Captura em Le Cap
17 Shay - Um Truque na Manga
Em volta da fogueira, os maroons se reuniam. Naquela clareira do esconderijo dos Assassinos, os vodouisants assistiam à cerimônia de iniciação, organizada pelo houngan Mackandal. Mas um calor inesperado botou os Assassinos em desespero. Em contrapartida, Shay Cormac, o suposto refém, sorriu. Ele se virou para trás. Uma coluna de fogo tomara conta de um pequeno prédio de dois pisos, e, por causa da vegetação densa, se espalhava rapidamente em direção ao pátio e para estruturas próximas. Logo pessoas começaram a correr para a direção oposta. Shay pôde ouvir um assustado François Mackandal gritar ordens para os Assassinos mais próximos.
—Assassinos, rápido! Para o riacho! Apaguem o fogo e salvem os moradores!
Os homens mobilizavam-se, mas, a algumas dezenas de metros de distância, ouviu-se um estouro. Logo, uma segunda coluna de chamas surgiu.
—Madichon!— exclamou um Assassino – É a reserva de pólvora!
—Mas como? – indagou o Mestre Dubois– Emboscada! Devemos ter sido sabotados!
Ouvir isso arrancou um sorriso do rosto de Shay. Se Dubois estivesse certo, isso significava que Olatunde havia realizado sua parte do plano. Um Assassino se aproximou de Mackandal.
—Mentor, acabei de saber que os Templários planejam atacar nosso esconderijo!
Em resposta, François exclamou em sarcasmo:
—Não me diga, Kobina! Pa Bondye, que bom que você avisou a tempo!
O Assassino respondeu com um olhar envergonhado.
—Falem menos e ajam! – berrou Mackandal, logo antes de dar uma ordem a cada um dos homens à sua volta.
Todos correram para apagar o fogo ou ajudar as vítimas, inclusive os homens que vigiavam Shay. Era o momento. O Templário olhou para a esquerda e viu a alguns metros a caixa de madeira, esquecida e despercebida em meio a uma correria de pessoas em pânico. Shay retesou os punhos e livrou-se das falsas amarras que prendiam suas mãos. Com os pés presos de verdade, ele teve que ir até a caixa saltitando, e ainda agachado para tentar não chamar atenção. Quando enfim alcançou o objeto, teve que desviar de alguns moradores frenéticos. Eles, desesperados e, em certos casos, queimando vivos, mal reparavam em um Templário branco no meio do esconderijo maroon. Levando a caixa para um canto menos movimentando, Shay apressou-se em vestir a braçadeira de suas lâminas ocultas. Antes de colocar as duas pistolas em seu coldre, ele olhou para o lado e se apavorou: o fogo estava avançando em sua direção. Com rapidez, ejetou uma das lâminas e pôs-se a cortar as cordas que prendiam-lhe os pés.
Conforme o fogo se espalhava, o Templário ouviu sons de espadas e mosquetes. Olhando para a frente, sua visão se deparou com soldados franceses. Vestindo seus uniformes de azul e cinza, eles lutavam contra os Assassinos e seus seguidores, e os apreendiam. Shay não pôde ver muito da luta, mas chegou a ver alguns negros morrendo e outros se rendendo. O pelotão, que incluía alguns dos tripulantes da Morrigan, havia usado o elemento-surpresa para levar vantagem sobre os maroons, e tudo corria como o planejado.
Quando Shay enfim cortou a corda, o galho em chamas de uma árvore caiu sobre ele. Seu traje começou a queimar, e o Templário correu para longe enquanto, apressado, apagava o fogo com as mãos. Quando completou tal objetivo, ouviu uma exclamação atrás de si.
—O Templário! Ele escapou! – dizia um jovem negro sem capuz, sacando uma adaga de sua cintura. Em meio à correria dos maroons, ele parecia ser o único a não fugir do fogo.
Shay ejetou as lâminas para enfrentá-lo, mas em um segundo o abdome do rapaz foi atravessado por uma baioneta vinda de suas costas. O dono da baioneta andou para a frente e, com uma espada, degolou o maroon para dar-lhe um último suspiro. Quando recuperou a baioneta, olhou para Shay e disse, com um sorriso:
—Eu estou ficando velho para isso!
—Gist!
—Shay, meu amigo! Vejo que você saiu vivo das garras de Mackandal, seu sujeito de sorte!
—Ora, eu faço a...
—Eu sei, diabos! Você sempre diz isso!
Shay sorriu.
—Como está a batalha, Gist?
—Ótima, graças a esta distração do Mestre Xavier. Os maroons estão todos em pânico, então é fácil capturá-los. Matamos alguns, mas estamos fazendo a maioria de reféns, e os que conseguem fugir do esconderijo são abordados por um segundo grupo de soldados, que está montando guarda no meio da selva.
A conversa dos Templários foi interrompida por uma árvore que caiu no meio do pátio, ameaçadoramente perto da fogueira.
—Cacete, o incêndio está cada vez maior! – exclamou Gist – Os Assassinos já estão recuando do local, Shay. Deveríamos fazer o mesmo, não acha?
Shay observou a batalha. Viu vários Assassinos lutando contra os soldados. Mas havia um Assassino específico que Shay não encontrou.
—Ainda não. Tenho que ir atrás de Mackandal!
—O Mentor? Ele foi visto correndo para a vila junto com outros Assassinos. Deixe-o, Shay, o incêndio está ainda mais intenso por lá! O homem provavelmente será engolido pelas chamas!
Shay fitou o amigo com seriedade.
—Não trabalho com probabilidades, Gist! – disse, logo antes de sair correndo para a vila.
Christopher tentou detê-lo, mas Shay correu antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Ele percorreu os cerca de cem metros até a vila, desviando do fogo. Quanto mais andava, mais a temperatura aumentava, e mais difícil era se livrar das chamas. No caminho, ele notou Assassinos que ajudavam moradores a fugir do incêndio. Eles fitaram Shay com desprezo e surpresa, mas não avançaram contra ele. Estava claro que salvar as vítimas era a prioridade.
Assim, quando Shay alcançou o lado oposto da vila, que estava consideravelmente mais livre de chamas, finalmente encontrou seu alvo. À beira de um riacho, François Mackandal e seus Assassinos tentavam apagar o incêndio com baldes d’água. Quando o seu olhar encontrou o de Shay, o Mentor foi tomado por um misto de pavor e raiva.
—Como pode, filho de uma puta? – e, para seus homens, gritou: – O traidor está solto! Alguém faça algo! Matem-no! – quando todos largaram seus baldes, ele retomou: – Não todos vocês! O incêndio não se apagará sozinho, seus tolos! Claude! – François completou, falando a Dubois, o Mestre Assassino de antes. Shay supôs que Claude fosse seu primeiro nome.
Era como se ele já estivesse esperando o comando do Mentor, pois levou menos de um segundo para agir. Levantou seu capuz para cobrir seu rosto e apontou para dois de seus homens, que desembainharam cada um à sua espada. Shay avançou contra os inimigos, ativando suas lâminas ocultas.
Em pouco menos de dez segundos, os dois Assassinos o cercaram. Eles golpeavam rapidamente, mas o Templário desviava com destreza. Com as lâminas estendidas, Shay girou para o lado direito. Com a lâmina em sua mão direita, pôde fazer um corte na perna do Assassino à esquerda, e em seguida perfurou a lateral do abdome do outro. Isso parecia não abalar o negro, que avançou a espada para a frente. Shay, no entanto, agachou-se ao chão para evitar o golpe e, logo ao voltar de pé, passou o pé por baixo do Assassino, derrubando-o. O outro inimigo empunhou a arma contra ele, mas o Templário conseguiu prender a espada no meio de suas duas lâminas ejetadas. Enquanto a arma estava paralisada, Shay chutou a virilha do Assassino, deixando-o levemente atordoado. Ao ver que o outro homem já estava novamente em pé, Shay recuou um metro. O inimigo que ele havia ferido antes golpeou a espada, mas o Templário, pulando para o lado, segurou seu pulso com a mão direita. Com o outro braço, Shay acotovelou o nariz do inimigo. Ao que este cambaleou para trás, Shay manteve a espada, que foi útil de imediato, já que o outro Assassino havia se aproximado. Com um golpe rápido, Shay o empalou. Ferido e desarmado, o outro Assassino não foi um problema, e logo a lâmina de Shay penetrou-lhe o pescoço.
Com os dois Assassinos abatidos, Shay virou-se, em busca de Mackandal, mas encontrou outra pessoa. O Mestre Claude Dubois, com fúria em seus olhos e um capuz sobre a cabeça, aproximava-se do Templário, com um facão em cada mão. Ele passara o minuto anterior alguns metros de longe, observando a luta e vendo o estilo de combate de Shay. Percebendo como o Templário se portava, Claude não pretendia facilitar as coisas para o inimigo.
Em primeiro lugar, Shay recuperou a espada do Assassino a seus pés. Ele imaginava que Claude iria atacá-lo com agressividade, mas tal golpe não veio. O Mestre Assassino hesitou, e ambos os homens fitaram um ao outro por alguns segundos. Não querendo perder tempo, Shay avançou, empunhando a espada em sua mão direita, pronta para um golpe diagonal, e a lâmina esquerda ejetada para finalizar o oponente. No entanto, assim que avançou a espada, Claude inclinou-se para trás e, com o facão, fez um corte no antebraço de Shay que o lançou para longe. Atordoado pelo ferimento, Shay quase não teve tempo de desviar quando Claude aproximou-se de facão em riste, prestes a cortar o Templário com força. Se Shay houvesse demorado meio segundo a mais, já estaria morto.
Por mais alguns segundos, ambos os adversários se encararam. Suor escorria de suas testas e as labaredas do incêndio os cercavam completamente. Claude fingiu um golpe, que serviu apenas para assustar Shay e fazê-lo hesitar.
—O que está esperando, traidor? – Claude provocou – Venha e me mate, assim como matou seus colegas!
—Vá ao inferno! – resmungou Shay, enquanto levava sua espada para o abdome do Assassino. Claude logo aparou o golpe com seu facão.
—Então nos encontraremos lá, sim?
Shay persistia em atacar Claude, mas apenas percebeu a ineficácia dessa abordagem quando um dos facões do Assassino lançou sua espada para longe. Levando um corte no abdome, ele percebeu que precisava se concentrar. Estava desconcentrado quando lutara com o Mentor alguns dias antes, e quase morrera por isso.
O Templário recuou e analisou o inimigo, que sorria em cinismo. Shay ejetou a lâmina oculta de seu pulso direito, e fez questão de mostrar isso a Claude. Com um passo à frente, Shay passou sua mão direita pela própria cintura para em seguida enfiar a lâmina no abdome do adversário. Isso, é claro, não funcionou, pois Claude largou o facão em sua mão direita e, com força, segurou Shay pelo antebraço na metade do caminho. Fitando enfurecido o adversário, ele torceu o braço do Templário o máximo que pôde. Shay pigarreou de dor.
—Você realmente é um idiota, traidor. Tendo a bravura de me enfrentar e achando que pode sair vivo. Acha mesmo que eu não tenho anos e mais anos de treinamento nas costas?
Shay gemeu. Engoliu em seco e, encarando o Assassino, respondeu:
—E você? Acha mesmo que eu não tenho um truque na manga?
Confuso, Claude olhou para baixo, para o antebraço que ele segurava. A lâmina oculta de Shay estava estendida, mas essa não era a única arma que o Templário segurava. Pois em sua mão havia uma pederneira carregada, com seu cano perigosamente apontado para o rosto do Mestre Assassino.
Com o apertar de um gatilho, a bala saiu da pistola e passou pelo maxilar de Claude, lançando pedaços de seu cérebro no ar. O pesado corpo do Assassino caiu morto no chão.
Com uma ameaça neutralizada, Shay teve de correr, pois o fogo o cercava cada vez mais. De volta ao campo aberto onde estavam os outros Assassinos, ele viu que o incêndio estava diminuindo. Como os inimigos estavam concentrados no fogo, Shay apenas andou rapidamente até eles. Quando estava a poucos metros, ele exclamou:
—François Mackandal, Mentor dos Assassinos de Saint-Domingue! Não está pensando em fugir do seu destino, não?
O Mentor embasbacado praguejou e ordenou aos seus acólitos:
—Todos vocês! Esqueçam o incêndio e cuidem deste bastardo!
Dito isso, ele virou-se para trás e começou a correr em direção ao riacho. Seus seguidores largaram o que tinham em mãos e andaram em direção a Shay. O Templário não pretendia perder tempo, e, portanto, pensou em uma maneira de despistá-los e ir atrás do peixe grande. Seus olhos foram de encontro a uma árvore próxima, frágil e totalmente queimada pelo fogo. Sacou sua segunda pistola e atirou no tronco da planta; um grande galho em chamas caiu no caminho entre Shay e os Assassinos.
Sem pensar duas vezes, o Templário correu na direção de François. Não havia chegado tão longe para deixá-lo escapar. Era fácil encontrar as roupas coloridas do Mentor, que estava alguns metros à frente. Shay, no entanto, tinha vários anos de idade a menos. Os dois atravessaram o riacho e adentraram a selva, deixando o incêndio, a vila e os Assassinos para trás. Shay torcia para que topassem com os soldados de que Gist falara, pois assim seria mais fácil fazer o Mentor se render.
—Você não tem honra, traidor? Vai mesmo lutar contra um velho desarmado?
—Estou vendo a lâmina oculta em seu pulso, Mackandal. Se isso é estar desarmado, eu estou desarmado também!
A distância entre os dois ficava cada vez menor.
—Por que insiste? Você nem vive nesta ilha! O que você ganha ao me eliminar?
—Eu vim pela Caixa dos Precursores, maldito! Além do mais, é muito mais fácil dormir sabendo que há menos uma colônia caminhando para a destruição.
—Destruição? Se você me matar, é você que destruirá a vida dos escravos desta ilha! Você irá embora, mas eles continuarão aprisionados!
—Antes aprisionados do que mortos! Como todas as mortes que o terremoto de Achilles causou em Lisboa! Ou todas aquelas que o seu terremoto causou em Port-au-Prince!
—Calúnias! Com os Assassinos por trás das cortinas, a humanidade caminhará à glória! Sem opressão entre o povo, todos os homens viverão melhor!
—Todos os homens ou todos os homens negros?
—Ora, se os brancos é que são o obstáculo!
—Já chega, François!
Eram poucos os metros entre os dois rivais. Shay logo abaixou-se, catou uma pedra do chão e a lançou em direção ao Mentor. O projétil acertou em cheio as costas do alvo, que caiu para a frente. Com uma última arrancada de velocidade, Shay chegou enfim ao Assassino. Mackandal, deitado no chão, virou-se e levou sua lâmina oculta para Shay. O Templário segurou o punho dele no ar e, com a outra mão, socou o rosto do Assassino. Levantando-se rapidamente, ele levantou o pé e pisou agressivamente na barriga do Mentor. O velho cuspiu um pouco de sangue.
Com o alvo atordoado, Shay ajoelhou-se. Com o joelho esquerdo sobre a mão de Mackandal e o joelho direito sobre sua barriga, o Templário ejetou a lâmina em seu pulso direito e a aproximou do pescoço do Assassino.
—Nesses últimos dias, eu aprendi tantas razões para te odiar... que quase esqueci o motivo original de eu ter vindo até aqui. A Caixa dos Precursores. Onde ela está, desgraçado?
O Assassino, recuperando-se do golpe na barriga, riu.
—Fale!— insistiu Cormac.
—Que caixa?
—Você sabe muito bem de que caixa estou falando! A caixa de tecnologia que pertenceu Àqueles que Vieram Antes e que a sua Irmandade manteve pelos últimos anos! A caixa que mostrou o caminho para vocês, Assassinos, provocarem dois terremotos em duas cidades diferentes! Dois terremotos que mataram quase cinquenta mil vidas inocentes! E um deles foi feito a mando seu. As nossas informações afirmam que a caixa foi trazida até você neste ano, e eu não quero que você repita a tragédia de 1751. Desembuche logo: quando você resolveu meter o bedelho nos templos dos Precursores, você sabia o que estava fazendo? Sabia que iria matar tantos inocentes?
François Mackandal fitou o Templário com raiva, e em seguida cuspiu no seu rosto. No fundo, Shay torcia para que aquele terremoto houvesse sido um acidente. Ele torcia para que os Assassinos não soubessem o que iria acontecer. Mas, encarando os olhos de Mackandal, Shay não teve dúvida: ele sabia. O Assassino recebeu um soco na cara.
—Então dê-me essa maldita Caixa logo, Mackandal!
—Não está aqui.
—Como?
—Não está aqui. Achilles e a Irmandade do Norte recuperaram a caixa há quatro anos, e estão com ela até hoje. Parece que você veio até Saint-Domingue e matou cinco de meus homens à toa, traidor.
—Mas... a caixa foi trazida até Saint-Domingue. Os nossos espiões confirmaram isso.
—Ah, ah! Você quis dizer os nossos espiões! É quase incrível como vocês acreditaram mesmo neles! Esqueceu que nada é verdade?
Shay socou Mackandal.
—Explique-se logo, desgraçado!
O Mentor dos Assassinos riu.
—Era tudo um esquema conjunto entre mim e Achilles. Ele estava com raiva por causa dos Assassinos que você matou no Norte. E depois que eu soube que você assassinou Adéwalé, contatei-o para organizar nossa traição. Os Assassinos do Norte tinham espiões infiltrados, e disseram para o seu Grão-Mestre que a Caixa estava comigo. Tudo mentira. Isso tudo foi apenas para ganhar tempo para Achilles enquanto eu tentava providenciar a sua morte. Você nem deveria ter chegado à ilha vivo. Ou acha que foi por acaso que nossa flotilha te atacou em South Carolina?
Toda aquela enxurrada de informação deixava Shay apavorado. Ele tentava acreditar que era mentira, mas fazia tanto sentido. Tantos meses atrás do artefato... e por tantos meses Shay estava apenas sendo induzido a Saint-Domingue. Foram meses perdidos.
—Filho da mãe!
—Haha, é tão engraçado ver seu rosto confuso! – zombou Mackandal – Valeu a pena.
—Você sabe que eu tenho que te matar agora, não?
François suspirou.
—Eu imagino. Mas não me interessa. O que eu fiz pelos Assassinos e pelos maroons transcenderá a minha existência carnal. Eu posso morrer, mas as minhas palavras e o meu discurso continuarão vivos! Enquanto houver a escravidão, os maroons irão cantar o meu nome! Muitas vezes já disse isso, e repito: Saint-Domingue ainda será uma terra livre, feita por negros e para negros. Os brancos serão expulsos daqui de uma vez por todas, e nossa ilha chegará à glória!
—Merda, Mackandal. É por isso que a sua filosofia é tão falha! Você persiste em separar negros de brancos! A sua Irmandade dos Assassinos. A minha Ordem dos Templários. Cada uma das nossas facções foi criada para buscar a paz. E, para chegar à paz, nós não podemos nos deixar levar por essas irracionais separações de raça!
—Paz? Ah, traidor... Ledo engano. Talvez a sua facção procure a paz. Mas a minha... Não, eu não quero paz. – o Assassino aproximou seu rosto do rosto de Shay – Eu quero justiça!
Foi quase que por reflexo que Shay socou o rosto de Mackandal, várias vezes e cada vez mais forte.
—Você me faz ter vergonha de já ter sido um Assassino.
Shay ejetou a lâmina oculta e a levou em direção ao pescoço de Mackandal, e teria completado a tarefa se não fosse por uma voz familiar que o interrompeu:
—Shay!
O Templário não se virou, pois não queria arriscar perder o Assassino. Reconheceu que a voz pertencia a Olatunde Xavier, e então respondeu, sem tirar os olhos do alvo:
—Mestre Xavier. Você irá testemunhar a morte de um demônio.
—Não, Sr. Cormac! Não o mate!
Ao ouvir isso, Shay olhou para o colega. Xavier, usando uma camisa leve em vez do manto de Assassino, estava acompanhado de alguns soldados franceses. Ele se curvava com a mão no abdome, provavelmente por causa de algum ferimento em batalha.
—Como assim?
—Você alcançou e rendeu Mackandal. Já fez a sua parte, agora solte-o.
Dois soldados se aproximaram. Shay soltou o alvo e deixou que eles segurassem o Assassino.
—Caminhando, preto. – disse um dos homens a Mackandal – E se tentar reagir, o sargento logo ali vai disparar uma bala na sua fuça!
François não ofereceu resistência. Apenas suspirou e se deixou capturar. Abriu a boca apenas para se dirigir a Xavier:
—E você, Olatunde... Tão canalha quanto qualquer um deles. Talvez até mais.
Os soldados logo se retiraram com o Mentor cativo. Shay andou até Xavier e sussurrou:
—O que está acontecendo? Não vamos mata-lo?
—Ora, é claro que vamos. Mas não agora. Ordens de cima. Providenciaremos tudo, e amanhã à tarde o seu amigo Mackandal será executado em praça pública. O Grão-Mestre Ahumada quer que ele sirva de exemplo para os escravos.
—Mas... mas...
—Tem algo contra, Sr. Cormac?
Shay refletiu por um momento.
—Não, Xavier. Não tenho.
—Bom. Já forçamos os seguidores de Mackandal para fora do esconderijo. Os que tentaram resistir já estão mortos, e poucos escaparam de nós.
—O que será deles?
—Ainda não sei ao certo. Mas serão nossos reféns por enquanto, e creio que mais tarde os venderemos. Mas não se preocupe. Aconteça o que acontecer, tenha certeza de que os Assassinos não se restituirão tão cedo.
Shay olhou ao longe e viu a luz do fogo ainda queimando a vila. Ele suspirou fundo.
—Algum problema, Sr. Cormac?
—Ahn? Ah, nada. Eu só estou... realmente cansado. Vocês ainda precisam de minha ajuda?
—Se quiser, Sr. Cormac, está dispensado.
—Muito obrigado. Acho que vou para o meu navio e dormir.
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