Capuz Vermelho - 3ª Temporada
35 Alfa, Beta e Ômega (Parte 3.4)
Eleonor entrara de modo apressado na sala, abrindo a porta com grande estardalhaço, não tardando a se aproximar com rapidez de Hector e Alexia, ambos antes pacientemente andando pelo recinto, no aguardo pelo retorno da bruxa. A vidente a olhara com expectativa contagiante.
— Demorei demais? — perguntou Eleonor, fitando ambos.
— Não tanto quanto imaginávamos. — disse Hector, andando em direção à poltrona. Tirara o sobretudo, sentou-se e reclinou-se no assento. — Venha, vamos começar logo... aliás terminar o plano.
— Conheço essa cara. — disse Alexia, não gostando da forma que a sua mentora parecia se portar diante daquele ponto alcançado. — Por favor, logo agora que chegamos nessa parte, você não pode...
— A pedra reagiu bem ao feitiço. — disse a bruxa, interrompendo-a. Tirou-a de dentro do vestido, a mesma ainda brilhando de modo intermitente.
— Por que... ela está desse jeito? — perguntou Aexia, estranhando.
— Havia uma alta concentração de energia na marca, eu intensifiquei o feitiço para que a absorção fosse total. — disse a bruxa, segurando o artefato com extremo cuidado. — Por um momento eu achei que a quantidade não fosse o bastante para a Ônix suportar. Mas felizmente ela absorveu todo o conteúdo. O fato de estar brilhando assim indica que ela atingiu seu limite, obviamente por conta de seu tamanho. — andou devagar até Hector, trazendo a pedra com as duas mãos. — Caso a marca possuísse energia acima do limite da pedra... a Ônix racharia até se despedaçar.
— E existe algum outro tipo de Ônix que suporte uma grande carga de energia? — perguntou Alexia, curiosa.
— Uma que seja maior do que esta? — quis saber a bruxa, olhando para a pedra.
— Sim. — respondeu a vidente, assentindo.
— Existe. — confirmou a bruxa, logo olhando para Alexia. — No entanto, é extremamente rara. Foi assumida como uma lenda passada de geração à geração quando o uso da Ônix se tornou popular entre as bruxas mais alvejadas pela Inquisição. A Ônix suprema, segundo alguns manuscritos ocultos, muito provavelmente é única e difícil de obter. Boatos contavam que ela já foi vista nas mãos de leiloeiros desinformados que a vendiam como um amuleto de boa sorte, o que fez com que muitos acreditassem de que havia várias delas espalhadas pelo continente, algo que sempre frustrava colecionadores e magos que desejavam tê-la.
— Sim, mas... — disse Alexia, ainda não satisfeita. — ... você faz alguma ideia de onde ela pode ter sido escondida ou se há como saber com algum mago sobre uma localização secreta?
— Impossível. — disse Eleonor, lacônica. — Com tantos boatos confundidos com verdades, eu não tentaria isso, muito menos sem saber do que ela pode ser capaz de fazer. Quando se mergulha fundo na bruxaria, ao passo em que você reúne várias informações sobre coisas poderosas, vai ficando mais difícil discernir o que é real e o que é mito. — afirmou ela, voltando-se para Hector.
— Lendas são lendas. — disse Hector, com firmeza. Olhou para Eleonor. — E, é claro, não perdermos mais tempo virando o mundo a procura de uma Ônix mais poderosa... quando já temos a que é mais adequada ao meu corpo.
— É o que vamos descobrir agora. — disse Eleonor, baixando a pedra em direção ao abdômen. — Com todo o respeito, eu... gostaria que levantasse a camisa. — dera um sorriso enviesado à ele. — A Ônix não é intangível, a menos que seja manipulada por uma força telecinética que a insira e a retire.
Suspirando, Hector cedera ao pedido, levantando sua camisa preta até o torso, deixando a barriga à mostra.
— Ótimo. — disse Eleonor, sem ocultar a forte preocupação, algumas mechas do seu cabelo castanho pendendo.
— Sei como se sente. — disse Hector, mostrando-se corajoso. — Eu vou sobreviver. Minha licantropia está seguramente sob controle.
— Aí que está o problema. — disse a bruxa, parecendo relutante. — Sem conhecimento prévio dos efeitos de uma energia divina armazenada numa Ônix... dentro de um corpo humano... os resultados podem ser fatais. Alexia e eu apostamos na possibilidade de você enlouquecer e se transformar, pondo nós duas em perigo, porque caso você entre num estado de descontrole emocional, nem mesmo minha magia vai conseguir para-lo. Além das sequelas... que tanto podem surgir de repente ou depois de um bom tempo, dependendo dos efeitos iniciais que a Ônix vai impor sobre você.
Alexia sentia suas mãos gelarem de nervosismo, discretamente recuando alguns passos a fim de obter uma distância segura, por via das dúvidas.
— Aguente firme, Hector. — disse a vidente, torcendo pelo amigo.
— Obrigado... Alexia. — agradeceu o caçador, confiante, assentindo para ela.
Eleonor, segurando a vibrante pedra, já mostrava-se preparada.
— Saiba que estamos prontas... para o que der e vier. — disse ela, aproximando vagarosamente a pedra ao corpo do caçador, prestes a recitar o último feitiço para aquele plano. — Augurium corporis. Augurium lapidem. Uniendis. — por fim, pusera a pedra, a mesma adentrando no abdômen.
O caçador começava a dar os primeiros sinais negativos da dolorosa absorção, como gemidos agoniantes, dentes rangidos, olhos fortemente fechados e suor frio e profuso.
Hector queria debater-se na poltrona, desconfortando-se ligeiramente após a Ônix finalmente ter entrado em seu corpo, na região abdominal. Os gemidos tornavam-se grunhidos de raiva...
Eleonor não parecia tão convencida acerca do que aguardava ver, afastando-se lentamente.
De súbito, Hector inclinara-se para frente, transformando-se instantaneamente ao dar um selvagem rugido lupino, suas presas já crescidas e as pupilas de seus olhos brilhando uma luz azulada. O descontrole, como esperado, viera mais assustador do que se imaginava.
Estremecida, Eleonor procurou manter mais distância. Alexia encontrava-se próxima à porta.
— Hector! Por favor, aguente. — dizia ela, tentando convence-lo a se acalmar.
O caçador parecia estar preso à poltrona, as presas à mostra, os olhos fechados apertadamente. Seus rosnados eram altos, parecendo preceder um furioso ataque a qualquer momento. Olhou para Eleonor, mantendo a expressão descontrolada.
— Hector... Pode nos reconhecer? — perguntou ela, tentando uma aproximação. — Você... — apontou para ele. — ... entende minha língua? — apontou para si mesma. — Entende o que eu estou lhe dizendo?
— Porque está agindo como se ele tivesse virado um troglodita acéfalo? — questionou Alexia, franzindo o cenho para a bruxa.
— Preciso confirmar se a cognição humana dele não foi afetada. — justificou ela, ainda chegando perto com cuidado. — Lembre-se: Considerar todas as possibilidades. Demência e descontrole foram os primeiros efeitos que acreditei que iriam surgir. Mas... ele parece reconhecer o espaço à sua volta... até aí tudo bem.
Hector ofegava pesadamente, alterando a expressão furiosa para uma mais tristonha, fechando os olhos. Um detalhe animador logo fora percebido pela bruxa: As presas começavam a diminuir gradualmente e a face tornava-se humana de novo no mesmo ritmo.
— Hector? — perguntou a bruxa, entristecendo o olhar, mas deixando-se sorrir de leve. — Como se sente?
O caçador demorara a responder, tremendo como se estivesse com frio.
— Ele não parece bem. — disse Alexia, apreensiva quanto aos efeitos. — Também pensou que ele chegaria a ter essa tremedeira? Ele parece que vai convulsionar a qualquer momento.
— Está muito gelado. — disse Eleonor, ao tocar na testa de Hector. — Não... não... — desesperou-se.
— O que foi? — perguntou Alexia, já mais tranquila sabendo que um ataque repentino estava fora da lista.
— A temperatura do corpo dele... — disse ela, tocando as partes do rosto do caçador. -... está abaixo de 27 ºC! Uma queda muito brusca dessas...
— Significa que está entrando em estado de hipotermia! — disse Alexia, logo aproximando-se com rapidez. — Se continuar caindo, ele...
— Não, não vamos pensar no pior agora, Alexia, por favor. — disse a bruxa, passando a mão pelo rosto em preocupação. — Jamais vou me perdoar se caso ele morrer agora... logo agora! — tocara-o nos ombros, aproximando seu rosto ao dele. — Hector... ouça-me: Você está bem. Seguro e conosco. Volte para nós. Seja forte.
— Isso é estranho... — disse Alexia, com os dedos indicador e maior na veia carótida direita do caçador, detectando uma diferença surpreendente. — Ele... parece estável. O pulso está normal.
— O quê? — indagou a bruxa, virando o rosto para aprendiz. — Alexia, você tem certeza?
— É claro que sim, acabei de verificar. — disse ela. — Mesmo parado e sentado, o metabolismo dele não tem nenhuma falha, apesar da queda de temperatura.
A respiração de Hector retomara o ritmo adequado. Aos poucos, abria os olhos.
— Hector! — disse Eleonor, feliz pelo retorno, tocando no rosto do caçador. — Olhe para mim... fale comigo, diga alguma coisa.
Suavemente, Hector tirara a mão da bruxa sobre seu rosto, logo levantando-se e dando alguns passos.
— Inacreditável. — disse Alexia, baixinho, admirada ao ver o caçador mostrar-se vigoroso mesmo com uma temperatura corporal abaixo do normal. — Hector é um caso inédito... de alguém que mantém todas as funções vitais com uma hipotermia de terceiro grau.
— Definitivamente. — aquiesceu Eleonor, abrandando a aflição. — Com uma ajudinha extraordinária, é claro.
O caçador dera mais passos á frente, a face endurecida e sisuda.
— Ei, ei. — disse Eleonor, pondo-se na frente dele, sorrindo de leve. — Como está se sentindo?
— Mais forte... do que jamais me senti antes. — confessou ele, olhando-a. — Eu estou bem, não se preocupe. A dor cessou. De início, senti um frio que parecia querer me esmagar. Mas agora... ele não é mais um incômodo, tornou-se parte de mim. Eu preciso ir. Não está tentando me impedir... está? — perguntou ele, olhando-a com desconfiança.
— Não, é claro que não. — disse ela, balançando a cabeça. — Quero que vença. Alexia e eu vamos estar torcendo por você. Faça o melhor que puder.
— Eu vou mata-lo. — disse ele, de modo frio. — É o melhor que devo fazer.
— Sim... — disse Eleonor, concordante. — Mate-o. Mas lembre-se: Há um limite de tempo para a energia enquanto ela está dentro da Ônix.
— E quanto tempo eu tenho? — perguntou ele.
— Apenas meia-hora. — respondeu a bruxa, olhando-o fixamente, com seriedade. — Não mais do que 30 minutos. Procure uma forma de destruí-lo dentro deste tempo.
— Está bem. Obrigado pelo aviso. — disse o caçador, visando a porta e andando até ela. — Farei bom uso.
No entanto, a bruxa o segurara pelo braço de modo suave e amistoso.
— Ahn... Espere... — disse ela, fazendo Hector virar-se para sua frente. Tocara a parte de trás da cabeça do caçador, aproximando seu rosto ao dele... culminando em um singelo beijo.
Hector a olhara, sem entender.
— O que foi....
— Meu desejo de boa sorte. — disse ela, interrompendo-o com a fala rápida. — Acabe com ele.
Era nítido o esforço que Hector fazia para sorrir para expressar sua gratidão, sendo dominado pela essência frígida da energia divina do deus lunar que pulsava dentro de si. Tornou a andar em direção à porta... mas desaparecera em questão de milissegundos.
Alexia olhara para os cantos, perdida, sem ter percebido direito como o caçador sumira tão velozmente.
— Ué, mas... Onde ele está? — perguntou ela, confusa. — Ele estava bem aqui na sala... e sumiu feito um fantasma.
— Ele se teleportou. — explicou Eleonor, fitando o nada, pensativa e mais calma. — Uma habilidade comum de entidades divinas.
— E se houver algum risco de Hector se tornar igual àquele monstro? — perguntou Alexia, ainda afligida pelas possibilidades negativas.
— Não, isso não vai acontecer. — disse a bruxa, otimista. — A menos que... — olhou para aprendiz de modo sério. — ... ele se disponha a sofrer algum tipo de manipulação, mas a quantidade de energia que ele tem já descarta qualquer chance de isso ocorrer. Já vimos que a licantropia não assumiu todo o controle, o que já é bem aliviador. Se Hector estivesse em pleno período de crise, com seu lobo interior prestes a despertar a qualquer hora, o risco aumentaria a um nível muito mais perigoso. — fez uma pausa, suspirando pesadamente. — Agora é esperarmos que ele volte... trazendo a carcaça de Mollock até nós.
***
Durante a subida, a escada dava a impressão de ser interminável. Com alguns tropeços nos degraus, Rosie e Êmina avançavam para chegarem a tempo à porta que levava de volta à superfície.
— Você está bem? — perguntou Êmina, olhando para a amiga, alguns degraus atrás dela.
— Bem cansada. — respondeu Rosie, pausando a subida apressada, ofegando bastante. Logo retomou o percurso.
Após cerca de 8 minutos, finalmente alcançaram o topo da escadaria. Êmina, prontamente, forçou a maçaneta redonda da porta de madeira meio bege meio amarela, no formato em arco. Estava trancada.
Rosie, com um pé no último degrau, observava com ansiedade enquanto reavia o fôlego.
— Acho que já chega de alquimia explosiva por hoje. — disse ela, temerosa. — Não aqui, certo?
— Bem, vamos pelo método tradicional. — disse a caçadora, recuando, cautelosamente, uns rês passos. Ergueu a perna direita, aplicando um chute violento no centro da porta, destroçando a madeira velha em vários pedaços. Saíram, logo deparando-se com a chamada área cinzenta da estrutura, mais precisamente no limiar de um labirinto de corredores meio escuros.
— O quê? Ainda estamos aqui? — perguntou Rosie, desiludida, vasculhando o espaço com os olhos. — Eu pensei que a escada nos levaria diretamente para o lado de fora.
— Menos papo e mais agilidade. Anda, vem. — disse Êmina, andando depressa, quase correndo, à procura de uma saída. Ambas adentraram em um dos corredores, sem temer o que encontrassem pela frente.
— Êmina, espera! — chamou Rosie, parando de correr subitamente. — Não adianta.
A caçadora cessara a corrida, virando-se para trás, logo andando em direção à jovem.
— Não adianta o quê, Rosie? Nós precisamos sair daqui, achar logo uma saída! — disse ela, alarmada. — Você me parece mais preocupada com o sacrifício daqueles soldados... — aproximou-se dela. — Mas, olha, me escuta. — tocou-a no ombro, a expressão carregada de seriedade. — Estamos no meio de uma guerra. O que você espera além de sacrifícios? Nem todos se salvam, Rosie. Mas sendo honesta com você, eu não me sinto nem um pouco culpada. Não foi por causa confinamento que você acha que me tornou uma pessoa fria e insensível, mas sim porque eu aceitei a decisão daqueles homens.
— Do que você está falando? — perguntou Rosie, parecendo perdida.
— Eles aceitaram ficar e lutar por puro instinto ao invés de se juntarem a nós duas. Foi uma escolha deles, não nossa. — explanou ela, firme no tom.
— Ainda assim, se algum soldado for averiguar aquele corredor — disse Rosie, não abandonando o nervosismo. -, caso haja um sobrevivente, ele vai saber que eu, a líder do pelotão, abandonou seus companheiros e fugiu com a vítima sem informar aos outros do que aconteceu, sem nem se dar ao trabalho de saber se havia uma grupo mais próximo dali para prestar reforços. — passou as duas mãos no rosto, em clara inquietude. — Não vou julgar você, Êmina...
— Vou repetir, Rosie: Não foi nossa escolha, foi deles. — insistiu ela, mostrando apoio à amiga. — Eu marquei aquele círculo de transmutação para ser usado justamente no dia em que eu seria resgatada, ou quando eu fosse transferida para uma outra fábrica, eu tentaria fugir nestas duas circunstâncias, e nelas o sigilo seria desfeito caso a parede virasse.
— Espera, então... — disse Rosie, olhando-a com curiosidade. — ... aquele sigilo bloqueava sua alquimia...
— Desde o dia em que fui jogada naquela cela feito um animal. — confirmou ela, assentindo. — Abamanu sabia das minhas habilidades, então ordenou que aquele sigilo fosse gravado previamente na parede. Ela inibe alquimia humana. Esta foi a primeira fábrica construída. Fiquei por poucos dias em uma sala branca qualquer, enquanto o resto ainda estava sendo criado. Depois fui levada para aquela masmorra, onde minhas únicas companhias eram ratos, baratas, uma lasca de carvão e uma tocha que durava um mês inteiro e depois apagava. Ficava mergulhada na escuridão esperando que trocassem. Enfim... chega de falar de mim. — fez uma pausa, relanceando o cinto de utilidade de Rosie. — Pensei que o Exército te ofereceu um rádio-transmissor, mas só vejo um...
— Ah sim. — disse Rosie, olhando para seu cinto. — Na verdade, é...
Um rugido estremecedor cortara a frase da jovem inesperadamente.
Estremecidas, ambas olharam para o fim do corredor que levava para outros dois á esquerda e direita, vendo um dos soldados de Abamanu ser arremessado com violência pelo corredor da esquerda. Correram para que pudessem ter conhecimento do que causara aquilo, dobrando para o corredor à direita.
— Não pode ser... — disse Rosie, em voz baixa, ficando boquiaberta com o que vira.
Êmina tivera a mesma reação, mal conseguindo respirar.
Hector, completamente sob o efeito da energia divina fixada na pedra Ônix dentro de seu corpo, andara em direção a outro corredor daquele labirinto, localizado à esquerda. No entanto, não exatamente um corredor, mas uma pequena área semi-quadrada, praticamente uma sala de visitas, cujo lado direito resumia-se em uma saída em diagonal para uma direção misteriosa, um corredor relativamente escuro.
Rosie e Êmina assistiam escondidas na parede um verdadeiro espetáculo de brutalidade.
Uns dois soldados quiméricos se encontravam na área, portando suas lanças de prata, rosnando contra o caçador.
Hector andava até eles, logo usando uma supervelocidade e tomando de um deles sua lança, em seguida cravando-a no corpo do quimérico por trás dele. O lobo bípede irradiara uma luz azul pelos olhos e boca antes de sucumbir. O outro viera tentando perfura-lo, empurrando-o contra a parede.
O caçador segurara a ponta vermelho da lança — o cristal vermelho — tremulamente, a mesma estando poucos centímetros próxima de seu olho direito, por pouco não atingido.
Hector forçava a lança para cima, ao passo em que o metal incrivelmente estava dobrando, surpreendendo seu portador.
— Isso está mesmo acontecendo? — perguntou Êmina, mal acreditando no que via.
— Por incrível que pareça... é bem real. — disse Rosie, mantendo o tom de voz baixo, fitando Hector totalmente embasbacada.
Por fim, o caçador aproveitara a lança retorcida, jogando-a para o lado, logo em seguida estendendo uma mão e empurrando o soldado quimérico para longe com telecinesia, fazendo-o colidir de costas com a parede.
Impressionando ainda mais as espectadoras, o caçador tornara a andar, mantendo o braço direito estendido, mas logo virando a mão e fechando-a com força. O soldado urrara em alto som, sendo rapidamente expulso de seu receptáculo graças à enorme força exercida por Hector. Rosie e Êmina arquejaram baixinho ao verem uma sombra espectral no formato de um lobo bípede com olhos azuis ser ejetada do corpo da quimera, logo a mesma "evaporando" no ar, ambas testemunhando um exorcismo instantâneo e eficaz.
— Mas... o que... foi isso? — disse Êmina, encostando-se na parede, a face travada de espanto.
Rosie também fizera o mesmo, sem saber o que pensar a respeito.
— Que loucura. — disse Êmina. — Pelo visto, nem mesmo você que, provavelmente esteve com ele durante o tempo em que estive confinada, sabe do que está acontecendo.
— Não faço a mínima ideia. — respondeu Rosie, o olhar vago.
Um forte tremor reverberara, abalando nocivamente a estrutura, deixando alguns pedaços consideráveis do teto e poeira caírem com barulho no chão.
— O que foi isso? — perguntou Êmina, assustada, olhando para cima. — Parece que vai tudo vir abaixo.
— Parece que o Exército já iniciou o ataque armado contra a fábrica. — disse Rosie. — Estão tentando destruí-la com tiros de tanques.
Passos foram ouvidos por Êmina do corredor de onde vira Hector sair. Arregalara os olhos, ficando mais próxima de Rosie, logo agachando-se com urgente rapidez, sacando a lasca de pedra ao desenhar o círculo de transmutação.
— Rosie, se abaixa! — exclamou ela, terminando o desenho em questão de segundos, logo pondo suas duas mãos no chão empoeirado e cinzento. O símbolo alquímico brilhara, dando origem à uma parede de concreto de tamanho médio que protegia e ocultava as duas, com o objetivo de não serem vistas pelos quiméricos.
— Mas o que... — disse Rosie, parando a frase no meio, sem saber exatamente o que pensar a respeito da atitude de desespero da caçadora. A jovem ficou agachada e colada lado à lado com Êmina.
— Shhh! — chiou a caçadora, pondo o dedo indicador na frente da boca. — Fiz isso para não sermos vistas. O tremor não me impediu de ouvir os passos dos monstrengos vindo até aqui. A única coisa que quero saber agora é o que diabos deu no Hector? O que ele está fazendo aqui? De onde ele arranjou recursos para fazer aquilo?
— Acredite, também quero muito saber. — disse Rosie aos sussurros, logo olhando para a parede criada alquimicamente. — Esperava algo um pouco mais maior. — virou o rosto para a amiga. — O que houve?
— A falta de prática leva ao reaprendizado. — afirmou ela, ofegando em cansaço. — Em outras palavras, os dois anos que perdi foram o bastante para minha alquimia ficar mais fraca. Quero sair viva daqui para correr atrás do prejuízo, mesmo que isso leve mais dois ou até cinco anos.
Mais um tremor seguido de vários sons de explosões simultâneas.
Uma razoável porção de poeira e pequenos fragmentos de concreto caíam por cima das duas, que abaixavam as cabeças, sobretudo Rosie protegendo-se com o capuz.
— Você me deve muitas explicações. — disse Êmina, afastando os desgrenhados cabelos pretos do rosto. — Ao menos não vou ser a última saber...
Outro tremor cortara a frase da alquimista.
Hector olhara de modo frio para os dois soldados que aproximavam-se, armados com suas lanças disparadoras. O caçador erguera a mão direita para frente, o semblante de fúria, logo aplicando mais um golpe fatal, seus olhos brilhando a luz azulada. .
Ambos os quiméricos tiveram suas armaduras e corpos transformados em gelo sólido em velocidade surreal, sendo neutralizados antes que pudessem efetuar algum ataque contra o caçador. Em segundos, seus corpos gelificados fragmentaram-se feito vidro estilhaçado tilintando ao cair.
Mais dois deles surgiram, vindos do corredor escuro. Um deles atirara um raio vermelho com provindo da ponta da lança.
Hector, com um reflexo aprimorado, defendera-se com uma só mão, sem sentir nenhum dano significativo, com uma fumaça exalando de sua mão.
Insistentes, os soldados tornaram a disparar com mais fúria. Mantendo-se na defensiva, Hector seguira em frente, com os braços estendidos e as palmas à mostra. Os raios atingiam suas mãos sem causarem nenhum arranhão, apenas faíscas e fumaça.
De súbito, ao ganhar certa aproximação com os oponentes, movera-se até eles de modo superveloz, ficando no meio deles. rapidamente, tocara suas cabeças lupinas, aplicando a morte instantânea ao fazer os dois quiméricos irradiarem luzes azuis de seus olhos e bocas, seus corpos tremeluzindo freneticamente.
Deixara-os caírem no chão, logo imergindo nas trevas do corredor em passos relativamente afoitos.
Um esbaforido soldado do Exército Britânico dobrara para o corredor, onde avistou duas jovens garotas agachadas perto de uma parede mal feita e repleta de "rugas". Correu na direção delas, sem titubear. Rosie percebera a presença do rapaz, inicialmente olhando de modo enviesado, logo virando o rosto para ele.
— Senhorita Campbell! — gritou ele, chegando mais perto. Visualizou Êmina — Você é a resgatada?
— O que você acha? — perguntou ela, levantando-se devagar.
O soldado balançara a cabeça negativamente com os olhos fechados de modo rápido, ignorando a pergunta da caçadora.
— Mais da metade do pelotão já saiu da fábrica. Só restam mais alguns... e vocês duas! — preparou-se para ir, pegando na mão direita de Êmina com delicadeza para que ela pudesse acompanha-lo. — Nós temos que ir, depressa.
Rosie, contudo, mostrou-se resistente, inerte no mesmo ponto, encarando o soldado de forma séria.
— Com todo o respeito, mas... eu prefiro ficar. — disparou ela, sem medo, com mais um tremor sucedendo sua fala. — Ainda há mais alguém que precisa ser salvo.
— Rosie... — disse Êmina, a voz trêmula e a face nervosa. O rosto da caçadora estava sujo de poeira e terra.
— Afinal, quem mais está aqui, além daqueles lobisomens cinzentos? — questionou o soldado, soando irritado. — Campbell, por favor, venha conosco, as duas vítimas já foram salvas, os infectados já foram neutralizados, agora chegou a hora desta fábrica desmoronar. Mas eu quero que me responda: Quem mais está aqui? Até onde eu sei, tinha-se certeza de que somente duas vítimas estavam confinadas.
— É algo bem particular, devo dizer. — disse ela, sacando de seu cinto o inconfundível detector de atividades sobrenaturais.
— Ei, é um de novo modelo, não acredito que foi autorizada a portar um desses. — apontou o soldado, fitando-a desconfiado.
— E não fui. — retrucou Rosie, apertando alguns botões e levantando a longa antena do aparelho. Os barulhos psicodélicos e baixos do objeto soavam irritantes para qualquer ouvido, mas, de fato, era um mal necessário. O medidor — semelhante ao velocímetro de automóveis — exibia uma contagem de 500 EMF (Medidor de Campo Eletromagnético), uma leitura acima do esperado.
Rosie deu alguns passos vagarosos, olhando para o aparelho.
— Senhorita Campbell, por favor, venha, salve-se. — insistiu o soldado.
A partir daquele momento, vários pedaços grandes de concreto vindos do teto caíam — seguidos de bastante poeira — aos montes com baques estrondosos.
— Rosie, é melhor vir logo! Por favor. — disse Êmina, tentando desesperadamente convence-la. — Se não quiser que uma pedra esmague sua cabeça!
— Já disse que vou ficar! — disse ela, ríspida, dando a volta na parede e indo em direção á pequena área onde o caçador estava.
Êmina fizera a mão do soldado largar a sua.
— Me desculpa... — afastara-se dele em passos apressados, andando para trás. — ... mas eu preciso ir atrás dela! — por fim, seguira em frente.
— Mas o quê? — perguntou o soldado, estupefato. Sem outra alternativa, grunhira em fúria e resolvera correr dali o mais veloz que podia, praguejando inúmeras vezes.
As leituras do aparelho foram ficando mais insanas, próxima do limite que era de 800 EMF.
"Toda essa energia irradiando... está vindo de Hector!?", pensou ela, logo deparando-se com o local vazio. Apenas cadáveres de quiméricos, sendo dois deles reduzidos à gelo quebrado.
Infelizmente, Hector já não se encontrava mais ali, para a frustração imediata da jovem.
Êmina viera logo atrás, alcançando a amiga. Rosie continuava com as leituras, andando até a abertura — onde estavam dois quiméricos mortos — que levava a um escuro corredor. O ponteiro do medidor tremia de modo estranho, indicando instabilidade. Poucos segundos depois, o aparelho começara a esquentar... à medida que ponteiro trêmulo ia para os 800 EMF. Nervosa, Rosie se viu hipnotizada pela leitura que chegava ao nível máximo daquela tecnologia.
Êmina passeava os olhos pela área, logo voltando sua atenção à Rosie.
— Rosie você tem mesmo plena certeza de que quer fazer isso? — perguntou ela, desconvencida.
A jovem de capuz e capa vermelhos permaneceu silenciosa, olhando fixamente para o medidor frenético, sentindo o aparelho aumentar consideravelmente de temperatura na sua mão esquerda. Passados alguns segundos, uma fumaça leve e esbranquiçada começava a emanar do objeto, ao passo em que o louco ponteiro já encontrava-se nos 800 EMF e, obviamente, não passaria além disso.
Subitamente, pegando-a de surpresa, o aparelho explodira na sua mão. Rosie, alarmada, largara-o no mesmo instante, dando um rápido grito de susto e recuando alguns passos.
O detector caíra no chão, exalando fumaça de odor incômodo e faíscas.
Êmina assistira, perplexa.
— Isso foi... intenso. — afirmou ela, olhando para Rosie.
— Hector entrou nesse corredor, é óbvio. — disse ela, preparando-se para ir. No entanto, a caçadora puxara-o de leve pelo braço.
— Vai com calma, Rosie, Um passo de cada vez. Esse lugar pode estar caindo aos pedaços, mas eu prefiro ir com você, venha o que vier, aconteça o que acontecer.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou Rosie.
— Talvez não seja só Hector. — teorizou ela. — Esse troço pifou porque provavelmente estava detectando várias energias atuando ao mesmo tempo. Emanações simultâneas. — fez uma pausa, afastando os bagunçados cabelos. — Você sabe para onde esse corredor vai dar, não é? Quem quer que esteja no lugar para onde Hector foi... — deixara a frase no ar.
— Eu conheço essa área... — disse Rosie, rememorando algo. — ... antes de sair com o pelotão, estávamos reunidos no QG, discutindo nossos planos... na planta da fábrica em cima da mesa, eu vislumbrei esta sala, um cubículo meio desajeitado... que dava acesso ao corredor longo, vi uma linha escura... — olhou para Êmina, decididamente confiante. -... que terminava em um quadrado maior. A sala de controle.
— Se for o que estou pensando... — disse Êmina, empolgando-se de modo nervoso.
— Sim. — confirmou Rosie, apresentando uma face desalentada. — Ele veio até aqui somente para confrontar Abamanu. Com certeza para tentar mata-lo.
Uma revisitação torturante lhe veio como uma sequência incessante de imagens de um filme de horror. Um arrepio lhe dizia que o obscuro futuro da raça humana sob um nefasto governo estaria a um passo de se concretizar, e qualquer coisa que fizesse para intervir com a intenção de impedir o que se pensava ser inevitável seria arruinada pelas armadilhas do destino. "Tudo parece conspirar para que eu fracasse. Determinaram que metade da fábrica iria explodir quando os resgates fossem reportados para as equipes de apoio... que depois repassariam a informação para a armada. Mas ainda estou aqui... se aquele soldado conseguir escapar ileso, talvez repensem sobre detonar as bombas, não são loucos de fazerem isso sabendo que há vidas humanas aqui dentro.".
"Mesmo que junte todas as suas forças e recursos para impedir, mesmo que tente mudar o curso de qualquer evento... É exatamente aqui onde tudo irá terminar."
As palavras ditas por Abamanu naquele pesadelo em forma de futuro inevitável ecoavam na mente da jovem. Sem aturdir-se, Rosie respirou fundo.
"Eu posso. Eu devo!", pensou ela, encorajando-se.
Um novo tremor estremecera as bases. Um grande pedaço do teto da saleta desabara, prestes a cair sobre Êmina. Por reflexo e instinto de heroísmo, Rosie pulara frente à ela, pegando-a pelos ombros e fazendo seus corpos serem jogados para outro lado. O concreto caíra , quebrando-se em vários pedaços.
— Obrigada. — disse Êmina, olhando de modo espantado.
— Melhor você sair daqui logo enquanto esta área ainda está com partes inteiras, eu preciso ir! — disse Rosie, levantando-se depressa e correndo para abertura.
— Rosie, espera. — disse a caçadora, com urgência. — Me deixa ir com você. — afirmou, em tom exacerbadamente sério. — Eu tenho um plano. Um ás na manga que pode servir como atraso para Abamanu.
— Se você diz... Está bem, vou confiar em você. Vou apostar nessa vantagem. — disse Rosie, assentindo para ela, permitindo que a caçadora a acompanhasse. Leves tremores e baques podiam ser ouvidos do corredor sombrio. Rosie virara o rosto para ele, incerta.
— Anda, vem logo. — disse Êmina, sendo a primeira a correr e entrar. — Antes que a passagem seja bloqueada pelos escombros! — sua voz já soava cavernosa àquela distância.
— É tudo ou nada. — disse Rosie para si mesma, pondo-se a correr o máximo que conseguiria, mergulhando na escuridão do corredor tenebroso, por pouco não sendo atingida por pedaços ainda maiores do teto, alguns deles esmagando brutalmente os cadáveres dos soldados quiméricos.
CONTINUA...
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