divindades.
— Ele feriu o acordo de compartilhamento! — vociferou Abamanu, tentando defender sua posição. — Mas isto não vem ao caso agora. Uma coisa é certa: Você não quer me matar... você quer Mollock.
— Tem razão. — disparou o caçador, tranquilo. — Certamente se refere à minha vingança pessoal.
Áker fitara Hector com preocupação na expressão. "Estaria eu errado sobre como ele está se portando? Sobre como ele está lidando com um poder que não entende?", pensou ele, relanceando os olhos para Abamanu, sentindo-se cada vez mais deslocado e afastado daquele embate.
— É. — confirmou Abamanu, assentindo. — Mollock estará totalmente entregue à você... quando nós dois nos tornarmos um só. — olhou para um canto da sala, parecendo aflito e angustiado. — Eu consigo ouvir. É de dar pena. Pobre criatura infortunada. Resvalada à submissão, quando seu único sonho foi ser o maior dentre os maiores. — voltou-se para Hector, o olhar triste. — Está gritando. A todo momento ele dispersa suas emoções mais agressivas sobre mim. Ele quer reassumir o controle daquilo que lhe pertence. — aproximava-se com mais vagarosidade. — Jamais mentiria para alguém em sua condição, Hector. Não me interprete como um aproveitador, apenas porque possui restos do meu poder. Eu sinto-me incompleto sem ele.
— Está na cripta, não é? — indagou Hector, levantando uma sobrancelha.
— Hector, por favor... — disse Áker, querendo interferir.
— Faça-me você um favor, Áker. — falou o caçador, rigoroso, sem olhar para trás. — Saia daqui, para seu próprio bem! Não insista mais!
— Ignore-o. — aconselhou Abamanu. — Concentre-se somente em mim. Este mensageiro é a única barreira que impede nossa união inevitável.
— Inevitável não é bem o termo que eu usaria. — retrucou Hector, inalterável na face.
— Não, isso não pode acontecer... — disse Áker, falando consigo mesmo em voz baixa, olhando para ambos com nítida apreensão. "Os sigilos ainda estão inutilizados. O poder subiu à cabeça de Hector e essa maldita quimera está tentado usar isto como brecha para cravar suas garras. Só me resta contar com a ajuda de Rosie. Mas isso depende. Ela pode já ter resgatado sua amiga e saído da fábrica, sem nem ter visto Hector... Oh, não... Não há garantia nenhuma de que ela vá intervir! Deveria ter ganhado mais proximidade com Abamanu, assim eu o teleportaria para a fábrica de Birmingham, prendendo-o lá mesmo e explodido-a. Mas isso despertaria suspeitas do Exército, além de que a explosão teria a mesma intensidade da que destruiu a fábrica onde o amigo de Rosie, Adam, estava confinado. A partir de agora, as possibilidades estão nebulosas ao meus olhos.".
— Sabe porque — disse Abamanu, esperançoso quanto ao seu poder de convencimento. — Mollock não consegue ter voz e vez enquanto eu estou no seu corpo? Por que não quero que ouçam seus lamentos tediosos. Eu o aquieto. Mas, às vezes, não adianta. Quanto mais eu tento, mais ele se revolta e se debate, ansiando por liberdade e controle. De início, eu pensei que o manteria adormecido, mas ocorreu-me exatamente o oposto. — parara de andar sobre o rastro de destruição no chão, logo em seguida estendendo os braços para os lados e juntando os pés. — À medida que tento mantê-lo calmo... o resultado acaba por prejudica-lo seriamente.
Os braços e as laterais do corpo da armadura possuíam pequenas travas de fechamento, o que facilitava o vestir da mesma. Estas travas, naquele instante, abriam-se, uma por uma, com ruídos mecânicos e finos. Por fim, a armadura abrira-se, as partes da frente e de trás dividindo-se ao abaixarem-se, deixando à mostra o corpo nu de Mollock com hematomas e feridas graves.
O olhar de Hector mudara repentinamente. "Então é verdade.", pensou ele, testemunhando a prova.
Áker não reagiu de modo surpreso, já ciente de que a força de sustentação do receptáculo já estava prestes a ser esgotada a cada tentativa do deus lunar em inibir seu hospedeiro, forçando um controle que causaria mais prejuízos do que ganhos. Era como um humano estar prendendo um simples espirro, mesmo sabendo o quão perigoso pode ser.
— Ao que parece, não estão se dando muito bem. — disse Hector, em tom irônico.
— E somente a sua escolha é o elemento que selará o destino desta relação fracassada. — ditou o deus lunar, sério em sua expressão. — Eu tento controla-lo, ele sente dor e veja como este ciclo termina. — baixou a cabeça, visualizando as enojantes feridas. — Quando estivermos separados, ele mal terá noção de contexto e realidade, talvez nem conseguirá exprimir uma frase lógica e coerente, de tão desvairado que está. — tornou a fitar Hector. — Por isso estou pedindo à você, Hector. Obviamente, estes restos foram absorvidos das Ruínas Cinzas... onde no mesmo ponto em que retornei, abaixo da minha cripta, eu usei meu amuleto, seu outro lado especificamente, para transportar o mago do tempo à um lugar distante e inexplorado até que tudo estivesse pronto. Eles podem não completar o poder que ainda me tem, pois a cripta não pode ser aberta sem minha autorização e eu sei que você não fez isso. Afinal... — sorrira de maneira enigmática e infame. — ... quem chegaria até as Ruínas Cinzas em um único dia e conseguiria recursos para absorver a energia lá contida?
Hector engolira a saliva, ficando apreensivo com a maneira sorrateira que o deus lunar usava para conseguir obter uma explicação.
— Muito bem, já chega. — disse Áker, a paciência esvaída, tentando se pôr entre os dois.
Em um rápido movimento, Hector erguera o braço direito, estendendo-o para o arauto e fechando a mão, telecineticamente lançando-o contra a parede.
As costas de Áker bateram com força no concreto duro, seu corpo semi-imobilizado.
— Eu avisei à você, Áker. — disse Hector, decepcionado. — Fique fora disso! É a última vez que o advirto! — virara seu rosto para Abamanu, denotando pressa. — Então é verdade? Mollock estava tentando trocar de lugar com você em determinados momentos, mas você acabava impedindo-o. Dividir para conquistar. Não é mesmo?
— Uma regra com a qual nunca estive de acordo. — afirmou ele, categórico.
— Você soube fingir muito bem seu desprezo por mim naquela noite. — disse Hector, relembrando o fatídico ato de impedimento ocorrido na tempestuosa noite. — Rosie e eu somos... seus tesouros. Mas... no momento, não sei se devo...
— Não... — grunhiu Áker, forçando para se libertar da pressão que Hector impunha com suas habilidades.
— Você sabe que deve. — emendou Abamanu, assentindo para seu escolhido. — Com Mollock frágil... nós dois seremos imbatíveis. Concluíra sua vingança.
— E como fica o mundo? — perguntou o caçador, soando ríspido e indo mais além na questão. — Existe apenas uma condição: Desistir do plano de dominação global e deixar a humanidade em paz. É isto ou não há acordo.
O arauto de Yuga rangia os dentes com os olhos fechados, querendo mais do que tudo poder fazer algo para evitar o caçador de cair nas mãos de Abamanu.
Por um breve instante estando pensativo, Abamanu avaliou com cautela suas opções.
— Além disso — continuou Hector -, terá de me deixar assumir o controle do meu corpo para que eu possa matar Mollock.
— Por mim está ótimo. — concordou ele. — Mas lembre-se: Nós jamais nos separaremos. Este é o preço a ser pago. — alertou o deus, sorrindo sacanamente e empolgando-se.
Uma lágrima escorrera no rosto do caçador comovido.
— À esta altura... vingar meu pai tornou-se o único propósito de vida que consegui alimentar com minhas poucas esperanças. Não pode sair do receptáculo sem causar maiores estragos... não é?
— Exato. — confirmou Abamanu, assentindo de leve e relanceando Áker com um olhar despreocupado e alegremente escarniante. — Seria demais para os mortais. Metade da cidade não seria o bastante para me acomodar. — andou alguns passos, aproximando-se mais do caçador. — Mas antes de firmamos nossa parceria amigável... deixe-me ver... — ergueu a mão direita, intencionando um toque. — ... suas misteriosas fontes que o auxiliaram para esta conquista. — ficara poucos metros de Hector, o mesmo desconfiado e raivoso. Tocara-o na cabeça, logo fechando os olhos para conseguir vislumbrar claramente as memórias do escolhido, exclusivamente aquelas pertencentes às últimas horas daquele dia.
Hector gemera desconfortável ao sentir a pesada mão do deus invadir sua mente ao vasculhar suas lembranças. Tal incômodo o fez baixar o braço com o qual prendia Áker com telecinesia, consequentemente fazendo o arauto cair ofegante no chão.
Um sorriso suave formou-se na face monstruosa e animalesca do deus. Abrira os olhos amarelos, voltando-os para Hector, logo retirando a mão.
— Ha. — rira rapidamente, parecendo admirado. — Quem diria!? Uma convivência secreta com uma bruxa e uma profetisa. Isto é... fascinante. Eu não poderia estar menos surpreso. — cruzara os braços. — Permita-me mudar alguns termos do contrato...
— E o que inclui estas mudanças? — questionou o caçador, cada vez mais esbaforido, respirando pesadamente.
— A bruxa é dispensável. — disse Abamanu, dando de ombros. — Por outro lado, no entanto... a profetisa possui um valor especial. Ela é dotada de um saber único dos tempos que virão pela frente. E um imperador deve estar bem informado para se preparar e saber lidar com imprevistos. — inclinou-se para Hector, o olhar mais incisivo. — Seremos um só. Compartilharemos das mesmas lembranças... prometo não esconder nada, isto eu juro do fundo do meu coração. E, sendo assim, você, além de reencontra-la, poderá saber o que ela tanto insiste em ocultar.
— Mas... — disse Hector, pensativo e um tanto hesitante. -... Rosie ficará abalada... não tendo outra escolha a não ser dizer sim à Yuga. — tornou a olha-lo com frieza máxima. — Então... é assim que terminará.
Abamanu assentiu, aquiescendo com a terrível perspectiva que Hector adotara sobre os resultados do acordo.
— Sim, Hector. O encontro de vocês dois não foi um mero acaso. — elucidou ele, confiante. — Já estava escrito. Yuga e eu devemos terminar o que começamos através de vocês dois. Meu escriba... já sabia. E por falar nele... preciso da profetisa para tira-la de seu rastreamento.
— Isto explica ele não ter dado sinais de sua presença até agora. — deduziu Hector.
— Ele se escondeu por medo e covardia. — disse Abamanu, desapontado com seu grande assistente. — Com seu desaparecimento repentino, passei a duvidar de suas verdadeiras intenções. Ele sabia que eu imaginaria isso e resolveu se esconder nos confins, embora seja apenas uma especulação da minha parte... mas isso é o que menos importa agora. — tocou Hector no ombro. — Com a energia que armazena dentro de si, poderá elevar meu nível de poder.
— Você detém cerca de 60%. — disse Hector, constatando a precisão. — Posso sentir. — assentiu ele. — Possuo somente 20%.
— Verdade. — aquiesceu Abamanu, assentindo positivamente. — E veja o que conseguiu fazer com o mensageiro. — gesticulou com a cabeça, apontando para Áker.
— Com a soma... consegue 80%. — disse Hector, falando de modo mais calmo desta vez. — Presumo que o que esteja na cripta é o bastante para completar os outros 10.
— Engana-se. — retrucou o deus lunar, dando as costas e pondo as mãos para trás juntas. — O que está lá não deve ser libertado, em hipótese alguma. A menos que eu veja alguma necessidade, o que dificilmente acontecerá. — olhou-o por trás do ombro. — Insistir em um erro que custou a relevância do meu império é a última coisa que eu quero.
Engolindo em seco, Hector respirara fundo, encarando-o com extrema postura corajosa, como que querendo igualar-se à ele em uma desnecessária disputa de egos.
— Pode me dizer... o que há de tão perigoso escondido na cripta que até mesmo você rejeita? — perguntou ele, ávido por saber toda a verdade relacionada à caixa de pedra no centro da cripta.
Abamanu virara-se para o caçador, exibindo uma face rude.
— És uma curiosidade que deve ser sanada quando realizarmos a união. — disse ele, dando alguns passos à frente. — Mas... tendo em vista o ponto ao qual chegamos... por que não compartilhamos nossos segredos mais profundos?
Áker se pusera de pé, ainda desconfortável e cansado por conta da pressão exercida por Hector contra ele, vendo-se inerte e impotente. Apenas um espectador aguardando o desfecho de um espetáculo horrendo.
Olhara para a parede esquerda, mais precisamente para a parte que fora destruída, sentindo presenças aproximando-se com rapidez. Voltou sua atenção para os dois predestinados a se unirem.
— Ela havia sido o melhor presente que já nos foi dado. — contou o deus lunar, divagante. — Caso eu morresse, ela me sucederia no trono, eu dediquei esta promessa unicamente à ela. Não a reconheci mais quanto cometi o pior dos meus erros. Foi como se o mundo pelo qual eu lutava para preservar estivesse se definhando ao meu redor. Eu doei aquilo que me tornava único.
— Está se referindo à sua filha, não é? — perguntou Hector, curioso, estreitando os olhos. — Por que conferiu à ela sua energia residual?
— É um poder que esconde-se na cripta junto à ela. — revelou Abamanu, tornando-se inseguro ao lembrar-se do desastroso acontecimento. — Iguala-se à energia residual que Yuga depositou em Rosie Campbell. Por isso ele está tentando ganhar vantagem. Ele aproveitou-se do fato que perdi minha obscura fonte de poder para depositar toda sua confiança em uma mortal.
— Agora estamos falando de Yuga... quero saber mais da sua filha. Como ela se chama? — perguntou Hector, tornando-se impaciente ao dar alguns passos firmes.
— Seu nome é...
Passos apressados e uma voz destacante rasgaram a conversa de modo súbito.
— Hector! Não acredite em nada do que ele disser! — disse Rosie, em alto e bom som, apressadamente entrando na sala com urgência estampada na face e no olhar aflito.
O caçador virara o rosto, mal acreditando em sua presença.
— Rosie!? — disse ele, estupefato, sentindo o mundo parar á sua volta ao revê-la.
A jovem voltara-se para sua direita, onde vira Áker parado próximo à parede.
— Áker! — gritou ela, alarmada.
— Inoportuna demais para meu gosto, mortal. — afirmou Abamanu, enraivecido pela chegada triunfal da jovem.
— Hector, por favor, me escuta. — pediu ela, voltando-se para o caçador. — Eu vi o que você fez com aqueles soldados, e não sei onde conseguiu tanto poder pra isso, mas ouça: Não permita que ele manipule você. — disse, com bastante firmeza no tom. Foi aproximando-se devagar. — Consequências terríveis podem vir se você deixa-lo entrar.
— Isto é algum tipo de ameaça? — perguntou o caçador, franzindo o cenho, dirigindo à palavra à companheira de modo frio. — Está tentando impedir minha vingança?
— O quê? — indagou ela, franzindo a testa, confusa. — Mas... — gaguejou, relanceando os dois.
— Mas nada! — bradou Hector, ríspido. — Enquanto estiver possesso por Abamanu, poderei completar minha vingança aproveitando que Mollock está debilitado e frágil, e logo depois vou expulsa-lo de mim.
— Como é!? — perguntou Abamanu, olhando-o com suspicácia intimidadora ao elevar o tom de voz.
— Exatamente o que você ouviu. — retrucou Hector, voltando-se para o deus, fitando-o desafiadoramente.
— Ah... — disse Abamanu, parecendo exausto e decepcionado com o caçador, suspirando pesadamente. — Agora entendo a vida difícil dos Coletores neste mundo. Vocês humanos são péssimos negociantes. — afirmou, logo em seguida erguendo a mão esquerda e estalando os dedos.
Cerca de 16 soldados, feito fantasmas assombrosos, apareceram repentinamente na sala, portando suas lanças prateadas.
— Apontem! — ordenou Abamanu, autoritário e furioso.
As lanças, então, marcaram seus alvos. Quatro soldados apontaram as armas para Áker e três para Rosie, enquanto que os outros permaneceram observando alertas e aguardando novas ordens.
— Vamos com calma, rapazes. — disse Áker, erguendo levemente as duas mãos, resolvendo não produzir movimentos bruscos para não comprometer a segurança de Rosie. — Uma retaliação pela perda de seus parceiros. Eu entendo. — olhou para cada um deles, sério.
— Deixe-os em paz! — exigiu Hector, exasperado com o ato.
— Mudança de termos. — disse Abamanu, retesando os músculos e sorrindo. — Escolha entre o acordo ou a preciosa vida de Rosie Campbell. — apontou para a jovem com a mão direita.
— Não dê ouvidos à ele, Hector! — disse Rosie, sacando uma adaga e encarando aqueles ferozes lobos bípedes que rosnavam ao apontarem suas lanças contra ela. — Ainda existe outra saída.
— Quieta! — esbravejou Abamanu, tentando cala-la.
Voltando-se para Hector, Abamanu arqueara a sobrancelha, esperando uma decisão rápida. Hector olhara para seu relógio de pulso incontáveis vezes a cada cinco segundos. Na última olhadela, desesperara-se de imediato. "Mas que droga! Meu tempo está acabando... Se não fosse por Rosie... certamente teria terminado de outra forma. Dane-se. Esperei por anos... talvez eu seja capaz de esperar um pouco mais.", pensou, logo erguendo os dois braços para os lados, os dedos das mãos em forma de garra, indicando uma investida imprevisível.
Abamanu o observava movimentar os braços para cima, curioso.
— Oh. Então este é o seu sinal de redição? — questionou o deus lunar, zombeteiro.
Um sorriso enviesado formou-se em Hector, ao mesmo tempo em que seus olhos brilharam, em questão de segundos, uma luz azulada clara.
Para o espanto súbito de Áker e Rosie, os soldados do Cavaleiro da Noite Eterna foram afetados por Hector, um por um, seus olhos brilhando uma luz azul antes de caírem mortos no chão. O caçador manteve os braços abertos e para cima até que todos estivessem executados, esforçando-se ao máximo para conseguir total êxito. Contudo, gastando os últimos resquícios de energia que sobraram dentro da pedra Ônix.
O ruído do metal das lanças caindo fora o único som audível até o silêncio perturbador vir.
O caçador, por fim, baixara os braços, sentindo que a fonte de poder fora completamente esvaziada de seu corpo. Um suspiro de alívio e satisfação foi tudo que ele conseguira expressar naquele instante.
Emanando um ar de desilusão, Abamanu encarara o ato como uma sincera demonstração dos verdadeiros propósitos de Hector, que resolvera, pela presença motivacional de Rosie, abandonar o arriscado seguimento para findar sua vingança e honrar a memória de seu pai. O ar frio abateu sobre a face do caçador, o mesmo expirando pela boca um leve e efêmero vapor gélido. As reações corporais retornavam aos seus estados normais em ritmo gradativo. Os cinco sentidos, com o esgotamento total da energia divina, voltavam a funcionar de modo mais humano por assim dizer. O que restara foi somente um incômodo no estômago... algo movendo-se devagar. "Não pode ser verdade que Eleonor esqueceu de me dizer que vou regurgitar a pedra. Não sinto como se ela fosse dissolver dentro de mim...", pensou ele, tocando no abdômen ao sentir um mal-estar contornando a parede intestinal.
Abamanu ainda fitava-o com descrença.
— Não pode ser. — disse ele, erguendo a mão direita, estendendo-a até Hector. — A emanação... ela desapareceu! — vociferou, algumas gotículas de saliva lançadas ao ar.
O tom homérico da chateação do deus ecoou por todo o recinto de modo assustador.
Rosie manteve a adaga firme na mão direita, olhando tanto para seu inimigo quanto para seu parceiro. Áker aproximava-se discretamente de Hector, atento aos movimentos.
Abamanu fechara a mão direita do braço estendido, como se estivesse afim de puxar algo para si.
Hector sentira o abdômen vibrar em um ritmo desconfortante, como se seu corpo tivesse adquirido uma ebulição de uma penela em fervor, uma sensação borbulhante e incontrolável. Abatido pelo terrível mal-estar, o caçador gemera de dor mal aguentando-se em pé, logo ajoelhando-se devido à crescente fervilhação que sofria.
— Hector.. — disse Rosie, preocupando-se com o estado do caçador. — O que está havendo? — direcionou seus olhos para Abamanu. — O que está fazendo com ele? — perguntou, o tom ríspido.
Hector revirava os olhos, a boca movimentando-se desajeitadamente, sentindo uma dor indescritível, cuidadoso ao não emitir um som de sua voz que representasse a gravidade do problema para não afligir Rosie. O deus lunar parecia puxar algo... de dentro do caçador.
— Áker, faça alguma coisa! — pediu Rosie, alarmada.
— Embora esteja sendo submetido a um processo doloroso... — disse o arauto, os olhos fixos no pequeno objeto esférico que parecia transpassar o corpo do caçador. — ... acredito que esteja sentindo-se livre.
— Livre de quê? — insistiu a jovem, curiosa.
— Daquilo que o agraciou com o poder divino. — disse Áker, olhando para ela, sério.
Rosie retrucara fazendo uma cara de confusa, o cenho franzido. Ao ouvir um rápido grito de dor do caçador, voltou sua atenção para a incômoda cena, ficando boquiaberta com o que estava presenciando. "Que coisa mais... estranha... Como ele colocou essa coisa dentro do próprio corpo?".
CONTINUA...
Fale com o autor