Captura em Le Cap

19 Shay - O Messias Negro


Sábado

Fazia calor naquela tarde, mesmo para os padrões de Saint-Domingue. Isso, no entanto, não impedia a população de sair de suas casas e se amontoar na maior praça de Cap-Français. O evento havia sido marcado tardiamente, mas a notícia se espalhou muito rápido. Homens e mulheres, brancos e negros, homens livres e escravos, todos se reuniam em frente ao mórbido palco montado às pressas naquele movimentado ponto da capital. Muitos se preparavam com um sorriso no rosto; outros (em sua maioria, negros), com uma expressão de pesar.

Até mesmo as personalidades mais ilustres da cidade estariam presentes para assistir àquele acontecimento. O próprio Philippe-François Bart, governador-geral de Saint-Domingue, estava lá, vendo tudo da varanda de um casarão próximo. Ele tentava manter a postura séria e formal que se espera de um político e oficial militar, mas não conseguia conter a alegria. Afinal, em poucos minutos, François Mackandal, que por tantos anos fora uma pedra no sapato das autoridades coloniais francesas, estava prestes a ser executado. Os moradores da capital iriam ver com os próprios olhos a morte do líder das revoltas de escravos. E aquilo, trazido ao povo durante o governo de Philippe-François! Não era à toa que ele se enchia de alegria. O governador, no poder há menos de dois anos, sentia um enorme orgulho de conseguir aquilo que seus antecessores não haviam.

O governador estava livre para sentir orgulho, pois os verdadeiros responsáveis por aquela execução nunca receberiam os devidos créditos. E nem os exigiriam; afinal, a Ordem dos Cavaleiros Templários não agia por fama, mas sim em nome da própria moral. E é claro que os próprios Templários estariam lá. Eles comemorariam a morte do líder inimigo, muito embora ainda lamentassem pela recente morte de seu próprio líder: o ilustre Guillaume Duvalier, já doente, fora assassinado na noite anterior por um dos seguidores de Mackandal.

E era àquele mesmo casarão em que o governador se encontrava que os Templários se dirigiam. Shay Cormac e Christopher Gist, acompanhados dos Mestres Xavier, Brunet, Lambert e De la Fontaine, um mais feliz que o outro.

—Afinal, como Duvalier morreu? – perguntou Shay, chocado com a morte do homem com quem convivera nos dias anteriores.

—Pelo que soube... – explicava Louis-Daniel Lambert – ...o refém que vocês capturaram conseguiu se libertar, matou três capatazes e o Mestre Duvalier em seguida.

—Isso mesmo. – disse Xavier – Uma facada na barriga e uma bala no ombro. Isso sem falar que ele já estava envenenado antes. Eu mesmo fui à fazenda dele e vi o corpo. Não é uma coisa bonita de se ver.

A essa hora, os homens entravam pela porta principal da casa. Joseph Brunet explicava para os guardas que iriam encontrar o governador. Shay, para os colegas, resmungou:

—Mais uma das baixarias dos Assassinos. Duvalier já estava muito mal por causa do veneno. Por que assassinar um homem que já está moribundo e com os dias contados?

—A morte dele é realmente uma pena. – comentou Gist, ao seu lado – Eu gostava dele.

O Mestre Gilbert de la Fontaine adicionou:

—Ah, mas ele sabia que iríamos atacar no esconderijo dos Assassinos. Conhecendo Duvalier como eu o conhecia, ele deve ter morrido com um sorriso no rosto, feliz por termos chegado tão longe. Satisfeito por termos recuperado a Peça do Éden de Mackandal.

—Sim, de fato! Aliás, onde está a Caixa, Sr. Cormac?

Shay engoliu em seco. Ainda não havia mencionado esse fato a nenhum deles.

—Mackandal... não estava com ela.

Houve um silêncio no ar.

—Ora, então deve estar com um de seus oficiais. Sabe qual deles, Shay? Talvez ele esteja entre os reféns...

—Não, vocês não entenderam. A caixa não está em lugar nenhum da ilha. Mackandal me disse que ela ainda está nas colônias do Norte. Era tudo um estratagema, um blefe dos Assassinos.

—Tem certeza, Sr. Cormac? – perguntou Olatunde – Mandamos alguns homens de volta ao vilarejo em busca de vestígios do incêndio. Se a caixa é tão potente quanto dizem, acho que as chamas não devem...

—Não, eu tenho certeza. Eu vi sinceridade no rosto do Mentor, por incrível que pareça. Havia cinismo também, mas era um cinismo sincero. Eu vi Mackandal de perto nesses últimos dias, e realmente não duvido que ele tenha organizado todo esse plano sinistro de me trazer até aqui e me matar. Além do mais, ele é um homem muito orgulhoso; se a caixa realmente estivesse com ele, não adiantaria vasculhar o vilarejo; ele mesmo manteria a caixa por baixo do casaco, certamente.

—Bem, investigaremos o vilarejo mesmo assim. Mal não fará.

Os Templários se mantiveram quietos conforme subiam as escadas para o andar superior.

—É uma lástima. – comentou o Mestre Lambert – Podemos ter salvado estas ilhas por ora, mas enquanto um artefato poderoso como aquele estiver nas mãos erradas... o mundo todo poderá estar em risco.

A conversa foi interrompida quando Joseph Brunet falou com o governador.

—Boa tarde, governador!

O político sorriu.

—Ora, Joseph! Uma conquista e tanto nós conseguimos, não?

—Estes são os colegas de que falei. – após dizer isso, ele apontou para Shay, Gist e Xavier – Com destaque para estes três, que atacaram diretamente no esconderijo de Mackandal. São eles os responsáveis pela captura!

—Ah, obrigado, Joseph! – virando-se para os homens, prosseguiu: – Então são vocês os heróis das Índias Ocidentais?

—Heróis? – riu Xavier.

—Ah, um exagero de palavra, senhor. – respondeu Gist – Apenas fizemos o nosso trabalho.

—E que santo trabalho! Graças a vocês, as rebeliões maroons irão finalmente cessar. Saint-Domingue voltará a ter paz! Nossa economia, nosso sistema e, mais importante, nossas vidas estão em dívida para com vocês. Posso oferecer-lhes a recompensa que quiserem. Cargos no governo, postos no exército, terras, escravos...

Os três Templários se entreolharam.

—Agradecemos a oferta, senhor... – falou Christopher – ...mas nós preferimos o anonimato.

—O fim dos maroons já é recompensa suficiente para nós. – garantiu Shay, com um sorriso.

Olatunde completou:

—De fato, senhor. Apenas queremos ver Saint-Domingue se tornar um lugar melhor.

—Ah, mas ela vai. Aposto os meus títulos que nos próximos meses, o número de homicídios cometidos diminuirá, e muito. Mackandal era a peça que mantinha os maroons unidos, graças àquela ideologia sanguinária dele.

Por mais alguns minutos, o governador e seus convidados conversaram. O assunto começou com o avanço da guerra entre França e Grã-Bretanha, mas logo mudou para a discussão de qual lugar do mundo tinha as melhores cervejas e as melhores mulheres. Quando enfim chegou a hora do julgamento, no entanto, as conversas cessaram e as atenções se voltaram para o arauto que lia um texto no palanque montado na praça. No centro dele havia sido montado um poste cercado por lenhas diversas, e amarrado ao poste estava o próprio Mentor: François Mackandal permanecia parado, sem lutar, embora sua expressão facial deixasse claro o seu desprezo. O arauto à sua frente pôs-se a ler o texto que lhe fora designado, narrando os pormenores do julgamento de Mackandal, os crimes por ele cometidos e os políticos e governantes responsáveis pelo julgamento. Após todo o discurso, e após o réu finalmente ser declarado culpado, deu-se início àquilo que todos queriam ver, por bem ou por mal.

Um carrasco, segurando uma tocha acesa, acendeu a lenha em volta de Mackandal, de modo a criar uma fogueira que rapidamente se ergueu. Conforme François era consumido pelas chamas, ele próprio iniciou seu discurso, declarado em alto e bom som pela sua grave e marcante voz:

—Povo de Cap-Français! Povo de Saint-Domingue! Saibam do terrível erro que estão cometendo! Embora vocês possam pensar que estão matando um lendário líder das revoltas maroons, saibam que estão enganados! Pois, a partir deste momento, eu deixo de ser um líder para me tornar um mártir! Gostando ou não, a minha voz é a voz de todo o oprimido povo negro desta ilha! Eu sou a voz dos seus escravos, daqueles que fazem a sua economia tanto florescer! Vocês sabem que eu sou a voz deles, e por isso querem me silenciar. Mas se enganam! Pois a voz dos negros é uma voz coletiva; vocês podem me calar, mas não podem calar toda uma raça! Minha morte parece lhes significar o fim das revoltas dos maroons. Que engano terrível! Sim, por anos a minha palavra motivou as revoltas. Mas vocês se esquecem de um detalhe: eu deixo de existir, mas minha palavra irá sempre ecoar através dos séculos. Pois eu sou mais do que apenas uma pessoa! Eu sou François Mackandal! Eu sou o Messias Negro! Eu sou aquele que, vivo ou morto, conduzirá Saint-Domingue à sua verdadeira glória! Sem mim, as revoltas cessarão, mas garanto a vocês, e que Bondye e os Lwa sejam testemunha, que elas irão retornar! E, quando retornarem, estarão mais sangrentas do que nunca! Não haverá escapatória para os brancos a não ser a morte ou a fuga. Saint-Domingue será uma terra negra! Uma terra feita por negros para negros! Será o ápice, aquilo a que a história desta deprimente colônia vem caminhando desde seu início! Pois, se você for um branco sozinho, quem vai te proteger dos dez negros que tentam te matar? É isto o que este santo mártir lhes declara: Preparem-se, todos os brancos, pois o troco virá, e virá redobrado! Basta aguardar!

Estas últimas palavras mal puderam ser ouvidas, pois o corpo do Mentor já estava pegando fogo por completo. Ele encerrou o ato com seus gritos de dor, misturados a suas provocações proféticas:

—Eu sou o mártir! Sou o Messias Negro! Eu sou o mártir! O Messias Negro! Eu sou o mártir...

A cidade observou conforme o Mentor enfim queimava em seu último suspiro.

—Está feito. – proferiu Shay Cormac para seus companheiros.

—Como é a sensação, Shay? – perguntou-lhe Olatunde – Poder enfim respirar aliviado?

—Respirar aliviado? Quando eu estiver com aquela Caixa Precursora, eu lhe respondo.

—Anime-se, Shay! – exclamou o Mestre De La Fontaine – Você percebeu que, em apenas quatro dias, você conseguiu fazer aquilo que nós tentamos durante sete anos? Você é um sujeito de muita sorte.

—Sorte? – Shay perguntou, encarando Gilbert. Ele permaneceu em silêncio, até que Christopher adicionou:

—Você ainda não entendeu como ele é. Shay faz a sua sorte, Gilbert.

Cormac e Gist fitaram um ao outro com um sorriso.

—E agora, o que os senhores pretendem fazer? – questionou o governador Bart.

—Ficar em Le Cap por algumas semanas para garantir que os seguidores de Mackandal não tentarão reerguer o seu grupo. E depois disso... creio que voltaremos para New York. – comentou Shay, pensando na Caixa Precursora. Pensou no terremoto que a caixa lhe levara a causar em Lisboa três anos antes. Depois disso, imaginar que a caixa ainda estava nas mãos de Achilles Davenport era aterrorizante. – Ainda temos trabalho a ser feito.