Capuz Vermelho - 2ª Temporada
11 Dilema (Parte 1)
Notas iniciais
Capítulo 2x07
Dois caminhos... uma única escolha... e nenhum arrependimento.
A luz trêmula da lanterna banhava aquela pilha de corpos dissecados, naquele pequeno cubículo imundo. Josh, com o cenho fortemente franzido e o olhar apavorado, mantinha a mão quase fixa nas narinas ao se ver refém de um odor insuportável. Durante seu contato com Eleonor, o jovem caçador adquirira ciência da enorme possibilidade de deparar-se com situações das quais ele estaria extremamente desacostumado. A moça havia lhe fornecido todas as informações necessárias, bem como o risco que a missão exigia. Tudo o que mais desejara era desvencilhar-se de um medo irracional, a pedra no meio de seu caminho que o tornara impressionável demais para os padrões de um futuro profissional daquele ramo ainda que em fase inicial de treinamento.
Eleonor, no meio da ligação, sentira a força de vontade do garoto em se entregar abertamente à algo novo... fazendo com que Josh visasse com mais clareza sua mais poderosa ambição: O progresso rumo à ingressão na Legião dos Caçadores."Um monte de carcaças de licantropos!", pensou, embasbacado. "Talvez haja mais corpos nas outras salas... esse lugar provavelmente é uma necrópole!", imaginou ele, em uma rápida divagação sobre seu aprendizado referente à lobisomens, os quais só vira apenas nos livros durante suas aulas teóricas, nos longos três meses em que passou devorando, incansavelmente, páginas e mais páginas, do conceituado "Manual de Conhecimento sobre o Desconhecido" exclusivo para caçadores de aluguel.A questão principal era: Quem fora o responsável por aquilo?Fechara a porta, com a lanterna sob uma axila, necessitando reaver o ar fresco para os pulmões.A porta metálica e enferrujada estrondou-se com seu fechamento. Desligou o pequeno aparelho portátil de iluminação, encostando-se na parede úmida."Ótimo. A escuridão vai estar a meu favor... com esse chão dá para andar bem devagar sem que eu seja percebido por alguém que esteja nesse corredor — o que eu espero que não.", pensava ele, com seu plano para avançar."Aquela bruxa gostosa me disse sobre um tal de Mollock...", dizia ele consigo mesmo, enquanto percorria o escuro corredor em passos silenciosos. "Não, espera aí! Será que... Não pode ser. Como alguém chegaria a esse ponto?".Um lampejo de uma teoria aturdiu-o profundamente. ***Em um bosque lindamente arborizado sob o céu estrelado, a dupla de grandes amigos de infância com habilidades extraordinárias caminhava vagarosamente por uma estreita pequena estrada sinuosa. O vento ressoava entre os dois, calmo e amigavelmente frio. Alexia pensara se Charlie andaria ao seu lado com as mãos dadas. Para seu alívio, se enganou. Não se sentia pronta...— Acredito que esteja feliz por aquele momento de paz ter se estendido por longas horas. Estou certo? — disse Charlie, baixando um pouco a cabeça, fitando o chão pedregoso.— Nossa, e como. — disse ela, rindo levemente. — Obrigada novamente. Foi um ótimo passeio. E foi... foi bom voltar no tempo, todos aqueles bons momentos que tivemos um com o outro...— Sim, é verdade. — disse o rapaz, voltando-se para ela, na clara intenção de mudar de assunto. — Err... Alexia, eu não tenho deixado de notar uma certa tensão em você.— Tensão? Do que está falando? — indagou ela, franzindo as sobrancelhas. — Se for sobre hoje de manhã, eu estava um pouco cansada... acho que pensei demais em Rosie, sobre o que ela pode estar passando sabe-se lá onde ela deve estar agora... é uma preocupação que não consigo tirar da cabeça.— Tal preocupação se manifestou na forma de sonho, presumo. — dissera Charlie, voltando-se para frente, a expressão mais séria.— Aonde quer chegar? — perguntou a jovem vidente, em um tom temeroso.— Creio que não tenha reparado, hoje de manhã, que Êmina mencionou especulando que você teve uma visão... — voltou-se para ela, o olhar incisivo. — E você nem ao menos se importou com minha reação. Tudo bem, Alexia, eu já sei o seu segredo.— Espera... a Êmina contou para você que sou uma vidente!? — disse ela, em um sobressalto inesperado.— Bem, ela revelou quando falava sobre a invasão á Londres e a guerra contra as criaturas, os lobisomens. Também afirmou que sua premonição foi de grande ajuda. Isto não é um problema, certo?— Claro que não. — respondeu ela, meio desconcertada. — Aliás, acredito que ela tenha dito isso apenas para fazer me sentir importante naquele momento. Vamos encarar a realidade: Eu não fui útil, além de que não fui rápida o bastante para impedirmos o que houve com Rosie. Meu dom não passa de um atraso para os outros.— Ora, pare de ser tão dura consigo mesma. — repreendeu Charlie, apressando um pouco o passo. — Eu compreendo perfeitamente sua necessidade de se sentir relevante em um grupo, sei que já passou por isso no passado...— Olha, Charlie. — disse ela, parando a caminhada, virando-se para ele. — Eu sei que deveria ter contado sobre isso há muito tempo, isso até me faz sentir culpada... porque eu sinceramente odeio guardar segredos... mas, as vezes, o sigilo pode prevenir tragédias.
— Então crê piamente que a visão que teve na noite passada não deve ser revelada tão cedo? — indagou o jovem, curioso para obter uma resposta decisiva.— Basicamente. — disse Alexia, agora um pouco mais tensa do que aparentava. — Quero que os riscos diminuam ou permaneçam como estão, e eu revelar o que vi, o que eu sonhei ontem a noite, para os outros vai ser o mesmo que apressa-los e pôr as coisas fora de ordem completamente.— Entendo. — assentiu ele, positivamente. — Mas como eu e você somos confidentes autênticos desde aquela época, eu... eu gostaria que confiasse a descrição desta visão apenas à mim. — disse, não muito seguro do pedido realizado.Alexia tornou a observa-lo por vários minutos a fio, — os olhos azuis indo de encontro às esverdeadas pupilas do rapaz — imaginando uma reação decente para aquele instante, ao menos algo que pudesse driblar o aumento de sua aflição. Porém, o tempo não a ajudara a escolher as palavras cabíveis para uma resposta certa ante àquela pergunta.— Eu... sinceramente, não sei, Charlie. — disse ela, insegura de si. — Cada visão que tenho é um peso enorme nas minhas costas, e por mais que eu queira tira-lo não tenho certeza se fazer isso é a melhor ideia. Só esclarecendo que odeio esconder coisas importantes dos meus amigos... mas nessa altura o sigilo, como eu disse antes, pode evitar problemas. — justificou ela, tentando soar o mais convincente possível para a semente de dúvidas do mago do tempo.— Tudo bem... — meneou a cabeça positivamente, um tanto desanimado. — Mas ao menos me diga se é boa ou ruim. — pediu ele, insistente.— Me desculpe, acho que... preciso ir andando... se quiser você pode ficar apreciando as estrelas, sentindo o ar noturno... — Alexia se afastava como se estivesse prestes a fugir de um castigo. — Eu sinto muito, Charlie. Mas não posso.— Não pode ou não quer? — perguntou ele, austero.— Os dois. — disse ela, concisa. — Sinto muito mesmo. Mantenho sigilo pelo bem desta missão. Se eu falar alguma coisa a respeito, posso acabar preocupando vocês mais do que toda essa situação já deixou.— Alexia, por favor, não precisa descrever detalhadamente... — disse Charlie, aproximando-se aos poucos, enquanto ela tentava manter distância. — É muito fácil perceber, você deixou óbvio pelo seu olhar que é bastante sério.— Aí está. — disse ela, erguendo o indicador para ele. — A resposta. Contente-se com ela... por enquanto.Alexia, em um impulso, iniciou uma corrida pelo estreito caminho sinuoso de pedra, tal como alguém foge de um tiroteio ou de lobos selvagens. O mago do tempo deixara cair os ombros, em um misto de estupefação e desesperança."Apenas para não nos deixar preocupados? Eu deixei exposta a minha calma, impossível alguém não perceber.", pensou ele, descontente, enquanto fitava os ruivos cabelos da vidente balançando durante a fuga da mesma. "Não, Alexia, você não é de tomar decisões como essa. Confesso que, agora, sim, estou preocupado... não com o procedimento da missão, mas sim com você e esse mistério.""Será que o que o futuro nos reserva é tão sombrio para faze-la chegar ao ponto de guardar um segredo até para um amigo de longa data?", questionou ele, mantendo o semblante tristonho e desconfiado ao mesmo tempo. ***Os olhos vermelhos e brilhantes do clone ainda o fulminavam, tornando-se mais ameaçadores após a dissipação completa da densa cortina de poeira. Mollock, instigado pelo verdadeiro desejo de acreditar estar sendo vítima de uma infame ilusão, deixara suas garras em evidência, estando de pé frente à seu opressor."Algo me diz que isto possa ser obra de alguma força maligna invisível sobre este museu.", pensou ele, especulando, encarando o imitador com o ardente olhar raivoso. "Não... Que bobagem estou dizendo. Isto indica que possa haver um intruso... que arquitetou esta manobra para me fazer pensar que meu poder é provindo de uma loucura."— Antes de eu poder destruir sua miserável existência, quero que me responda algo: De onde veio? Quem o enviou e com qual propósito?— Uma pergunta de cada vez. — disse o igual, com o dedo indicador erguido. — No entanto, não vou me dar ao luxo de responde-las. O meu objetivo já foi alcançado. — e dera uma risada alta.— Eu lhe dei uma chance... — Mollock aproximava-se lentamente, balançando seus dedos, suas garras se chocando e produzindo um som semelhante ao de uma faca sendo afiada. — ... para que vivesse alguns minutos a mais me tirando estas dúvidas. Mas, pelo visto, estou certo de que não devo hesitar em mata-lo.Em um avanço violento, a pesada mão esquerda de Mollock, com as garras em velocidade incrível, veio de encontro à face do imitador, que colocava-se em posição de extrema tranquilidade, sem movimentar nenhum músculo. As garras apenas cortaram o ar, depois do oponente ter sumido de seu campo de visão rapidamente.Mollock sentiu seus pés saírem do chão, dando-se conta de ter levado uma rasteira. Caíra pesarosamente no chão. O clone veio por cima, em um pulo, para lhe golpear no tórax. Mollock, beneficiando-se de seus bons reflexos, deslizou seu corpo para a esquerda, desviando-se do ataque. Levantou-se e, com um impulso de sua mão esquerda na parede mantendo-se firme, chutou-o no rosto com um pé, o impacto lançando-o contra uma parede, na qual se viam expostas uma variada coleção de espadas do período colonial. As armas estavam penduradas por pequenos ferros.Minúsculos e médios pedaços de concreto caíram sobre o piso de pedra maciça. Uma vibração decorrente da colisão fez as espadas balançarem. Mollock sorrira malevolente, prevendo a vantagem que obteria.As pontiagudas espadas, com suas guardas circulares, declinaram, uma por uma, em diferentes posições, tendo a maioria com suas pontas voltadas para o chão... onde o clone via-se caído, recuperando os sentidos. Quando deu por si, as pontas das armas já haviam cravado brutalmente em seus membros, sem dar tempo para qualquer vislumbre da parede acima. Seus braços e pernas — inclusive o abdômen — foram perfurados, deixando brotar das feridas uma considerável quantidade de sangue, escorrendo ligeiramente.— Seus gemidos soam como música. — disse Mollock, mantendo o sorriso de um vitorioso, dirigindo-se ao adversário com evidente determinação. — Quem quer que tenho o mandado até a mim, sofrerá as mesmas dores que você... multiplicadas por 10! — afirmou, esfregando de leve seu focinho.— Todo império — dizia o clone, intercalando sua fala com gemidos angustiantes. — há de cair um dia. Não pense que com você será... diferente... Eu tentei fazer um favor. — o brilho vermelho de seus fumegava mais forte desta vez.— Você me fez perder tempo. — disse Mollock, logo usando um de seus pés para empurrar uma espada, localizada na barriga do imitador, e crava-la com mais força. Gotículas de sangue espirraram para o ar.O grito de dor da criatura atravessou as paredes daquela ala, conseguindo a façanha de fazer tremer as bases que sustentavam o teto. Mollock manteve seu canal auditivo impenetrável mediante àquela onda sonora estridente. Percorreu seus olhos ao seu redor, visualizando as espadas espalhadas pelo chão.— A dor e a morte são os destinos daqueles que me contrariam. — proferiu, apanhando uma espada, cujo cabo era de um dourado reluzente tal como a sua lâmina.Os gemidos logo retornaram à sua fase de urros dolorosos quando o pupilo de Abamanu cravou a arma pontuda certeiramente no coração do demônio. Logo em seguida, sem desistência, o instinto lhe alarmando para vencer de uma vez aquela batalha, Mollock pegara mais duas espadas. Uma cravação dupla nos dois braços. Depois outra. Mais outra. Mais gritos.Mollock intensificava suas inclinações a cada espada cravada, a cada respingo de sangue lançado contra seu rosto. Restava apenas uma. A criatura procurava uma possibilidade de mover seu pescoço, rangendo os dentes sujo de sangue. Estava definitivamente presa por uma armação de espadas enfiadas em seu corpo.— Nem mais uma palavra. Morra! — disse Mollock, erguendo a última espada com as duas mãos para o alto, preparado para dar o golpe final.A poça de tom rubro já alcançara seu pés, formando um círculo em torno do cadáver da criatura.O fio cortante e brilhante avançaria em segundos indo de encontro à cabeça da besta — o último alvo -, se não fosse por um lampejo similar a um completo despertar... Mollock dera várias piscadas rápidas, a espada ainda em suas mãos, desequilibrada. A vermelhidão de seus olhos desaparecera em um único segundo.
— Mas o que... — olhou para cima, fitando a espada.Voltou-se para o ser diante dele, a expressão de quem não faz a menor ideia de onde se encontra ou do que está fazendo. Largara a espada, recuando alguns passos ao vislumbrar a imensa poça de sangue banhando suas garras dos pés. Meneava a cabeça negativamente, vasculhando em sua mente uma explicação para aquela situação. O demônio fora confirmadamente morto, sendo visto por Mollock em sua verdadeira forma. Os olhos da besta infernal estavam negros.— Mas o que aconteceu aqui, afinal? — perguntava-se ele, movimentando seus olhos à sala ao seu redor, os rastros de destruição chamando sua atenção de imediato.Com a morte do demônio, o encanto havia sido quebrado por inteiro. ***Na já intitulada "sala dourada" — por Eleonor -, as ilusões horrendas se desfizeram bastando apenas um piscar de olhos por Hector. Voltou a enxergar a sala e seu chamativo tom de sépia puro, além do pentagrama, no chão, desenhado com o sangue de sua parceira e buraco circular na parede no qual saiu a fera macabra e onde se via o espiral ornamentado. Percebendo a recomposição do semblante de Hector , Eleonor o ajudara a se levantar.— Vejo que melhorou... Você está bem? — perguntou ela, encostando-o na parede.O caçador a olhou, desentendido.— Mas... o que houve? — e relanceou o corpo da quimera sendo devorado pelos besouros. — Argh! Ao que parece, eu perdi muita coisa. — virara o rosto, em repulsa.— Espera. — Eleonor franzira o cenho. — Não se lembra de nada do que viu?— E por acaso eu vi alguma coisa? Sinto como se algo tivesse apagado todos os meus sentidos. Não lembro de nada do que ocorreu nos últimos dez minutos, presumo.— Ufa, que ótimo. — disse a bruxa, fechando os olhos aliviada, dando um suspiro. — O feitiço foi quebrado, finalmente. Mollock matou o demônio.— Do que está falando? — indagou o caçador, ajeitando seu sobretudo ao chegar perto dela. Procurou se orientar, a mente se desenevoando aos poucos. — O que aconteceu comigo nesse período?— Antes de mais nada, quero que me perdoe. Você foi afetado pelo meu feitiço de ilusão acidentalmente. Sim, eu sei, eu deveria ter alertado você antes... mas fiquei tão focada no processo que foi como se você nem estivesse presente. Me desculpe. — pediu Eleonor, em uma expressão carente.Hector olhara-a fundo, como se por instinto tentasse detectar uma autenticidade naquele argumento. Decerto, lhe era difícil externar a confiança duvidosa que tanto ele insistira em impor a si mesmo para retribui-la à moça. Ao que tudo indicava, ainda precisava aprender a enxergar a pura verdade nas palavras daquela mulher, largar o preconceito lapidado e enraizado em sua mente. Durante a infância, Hector curiava nos livros de história fatos sobre bruxas. Lhe era ensinado, por seus próprios pais e avós, que as mesmas representavam o que há de pior na maldade imanente do ser humano. Todavia, o garoto prodígio expunha o seu ceticismo pré-programado. "Bruxas só existem nos livros.", dizia a si mesmo, desprezando a crença nas julgadas "adoradoras de Satã".Seus negros olhos sincronizaram-se com o esverdeado olhar de Eleonor por minutos a fio. Dera um suspiro cansado, a fadiga evidenciando-se.— Está perdoada. — disse ele, assentindo com um "sim". — Minha mente... me sinto muito cansado. Obviamente, não sabe me dizer o que eu vi... Mas ao menos me explique o seu plano.Afastando uma mecha do castanho cabelo liso, Eleonor revelara suas intenções.— Libertei aquele demônio e lancei o feitiço de ilusão exclusivo do Coven nele para que Mollock pudesse ter a impressão de estar vendo um reflexo dele. É necessário um transmissor, no caso o demônio, para que o feitiço alcance o alvo. Logo, Mollock foi afetado pela magia que o demônio trazia consigo, fazendo-o acreditar totalmente na ilusão. — Fez uma pausa. — O objetivo daquele que conjura o feitiço é fazer vir á tona ilusoriamente os piores medos de sua vítima. Eu presumi, com quase certeza, de que Mollock possui medo de que o poder suba à cabeça a ponto de enlouquece-lo. Eu usaria isso como distração para que fôssemos até a sala do diretor e conseguirmos o mapa do museu. — Fizera uma cara um tanto desanimada. — Teria dado certo se não fosse por esse deslize... Nada mais foi do que um atraso.— E agora que Mollock venceu a luta contra o demônio e já está livre do encanto, provavelmente presumirá que há intrusos, alertando seus soldados. — afirmou Hector, preocupando-se cada vez mais. — Temos que nos apressar, de preferência na direção em que Josh foi.— Além disso, eu não sabia que após o feitiço ser quebrado a vítima perdia a memória do que viu. — revelou Eleonor, antes que Hector enveredasse para fora da sala. — O que é uma coisa boa, já que pela sua cara na hora deve ter sido um pesadelo e tanto. E não vou dizer o que imaginei que fosse, em respeito à você. — disse com um semblante suave.Uma rápida fagulha passara pela mente de Hector na forma de um nome: Rosie. Divagou por alguns segundos sobre o que poderia estar vendo naquele instante doloroso. Meneou a cabeça negativamente de modo rápido, tentando suspender o pensamento.— Melhor nós irmos. — caminhara para fora da sala, ignorando o corpo da quimera ainda sendo digerido pelos insetos — Sorte que Josh foi exatamente na direção onde fica o gabinete do diretor.Quase escorregara no chão sujo de sangue ainda fresco, mas tratou de desprezar as horripilantes figuras ali caídas enquanto caminhava. Mantendo o olhar para frente, ziguezagueou pelos corpos destroçados e retalhados das quimeras, os montantes de entranhas sinuando-se pelo piso. Eleonor vinha bem atrás dele, também ignorando os corpos e o cheiro característico de sangue.Logo chegaram a um escuro corredor branco, vizinho ao qual entraram e dava pelas portas dos fundos. O caçador, para a estranheza de Eleonor, hesitara em ligar a lanterna, pois à medida que andavam a escuridão parecia suga-los.— Hector, não é melhor lig...— Não. — interrompeu ele com a mão direita erguida, estando alerta. — É imprescindível que tanto falemos baixo quanto não mostrarmos nenhuma fonte de luz. — sussurrou, diminuindo o ritmo.— Estou praticamente cega aqui. — reclamou ela, em baixo tom, quase esbarrando em um vaso de alabastro branco. — Odeio admitir, mas... Era melhor nós termos pensado em pegar o mapa antes de entrarmos. E suas botas não são nada silenciosas.Hector chiou baixinho com a boca pedindo silêncio, parando a caminhada. O caçador encarava o vácuo desafiador da escuridão, como se algo estivesse à espreita prestes a surgir daquelas profundezas sombrias.— Preciso ter certeza de que estamos seguros aqui. — tornou a andar novamente, em ritmo ainda mais vagaroso.— O gabinete do diretor não deve estar tão longe. — especulou Eleonor, na expectativa de encontrarem uma porta.— Eu não teria tanta certeza. — replicou Hector, o sussurro ainda mais baixo. — Tudo bem, se tivermos que fazer isso rápido, teremos que arriscar. — rapidamente tirara a lanterna do bolso de seu sobretudo."Finalmente", aliviou-se Eleonor, pensando consigo mesma.O clarão branco-azulado do aparelho estendeu-se até o fim do corredor, tão próximo e com um elemento bastante convidativo.Hector soprara em alívio por não ter se deparado com nenhuma quimera aninhada na escuridão que estivesse guardando aquela porta. Enfim, estavam diante da entrada para o gabinete do diretor do museu, que, por sinal, estava naquele momento acompanhando atentamente as notícias de última hora no rádio sobre as iniciativas do exército britânico para uma possível invasão à estrutura, enquanto o resto do mundo focava-se nas tensões entre alguns países da Europa, sobretudo entre Alemanha e seu nazismo e uma Rússia altamente motivada e soberba.A porta, estranhamente, estava entreaberta, a estreita brecha denunciando a claridade alaranjada de um abajur. Com um cauteloso toque, Hector a empurrou, a lanterna desligada em uma axila, ao mesmo tempo que sacava, com a outra mão, um rifle.A porta abrira-se livre e totalmente. As dobradiças pareciam ser de boa qualidade, tamanha era a rapidez com a qual fizeram abrir a porta, além da ausência de rangidos.O caçador entrara de modo invasor apontando a arma de fogo para cada ponto da sala. Eleonor, percebendo não haver nada perigoso, foi-se adiante até a escrivaninha, reluzida pela luz do abajur. Tornou a mexer nas gavetas, nas papeladas empilhadas e nos envelopes e documentos espalhados.— Ei, espere. — disse Hector, aproximando-se. — Não vai conseguir nada assim. Tenha calma, há uma chance de sermos pegos. — recomendou. — E isso é estranho... isto me lembra uma ocasião passada bem semelhante, mas era ao contrário, eu fui repreendido. — contou ele, sem pensar em mencionar o nome de Rosie.— Pelo seu sorriso, posso adivinhar que deve estar com saudades. Déja vus e suas surpresas.- disse Eleonor, sorrindo de leve. — Enfim, o mapa talvez esteja por aqui. Talvez por escrito, em formato de lista, ou até mesmo em forma de planta.— Podem haver os antigos projetos da arquitetura do museu. — disse Hector, dirigindo-se à uma alta estante de madeira polida. — Dentre estas pastas, quem sabe...— Você sabe a idade deste museu, Hector? — perguntou ela, em clara desaprovação da ideia do caçador. — Se não, eu também não sei, mas, é claro, é bastante antigo. Então as plantas antigas talvez nem existam mais. E se ainda existirem, os papéis devem estar velhos, amarelados e rasgados, sei lá.— Estes arquivos me exigem uma paciência com a qual estou em completa desarmonia. — disse ele, o cenho franzido, vasculhando as várias pastas amarelas ordenadas alfabeticamente.— Disse que faríamos isso rápido, não foi? — perguntou ela, abaixando-se no centro da sala, logo em seguida levantando o tapete vermelho redondo. — Voilá! — exclamou, encontrando algo embaixo.— O quê? — Hector virara-se abruptamente. — Encontrou algo?— Nada demais... — disse ela, puxando o objeto que estava escondido. — Apenas esse grande empoeirado papel velho que me parece ser uma espécie de mapa. — disse, logo sorrindo cantando vitória internamente, tirando o papel dobrado em várias partes.— Como assim... tão rápido? — perguntou Hector, sorrindo espantado.— Simples. — levantou-se. — Enquanto você cegamente acreditava que estávamos correndo perigo, eu estava avaliando todo a sala. Reparei numa pequena protuberância no tapete, mas fingi não ligar indo para a escrivaninha mexer naquela papelada inútil.— Então você intencionou me surpreender? — questionou o caçador, semi-cerrando os olhos ainda levemente sorrindo.— Basicamente. — respondeu a moça, afastando os papéis na mesa para pôr o mapa. — Muito bem. Lá vamos nós. Vejamos... — desdobrou o mapa rapidamente.— Só um segundo. — pediu Hector, encaminhando-se para a porta a fim de fecha-la. — Nem reparei que com isso ficamos expostos. — a fechadura fez seu trabalho silenciosamente.O mapa, bastante amarelado nas pontas e nos contornos das dobras e tomando quase toda a mesa, apresentava todas as alas, os corredores e salas — até mesmo as mais secretas. Várias letras e números invadiam o campo de visão da bruxa. "Vamos ver... talvez esta seja a sala na qual estivemos antes.", pensou ela, indicando um pequeno quadrado próximo à ala I das estátuas. Não possuía nome, bem como outras que podia-se ver em outros pontos de outras alas vizinhas.— Veja Hector. — apontou novamente para o quadrado. — "Ala I — Estátuas". É onde estávamos. — passou o indicador um pouco para a direita acima, mostrando uma passagem. — E aqui está o corredor por onde passamos e o gabinete. A sala vizinha a esta é a ala de artesanato, a menor de todas. O demônio foi para a direção oposta, direto para os corredores que levam à ala das armas antigas.— Não vejo nada que indique uma passagem para o subterrâneo. — disse Hector, postando-se ao lado dela, forçando a visão.— Esse é o problema. Este mapa não detalha nem mesmo os pontos mais secretos. — disse Eleonor, esboçando desânimo.— Se Josh passou por aqui... — Hector passeou seus olhos por toda a sala. — É muito provável que haja uma passagem em algum canto. — se dirigiu à um quadro de Edvard Munch pendurado na parede lateral direita — uma réplica exata de "O Grito".Em rápido ato, Hector puxou para si a pintura, tirando-a da parede. O que se revelou reergueu as palpitantes esperanças de ambos. Um pequeno fio de barbante mostrava-se preso a um buraco feito na parede.— Isso está cada vez mais estranho. — comentou Eleonor, fitando o objeto.
Hector deixara a pintura sobre uma pequena mesa posta ao lado de um outra estante, menor do que a que o mesmo verificou. Sem esperar nenhum segundo a mais, puxou com cuidado o barbante para frente.— Hector... tem certeza do que pretende fazer? — perguntou Eleonor, apreensiva.— Apenas um pouco de paciência... seja amigo dela e ela lhe recompensará. — disse, puxando o fio que se estendia.Apenas pouco metros separaram o corpo de Hector da parede após o fio "travar". O caçador puxava mais e mais, no entanto, parecia ter chegado ao limite.— Droga. E pior que não apareceu nenhum indício de que nesta parede exista uma passagem. — disse, largando o barbante.— Espere. — interveio Eleonor, aproximando-se. — Talvez você tenha puxado para o lado errado. — disse, pegando o fio de barbante.— E o que você sugere? — indagou o caçador, em dúvida.— Se assumirmos a ideia de que, baseado na direção em que viemos... — apontou para a porta com o braço direito. — o barbante possa ser puxado para o lado direito, talvez a entrada seja mostrada.Hector teve de reconhecer uma certa inclinação investigativa em Eleonor. Tal como uma certa parceira de investigações, cuja imagem, inevitavelmente, lhe veio à cabeça apenas para surrupiar sua concentração. Tratou de voltar suas atenções, obrigatoriamente, à mulher que propusera aquela ideia.Puxando o fio, cuidadosamente, para a direita, Eleonor pôde ouvir, mesmo em baixíssimo tom, um tímido ruído. Olhou para Hector, a expressão de quem reavê suas esperanças novamente. Puxou mais um pouco, lentamente. O som fora tornando-se mais audível... até uma fina linha preta vertical surgir imediatamente na parede, abrindo-se pouco à pouco, como se fosse uma porta de correr.— Continue puxando. — pediu Hector, na expectativa.A linha transformava-se em uma estreita passagem. Disto em diante, já era uma abertura por onde qualquer corpo com menos de 2 metros pudesse passar sem grandes problemas. Puxando com mais força desta vez, Eleonor permanecia curiosa para ver o limite.— Está bem, já é o suficiente. — disse Hector, erguendo levemente a mão, sem tirar os olhos da passagem.A quadrada abertura convidava o andarilho a mergulhar em uma poderosa escuridão. Graças a intensa luz tom de laranja do abajur na escrivaninha, podia-se ver degraus de uma escada que descia.Postando-se ao lado de Hector, Eleonor comemorou a conquista.— E eis a recompensa. — disse, fitando o escuro local.— Então foi por meio desta passagem que Josh, supostamente, teve acesso ao subterrâneo. — disse Hector.— Algo me diz que aquele quadro não esteve nesta parede antes. — especulou Eleonor, olhando para a parede lateral esquerda. — Veja só. — apontou para uma certa marca quadrada.Um único vislumbre foi o bastante. O quadro fora reposicionado em outra parede para provavelmente fazer algum tipo de alusão ao que estivesse reservado ao curioso que encontrasse a passagem. Em um instante de reflexão, o caçador ligou todas as peças sem dificuldades.Voltando-se para Eleonor, o rapaz empolgara-se com uma dedução.— Se estiver pensando o mesmo que eu... — assentiu com a cabeça. — Com quase certeza que alguém pôs a pintura nesta parede para simbolizar o conteúdo que está no subterrâneo. Pense bem: O Grito. — voltou seu olhar concentrado para o valioso quadro. — Ele representa a angústia e o desespero existencial do ser humano. O que quer que esteja lá dentro, certamente indica que Josh corre perigo.— Mas quem você acha que colocou o quadro nessa parede? Josh, será? — questionou Eleonor.— Com toda a certeza não foi Josh. — afirmou Hector, sorrindo empolgado. — Acredito que tenha sido uma das quimeras. Talvez até o próprio Mollock, depois de saber fatos sobre as obras do Expressionismo.— É, uma boa hipótese, claro. — concordou Eleonor, um tanto inquieta. — Considerando as suas suspeitas relacionadas à ele, o conhecimento é a chave para o poder supremo.— O que apoia este argumento — ponderou Hector. — são alguns trechos da Bíblia de Abamanu, precisamente nos capítulos da profecia. O hospedeiro de Abamanu necessita de conhecimento para que esteja entregue ao fardo.— Enfim, melhor nos concentrarmos em salvar Josh. — disse Eleonor, pronta para entrar na abertura. — Quem sabe algo surja para nos levar até Loub e...A fala de Eleonor fora assustadoramente interrompida por um grave grito de horror vindo daquela escuridão.Ambos estremeceram e tornaram a chegar perto da abertura, encarando o breu implacável.Entreolharam-se, temerosos.Impulsionados pelo instinto, não hesitaram em descer apressadamente aquelas escadas. ***Na cabana em Kéup, Rufus estava em seu quarto discando um número no telefone posto na mesa de cabeceira. A luz enfraquecida do abajur nada o atrapalhava a apertar desesperadamente aqueles botões. Relanceou a janela do cômodo ao olhar para trás, a fim de certificar-se de que o sinistro homem, que o visitara há poucos minutos, não estivesse espionando-o por uma brecha ou por entre as árvores do pequeno bosque ao lado.Tremia as mãos a cada vez que o barulho de chamada apitava no fone.Vários e angustiantes segundos passaram-se.— Vamos... Alguém atenda. — disse, olhando novamente para trás, a voz trêmula.Objetivava informar à Alexia a trama secreta dos Red Wolfs para que a mesma repassasse as revelações para os outros, tal como Adam fizera quando recebera a inesperada ligação de Hector. O homem contraia-se próximo à mesa, inclinando-se vagarosamente para frente, na esperança de que não pudesse ser bem visto considerando a sua forte suspeita.Ninguém ainda o atendera."Ué, não há ninguém em casa?", pensou, o cenho franzido.Naquele exato instante, Alexia e Charlie ainda não haviam voltado e o trio de caçadores prosseguia com mais uma sessão de treinamentos na sala subterrânea. Cansado devido à longa espera, Rufus desligara com cuidado."Somente há o número do telefone... Se a madame pensasse maior teria colocado o endereço da residência também. Que merda", pensou ele, esfregando o rosto com as duas mãos, sinalizando a ascendente preocupação.Morria de medo só de imaginar ter de ir até a janela para confirmar sua suspeita. Ficara ali, estagnando e sentado na lateral da cama, sem mais opções... enquanto uma estranha figura endireitava seu olhar incisivo escondida do lado de fora... perto da janela.
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