Capuz Vermelho - 3ª Temporada
30 Alfa, Beta e Ômega (Parte 2.2)
O corpo pesado de Holt voou por entre galhos de árvores, quase batendo em um após ser jogado com violência por aquele que considerava praticamente um filho por sua lealdade e comprometimento sério com o ofício de soldado de uma das maiores organizações militares do mundo. O General caíra com forte impacto no solo cheio de folhas secas. Virara-se para um lado, com uma expressão de dor, tocando na região abdominal. A primeira impressão foi de costelas quebradas. Fragmentadas.
"Mas o que significa isso, afinal?", pensou, rangendo os dentes tamanha era a dor.
Um vulto correra em velocidade sobrenatural pela floresta, logo se aproximando do General.
— O que achou do meu belo arremesso? — perguntou Mihos, ainda com o disfarce do soldado Heller, sorrindo de modo presunçoso e maldoso para Holt caído.
— Não... — disse ele, levantando-se. — Heller... ou seja lá quem você for... — reouve o equilíbrio, a dor parecendo amenizar. Olhou-o com cólera pulsando nos olhos. — Mas quem é você, afinal? — perguntou, vociferando.
Mihos rira em deboche. Logo desfez do disfarce, voltando à forma de seu receptáculo: O caçador de olhos azuis, face e corpo meio robustos e cabelos dourados meio espetados.
— Não pode ser... — disse Holt, surpreso, os cortes pequenos em sua testa sangrando um pouco. — Você é um deles? — perguntou, olhando-o de baixo para cima, desnorteado.
— Eu não sou de ninguém. — retrucou Mihos, dando de ombros e andando calmamente por um lado. — Sempre trabalhei melhor sozinho. Não que eu tenha algo contra missões em conjunto... mas acontece que é mais empolgante quando não tem ninguém do seu lado, seja... — pôs um dedo no queixo, pensativo. — ... lhe dando ordens, se fazendo de durão ou... é, receber ordens me irrita bastante. — afirmou ele, assentindo para o General. — Prazer em conhece-lo, General. Sempre fui um grande admirador seu. — sorriu sacanamente.
Holt devolveu um olhar de ojeriza profunda, enquanto tocava na costela esquerda que ainda doía.
— Uma aberração como você... — disse ele, revoltado. — ... além de me pegar desprevenido, ter assumido a aparência do meu mais estimado soldado! — esbravejou, as veias da testa em relevo devido á raiva. — O que de fato houve à ele? Você o matou, não foi? Responda!
— Sim, matei. — disse Mihos, sem tirar o cínico sorriso da face. — E faria de novo se tivesse a oportunidade de repetir o prato.
— O quê!? — disse Holt, franzindo o cenho, perdido. — Você... — gaguejou — ... Mas que tipo de monstro você é? Por que está tão determinado a causar mortes por onde quer que passe?
— Sabe a redução do número de homens que você mandou para aquela fábrica? Pois é... — disse o filho de Yuga, assentindo, cruzando os braços. — Olha, vou encurtar nossa conversa desnecessária e todo esse questionário bobo que eu sei que você está afim de prolongar para querer se salvar: Eu... — apontou para si mesmo. — ... sou uma entidade com atributos acima da capacidade dos mortais. Matei aqueles homens por pura diversão. É, eu me divirto demais quando sacio toda a minha fome. Aliás, o coração do Heller tinha um gosto esquisito, talvez tenha passado do prazo de validade. — disse, arqueando as sobrancelhas e rindo com escárnio.
A malevolência de Mihos instigava o General a reagir de modo agressivo a qualquer custo. Holt, naquele momento, limitou-se a encara-lo com toda sua fúria e desejo de vingança por Heller.
— Espero que o seu não me cause indigestão com toda essa... enervação. — disse Mihos, zombando do estado enfezado de Holt. — Estou com pressa, então tenho que quebrar a tradição. — apontou para o General. — Você, minha diversão e meu prato principal, sendo dolorosamente morto primeiro. Um último desejo antes de eu despedaça-lo e devora-lo? — inclinou-se para querer ouvi-lo.
O limite da paciência de Holt fora atingido com ebulição nos nervos quase incontrolável. Cerrou os punhos, apertando-os com força. "Esse maldito ser... causou a morte de vários homens honestos... Não... não posso permanecer estagnado e me posicionar como vítima diante de um monstro desses! Ele não me dá escolha.", pensou ele, desabotoando a camisa da farda, logo tirando-a e jogando no chão. Por baixo, o General vestia por baixo uma regata branca e suada. No cinto havia duas bainhas com duas espadas orientais conhecidas como katanas. As tirou com um ruído rascante, logo posicionando-se para se entregar ao conflito.
— Impressionante. — disse Mihos, fingindo surpresa, olhando para as espadas de lâminas reluzentes. — Mas não, não preciso de instrumentos para fatia-lo. Sou bem mais prático.
— Isto aqui, seu verme abominável, é a minha demonstração de luto por aqueles homens. — disse Holt, respirando pesadamente, a raiva crescendo a cada minuto. — Homens honestos, cujas mortes deixaram mulheres e crianças sofrendo. Se tem algo que minha carreira militar me ensinou... É que quando se entra numa guerra, não deve ter medo de sangrar. Quero muito saber se estas duas lâminas podem fazer pelo menos um corte profundo nessa sua... casca. — afirmou ele, determinado a investir contra o deus.
— Por mim tudo bem. — retrucou Mihos, despreocupado. — Não estou aqui para impedi-lo de tentar, General. — falou, alterando a face para uma seriedade ameaçadora.
Holt avançara contra ele, executando movimentos ágeis e velozes ao manejar as duas espadas com excelente habilidade. Mihos, por sua vez, defendia-se com os antebraços no mesmo ritmo dos golpes. Holt girara para dar um chute, logo em seguida tentando golpeá-lo com uma espada em posição horizontal. Mihos desviara mantendo os pés no chão, logo tocando o solo com as duas mãos para ganhar impulso e, assim, golpear Holt com um chute duplo bem no queixo.
O General caíra à poucos metros de distância, sentindo como se um peso de chumbo houvesse atingido seu queixo. A dor veio imediatamente quando se levantou, o sangue gotejando em abundância. Mihos veio superveloz, afastando as espadas com os pés e logo atacando Holt com uma chave de braço que apertava o pescoço do militar.
— Eu poderia frita-lo... — disse ele, aplicando mais força em seu movimento. Sorrira para si mesmo. — ... mas prefiro fazer à moda antiga. Mamãe seguiu o costume quando tentou me encontrar.
Holt mal conseguira produzir um som de sua voz ao sentir seu rosto ficar vermelho e sua pressão sanguínea aumentar consideravelmente. "Ele está apertando todo meu pescoço! As veias carótidas... sinto elas... querem romper. Mais um pouco de força e estou morto!", pensou ele, desesperando-se.
Mihos permanecera pressionando cada vez mais. Contudo, não aguardava o contra-ataque do oponente. Por mais inocente que parecesse.
Holt golpeava-o com o cotovelo no abdômen, incontáveis vezes.
— Muito bem! — disse Mihos, cansado daqueles golpes repetitivos, jogando Holt contra uma árvore.
O Generalbatera com as costas em grande impacto com o tronco. Entreviu suas espadas enquanto se mantinha caído e recuperando pelo menos metade do fôlego, mesmo que durasse um ínfimo tempo.
O herdeiro de Yuga aquecera-se, estralando os dedos e fitando o General como que querendo impor sua óbvia vantagem para se gabar.
— Deve estar se perguntando sobre o que tenho a ver com a mulher raivosa que arrancou um olho seu. Esqueci de perguntar à ela se era apetitoso ou que gosto tinha. — disse Mihos, referindo-se à sua mãe, Sekhmet. — Ela não sabe o que deixou perder. — olhou-o com expectativa.
Uma das espadas estava bastante próxima de Holt, ocultada graças às folhas caídas. Evitou olhar por mais do que dez segundos temendo que Mihos estivesse percebendo cada movimento seu. Levantou-se com esforço, esbanjando todo seu vigor e boa forma física. Andou dois passos para o lado direito, fechando os punhos e posicionando-os afim de denotar um combate físico.
— Que fique bem claro que não estou trapaceando. — ressaltou Mihos, os olhos fixos no General. — Honestamente, não é nem 10% de toda minha força.
— Que tipo de ligação você tem com aquela vadia? — peguntou Holt, sua bota já tocando o cabo da katana caída e coberta por folhas. "É minha chance. Vou distraí-lo com esta pergunta.".
— Nada demais. — respondeu ele, dando de ombros, arregaçando as mangas. — Ela somente é a mulher carente que se relacionou com meu pai e se culpou por uma gravidez indesejada. Se alguma vez eu fui motivo de orgulho pra ela? Bem... Sim, houve uma vez. Quando fui forçado a concordar com ela, enquanto eu era torturado pelos guardas. Ela confundiu isso com rendição. — olhou para o General, preparado para mais uma rodada. — Que família exemplar, não acha?
Holt aproveitou que Mihos deu uma olhadela na manga esquerda para relancear a espada à sua direita. pronto para reavê-la. A visão não durara mais do que 3 segundos. "É agora.".
Com toda sua agilidade bem trabalhada, o General batera com o pé direto no cabo da espada, fazendo-a se erguer e retornar para sua mão. Rapidamente executou um movimento, segurando a arma com as duas mãos em um golpe vindo para partir por cima.
Mihos, por reflexo, defendeu-se no exato instante, usando o braço direito. A espada quebrara-se completamente após a mesma colidir com a pele indestrutível e resistente reforçada pelo deus.
Estupefato, Holt encarou boquiaberto a destruição total da lâmina da katana,
Como contra-ataque, Mihos dera-lhe um cruzado de esquerda e outro de direita. Em seguida, chutara-o no abdômen com o joelho. Holt revidara ao agarra-lo pelos ombros e dar-lhe uma forte cabeçada e em seguida uma cotovelada no nariz. Mihos cambaleara para trás, querendo se reorientar
A outra espada ficara visível ao único e atento olho de Holt. Correra para apanha-la. No entanto, antes que seus dedos voltassem a tocar a arma, Mihos correra superveloz para impedi-lo, pisando na mão do direita do chefe militar com força contida para não quebrar todos os ossos.
Holt rosnara em dor. Olhou para seu adversário, fulminando-o com toda sua sanha externada.
— Anda. — disse o General, em voz baixa. — Acabe logo com isso. — fitou-o com um olhar ainda mais penetrante e raivoso. — Vá em frente e mate-me! — pediu ele, vendo-se sem saída.
Mihos analisava a situação em alguns segundos, ora olhando para seu pé praticamente esmagando a mão do General, ora olhando para a espada que ele recuperaria para voltar a atacar.
Tornou a olhar para Holt, o ar sério desta vez. Depois, deixou-se formar-se um sorriso de canto de boca.
— Humanos são tão persistentes. — disse ele, parecendo admirado com a bravura do General. — É isso que os tornam tão divertidos. — por fim, tirara seu pé sobre a mão do militar, recuando alguns passos. — Fiquei onde está e não se mova. — avisou, com ameaça. — Isso aí. Paradinho. Agora... — andou mais alguns passos, aparentando estar indo embora. — ... estou de saída.
— Não ia me matar, seu desgraçado? — questionou Holt, de quatro no chão, ofegando levemente. — Não nasci para seguir ordens....
— Opa, opa. — disse Mihos, arqueando as sobrancelhas. — Eu propus a luta, portanto sou eu quem faço as regras. Nem pense em pegar essa espada. Não até eu dar o fora daqui.
— Não respondeu minha pergunta! — vociferou Holt permanecendo imóvel, sem olha-lo. — Por que resolveu mudar de ideia tão de repente?
— Acabo de lembrar do pacto que você e minha mãe fizeram. — disse ele, recuando mais passos. — Não quero mais uma punição no meu histórico por matar alguém que é útil para ela.
— Então avise à ela que eu me abstenho do acordo! — disse Holt, categórico no tom.
— Eu faria isso se — disse Mihos, olhando de soslaio para a direção onde ficava a ficava a fábrica. — a aura dela não estivesse tão enfraquecida. Não sei o que está havendo... e pouco me interessa.
— Ela está na fábrica? — perguntou Holt, afligindo-se.
— Tempo para perguntas acabou. — disse Mihos, virando as costas em despedida. — Obrigado por me divertir tanto, General. É diferente dos outros mortais, você tem uma mente mais... aberta a lidar com seres como eu. Se conhecesse o papai...
Holt fervia em ódio peçonhento, tremendo enfurecido. Virou o rosto para o herdeiro de Yuga, a face vermelha e embargada de ira.
— Eu... não posso... — falou em tom baixo, comovido. -... deixar como está. Deixar que as mortes de meus homens fique impune. — uma lágrima caíra em seu punho direito. — Mesmo que nós dois caíssemos, eu me sentiria... satisfeito... por ter me vingado. — rira de leve. — Mas que besteira estou dizendo. Estive enfrentando um monstro... que se vê como um deus... alguém acima de mim... em poder e relevância. — deslizou a mão solo, aproximando-a do cabo da espada. Tocara-o. — Não vai ser... a minha pequenez... que vai me impedir de lutar... pela memória daqueles homens! — disse, elevando o tom na última frase de maneira a chamar a atenção de Mihos.
Levantara-se depressa, logo correndo para golpear Mihos por trás, segurando a espada com as duas mãos e gritando para demonstrar sua raiva testada ao limite.
Em questão de milésimos, Mihos virara-se superveloz, chutando a lâmina da espada, partindo-a ao meio. Em seguida, empurrara Holt ao chão, logo cravando sua mão esquerda no abdômen dele.
Uma mancha vermelha formou-se de imediato na região afetada, sujando a branca camisa.
— Oh, que tipo de surpresa vou tirar daqui. Deixa eu ver... — disse Mihos, mordendo os lábios e suas pupilas direcionando-se para cima, mexendo dentro do aparelho digestivo de Holt que gritava de dor. — Não faça tanto drama. Isso me desconcentra... — tornou a olha-lo, inclinando-se até ele. — Agora fiquei entendiado. Eu fui bem claro quando disse para não se mover bruscamente. Que pena. — deu umas batidinhas na bochecha do General que agonizava. — Você é bem falastrão, o que, como pode ver, não ajudou em nada. Precisa aprender a ouvir, General.
Mihos correra dali usando sua supervelocidade, deixando o General Holt em sofreguidão angustiante com uma insuportável dor. O chefe militar respirava dificultadamente, resistindo o máximo que conseguia, tentando estancar a golfante hemorragia. Tentou alcançar o rádio-transmissor no coldre do cinto a fim de solicitar ajuda imediata através de algum soldado antes que as portas da morte fossem abertas para recebe-lo
***
O baque do fechar de uma porta acordara Hector bruscamente. O caçador havia dormido na poltrona de couro bege localizada em um canto meio escuro da sala, despertando assustado. Não demorou a coçar um dos olhos ao mesmo tempo em que via Eleonor e Alexia, mentora e aprendiz, entrarem depressa na sala, ansiosas para realizar o próximo passo do plano.
— E então? Como ela se saiu? — perguntou Hector, dirigindo-se à Eleonor ao se levantar.
— A conexão, pelo que me pareceu, já está estabelecida completamente. — disse Eleonor, olhando para a vidente com certo orgulho. — Acho que nós duas fomos bem.
— Só tive receio quanto a... — Alexia cortara a frase, hesitante.
Hector mostrou-se curioso quanto a conclusão, assentindo para ela com expressão de aguardo.
— Sim...?
— Ahn... Eu... — titubeava ela, desconcertada ao olhar para os cantos. — Eu só... Só não me sinto muito confortável com essa ideia de fazer um corte na palma da mão, eu detesto ver sangue, quanto mais o meu.
O caçador esboçara uma expressão brincalhona com um sorriso.
— Então era só isso? Um medo irracional de se cortar? — perguntou, rindo internamente da fobia da amiga.
— É fácil para você falar. — retrucou Alexia, séria, levantando uma sobrancelha. — Já que boa parte da sua vida foi marcada com sangue. — disparou ela, sem medo.
Um silêncio rápido, mas incômodo, recaiu sobre o trio. Hector fitou Alexia com seriedade, como se tentasse reconhece-la novamente. Eleonor, praticamente sem ação, tentou encontrar maneiras de amenizar o clima confuso entre ambos. Por outro lado, Alexia baixara a cabeça, pondo uma mão na boca em sinal de arrependimento, enquanto Hector andara pela sala calmamente, suspirando.
— Eu... — gaguejara ela. — Me desculpe, eu só...
— Não, está tudo bem, Alexia. — disse Hector, erguendo levemente uma mão perdoando-a. — Você foi sincera, não vou julga-la por ter dito a verdade. "Melhor nem confessar que me fez lembrar do modo de falar de Rosie", disse, em pensamentos.
— Sim, mas... — disse a vidente, voltando-se para Hector com angústia na face. — ... eu toquei na ferida. — virou-se para Eleonor. — Talvez seja algo que esteja mexendo com minha personalidade...
— Não, não venha com isso, por favor. — interrompeu Eleonor, severa. — Culpar o estudo sobre uma magia inofensiva sobre algo dito sem pensar é, no mínimo, infantil, não acha? — perguntou a bruxa, olhando-a estreitamente. — Você notou o quanto fui clara: Nem todo indivíduo que estuda bruxaria primitiva está destinado a abraçar seu lado negro. É uma questão de auto-controle e auto-conhecimento. — aconselhou ela.
— Olha, vamos esquecer o que falei. Está bem? — disse Alexia, apressando-se. — Só quero que... comecemos logo com isso. Afinal, é pelo Hector e, principalmente, pelo futuro da humanidade que faremos o que acharmos ser certo.
— Agora sim uma postura madura. — disse Eleonor, sorrindo para ela e preparando a lâmina. — Prepare-se. — fizera o corte na palma com cautela.
Hector se aproximara um pouco mais para assistir ao ritual de troca de corpos. Ou, mais especificamente, da troca de duas almas humanas, uma assumindo o corpo da outra.
— Não escondo que estou ansioso para ver como será esse feitiço. — disse, esfregando de leve as mãos.
— Um dos princípios básicos desta magia... — disse a bruxa, limpando a faca em seu vestido de seda azul. — ... é que deve ser forjada uma conexão mútua entre dois indivíduos, sobretudo quando ambos possuem características em comum, conhecidas ou ocultas. — entregara a lâmina para Alexia. — Sua vez. Coragem, você consegue. — deu uma piscadela para a vidente, estimulando-a.
A vidente respirara fundo ao olhar para a lâmina reluzente. "Uma troca. É... Isso será pelo futuro.".
— Vou me sentir mais velha, mas pelo menos não vou estar me sentindo observada. — brincou Alexia, pegando a faca.
— Engraçadinha. — retrucou Eleonor, revirando os olhos.
Mantendo o máximo de precaução possível, Alexia cortara a palma direita com esmero, ainda que apresentasse uma face de desconforto. Devolvera a faca à bruxa e, novamente, suspirou olhando para sua mentora com determinação. Hector cruzou os braços, alimentando seu foco na experiência formidável que se desenrolaria diante de seus olhos.
Eleonor olhara-o séria, dando a mão direita à Alexia para que ambos os cortes estivessem unidos, algo que representava o fortalecimento da conexão e reforçar a eficácia do feitiço.
— Sugiro que se afaste. — avisou ela ao caçador. — Sei que detesta luzes ofuscantes. — sorrira para ele de modo enigmático.
Franzindo o cenho por alguns segundos, Hector resolveu ceder ao pedido ao recuar alguns passos até ficar quase encostado na parede próxima à porta.
— Assim está ótimo. — disse Eleonor, logo voltando-se para Alexia, fitando-a com confiança no olhar. — Pronta?
Alexia, um tanto trêmula devido a ansiedade, fizera que sim com a cabeça.
A bruxa, calmamente, fechara os olhos, preparada para recitar o feitiço.
— Duo corpora, duae animae, evoco replacement et connexio haec duo receptcula duo essentis alium!
Subitamente, dois pontos brancos e brilhantes surgiram nas mãos direitas de ambas. Logo os dois pontos se expandiram potencialmente, fazendo uma luz branca irradiar nas duas pela boca e olhos. Eleonor e Alexia, involuntariamente, abriram suas bocas, dominadas pelo procedimento.
A ondulação nos vestidos de ambas denotava a produção de uma corrente de vento que aumentava consideravelmente, fazendo o cabelo preto de Hector esvoaçar de leve, enquanto o caçador preocupava-se mais com a refulgente luz alva que parecia querer cegar seus olhos, instigando-o a protege-lo com o braço esquerdo. "Agora entendo aquele sorrisinho.", pensou ele. "Luz semi-cegante igual a Hector não verá como ocorre o feitiço!".
A sala inteira iluminou-se com a poderosa luz. As mãos ligadas pelos cortes de ambas tremiam fervorosamente durante a espantosa troca. Hector, por alguns segundos, entreviu, numa brecha ínfima formada pelos seus braços erguidos frente ao rosto para proteger seus olhos, um "raio de luz" horizontal entre a boca de Eleonor e a Alexia. "Então é isto? É assim que acontece? Incrível!", pensou, verdadeiramente impressionado.
Rapidamente a luz reduziu em questão de segundos. Eleonor e Alexia logo soltaram as mãos e inclinaram-se para frente com as cabeças baixas, como se estivessem sentindo tonturas. Por um breve instante, Hector, ao tirar os braços perto do rosto após o fim do processo, percebeu estar diante de dois manequins de tão inertes que as duas pareciam estar. "Bem, está começando a me assustar, de verdade.", pensou ele, hesitante, andando poucos passos à frente olhando-as com estranheza.
"Isso significa que funcionou? Ou não?".
— Eleonor... — disse ele, tocando delicadamente no braço da bruxa. Ele gemeu um pouco ao se empertigar. O caçador olhara para a vidente com desconfiança. — E Alexia...
— Desculpe. — disse ela, erguendo-se e olhando para Hector com uma expressão com a qual a vidente nunca pensou que exibisse à Hector. — Sou uma bruxa Ômega, mas, infelizmente, premonições não estão inclusas no pacote. — sorriu abertamente para o caçador, apresentando os belos dentes que Alexia possuía.
Hector tentou retribuir sorrindo desconcertadamente. Voltou-se para "Eleonor"...
— Eleonor... — errara, logo balançando a cabeça em negação. — Quero dizer, Alexia. Como se sente? — tocou-a no braço com condescendência.
— Exatamente como esperei. — disse ela, assentindo e olhando para sua mentora, cuja alma estava presa em seu corpo. — Mais velha.
— Como disse? — perguntou Eleonor, levantando uma sobrancelha, indicando reprovação.
— Não, estou falando sério. — disse a vidente, olhando para a pele relativamente morena do corpo da bruxa, ou seja, olhando a "si mesma". — Você... Isso é incrível. Como consegue se olhar no espelho todos os dias? — visualizou seu corpo que a observava um tanto insatisfeita. — Tantos anos assim...
— A propósito — interrompeu Hector, olhando para Eleonor (corpo de Alexia) — , quantos anos você exatamente tem, Eleonor? Você nunca me revelou sua idade, só agora que pude lembrar desse detalhe que deixar passar batido há dois anos. — sorriu levemente para ela, de modo bem-humorado.
— Tenho uma ideia melhor. — retrucou a bruxa, andando pela sala. — Começar a agir. — virou-se para os dois. — Está na hora do terceiro passo.
— Nosso estudo não havia sido o segundo? — questionou Alexia, perdida. — E agora eu posso tocar nesse lindo colar de esmeralda. Nunca entendi por sempre ficava brava quando eu pedia para usa-lo, mesmo que por um só dia. — disse ela, ostentando a pequena esmeralda presa sobre um fino fio dourado no pescoço.
— Aproveite enquanto ainda sua alma está no meu corpo. — avisou Eleonor, mexendo nos "seus" cabelos ruivos alaranjados. — E sim, é o terceiro passo, o estudo nada mais foi que uma preparação para o segundo que foi a troca. — olhou para Hector, alterando a expressão para seriedade. — Eu vou à loja de uma amiga de confiança, ela é colecionadora de antiguidades e a conheço desde a época em que o soro da juventude era o sonho de consumo de todas aquelas vadias.
— Ela também é uma bruxa? — perguntou Hector.
— Sempre tive minhas dúvidas. — respondeu Eleonor, dando de ombros. — Sendo bruxa ou não, ela é a melhor conhecedora de artefatos mágicos que já vi.
— Espere um minuto. — disse Alexia, apreensiva. — Quanto é o limite de tempo?
— Engraçado, essa é a primeira vez que me vejo com tanta insegurança. — brincou Eleonor, vendo seu corpo reagir com as sensações da vidente.
— Quanto tempo? — insistiu Alexia, aflita. — Duas horas? Meia hora? Dez minutos?
— Acalme-se, acalme-se. — aconselhou Eleonor, erguendo levemente as duas mãos aproximando-se da aprendiz. — Tudo irá correr perfeitamente bem. Entre uma bruxa e uma pessoa com pouco conhecimento da magia, como você, a troca só pode ser desfeita apenas quando eu desejar que seja. Em outras palavras — relanceou Hector -, o recitador do feitiço é quem detém o poder de decidir quando as duas almas devem voltar para seus devidos corpos.
— Então não foi exatamente uma troca de corpos. — disse Hector, com ênfase na última palavra da frase. Olhou para ambas, parecendo estar um tanto desconfortável. — Apenas as almas foram trocadas. Eu pude ver. Dificilmente, mas vi.
— Mas é assim que sempre chamaram: Troca de corpos. — redarguiu Eleonor, ajeitando o vestido de seda púrpura que pertencia à Alexia. — Enfim, não importa. Devo contar o real motivo pelo qual Alexia teve tanto receio em realizar o feitiço? — olhou-a com as sobrancelhas arqueadas.
— Vá em frente, diga. — disse ela, virando as costas e andando pela sala, ansiosa.
— São as visões. — disparou, lacônica, pondo as mãos na cintura. — Ela teve medo de que a troca fizesse com que uma soubesse das memórias da outra. Mas, como pode sentir, Alexia, não foi o caso.
— Pelo visto, não foi muito específica no momento de explicar como funcionava. — disse Hector.
Eleonor suspirou, tentando manter paciência intacta ao olhar para o caçador.
— Na verdade, isto foi antes de começarmos os estudos. — disse ela, logo visando sua aprendiz insegura estando pensativa em um canto da sala. — Foi preciso uma pilha de livros colocada na mesa às pressas para convence-la a ficar, antes que ela saísse correndo da sala depois que tentou mudar de ideia.
Alexia afastou uma mecha do cabelo castanho e voltou-se para a dupla, dirigindo-se à eles com certa insatisfação.
— Fez muito bem em usar da minha ansiedade para ter de deixar os detalhes importantes somente quando terminasse o processo. — reclamou a vidente, olhando-a desafiadora.
— E como acha que eu devia proceder? — perguntou Eleonor, franzindo o cenho. — Informar os detalhes só a deixaria mais aflita. — andara até um canto, aparentando um ar de mistério. — Além do mais... minha ida até a loja certamente não será tão segura quanto pensam. Não achem que o fato de eu estar em um corpo diferente torna esse disfarce totalmente eficaz.
— Se refere às bruxas, certo? — indagou Hector, olhando-a intrigado. — Lembro de você ter dito sobre elas terem olhos e ouvidos por toda a extensão de Londres. Infiltrações, não é isso?
A bruxa virara-se apresentando uma postura corajosa o bastante para transparecer seu objetivo em assumir qualquer risco que viesse a arruinar com o terceiro passo do plano.
— Há uma possibilidade real de eu ser descoberta. — afirmou ela, sem medo, olhando para ambos. — Seja caminhando na rua ou até mesmo... na loja.
— A tal mulher que diz ser de sua confiança... — arriscou Alexia, não gostando nem um pouco da atmosfera que aquela discussão estava adquirindo.
— Exato. — confirmou Eleonor, suspirando com ar de incerteza. — Nunca cheguei a descobrir se ela tem ou não acesso à magia e perguntar sobre algo tão pessoal e secreto seria como dar um tiro no escuro. É arriscado eu fazer questionamentos muito profundos, mesmo que sejamos amigas de longa data. Além disso, caso eu for descoberta e o plano vir a ruir, eu posso acabar sendo pega numa emboscada e ser morta... — ela abaixou a cabeça, tentando manifestar em palavras a pior coisa que poderia ocorrer em contribuição ao fracasso do plano. — Eu... Minha alma vagará sem rumo e meu chackra se tornará rastreável. — olhou para Alexia com angústia. — A alma de Alexia jamais retornará ao seu corpo. Se caso Alexia, não aguentando mais viver nessa casa, tiver de sair, vai ser pega em qualquer lugar público que passar, sendo confundida comigo a menso que a sequestrem e a interroguem.
— Mas nesse caso elas ficariam indecisas. — apontou Hector, reflexivo como um dedo indicador no queixo. — Só de pensarem ter visto você, Eleonor, andando em um local público, e de não sentirem nenhum chackra as colocaria em um dilema. Atacar ou esperar um sinal convincente que reforce a suspeita. Alexia, obviamente, não possui nenhum chackra. Talvez ficariam confusas...
— Está enganado, Hector. — discordou Eleonor, aproximando-se do caçador com certa elegância nos passos. — Elas atacariam imediatamente assim que vissem meu corpo perambulando por aí, e a ausência do chackra revelaria que uma troca foi feita e que uma alma pura está habitando o meu corpo.
— Você não me deixou terminar. E concordo com você. — esclareceu Hector, assentindo para ela.
— Tudo bem, conclua seu ponto. — disse Eleonor, dando de ombros.
— Se estivessem em grupo, uma ou três no máximo, ficariam confusas pelo fato de estarem especulando se uma troca foi feita ou se você perdeu sua magia. — argumentou o caçador, firme.
— Eu as conheço melhor do que você pode imaginar, Hector. — retrucou a bruxa, categórica. — Jamais especulariam isso diante das circunstâncias atuais. Sou uma fugitiva por crime de roubo. Mesmo que pensassem que decidi me expor em locais públicos, elas apostariam na teoria da troca. Agora estou imaginando como seria se eu e você fizéssemos o feitiço... — dera um sorriso nervoso. — ... pelo modo como você subestima elas, o plano teria mais chances de fracassar.
— Sem querer ofender, mas tenho que concordar. — disparou Alexia, olhando para ambos de modo apreensivo, os olhos verdes realçados.
Hector fizera uma expressão de confusão, como se achasse bizarra a ideia da alma da bruxa ser fixada em seu corpo durante a imaginária troca.
— Não seria tão apropriado. — opinou o caçador, nervoso ao pensar.
— E nada vantajoso. — completou Eleonor, enfática, cruzando os braços.
— Olha, essa discussão só nos fará perder mais tempo. — alertou Alexia, impaciente, pondo-se entre os dois, olhando-os ao virar o pescoço para ambos os lados. — Precisamos da pedra Ônix, rápido! — disse, dirigindo-se à Eleonor.
— E se estiver em falta? — perguntou Hector, pessimista. — Devemos considerar essa possibilidade também.
— Não, não acho que está. — contra-argumentou Eleonor, pensativa, olhando para um canto da sala. — Há alguns anos, na última vez em que fui até lá, vi um acervo de pedras Ônix numa caixa, numa prateleira, meio escondida dentre outras caixas. As pessoas normais que iam até lá talvez nunca tenham reparado nelas, acho que ela, hoje, pode ter escondido e guardado em algum local secreto em sua casa. — teorizou ela.
— Não está pensando em roubar, está? — perguntou Alexia, fitando-a com o cenho franzido.
— Roubar, à esta altura do campeonato, seria pedir por mais perda de tempo. — disse Eleonor, firme no tom. — Muito bem, prometo não demorar. — garantiu a bruxa, encaminhando-se para a porta da sala.
— Ei, espere aí. — chamou Hector, andando até ela. — Não acha que agilizaria mais se fosse através de um feitiço de teleporte? Você sabe a localização da loja, pode se trasportar para um ponto onde não chame muita atenção.
A bruxa o olhou como se não acreditasse no que estava ouvindo.
— É sério isso? Não pode ser... — virou o rosto, reprimindo uma risada. Voltou a fitar o caçador. — Nem nos meus piores delírios eu iria considerar essa ideia. Não se preocupe, vou tentar amenizar meu chackra se caso eu chegar a sentir o delas. Para que esse disfarce fosse de toda eficácia eu teria que abrir mão da minha magia, o que certamente seria uma péssima ideia. Prefiro guardar isso quando eu for para as Ruínas Cinzas. — girou a maçaneta, logo abrindo a porta.
— Tenho que admitir. — disse Hector, observando-as com um olhar de admiração e ajeitando seu sobretudo de couro marrom escuro. — Ainda é muito estranho estar... interagindo com as duas depois do feitiço.
— Compreendo. — disse Eleonor, sorrindo para Hector ao estar prestes a sair da sala. — É demais para sua cabecinha cética processar. Não é? — por fim, fechara a porta sem estar interessada em saber a resposta.
Alexia aproximava-se do caçador, fitando a porta, transmitindo toda a alta expectativa que nutria para o êxito do plano.
— As vezes... ela não me inspira tanta confiança quanto eu esperaria. — comentou.
— Entendo. — aquiesceu Hector, cruzando os braços e tornando a andar pela sala demonstrando impenetrável paciência em sua compostura. — Por ora, só nos resta esperar... e acreditar no sucesso.
CONTINUA...
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