Captura em Le Cap

13 Agaté - Do Jeito que Veio ao Mundo


Notas iniciais
E cá está mais um capítulo! Ele está meio curto, mas prometo que vou compensar o tamanho no próximo!

Com um soco brusco, Agaté despertou. Quando abriu os olhos, a primeira coisa que viu foi uma luz quente e forte. Seria o brilho da natureza, refletindo no local de descanso de sua alma? A única coisa de que ele se lembrava era do rifle disparando contra seu tórax. Ele não poderia ter sobrevivido àquilo... E aquela luz não poderia ser... mas era apenas a luz de uma vela. Ele continuava vivo, e se encontrava num casebre pequeno.

Mesmo com a fraca iluminação do ambiente, podia distinguir a imagem dos homens à sua frente, todos Templários. Eram Guillaume Duvalier, Shay Cormac, Christopher Gist e um quarto homem do qual ele apenas ouvira falar, mas reconheceu de imediato: Olatunde Xavier, um ex-escravo que juntou-se à Ordem dos Templários anos antes. Se as histórias eram verdadeiras, ele era um ingrato que havia renunciado às ideias de Mackandal após ser libertado pelo Mentor.

O homem à esquerda de Agaté, no entanto, era um mero capanga: um dos capatazes de Duvalier, que ele inclusive vira no dia anterior. O homem havia acabado de socar Agaté, de modo a despertá-lo. Durante o confronto com Shay Cormac, o Assassino pensou que sairia morto. Mas, pelo visto, o resultado era ainda pior: Agaté agora era refém dos Templários. Shay de algum modo o deixara inconsciente, de modo que agora ele se encontrava de joelhos, segurado por capatazes e totalmente desarmado. Seu estômago roncava. A última vez que comera algo havia sido pela manhã daquele dia, que agora já estava completamente anoitecido.

—Boa noite, Assassino! – cumprimentou Duvalier, irônico e se curvando para Agaté – Dormiu bem?

Modi ou!— ele respondeu – Me soltem!

O Templário estava pálido e com olheiras profundas. Com certeza efeito do arsênico que ele consumira no dia anterior.

—Oh, mas é claro que te soltaremos. Isto é, depois que você nos agraciar com suas preciosas informações. É uma pergunta bem simples, na verdade: Onde o seu Mentor está escondido?

Agaté hesitou, e refletiu sobre a situação. Claro. Os Templários não se contentariam em matar apenas ele. Queriam chegar a François Mackandal. Se matassem o Mentor, certamente toda a Irmandade cairia em ruínas. Não haveria chance para os Assassinos, e Templários tomariam toda Saint-Domingue. Obviamente que, se dependesse de Agaté, os malditos não receberiam uma palavra sobre o paradeiro de Mackandal. O Assassino então se calou.

Houve silêncio no recinto por meio minuto.

—Ele não vai falar. – comentou Gist, atrás dele.

—De fato não irá. – adicionou Xavier.

—Pra que esse pessimismo, cavalheiros? – falou Duvalier – Ele vai falar sim. Eu lhes garanto.

Dito isso, ele se curvou. Aproximou seu rosto ao de Agaté e falou, em tom ameaçador:

—Eu conheço você... Você é o preto filho de uma puta que me serviu aquela maldita comida envenenada! – ele deu um tapa forte em Agaté – Tentou me matar! Olhe para o meu rosto. Está contente com o resultado? – mais um tapa – Arsênico! Bah. Um ótimo exemplo de como Mackandal é um pária. Um homem honrado enfrentaria seus inimigos cara a cara. Mas, em vez disso, François manda um de seus seguidores matar o inimigo com veneno. Veneno! A arma dos covardes! – ele deu outro tapa, dessa vez com ainda mais fúria – E pensar que, séculos atrás, usar veneno era uma proibição na sua Irmandade... Mas, para Mackandal, essa é a arma principal! Estou dizendo, aquele desgraçado conseguiu corromper o pouco de legitimidade que o seu Credo tem, e o transformou em uma falsa ideologia de puro caos e matança! E você ainda o segue! – Duvalier completou o monólogo com uma série de três socos.

Sangue começou a escorrer da boca de Agaté. Recuperando o fôlego, ele fitou o Templário, balbuciando:

—Você também seguiria Mackandal... se soubesse o que é ser um escravo!

Guillaume mais uma vez estapeou o Assassino. Em seguida, se acalmando, suspirou e virou-se para os colegas.

—A negligência do Assassino não me surpreende. Cavalheiros, sugiro que deixemos ele por enquanto. Com o tempo, atingiremos nosso objetivo. – com um sinal para os capatazes que se encontravam no recinto, completou: – Providenciem isso.

Os Templários puseram-se a sair do local, mas Guillaume permaneceu lá, falando com o capataz que segurava Agaté.

—Quero que você o tranque. Sem comida e sem água. Faça o que for preciso para que ele fale.

—Sim, chefe. O malandro vai querer nunca ter nascido.

—Excelente.

Ele ia deixar o local também, mas virou-se para o Assassino.

—Ah, e quanto ao que você disse... Eu não seguiria Mackandal se soubesse o que é ser um escravo. Se eu fosse um escravo, eu obedeceria ao que me dissessem, e não me rebelaria em busca de carnificina. Vocês, Assassinos, parecem ser incapazes de compreender que é assim que nossa sociedade chegará à paz. Se todos aceitassem seus lugares e seguissem o princípio da ordem, não estaríamos aqui discutindo. Foi a sua Irmandade que começou este conflito quando inventou essa baboseira de “liberdade individual”. Apenas desculpas para a guerra.

Agaté permaneceu quieto, abrindo a boca apenas para cuspir no rosto do Templário.

—Vou deixar essa passar. Agora tenha uma boa noite.

Duvalier saiu do recinto, deixando o Assassino a sós com os dois capatazes.

—Olha só, Charles, parece que essa é a nossa deixa! – falou o primeiro deles para o outro. – Você está com os instrumentos?

O outro homem, que era alto, careca e tinha uma barba ruiva, não disse nada, apenas assentiu com a cabeça, sorrindo. O amigo, que trazia cabelo e barbicha desgrenhados, fitou Agaté com seu olhar insano e continuou:

—Ótimo. Agora, meu amigo preto, meu nome é Gérald. E o seu?

Ele não respondeu.

—Que seja. Vou te explicar como serão nossos negócios: o meu chefe te fez uma pergunta. E o nosso trabalho é garantir que você responda. Entendido? Qual era mesmo a pergunta? Ah, sim, o seu Mentor. Onde ele está?

Agaté ficou calado, recusando-se a colaborar. O sangue ainda escorria de seu nariz.

—Ah, vejo que você não quer falar! Sabe, o meu amigo Charles aqui é mudo. Ele não fala. Mas você vai falar depois de ouvir os maravilhosos argumentos que ele tem a compartilhar. Porque, confie em mim, ele sabe o que faz, e já convenceu muitos outros antes de você.

Ambos os capatazes conduziram seu refém para o lado de fora. Agaté teria lutado para se livrar deles, mas isso não seria prudente: o tal de Charles segurava um facão e ameaçava ferir Agaté com ele, enquanto que Gérald trazia uma pederneira pronta e armada. Caminharam até chegar perto de um poste de madeira com marcas de sangue em volta: um pelourinho. Quando criança, Agaté vira muitos serem punidos em situações assim. Gérald chamou um terceiro capataz, que tirou as roupas de Agaté enquanto Charles o segurava. Gérald monitorava alguns metros mais longe, ainda com a pistola em mãos. Após despido, Agaté foi arrastado até o pelourinho, onde foi amarrado pelas mãos e pelos pés.

Por mais que desejasse, ele não lutou contra os capatazes. Agaté sabia que, se o fizesse, os capatazes o subjugariam, e até mesmo se sentiriam mais incitados a tortura-lo. O modo de se livrar daquilo era não falar nada, e esperar o momento certo para se livrar dos captores. Mas, até lá, ele teria que aguentar a dor.

—Muito bem. – anunciou Gérald, enquanto entregava um chicote a Charles – Agora você já está aí, do jeito que veio ao mundo, confortável pra caralho, não? Quem sabe agora você responda a pergunta que te fizemos.

Um breve silêncio ocorreu no ambiente.

—Ah, você continua sem falar. Charles, comece a argumentar.

E o capataz lançou o instrumento no ar. O chicote aterrissou bem no meio das costas de Agaté. Seu grito de dor foi uma resposta quase imediata ao primeiro estalo do chicote. O primeiro estalo de vários.