Captura em Le Cap
2 Shay - Mais Espertos do que Pensamos
Notas iniciais
New York, algumas semanas antes
Após saber que o Grão-Mestre tinha uma missão para ele, Shay Cormac, o jovem porém promissor membro da Ordem dos Templários, interrompeu sua estada em Albany e zarpou para New York o mais rápido que pôde. A bordo da Morrigan, uma escuna pequena o suficiente para navegar pelo estreito rio Hudson, Shay navegou para a maior cidade das colônias britânicas. No forte Arsenal, o quartel-general templário no noroeste da cidade, ele se encontrou com Haytham Kenway, o Grão-Mestre do Rito Templário Colonial. Estavam num pátio aberto, adornado por árvores e quintais bem-cuidados.
—Soube que queria falar comigo, Grão-Mestre.
Haytham o fitou, sério.
—Como está o seu francês, Shay?
—Ça va, je pense.
—Ótimo. Como você bem sabe, estamos há um ano procurando pela Caixa Precursora tomada pelos Assassinos. Mobilizamos toda nossa rede de espiões para encontrar a Caixa, e finalmente recebemos notícias sobre ela. Notícias que certamente te agradarão.
Aquilo imediatamente chamou a atenção de Shay. À primeira vista a Caixa era apenas um simples baú de madeira sem fechadura aparente, mas na realidade detentora de tecnologias misteriosas quando ativada. Ele tinha conhecimento dos poderes daquele artefato e, mais ainda, das coisas horríveis que os Assassinos poderiam fazer se a usassem. O próprio Shay era a melhor testemunha disso, já que ele mesmo fora um Assassino anos antes.
—Receberam? Onde ela está?
—Os Assassinos parecem ser mais espertos do que pensamos. De acordo com o nosso espião, eles mandaram a caixa para longe daqui, talvez para nos despistar ou distrair. Enviaram-na para Saint-Domingue, onde o Mentor Assassino François Mackandal a está guardando.
—Saint-Domingue... A caixa volta para o lugar onde tudo começou...
—E onde tudo terminará, se tivermos sorte.
—Eu faço a minha sorte, Grão-Mestre. Não precisa se preocupar.
—Assim espero. Você irá para Cap-Français, a capital da colônia. Confronte Mackandal e recupere a Caixa para nós. Você sabe como os Assassinos pensam, e tem conhecimentos sobre a Caixa e sobre os mares caribenhos. Portanto, é o homem mais adequado para este serviço.
—Agradeço pela confiança, senhor. Não o desapontarei.
—Acredito que não irá. – Haytham tirou dois envelopes do bolso de seu casaco e as entregou a Shay. – Fale com o nosso contato em Cap-Français. O nome dele é Guillaume Duvalier, mas ele provavelmente estará usando um pseudônimo. Um desses envelopes contém informações que o levarão até ele. O outro é uma carta, que você deverá entregar a Guillaume quando chegar. Está entendido, Shay?
—Sim, Grão-Mestre.
—Bom. Que o Pai da Compreensão te guie.
•
Algumas horas depois, Shay juntava a tripulação do navio para anunciar o próximo destino.
—Preparem-se, homens! Terminem o que tiverem de fazer em New York, pois amanhã iremos zarpar para Cap-Français, nas Índias Ocidentais!
Enquanto os marujos comemoravam, Shay, em sua cabine, explicou a situação para Christopher Gist, contramestre da Morrigan e membro veterano dos Templários. Após Shay falar tudo o que Haytham lhe dissera, Gist perguntou, um pouco tonto:
—Ah, sim, capitão! Os Assassinos não perdem por esperar! Mas, refresque minha memória, o que mesmo é essa Caixa Precursora?
—Como assim, Gist, você se esqueceu da caixa? Andou bebendo? – completou, com um sorriso.
—Vinho tinto, importado da Itália, safra de 20 anos atrás, sabor levemente adocicado, na adega do velho O’Donnel. Prossiga.
Shay riu.
—Por que não estou surpreso? A Caixa é um artefato deixado pelos precursores: a raça que vivia neste mundo antes da humanidade. Se for energizada, ela mostra um mapa do planeta, destacando vários templos antigos. Os Assassinos buscaram entrar nesses templos, mas, cada vez que um deles é ativado, um terremoto assola a região. Na primeira vez, foi Port-au-Prince. Na segunda, Lisboa.
—Ah, sim, agora me lembro! – respondeu Gist – Me lembrei do terremoto que você fez em Lisboa! Foi um belo estrago, pelo que me disseram!
—Gist!
—O que foi? É verdade! Você causou aquilo!
Shay se virou de costas, frustrado. Curvou-se por cima da mesa onde mapas estavam espalhados.
—Eu... Eu era um Assassino na época. Eu tinha a mente fraca e achava que o Mentor Achilles era um homem justo. Mas agora eu vejo a realidade. Vejo que a liberdade apenas leva a guerra e discórdia. Foi por isso que me juntei à Ordem dos Templários.
—Foi uma ótima decisão da sua parte, se me permite dizer. Agora, para onde vamos mesmo? – completou, claramente alterado pela bebida.
—Eu acabei de dizer! Cap-Français, Saint-Domingue.
—Ah, Cap-Français, Saint-... Domingue? Shay, tem certeza do que está fazendo?
—O que quer dizer?
—Alguns meses atrás, você matou Adéwalé. O lendário Adéwalé! E você irá para as terras dele?
—Ora, o lendário Adéwalé não deveria ter vindo às nossas terras e se metido em nosso caminho. Eu tinha ordens para matá-lo, Gist.
—Concordo, mas você sabe que os Assassinos de Saint-Domingue não irão te perdoar por ter matado um dos seus maiores ídolos. Assim que pisarmos lá, a sua cabeça estará na mira deles.
—Eu sei, mas... A Caixa é poderosa demais, e Mackandal é um louco. Se alguém tem que enfrentá-lo, eu mesmo o farei.
•
No dia seguinte, o navio zarpou. O caminho de mais de mil milhas náuticas entre New York e Cap-Français durou poucas semanas e foi relativamente tranquilo, com apenas uma grande exceção. Passando perto do litoral de South Carolina, a Morrigan foi atacada por uma flotilha de quatro galeões. Cada um deles hasteava uma bandeira com a insígnia dos Assassinos. O navio de Shay e Gist estava em desvantagem numérica, mas não em desvantagem de força. Ajudados pelo tempo, que embaçava a visão do inimigo com uma violenta tempestade, os Templários conseguiram tomar a dianteira. É um fato conhecido que os Templários são uma organização de extremas riquezas, e por isso a Morrigan, apesar de ser uma embarcação pequena, era equipada com o melhor armamento da época. Usando morteiros, barris de óleo incendiário e um canhão automático conhecido como puckle gun, a tripulação da Morrigan pôde derrotar os Assassinos e voltar ao seu curso para o sul.
Em Novembro, o navio finalmente chegou a Cap-Français. Os tripulantes do navio, acostumados a climas gelados, suavam aos baldes perante o sol forte de Le Cap.
—Uff, quem diria que em pleno outono iríamos sofrer tanto calor? – reclamou Gist, que havia tirado seu casaco e se abanava com o chapéu. O suor pingava por entre seu cavanhaque.
—Bem-vindo a Saint-Domingue. – respondeu Shay – Sinta-se honrado por não ter chegado durante o verão.
—Já esteve aqui no verão?
—Sim. Quando eu era jovem, fui a Port-au-Prince num verão, a bordo do navio de meu pai. Garanto que a temperatura de hoje nem se compara à daquele dia.
—Posso apenas imaginar. E agora, o que fazemos?
Shay olhou para os papéis que Haytham lhe entregara.
—Temos que nos falar com um contato. Guillaume Duvalier. Ele vive numa fazenda de tabaco nos arredores da cidade.
—Então o que estamos esperando? Vamos até lá, meu jovem!
Shay sorriu, mas teve de esconder sua preocupação. Ele tinha um pressentimento, alguma intuição lhe dizendo que estava sendo espionado. Shay sabia que, como Gist dissera, sua cabeça já estava na mira dos Assassinos.
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