Captura em Le Cap

11 Shay - Cada um por Si


Com um movimento brusco, Shay despertou. Quando abriu os olhos, a primeira coisa que viu foi uma luz quente e forte. Seria o brilho do Paraíso ou o fogo ardente do Inferno? A única coisa de que ele se lembrava era da lâmina oculta o atingindo. Ele não poderia ter sobrevivido àquilo... E aquela luz não poderia ser... mas era apenas a luz de uma vela. Ele continuava vivo, e se encontrava num sofá da sala de estar de Guillaume Duvalier. O sol já havia se posto, e no aposento se encontravam apenas dois Templários: Christopher Gist, o leal e velho amigo de Shay; e Olatunde Xavier, que ele conhecera mais cedo naquele dia.

—Shay! Você está vivo! – exclamou Gist, alegre, que logo correu para abraçar Shay.

—Boa noite, Sr. Cormac. – falou Olatunde – Estamos felizes por você estar bem.

Ainda confuso, e embasbacado com a situação, Shay perguntou-lhes, tomando fôlego após Gist soltá-lo de seus braços.

—O que aconteceu? Eu me lembro de um ataque...

—Sim, Sr. Cormac. Mackandal e seus homens invadiram, em um atentado contra as vidas de você e do Mestre Duvalier.

—Soubemos que Mackandal havia te “matado”, mas parece que a armadura em sua vestimenta te protegeu do golpe da lâmina.

—Você realmente teve sorte, Sr. Cormac.

—Ah, você não me conhece. – Shay comentou, despertando – Eu faço a minha sorte, Mestre Xavier.

Gist suspirou enquanto Olatunde prosseguia com um sorriso:

—Percebe-se. O médico te analisou e disse que o ferimento, por incrível que pareça, foi leve.

—Leve? – Shay se perguntou. Levantando-se da cama, sentiu uma dolorida pressão no pé que o Assassino havia atacado com o machete. Shay olhou para baixo e viu sua bota ensanguentada. Ele a retirou, e suspirou quando viu três dedos caindo de dentro do calçado.

—Oh, Shay... Lamento muito.

—Não se preocupe, Gist. Tenho mais dois desses – disse Shay, tentando alegrá-lo. Ele levantou-se do sofá, cambaleando e com falta de equilíbrio – Mas, na luta contra Mackandal... Foi tão estranho. Na hora, me senti como se estivesse morrendo. Eu... perdi a consciência e tudo ficou escuro...

—Desmaiou de cansaço, segundo o médico. – completou Xavier – O estresse e a tensão te fizeram entrar em colapso.

Colapso. Shay pensou que, de fato, aquele dia havia sido cansativo. Ele havia sido perseguido por um Assassino e lutado com outros – incluindo o Mentor – após correr por metade da cidade achando que Duvalier poderia já estar mort...

—Duvalier! Os Assassinos o envenenaram! Onde e como ele está?

Os dois homens o olharam, com pesar.

—Ele está lá em cima. – falou Gist.

—No Paraíso?

—Não, no andar de cima! – concluiu Xavier – Venha, vamos subir as escadas e vê-lo em pessoa.

Chegando ao quarto no terceiro piso, Shay viu de pé um homem com trajes militares de alta patente, acompanhado de dois soldados. Guillaume Duvalier estava deitado em sua cama, pálido e com olhos fundos.

—Ah, Sr. Cormac! Você sobreviveu! Isso é ótimo!

—Boa noite, Sr... – Shay observou os militares e achou melhor chamar o Mestre Templário pelo pseudônimo – ...Laurent. Espero que se recupere logo.

—Ah, eu também espero isso. O médico disse que o veneno era forte, mas que eu posso sobreviver. Tenho muito que agradecer a você. Se não tivesse me alertado a respeito dos Assassinos disfarçados, eu teria continuado a comer, e certamente já estaria morto.

Shay respondeu apenas com um sorriso.

—Mas, de qualquer modo, duvido que a fazenda vá se recuperar. – retomou o enfermo, triste.

—Como assim? O que aconteceu?

—Tenente, pode repetir o que o senhor me disse há pouco?

—Mas é claro. – o militar respondeu, em seguida virando-se a Shay – Nenhum escravo sobrou para contar a história. Todos eles... libertados. Trinta e um dos capatazes... mortos. Outros dezessete deles encontrados feridos gravemente. E um... capado.

Capado? – exclamou Shay, surpreso.

—Encontraram Rousseau desmaiado em cima de uma poça de sangue. – explicou Gist – Estava vivo, mas seu pênis estava... separado do corpo.

—Mackandal nunca falha em nos surpreender. – adicionou Xavier.

—E agora o pobre rapaz é um eunuco. – Duvalier disse, austero. – Decerto um destino pior do que a morte para qualquer homem.

—De fato. – Gist retomou, permitindo-se uma risada – Sabem, Haytham uma vez me contou de um amigo ao qual aconteceu o mesmo. Para resumir a história, ele próprio acabou se enforcando.

Os Templários fitaram Christopher.

—Obrigado, Mestre Gist. Essa história foi... reconfortante.

—Mas... e quanto a Mackandal? – perguntou Shay – O que faremos a respeito dele agora?

—O que podemos fazer? – falou Duvalier – Eu pretendia extrair informações de meus escravos, mas agora todos eles se foram; e em breve estarei falido. Admita, estamos de volta à estaca zero, ainda não sabemos onde Mackandal se esconde. Não fizemos progresso algum.

Shay olhou para o chão, pensativo. Até que percebeu uma coisa: se Mackandal lhe desferira o golpe, mas ele sobrevivera, então o Mentor deve ter partido achando que havia matado Shay.

—Não. Fizemos algum progresso sim. Os Assassinos pensam que estou morto. Será mais fácil me desviar da atenção deles.

—Isso não nos ajuda em muita coisa.

—Talvez, mas os problemas gostam de me seguir. Eu não me surpreenderia se os Assassinos estivessem atrás de mim anteriormente. Inclusive, havia um deles me espionando hoje cedo. Foi a partir dele que deduzi que o ataque aconteceria.

—Aonde quer chegar?

—Eu estava atraindo os Assassinos até nós. Mas isso acabou por ora. Podemos voltar ao plano. Investigaremos toda a Le Cap se for preciso, mas encontraremos François Mackandal.

—Se o fizerem, senhor... – adicionou o tenente – ...saiba que meu batalhão estará à disposição. O governador nos deu ordens para capturar o bastardo. – disse, ríspido. Completou em seguida, com determinação: – E essas são ordens que pretendo cumprir.

—Isso é ótimo, tenente. Certamente sua ajuda será útil.

—De fato. – comentou o Mestre Xavier, sorrindo – Agora, Sr. Cormac, você esteve desmaiado por duas horas. Não quer comer ou beber alguma coisa? Não se preocupe, conferimos e sabemos que a comida da casa não está mais envenenada.

Quinta-feira

Após dormirem na casa de Guillaume durante a madrugada, Shay e Christopher passaram a manhã desde o nascer-do-sol realocando a Morrigan. Levaram algumas horas para zarpar a embarcação em meia vela e ancorá-la num porto em outra parte da cidade. Os Assassinos podiam já ter tomado conhecimento do navio antes, então era melhor muda-lo de lugar sem que soubessem, para reforçar a ideia de que Shay estava morto. Precaução nunca era demais.

Após almoçar, Shay decidiu que já era hora de circular pela cidade. Dessa vez, por prevenção, preparou seu rifle antes de sair. Aquele rifle não era uma arma de fogo, e sim de ar comprimido. Poderia disparar dardos e granadas sem emitir som algum, uma novidade tecnológica proporcionada pela Ordem. Que falta a arma fizera no dia anterior!

Antes de sair à cata de informações, ele pegou uma folha de papel e nela desenhou a insígnia dos Assassinos. Depois, foi falar com Christopher Gist, que estava em um convés inferior jogando cartas com outros tripulantes, embriagado como de costume.

—Gist, venha! Vamos procurar informações!

—Ora, Shay! O jogo está tão bom aqui. E, além do mais, você não está cansado após tudo que aconteceu ontem? Pois eu estou!

—Nós não tiramos férias, Gist. Temos um dever a cumprir.

—Bah, capitão, esqueça isso! – comentou Roger, um dos marujos. – Sente aqui e jogue um pouco com a gente!

—E quer que eu faça o quê, Shay? – perguntou Christopher – Sair por aí perguntando às pessoas “Você viu um velho negro louco de um braço só correndo por aí e matando gente?”?

—Exatamente.

—Ah, que besteira!

—Gist, nós somos Templários. E o que os Templários fazemos quando queremos saber a resposta de algo?

—Nós... descobrimos?

—Sim! E quando não sabemos como descobrir?

—Descobrimos como descobrir.

—Isso mesmo! Agora se levante, o porto está cheio e pelo menos uma pessoa deve ter algo útil a contar.

—Ora, capitão, deixe de blá-blá-blá. Pegue algumas cartas!

—Pegar algumas cartas?

Shay se agachou e sacou um punhado de cartas do monte. Começou a descarta-las, e os marujos ficaram embasbacados ao ver que Shay acabara de vencer o jogo.

—Mas... como?

—Nossa, Thomas, você não estava se gabando de ser ótimo jogador? – zombou Roger – Parece que o capitão Cormac é melhor!

—Melhor o caralho! Isso foi apenas sorte, capitão!

—Eu faço a minha sorte, Thomas. Gist, venha comigo!

Os dois Templários enfim deixaram a Morrigan, embora Gist ainda estivesse de cara amarrada. O porto estava movimentado e a multidão era densa o suficiente para esconder eventuais Assassinos.

—Certo, capitão. E agora? Saímos por aí perguntando?

Shay olhou em volta e pensou um pouco. Avistou, a uns quinze metros de distância, um escravo martelando pregos em um caixote.

—Gist, lembra-se de ontem, quando você falou que os escravos devem ter informações a respeito dos Assassinos? Devíamos começar por aí.

Shay aproximou-se do escravo, e Gist o seguiu.

—Boa tarde. – ele cumprimentou.

O escravo fitou os dois homens e por um momento se mostrou hesitante para falar com eles.

—Boa tarde, senhores. – ele disse, austero, enquanto voltava a martelar.

—Você trabalha aqui no porto?

Wi, mesye. Meu mestre é empresário de uma companhia mercante.

—Que bom. Muitas pessoas e muitos navios passam por aqui. Deve ser interessante. Um homem provavelmente fica sabendo de muitas coisas.

O escravo percebeu que Shay pretendia chegar a algum lugar com essa conversa.

—O que o senhor quer?

Shay mostrou-lhe o desenho do símbolo da Irmandade dos Assassinos.

—Você por um acaso já viu este símbolo ou sabe algo sobre ele?

O escravo fitou a folha de papel. Em seguida, com um olhar de desprezo, cuspiu no chão.

—É o símbolo da gangue do Mackandal, não? Não sei muito sobre eles, mas sei que não prestam.

—Como?

—Nenhum deles presta. Só querem saber de morte.

—Está aí uma resposta que não pensei que ouviríamos de um escravo. – comentou Gist.

—Mesmo? – continuou Shay – Então você, assim como nós, não gosta de Mackandal?

—Sim, odeio. Eu sou preto que nem eles, mas os odeio.

—Nossa, que estranho. Imaginei que você ficaria do lado deles, por eles libertarem outros escravos...

Wi. Mas libertar para quê, hein? François Mackandal fala em matar todos os brancos e unir a raça negra... Mas não existe essa união.

Shay ficou curioso a respeito disso. Ele deveria perguntar sobre os Assassinos, mas queria saber mais sobre o ponto de vista daquele escravo defensor do escravismo.

—Como assim? Você acha que os brancos são melhores que os negros?

—De jeito nenhum. – ele abandonou o trabalho e se virou para Shay – Eu nasci do outro lado do oceano, numa aldeia lá em Gineh. O senhor acha que os franceses marcharam até minha aldeia, me tiraram de casa e me trouxeram pra cá sozinhos? Não. Foram os oiós. Eu vivia muito bem lá em terras dos fulos. Até que os malditos oiós vieram, me capturaram e só então me venderam pros franceses. Eu era negro, e mesmo assim foram outros negros que me escravizaram. Não existe isso que Mackandal fala, paz entre os negros. No final, é cada um por si.

Ele parou de falar por um momento, e Gist interveio, como se aquilo houvesse clareado a mente dele:

—Até que esse sujeito tem razão. Shay, a Guerra Franco-Indígena ainda está acontecendo! – virando-se para o escravo, adicionou – Lá no norte, de onde nós viemos, só tem gente branca. E, mesmo assim, estamos sempre nos matando. Franceses e britânicos lutam desde que o mundo é mundo.

—Isso mesmo que eu estou falando. Lá na minha terra, também não tem diferenças. Fulos, oiós, iorubás... Mackandal quer matar todos os brancos da ilha. Mas e quando ele conseguir? Quem sobrará pra ele matar?

—Mas então... – falou Shay – ...você está dizendo que gosta de ser escravo?

—Admito que às vezes eu fico cansado. Mas na minha terra eu também tinha que dar duro pra viver bem. Aqui em Saint-Domingue trabalho bastante, mas ao menos tenho certeza de que terei comida e cama no final do dia. Meu mestre garante isso.

Shay, surpreso ao ver um ponto de vista tão divergente do que ele esperaria, lembrou-se de que ainda precisava achar os Assassinos.

—Certo, mas e quanto a Mackandal? Trabalhando nesse porto, você já viu algum navio que levasse o símbolo dele na bandeira?

—Infelizmente não, senhor, nunca vi. Eles não fariam isso, gostam de se esconder.

Shay decepcionou-se.

—Uma pena. Então, muito obrigado.

—Mas eu vi um deles hoje.

—Como?

—Sim, vi um sujeito de capuz aqui no porto, não muito tempo atrás. – o escravo virou-se para trás, apontando para o outro lado do píer. – Entrou naquele navio ali.

Os Templários esticaram a vista para conferir. Era uma fragata comercial que hasteava bandeiras britânicas. Não era exatamente o tipo de navio que abrigaria um Assassino, o que os fazia pensar que o encapuzado, quem quer que fosse, estaria sozinho.

—Muito obrigado, senhor. – falou Shay para o escravo. – Você foi a pessoa mais útil com quem nestes últimos dias.

Os Templários então se aproximaram do tal navio. Perguntaram a um homem que se encontrava no convés se ele havia visto um homem negro usando capuz.

—Sim, eu vi. Ele desceu para o convés inferior há dois minutos junto com Cavendish.

—Cavendish?

—Que Cavendish?

—William Cavendish, um comerciante da Escócia.

Gist se surpreendeu.

—Shay, esse nome! O nome William Cavendish estava na lista de suspeitos do Mestre Xavier!

—Oh, meu Deus! – Shay exclamou. Seu palpite estava certo. O Assassino estava eliminando as provas. – Senhor, temos que descer para o interior do navio agora!

Shay estava prestes a forçar seu caminho para as escadas, mas não foi necessário. Um homem, negro e careca, estava subindo-as. Havia uma lâmina oculta em seu pulso. Com certeza, um Assassino. Mas não era qualquer um. Shay o reconhecia. Era o Assassino que havia tocado a trombeta no dia anterior, após fingir-se de escravo.

O Assassino e os Templários encararam-se por alguns segundos, hesitantes. A ação apenas se iniciou quando Christopher sacou a pistola e atirou na direção do homem. No entanto, ele errou o tiro, e o Assassino pôs-se a fugir.

—Gist!

—O quê? É um Assassino!

—Não o mate! – exclamou Shay, enquanto começava a correr atrás do inimigo – Ele pode ser útil para nós vivo!

O Assassino corria pelas docas, causando uma comoção por onde passava. Shay tinha uma desvantagem, mas, quando o careca jogou uma bomba de fumaça, os dois Templários tiveram tempo para prender a respiração e continuar a corrida. Quando perceberam, o Assassino já havia feito uma curva brusca em um beco estreito.

Como derrota-lo sem mata-lo?”, Shay pensava. Mas ele lembrou a resposta: o rifle de ar. O Templário tirou a arma das costas e levou a mão aos bolsos. Só precisava de uma granada sonífera bem localizada para fazer o Assassino desmaiar. Enquanto virava no beco por onde ele havia ido, um golpe de espada o surpreendeu. Por sorte, o rifle estava lá para bloquear o ataque.

O Assassino, obviamente, não desistiu. Continuou a golpear Shay, que se defendia segurando o rifle em posição transversal. Quando Gist se aproximou, Shay gritou para ele, torcendo para que o Assassino não soubesse inglês:

—Gist, distraia-o! Tenho um plano!

—É pra já, Shay! – respondeu, sacando a própria espada e com ela atacando o Assassino.

Enquanto os dois lutavam, Shay ganhava tempo. Ele se distanciou, encontrou a granada sonífera e a posicionou no rifle. Mirou para o Assassino, e mais uma vez gritou:

—Prenda a respiração.

E ele atirou a granada, que, ao se chocar com o tórax do careca, expeliu um gás forte. Em poucos segundos, ele enfim caiu no chão, para o alívio de Shay. Gist aproximou-se do amigo, e, respirando fundo, comentou:

—Essa foi por pouco. Mas e agora?

—Agora o quê?

—Temos um Assassino desmaiado aqui. O que faremos com ele?

Shay fitou o corpo à sua frente. Pensou em como ele havia dado o sinal para o início do ataque a Duvalier.

—Ele tem informações importantes. Já sei aonde iremos leva-lo. Lá poderemos extrair respostas dele. – Shay suspirou – Por bem ou por mal.

Notas finais
Olá, pessoal! Espero que estejam gostando da história até o momento! Mas na verdade eu só vim aqui pra avisar que o(s) próximo(s) capítulo(s) pode(m) demorar um pouquinho mais para sair. Mas é só isso; em breve vocês verão o que sairá desse confronto direto entre Shay e Agaté!