Capuz Vermelho - 3ª Temporada
33 Alfa, Beta e Ômega (Parte 3.2)
A porta se abrira inesperadamente. Hector e Alexia, viraram-se para a entrada da sala, ambos reagindo com sobressaltos simultâneos.
Eleonor exibia uma palidez agravante no rosto, andando cambaleante pelo recinto em busca de um apoio para descansar, tocando em coisas que sua visão turva e enganosa fazia parecerem reais e próximas dela. Hector rapidamente agiu para apoia-la, pegando o braço direito do corpo de Alexia e pondo-o sobre a nuca a fim de ajuda-la a andar até a poltrona de couro beje, localizada no ponto mais opaco da sala. Contudo, em vez de preocupada, a vidente, cruzando os braços, se fez aborrecida.
— Não faz nem uma hora que saiu daqui e veja o que faz com meu corpo. — disse ela, olhando para a mentora sem um pingo de aflição pelo seu estado arquejante e pálido.
— Não diga asneiras. — retrucou Eleonor, sentando-se na poltrona com a ajuda de Hector, a voz enfraquecida. Inclinou a cabeça para trás, apoiando-a.
— O que aconteceu? As bruxas abordaram você no caminho? — quis saber Hector, olhando-a ansioso.
— Não. — disse a bruxa, logo tornando a tossir. — Nenhuma delas... chegou a me ferir ou me ver. Por sorte... — ergueu a mão esquerda fechada, logo abrindo-a e mostrando a pedra Ônix. — Aqui está. — jogara-a para que Alexia pudesse pega-la.
Em um ótimo reflexo, a vidente pegara a pedra e a tocara, sentindo a textura áspera do artefato.
— Está ardendo em febre. — constatou Hector ao tocar na testa da moça. — Como isso foi acontecer?
— É o meu chackra. — respondeu Eleonor, mal aguentando-se de cansaço. — Foi imprevisto, eu sei, mas... Ele reagiu mal ao feitiço por conta da instabilidade... causada pelo meu nervosismo.
O caçador fechara os olhos, suspirando pesadamente, parecendo desesperançoso.
— Você pelo menos tentou? — perguntou Alexia, inflexível.
— Mas é claro! — redarguiu Eleonor, rispidamente. — Acho que esqueci de falar...
— Oh, não... — afligiu-se Alexia, aproximando-se. — Qual detalhe importante você acabou de lembrar e agora se arrepende de ter esquecido? — perguntou ela, sem alterar o tom.
Hector a olhou com reprovação.
— Agora está agindo como ela quando tenta ser controladora. — disse o caçador, olhando de relance para a bruxa largada no sofá.
— Ora, vai se ferrar. — provocou Eleonor, pondo uma mão no rosto, o esgotamento físico piorando. — Não se preocupem, a instabilidade é temporária. Também não se esqueçam... de que sou uma bruxa Ômega em treinamento... eis a razão de eu me encontrar nesse estado deplorável. — lamentou, sentindo-se patética. — Executei essa parte do plano sob muita pressão. Por favor, entendam. Sobretudo, você Alexia. — olhou para a vidente, severa.
— Ela tem razão. — aquiesceu Hector, virando-se de costas, aparentando estar hesitante. — Além do mais, os imprevistos só tornaram as duas últimas partes do plano praticamente inviáveis. — voltou-se para Alexia, lembrando de estar se dirigindo à vidente ao invés da bruxa. — Alexia ainda é uma aprendiz. Eu sou apenas um caçador que prefere manejar armas, sem nenhuma pretensão ou inclinação para usar magia. — olhara para Eleonor, em um contato visual que denotava rendição. — E olhe como a obtenção da pedra terminou. Não está em condições de se manter de pé.
— Eu disse que era temporária. — — insistiu Eleonor, fuzilando-o com os olhos.
— Por quanto tempo? — questionou Hector, elevando o tom de voz.
— Vinte minutos, no máximo, eu acho. — respondeu a bruxa, arfando e sentando-se melhor.
— Esperava algo mais animador do que mero achismo. — retrucou o caçador, insatisfeito com o rumo que o plano parecia estar traçando.
— É a primeira vez que realizo uma troca de corpos. — afirmou Eleonor. — Assumir riscos foi a primeira coisa que pensei quando demos início ao plano. Esperava que também seguissem essa linha. — dissera, olhando para ambos.
— De qualquer forma, alguém deve ir às Ruínas Cinzas, imediatamente. Vinte minutos, à essa altura, já é tempo demais a ser perdido. — disse Alexia, apressando-se. Fez uma pausa, ficando pensativa por alguns segundos. — Eu vou. — decretou, determinada.
Ambos fitaram-a com descrença absoluta.
— Não, não vai. — definiu Eleonor, enfezando-se com a postura da vidente. — Magia de teleporte requer um aprendizado rígido, algo que se consegue em questão de anos. E a operação em Liverpool certamente não vai durar anos.
— Espere, vamos ouvi-la. — disse Hector, levemente erguendo uma mão, interessado em saber o argumento que Alexia pretendia apresentar.
— Inacreditável. — reclamou Eleonor, virando o rosto para um lado, revirando os olhos.
— Eu estava pensando — começou Alexia, insegura — sobre a explicação da pedra Ônix... seu poder de absorção. — olhou para a mentora. — Disse que abrir mão da sua magia era algo desconsiderado, certo?
— Não estamos numa situação tão extrema à esse ponto. — afirmou a bruxa, ciente.
— É aí que mora a questão. — disse Alexia, parecendo empolgar-se. — Dá pra ver que vai precisar mais do que vinte minutos para se recuperar totalmente. Então, é o que peço: Transfira sua magia para a pedra, talvez eu consiga toma-la para mim a partir dela e poderei usar a magia de teleporte. O que acham? — perguntou ela, encarando os dois. — Isso sim é viável nesse momento.
Eleonor fitara sua aprendiz em um misto de apreensão e desaprovação, balançando a cabeça negativamente para ela.
Hector virara o rosto, reflexivo quanto a correr aquele risco.
— Não, não e não, Alexia! — disse Eleonor, subitamente conseguindo levantar da poltrona, embora ainda castigada pelo cansaço esmagador. — Essa é a pior de todas as ideias que já ouvi antes! Você é uma simples aprendiz! — deu uns dois passos à frente, o tom rigoroso diante de Alexia. — Fizemos um feitiço que demorei 18 anos para aprender a controla-lo, mesmo sem ter por perto alguém apto o bastante para trocar, tendo que recorrer aos animais para fazer os testes, e foram desafios terríveis, pode acreditar. — fez uma pausa, respirando fundo. — Mesmo estando no meu corpo... — olhou-a de baixo à cima. — ... eu não sei. Não sei quais seriam as consequências, mas... posso dizer que com certeza seriam devastadoras, acredite em mim. Um chackra tão poderoso residindo numa alma frágil como a sua... — baixara um cabeça, ainda sentindo-se mal. — ... odeio só de pensar no resultado. — disse, a voz adquirindo um tom choroso.
— A transferência é arriscada demais, Alexia. — disse Hector, concordante com o ponto de vista da bruxa, tocando o ombro esquerdo da vidente amistosamente. — Muito devido à sua inexperiência. Pense nisso. — aconselhou.
— Se não houvesse nenhum resquício de sensatez em mim, nós estaríamos perdidos. — disse Eleonor, voltando a sentar na poltrona. — Está decidido: Eu irei às Ruínas Cinzas. Já posso sentir minhas emoções mais estáveis... tudo está se normalizando. — falou, tentando acalma-los.
— Só deve desfazer a troca quando seu chackra se tranquilizar? — perguntou Alexia, vendo-se sem poder de decisão, convencida por Hector a abandonar seu plano extremamente arriscado.
— Obviamente. — respondeu Eleonor, tratando a pergunta como sendo desnecessária, pondo uma mão no peito, ainda desconfortável.
Hector, por sua vez, resolvera caminhar devagar pela sala, pacientemente aguardando Eleonor recuperar suas forças.
— Bem, prefiro permanecer esperando. — disse ele, confiante.
— Que inveja. — disparou Alexia, ansiando por ao menos possuir um pouco da paciência surpreendente do caçador. — Ainda restam quinze minutos. — afirmou ela, dando uma olhadela no relógio de parede.
— Não me apressem. — disse Eleonor, voltando a respirar mais calmamente. — Ainda existe uma outra imprevisibilidade.
A frase chamara a atenção de Hector, que se virara para a bruxa no mesmo instante, interessado em saber qual o outro obstáculo a ser enfrentado no próximo passo do plano.
— Sobre a Ônix. — disse Eleonor. — A absorção deste modelo pode ser absurdamente limitada. Afinal, não sabemos quanto de energia foi gasto e lançado no solo das Ruínas Cinzas quando Abamanu usou o talismã... Vocês dois viram, mas mesmo assim...
— Verdade. — aquiesceu Hector. — Naquele exato momento, estávamos pairando no ar junto com a poeira e os escombros.
— Tamanho foi o desespero — contou Alexia — que nem medimos a grandeza daquele raio de luz que rasgou o céu e caiu no chão... levando Charlie junto com aquele monstro. — deixara cair uma lágrima, revisitando, em pensamentos, o fatídico dia.
— O que quero dizer é que... — disse Eleonor, resistindo a uma possível recaída, fechando e reabrindo os olhos. — ... uma pedra Ônix neste tamanho, dependendo da quantidade de energia que estiver por lá, pode não suportar.
— E nesse caso...? — perguntou Hector, olhando-a curioso.
— Ela racharia-se de dentro para fora — revelou a bruxa -, mas mantendo a energia fixada nos pedaços. E você, com certeza, não quer ter vários fragmentos de Ônix dentro do seu corpo, torturando você como agulhas espetando.
— Diz por experiência própria? — perguntou Alexia, fitando-a com certa suspicácia.
— Óbvio que não. — respondeu Eleonor, voltando-se para ela com irritação. — O motivo pelo qual eu hesitei em seguir com esse plano foi justamente pelo fato disso nunca ter sido testado antes. Pode ser destrutivo de inúmeras formas. Pode deixar sequelas irreversíveis. Uma infinidade de fatores, em boa parte negativos.
— O que não nos impede de continuar seguindo com o plano até o fim. — apontou Hector, com firmeza, sem deixar indícios de desistência. — Independente dos riscos. — determinou, olhando para ambas.
— Por acaso existe uma outra Ônix capaz de suportar grandes quantidades de energia, especialmente divina? — perguntou Alexia, analisando o artefato enquanto andava vagarosamente pela sala.
— Percebo que está começando a agir como eu. Exatamente como previ. — disse Eleonor, levantando-se da poltrona. Hector dera alguns passos à frente a fim de ajuda-la, mas a bruxa ergueu levemente sua mão direita, sinalizando que não era mais necessário. — Não percebeu? — perguntou, dirigindo-se à Hector. Voltou sua atenção para a aprendiz. — Ela... está começando a falar como eu. Não vejo mais aquela... sensibilidade, toda aquela insegurança, o medo... ele despareceu completamente.
— O que significa? — perguntou Alexia, despreocupada, dando de ombros.
— Quando uma troca de corpos é prorrogada por mais de trinta minutos — disse a bruxa. -, tanto o recitador quanto o voluntário... passam a compartilhar as características. Você continua sendo você mesma, Alexia, mas, como está no meu corpo, sua alma está se adaptando ao que ele suportou em anos, e minha personalidade é um desses elementos. — fez uma pausa, andando até ela. — E como minha alma está no seu corpo... talvez sua insegurança, algo que é parte de você e do seu corpo, tenha mexido com meu chackra e causado a instabilidade. Desculpe falar isso só agora, afinal, estava com pressa, além do tempo curto que temos.
— E agora que temos a pedra — disse Hector, aproximando-se. — e você parece já estar recuperada, acho que agora é uma excelente hora para as duas voltarem para seus devidos corpos.
— Sim, mas antes... — disse Alexia, aturdida pela questão da prorrogação do tempo da troca. — Eu quero saber de mais alguma coisa: O que aconteceria ficássemos assim... por 24 horas?
— Eu seria você e você seria eu. Uma Eleonor com dons proféticos e uma Alexia como bruxa especialista. — disse ela, olhando-a fixamente. — Menos de 24 horas seria o suficiente para isso. — relanceou a pedra Ônix na mão esquerda da vidente. — Largue a pedra, vamos terminar isso já. — disse, preparando-se para recitar o feitiço reverso.
Alexia jogara a Ônix para que Hector pudesse pegar, logo em seguida tendo o caçador pegado-a e segurando-a firmemente enquanto se afastava para perto da poltrona.
— Tem certeza de que está bem? — perguntou Alexia, incerta.
— Concentração no feitiço, não no meu estado. — disparou a bruxa, levantando uma sobrancelha, olhando-a com severidade.
Ambas deram as mãos, nas quais fizeram os cortes que estabeleceram a conexão, e desapareciam com ela desfeita por definitivo.
Hector resolvera sentar na poltrona, pronto para proteger seus olhos da luz ofuscante.
— Disiunctio animarum. Undo replacement!
Dos torsos de ambas uma luz branca foi acendendo-se gradualmente e tornado-se mais cegante a cada segundo que se passava, logo preenchendo todo o recinto com uma claridade intensa.
Novamente, por instinto, Hector tapou seus olhos com as mãos, virando o rosto.
Um retilíneo feixe de luz branca saíra da boca aberta de Eleonor, fazendo um contato com Alexia, que também, involuntariamente, abrira a boca mais do que costumava suportar, tendo dela saído outro feixe de igual forma, ambos colidindo-se em uma unificação tão rápida quanto a reversão oral do feitiço.
Passados cerca de 30 segundos, a luz cessara, diminuindo com espantosa rapidez.
As duas, por fim, largaram as mãos, a conexão tendo sido desfeita e o feitiço reverso bem-sucedido. Um pouco tonta, Alexia, finalmente de volta ao seu corpo, sentia-se enjoada.
— Agora sou eu que não me sinto nada bem. — disse ela, incomodada, parecendo ter tomado as dores de sua mentora. — Você mentiu pra mim. — olhou para Eleonor, meio grogue.
— Oh, sua tola. — retrucou a bruxa, rindo de leve, voltando a erguer a cabeça, e, sobretudo, voltando a respirar com mais alívio. — Olha, me desculpa, mas foi preciso, pois nosso tempo ainda está curto. Mas você vai ficar bem, isso eu garanto.
— Assim espero. — disse a vidente, virando as costas e andando trôpega até uma parede para se apoiar — Toda essa sensação me faz ter saudades do seu corpo. Mas que droga. — reclamou, mal aguentando-se.
Eleonor voltara-se para Hector, estendendo a mão, movendo os dedos em um gesto para pedir que o caçador entregasse a pedra.
Hector entregara-a, olhando de relance para Alexia, que exibia sinais de que iria vomitar a qualquer momento na sala.
— Deveria ter sido mais honesta com ela. — disse Hector, denotando desaprovação pela decisão da bruxa.
— E como resultado nos fazendo perder mais tempo. Sim, honestidade nessa hora seria um benefício. — disse ela, provocadora. Suspirou calmamente, decidida a continuar o plano, olhando para a pedra. — É tudo ou nada. Vou para o quintal e desenhar o símbolo de transportação. Cuide dela por enquanto. — afirmou, logo olhando para Alexia por cima do ombro. — Acredito que até eu voltar, ela vai estar melhor.
— Pelo que vejo, não tenho tanta certeza. — disse Hector, olhando preocupado para a amiga passando por um mal-estar agoniante.
— Minha força de vontade é o que abrandava a dor. Agora que Alexia retornou ao seu corpo... — disse a bruxa, virando-se para olha-la com certa preocupação. — ... a sensibilidade dela, adaptada ao seu corpo, reagiu de imediato, fazendo com que ela sinta todo esse mal-estar que meu chackra instável gerou.
Alexia estava agachada, com a mão direita apoiada na parede, dominada por uma ânsia de vômito incontrolável.
— Como está se sentindo, Alexia? — perguntou Hector, a fim de ter certeza.
— Me diga você. — redarguiu a vidente, aborrecida. — Eu pareço bem? — fez uma pausa, respirando fundo e olhando para sua mentora por cima do ombro. — Anda logo. O que está esperando? Vá até as Ruínas Cinzas e faça a maldita pedra absorver toda a energia que está lá.
— Muito bem. — disse Eleonor, caminhando em direção à porta. — É bom torcerem para que, ao menos, nesse passo, a sorte esteja ao nosso lado. — afirmara, saindo da sala apressadamente.
Alexia gemia angustiadamente, em prantos. Hector agachara-se, afagando as costas da vidente para acalma-la.
— Vai ficar tudo bem, Alexia. — disse ele. — Ela pode parecer fria às vezes, mas tenha certeza de que ela está confiando em nós tanto quanto ela nos incentivou a confiar nela.
— Não, eu entendo. — disse ela, enxugando as lágrimas. — Eu só... não aguento mais.
— Conviver com ela tem sido tão desagradável assim? — perguntou o caçador, a fala mansa.
— Na verdade, eu agradeço por tudo o que ela fez por mim. Mas... eu não posso mais continuar vivendo aqui, não quero estar fadada a pagar os preços que a bruxaria exige quando você a usa. — olhou para Hector, séria, os olhos vermelhos devido ao choro. — Não quero me tornar algo como ela.
O caçador ficara silencioso por alguns segundos, tentando imaginar o temor pelo qual a vidente tivera de passar no árduo período em que ela se viu forçada a confiar em Eleonor ao confrontar seus preconceitos relacionados às artes ocultas, mesmo que as prestativas intenções da moça não incluíssem o uso de bruxaria primitiva. Pelo visto, Alexia não parecera totalmente convencida.
— Isso não vai acontecer. — disse Hector, pegando de leve a cabeça da vidente e apoiando-a no seu ombro para conforta-la.
— Não acontecerá... se eu resolver ir embora desta casa em breve. — afirmou Alexia, passando a reavivar o bem-estar aos poucos. — Não tenho bons pressentimentos quanto ao que ela pretende fazer comigo. Talvez me usar como ferramenta para derrotar as bruxas que a perseguem.
— Pelo pouco tempo em que convivi com ela — disse Hector, em tom baixo. -, eu tenho certeza... de que ela jamais utilizaria você como degrau para se colocar um passo à frente das perseguidoras.
— Não viu o quanto ela estava nervosa? — perguntou a vidente, ainda desconfiada. — Posso estar exagerando, mas... algo me diz que ela escondeu uma boa parte dos fatos.
— Então crê piamente que ela tenha sido abordada por uma das bruxas no caminho? — perguntou Hector, compartilhando da suspeita.
— Achei que confiasse nela mais do que eu. — disse Alexia, pegando o caçador desprevenido.
— Francamente, sua suspeita é válida pra mim. — justificou o caçador, baixando um pouco a cabeça, pensativo. — Provavelmente ela fez questão de omitir algum evento que ocorreu antes ou depois da compra da pedra, algo grave o bastante para deixa-la naquele estado do que simplesmente nervosismo ou insegurança. Nesse ponto, eu concordo com você, Alexia. Mas aconselho a se concentrar em melhorar. À essa altura, é inútil tentar questionar isso com ela, já temos a pedra, estamos perto demais. — disse ele, transmitindo confiança e paciência na medida do possível. — Saiba que estou do seu lado.
— Obrigada, Hector. — agradeceu Alexia, fechando os olhos e deixando duas lágrimas derramarem-se.
***
Liverpool — 11h38.
O mimético fora largado com violência contra a parede por um dos soldados que integrava o grupo que seria responsável pelos resgates. O infectado vestia uma roupa branca, indicando ser um profissional da enfermagem de algum hospital da cidade. O soldado o segurava com força pela gola da camisa, mantendo-o "colado" na parede, enquanto o restante da equipe apontavam suas armas contra ele.
A área na qual estavam situava-se na parte central da fábrica, cuja aparência soava completamente destoante dos labirintos de corredores, mais como um castelo dos tempos medievais, com um teto mais alto, paredes meio pedregosas com retângulos e as colunas de concreto escurecido apenas complementavam todo a atmosfera arcaica que aquela zona fazia sentir. O chão era de pedra, mas estava sujo, deixando que qualquer passo, seja silencioso ou apressado, pudesse levantar pequenas nuvens de poeira.
O soldado tornara a insistir, revidando as ofensas do mimético com ameaças mais fortes.
— Anda logo! Diz de uma vez! — dizia ele, raivoso. — Se não quiser furos na sua cabeça, vai ter que colaborar conosco. Portanto, nos fale: Onde fica a prisão subterrânea? — perguntou, aquela sendo a quarta vez que persistira.
O mimético ergueu o braço direito, trêmulo, mesmo fulminando o soldado com seus olhos pretos.
— É a garota que vocês querem? — perguntou o mimético.
— O quê!? — indagou o soldado que o segurava, franzindo a testa. — Então você sabe quem está trancafiado lá, não é?
— Não falaria se não soubesse, seu imbecil. — disse o mimético, ofensivo e petulante.
— Para qual lado? Seguindo direto ou no corredor à direita? — perguntou o soldado, apertando mais a gola da camisa do infectado.
— À direita. — revelou ele, quase grunhindo. — Agora me solta, me deixa ir! — pediu, inquietando-se, tentando se desvencilhar das mãos do soldado.
— Olha, se estiver mentindo... — disse o soldado, ameaçador.
O som cortante de um chiado interrompeu a fala do subordinado de Holt. Era o rádio-transmissor de um dos soldados do grupo reproduzindo o barulho de estática intermitente.
Um deles — um grandalhão de cabelos pretos meio espetados — baixara a arma, retirara o rádio do coldre e atendera o chamado.
— Na escuta. — disse ele, a voz grave. — O que foi?
— Nós conseguimos. Encontramos um cativeiro alternativo. — informou o soldado na linha.
— O quê? Que história é essa? — perguntou o soldado, estreitando os olhos, desentendido. — Pensávamos que seria um prisioneiro para cada fábrica, foi assim que deduzimos. Faça uma descrição.
— O acesso se dá por meio de um corredor que tem início a partir de uma das portas dos fundos, depois descemos uma escada e nos deparamos com uma porta metálica. Estamos tentando dinamita-la agora mesmo. — informou o soldado, o tom de voz afoito e nervoso. — Dependendo da resistência da porta, acho que com a quantidade de bombas que implantamos, a tranca, no mínimo, vai ser bastante danificada. Vamos tomar distância agora... os pavios já foram acesos.
— Espere aí. Como tem tanta certeza de que há alguém do outro lado ou se não é uma armadilha? — questionou o soldado, andando de um lado para o outro vagarosamente. — Há algum sinal de que a vítima está presente no recinto?
— Sim! — disse o soldado. — Podemos ouvir seus gritos de socorro. O metal da porta deixa o som abafado e fraco, mas dá para ouvir. — deu para escutar um outro soldado pedindo, aos berros, para que a pessoa por trás da porta se afastasse dela por segurança, explicando ser uma operação de resgate.
O grandalhão gesticulou com a mão pedindo que seus companheiros fossem na frente sem ele. Todos cederam e correram para a direção apontada pelo mimético, que fugira na direção oposta como um cão covarde.
No rádio pôde-se ouvir um estrondo altíssimo. O soldado afastara o aparelho do ouvido no momento da explosão. Tornou a aproxima-lo do canal auditivo após o cessar do barulho.
— E então?
— Nós... — uma tosse cortara a voz do soldado, devido a fumaça. — ... já vamos entrar! Consigo ver um vulto correndo... acho que é ele, é um homem! Não pode ser, caramba!
— O quê? Conseguiu identifica-lo? — perguntou o soldado, ficando impaciente.
— Você não vai acreditar. Os outros já entraram na sala, estão ajudando ele. Meu deus...
— Quem é, afinal? — perguntou, fazendo uma cara emburrada.
— Talvez você não conheça... mas sinto-me honrado ao participar do resgate de Maximilliam Lenox. — falou o soldado na escuta, a voz embargada de emoção.
***
Uma dupla de soldados de Abamanu barrara a passagem da equipe de soldados do Exército. Os lobos bípedes apontavam suas lanças com pontas vermelhas, ambos rosnando com ferocidade para os homens, ameaçando atacarem caso um deles desse mais um passo.
— Fiquem onde estão. — disse um, a voz soturna.
Os soldados recuavam vários passos, apontando suas metralhadoras para as feras.
— Eu disse para não se moverem. — insistiu o monstro, ríspido. — Suas armas são falhas contra nós.
Corajosamente, um dos soldados dera um passo adiante, os olhos fixados no inimigo e a arma em riste. Em resposta, o soldado de Abamanu também avançara calmamente, mas fazendo com que a ponta da lança — o cristal escarlate — tremeluzisse seu brilho em uma clara ameaça de disparo.
— Não digam que não avisamos. — disse ele, seus lupinos olhos amarelos relanceando os outros do grupo.
— Nenhum de nós vai cair perante á vocês. — atestou o soldado, sem desistir.
— Já nasceram caídos. — provocou o soldado, seu tom de voz calmo e sombrio elevando a tensão em um nível alucinador.
De repente, o soldado-quimérico encontrando-se à esquerda daquele que ameaçava disparar contra o militar tivera sua armadura transpassada por uma lança prateada do mesmo tipo, seu corpo tremeluzindo uma luz azulada.
Retirando a arma pontiaguda, Rosie, em um semblante sério e corajoso, deixara o monstro cair morto no chão. Em vingança, o outro viera ataca-la com sua lança. Rosie defendera-se com a lança posicionada na vertical, produzindo um fino baque de metais em colisão. Usou a ponta de baixo para batê-lo no queixo, e logo em seguida girara, desferindo um chute na mandíbula da fera com a perna direita. O soldado batera com a cabeça na parede de modo brutal. Aproveitando a deixa, Rosie logo enfiara a lança que portava na parte lateral do corpo do soldado-quimérico, produzindo o mesmo efeito de luz azulada tremeluzente antes de sua morte definitiva. Descravara a arma, deixando o cadáver do monstro cair, logo largando-a.
Encarou por alguns segundos os soldados que a olhavam com um misto de agradecimento e estupefação.
— De nada. — respondeu ela, prontamente, pouco interessada em saber se estavam gratos ou não. — Porque estão tão surpresos? Já estavam me vendo quando dobrei para esse corredor.
— Não, nós sabíamos que você tentaria algo — disse o soldado que desafiara o quimérico. -, mas eu, silenciosamente, disse pros meus companheiros que eu me aproximaria do inimigo para distraí-lo enquanto você chegava perto do outro para ataca-lo de surpresa. Estamos impressionados, na verdade, por sua capacidade em ter tanta facilidade em lidar com esses monstros.
— Requer rapidez, sem guarda baixa. Eles são vulneráveis às próprias armas que carregam.
— Nós também somos. — apontou o outro, mais atrás. Olhou para os demais desconcertado. — Obviamente. E vamos usar o que ela disse a nosso favor.
— Eu sabia que estavam próximos — disse Rosie, chegando mais perto dos homens fardados. -, mas fui parada por três deles. Acabei com eles e ouvi suas vozes, então peguei uma lança de um dos que matei e fui cautelosa, mas a distração foi bem-vinda, achei que reagiriam diferente.
— Muito bem, senhorita Campbell. — disse o soldado que abordara o mimético, aproximando-se da jovem. — Nós interrogamos um dos infectados e, de acordo com ele, é nesta direção que temos acesso à prisão subterrânea onde uma vítima, uma garota, segundo o infectado, está mantida em cativeiro.
"Então é verdade!", pensou Rosie, não conseguindo esconder um certo indício de surpresa na expressão. "Sem dúvida alguma, é Êmina.".
— E sobre Birmingham? — quis saber a jovem, o tom de voz, anteriormente firme e seguro, alterando-se para ansioso. — Alguma notícia?
— O pelotão conseguiu avançar contra uma horda de infectados, invadindo a passagem dos fundos que dava para o cativeiro da vítima. — informou o soldado. — Acreditamos que, neste exato momento, estão cuidando da destruição da fábrica, através dos tanques e das bombas implantadas.
O soldado de alta estatura, que conversara com um dos integrantes do grupo encarregado de resgatar o Dr. Lenox, correra em direção aos companheiros, logo fixando sua atenção em Rosie.
— E então, o que conseguiu? — perguntou Rosie. — Pela cara, devem ser boas notícias.
— E são sim. — respondeu ele, pouco ofegante. — Havia mesmo uma outra vítima aprisionada aqui.
— E quem é? — perguntou Rosie, olhando para o soldado com enorme expectativa, parecendo saber a resposta.
— O Dr. Maximilliam Lenox. — disse o soldado, lacônico, assentindo para a jovem.
Uma crescente torrente de alívio instantâneo aflorara em Rosie. Entretanto, nas circunstâncias em que se encontrava, temia não conquistar a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, acreditando que o cientista seria imediatamente levado para uma base de apoio nas proximidades da fábrica, onde receberia verificações físicas e psicológicas a fim de detectar algum dano causado pelo sequestrador. De lá, muito provavelmente seria encaminhado para um hotel com reserva paga pelo Exército Britânico, com direito a escolta e plano de saúde grátis.
Perdida em devaneios, Rosie fora "despertada" por um dos soldados.
— Senhorita Campbell. — disse ele. — Vamos? — perguntou, tocando-a amigavelmente no braço. Os demais iam na frente apressavam os passos, evitando correrem rápido demais para não correrem o risco de serem pegos desprevenidos por algum dos quiméricos.
— Sim. — respondeu Rosie, mal contendo-se de ansiedade, assentindo rápido para o soldado, logo caminhando ao seu lado no mesmo ritmo açodado.
— Deveria apanhar a lança de volta. — sugeriu ele, olhando para ela. — A menos que queira uma das minhas armas emprestada.
— Não, obrigada. — recusou ela, a fala rápida enquanto os passos aceleravam. — Estou quase certa de que minhas mãos nasceram para empunhar lâminas. Talvez seja inato.
— Se é assim... — disse o soldado, compreendendo e deixando a frase no ar, mas preferindo não comentar sobre a nítida tensão na face de Rosie.
A equipe passara pelo início do corredor no qual a jovem viera, sem perceberem três corpos de soldados quiméricos caídos ao chão... completamente tostados e carbonizados.
CONTINUA...
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